Hoje tive saudades de me sentar num banco de jardim. De me sentar, bem juntinho, naquele banco de jardim. E lembrei-me.
Lembrei-me de ficar em silêncio, apreciando o momento. Dos beijos que nunca contei, do roçar das mãos que só eu senti. Lembrei-me daquela primeira jura de amor. Eterno.
De como a chuva era a pior inimiga das relações. Das longas caminhadas ao frio de mãos entrelaçadas. Muito antes de existirem os carros.
De um jantar em um fast-food de centro comercial. Do quanto sonhava com esse momento de hambúrguer. E como era romântico. Aprender a dar as mãos no cinema. Devagarinho. E, quem sabe, às vezes, dizer um segredo ao ouvido. Arrepios.
Dos beijos eternos. De abrir os olhos e a paisagem já ter mudado. Radicalmente.
E hoje tive saudades dos amores escondidos. Daqueles que nunca contei. De me deitar na cama, num grande suspiro, e sonhar.
Sonhar com um banco de jardim. E um alguém, quem sabe.
Mas agora cresci e as casas têm aquecimento central. Já não é preciso passar frio.
18 noviembre 2008
13 noviembre 2008
Esmagadinhos
“Tivesse marcado para mais pessoas”, disse o senhor sem nome. “Soubesse eu como essas coisas se faziam”, pensei.
Mas o feito é facto e a solução era única: “Apertarmo-nos”.
E foi chegando mais um e outro e o metro quadrado encolhendo. A um já não se via os gestos, a outro a cor dos olhos. As fotos, uma amalgama de pedaços sem sentido. E foi chegando mais outro e mais um e já não podíamos cortar a carne. “Dou-te espaço para cortares a tua primeiro se quiseres”. É a generosidade própria dos apertados. Ou dos esmagadinhos, preferiria dizer.
Esmagadinhos pelo mesmo sentimento. Aquele comum aos que se encolhem para não se separar, aos que não importa comer primeiro ou deliciar-se com a carne fria e gelada.
E à medida que o tempo passa, vamos apertando, encolhendo, empurrando. Mais e mais. Porque uma vez encaixado, não há volta atrás.
E perguntava-me um no outro dia:
- Como descreverias um verdadeiro amigo?
E eu, sem saber, sabiamente respondi:
- É aquele a quem ligaria num domingo a tarde para vir preguiçar comigo no sofá.
Os dois esmagadinhos, acrescentaria hoje.
Mas o feito é facto e a solução era única: “Apertarmo-nos”.
E foi chegando mais um e outro e o metro quadrado encolhendo. A um já não se via os gestos, a outro a cor dos olhos. As fotos, uma amalgama de pedaços sem sentido. E foi chegando mais outro e mais um e já não podíamos cortar a carne. “Dou-te espaço para cortares a tua primeiro se quiseres”. É a generosidade própria dos apertados. Ou dos esmagadinhos, preferiria dizer.
Esmagadinhos pelo mesmo sentimento. Aquele comum aos que se encolhem para não se separar, aos que não importa comer primeiro ou deliciar-se com a carne fria e gelada.
E à medida que o tempo passa, vamos apertando, encolhendo, empurrando. Mais e mais. Porque uma vez encaixado, não há volta atrás.
E perguntava-me um no outro dia:
- Como descreverias um verdadeiro amigo?
E eu, sem saber, sabiamente respondi:
- É aquele a quem ligaria num domingo a tarde para vir preguiçar comigo no sofá.
Os dois esmagadinhos, acrescentaria hoje.
02 noviembre 2008
O equilibrio do universo
Hoje já é ontem, foi a conclusão que cheguei.
Hoje já é ontem, comentei de maquilhagem borrada, cabelo duro, bolhas nos pés.
Hoje já é de manhã, porque hoje já é amanha, dizia-me a data do jornal do dia seguinte.
Hoje já é amanhã! Era o queria gritar. Mas não havia voz.
Hoje, ontem e amanhã gastei a voz num espanhol de tempos compostos, num inglês de me tarzan tu jane.
Tentei convence-los de uma origem falsa, expus a garganta a um ar de tabaco barato, a gritos de músicas aprendidas de antemão.
E pensando nesses termos, já me doía a cabeça há três dias. Desde ontem e até amanhã.
É curioso o tempo, faz-nos com cada partida.
Mas então voltei para casa, porque o jornal (e todos sabem que o jornal nunca mente) me dizia que tínhamos riscado o meu dia do calendário. Voltei para casa, e o cansaço adormeceu-me.
Mas não é que quando acordei ainda era hoje? Quero dizer, o hoje que ontem era amanhã.
No fim das contas, na vida perde-se um dia e ganha-se outro logo a seguir. É o universo a equilibrar-se, diriam os cientistas.
Hoje já é ontem, comentei de maquilhagem borrada, cabelo duro, bolhas nos pés.
Hoje já é de manhã, porque hoje já é amanha, dizia-me a data do jornal do dia seguinte.
Hoje já é amanhã! Era o queria gritar. Mas não havia voz.
Hoje, ontem e amanhã gastei a voz num espanhol de tempos compostos, num inglês de me tarzan tu jane.
Tentei convence-los de uma origem falsa, expus a garganta a um ar de tabaco barato, a gritos de músicas aprendidas de antemão.
E pensando nesses termos, já me doía a cabeça há três dias. Desde ontem e até amanhã.
É curioso o tempo, faz-nos com cada partida.
Mas então voltei para casa, porque o jornal (e todos sabem que o jornal nunca mente) me dizia que tínhamos riscado o meu dia do calendário. Voltei para casa, e o cansaço adormeceu-me.
Mas não é que quando acordei ainda era hoje? Quero dizer, o hoje que ontem era amanhã.
No fim das contas, na vida perde-se um dia e ganha-se outro logo a seguir. É o universo a equilibrar-se, diriam os cientistas.
30 octubre 2008
Nas Astúrias
Eram estranhos. Estranhos unidos pelo desconhecido.
Em cada feição se notavam horas de preparativos frente ao espelho, noite dormida aos sobressaltos com formigas no estômago, vezes e vezes da mesma frase pronunciada: “A ver”.
“A ver” como será a viagem, que tal os companheiros, os prémios, a música e a saída à noite. Um “a ver” de poucas expectativas, de espera desinteressada. Mas em todas as letras pronunciadas se encontrava uma certeza por detrás dos olhos ainda tímidos: queriam “passa-lo bem”.
E de bem em bem, lá o foram passando. Pelo jantar de cidra e pelo pub de música espanhola, pelos segredos confessados a desconhecidos, as traições, os desamores, a vida contada em altos decibéis.
Dividiram o carro, o copo, o quarto, as criticas de olhares e bocas caladas.
Horas depois, escassas horas depois, já não se sentiam estranhos. Não viram o príncipe, a Letizia ou a Ingrid Betancourt, mas afinal isso não importava nada.
Porque já não eram estranhos e tinham-no passado bem.
Muito bem.
Em cada feição se notavam horas de preparativos frente ao espelho, noite dormida aos sobressaltos com formigas no estômago, vezes e vezes da mesma frase pronunciada: “A ver”.
“A ver” como será a viagem, que tal os companheiros, os prémios, a música e a saída à noite. Um “a ver” de poucas expectativas, de espera desinteressada. Mas em todas as letras pronunciadas se encontrava uma certeza por detrás dos olhos ainda tímidos: queriam “passa-lo bem”.
E de bem em bem, lá o foram passando. Pelo jantar de cidra e pelo pub de música espanhola, pelos segredos confessados a desconhecidos, as traições, os desamores, a vida contada em altos decibéis.
Dividiram o carro, o copo, o quarto, as criticas de olhares e bocas caladas.
Horas depois, escassas horas depois, já não se sentiam estranhos. Não viram o príncipe, a Letizia ou a Ingrid Betancourt, mas afinal isso não importava nada.
Porque já não eram estranhos e tinham-no passado bem.
Muito bem.
27 octubre 2008
Play
Faltam poucas horas para que o relógio volte, outra vez, a funcionar. E há ainda muito que fazer.
Isto porque houve um segredo que não te contei. Desculpa.
Sim, foste usado.
Captei o teu melhor ângulo, roubei-te um pedaço de cabelo, anotei o teu prato preferido e aquela expressão que estás sempre a dizer.
Xis.
Pintei-te vários cenários, vi-te a moveres-te em cada um deles. A interagir com todos os personagens naquela tua maneira de falar à desenho animado.
“estava en el chano”, disseste. Eu decorei.
Brinquei contigo como fantoche de peça infantil. Faz assim, olha para ali, como reages a este estímulo?
Estudei-te.
E agora tenho poucas horas para juntar todos os teus pedaços, aqueles que tenho vindo a roubar, e monta-los numa sequência perfeita que possa ver vezes infinitas sem nunca ficar enjoada.
Vou realizar-te num filme, talvez uma pequena curta-metragem. Contrapor os teus melhores lados com aquela cara-careta que fazes quando te zangas. Vais andar pelo mundo, cantar e gargalhar com os teus dentes meio encavalitados.
Vou fixar-me naquela minha pinta preferida, no jeito do cabelo que não se desfaz, no olhar que encontrei em ti quando me vias dormir.
A banda sonora, essa já conheces de cor.
Desculpa se fiz algum erro técnico, se te iluminei mal em alguma cena, se não escrevi um diálogo claro.
É que eu às vezes sou meio desajeitada, tu sabes.
Play.
Isto porque houve um segredo que não te contei. Desculpa.
Sim, foste usado.
Captei o teu melhor ângulo, roubei-te um pedaço de cabelo, anotei o teu prato preferido e aquela expressão que estás sempre a dizer.
Xis.
Pintei-te vários cenários, vi-te a moveres-te em cada um deles. A interagir com todos os personagens naquela tua maneira de falar à desenho animado.
“estava en el chano”, disseste. Eu decorei.
Brinquei contigo como fantoche de peça infantil. Faz assim, olha para ali, como reages a este estímulo?
Estudei-te.
E agora tenho poucas horas para juntar todos os teus pedaços, aqueles que tenho vindo a roubar, e monta-los numa sequência perfeita que possa ver vezes infinitas sem nunca ficar enjoada.
Vou realizar-te num filme, talvez uma pequena curta-metragem. Contrapor os teus melhores lados com aquela cara-careta que fazes quando te zangas. Vais andar pelo mundo, cantar e gargalhar com os teus dentes meio encavalitados.
Vou fixar-me naquela minha pinta preferida, no jeito do cabelo que não se desfaz, no olhar que encontrei em ti quando me vias dormir.
A banda sonora, essa já conheces de cor.
Desculpa se fiz algum erro técnico, se te iluminei mal em alguma cena, se não escrevi um diálogo claro.
É que eu às vezes sou meio desajeitada, tu sabes.
Play.
20 octubre 2008
Normalzinha
Ela estava diferente. Diferentezinha. Já não se sentia aquela menina de tempos atrás.
Foi-se-lhe o sorriso gracioso, os olhos que escorriam paixão. Perdeu a determinação de mudar o mundo. O cabelo cada vez mais desalinhado, as roupas desbotadas.
Sentia-se normal. Normalzinha. Sem nada que lhe valesse o olhar, o suspiro, o comentário. Era como se tivesse perdido o encanto de outrora, a popularidade dos rejeitados, a garra dos que querem mais.
Deixava-se levar pela vida. Levianamente. Ia vivendo no embalo do dia-a-dia, sem grandes motivos, grandes histórias. Procurava o seu lugar.
Causa perdida.
E fazia-lhe então a mais desinteressante das perguntas: porque ainda gostas de mim, afinal?
Desinteressantezinha.
Foi-se-lhe o sorriso gracioso, os olhos que escorriam paixão. Perdeu a determinação de mudar o mundo. O cabelo cada vez mais desalinhado, as roupas desbotadas.
Sentia-se normal. Normalzinha. Sem nada que lhe valesse o olhar, o suspiro, o comentário. Era como se tivesse perdido o encanto de outrora, a popularidade dos rejeitados, a garra dos que querem mais.
Deixava-se levar pela vida. Levianamente. Ia vivendo no embalo do dia-a-dia, sem grandes motivos, grandes histórias. Procurava o seu lugar.
Causa perdida.
E fazia-lhe então a mais desinteressante das perguntas: porque ainda gostas de mim, afinal?
Desinteressantezinha.
12 octubre 2008
Pedinchice
Já te pedi tudo. Já te pedi demais.
Pedi-te para vir, para ficar e para ir. Para fazer, para desfazer e refazer.
E tu foste fazendo. Indo e ficando.
Foi então que te disse que fazias demais. Que não fosses tão obediente.
Rebelaste-te e isso aborreceu-me.
E tu desfizeste-o.
Disse que não te queria, que te queria demais. Que já não aguentava e que contigo, de mãos entrelaçadas, poderíamos ser um nós para sempre.
Mas depois neguei-o.
E tu aceitas-me as mentiras, engoliste-as, vomitaste-as, quando necessário.
Falei-te de amor, e os teus olhos brilharam. Em seguida desconversei e fingiste não conhecer o tema.
E nessa altura reclamei. Que não te armasses em homem perfeito que eu não engoliria essa história.
Desarmaste-te.
Seguiste na tua, a meu lado.
E eu na minha, procurando um lado para estar.
Logo encontrei um lado. Era o esquerdo.
Mas nessa altura já estavas tu muito longe.
E foi então que me chamei de pedinchona.
Tu riste-te.
Mas tinha de pedir, só uma última coisa.
Fica, disse.
E tu ficaste.
Agora acho que já te pedi demais. Que te dei de menos.
E peço-te, apesar de não ter mais crédito, que, de uma vez por todas,
Sejas tu agora a pedir.
Pedi-te para vir, para ficar e para ir. Para fazer, para desfazer e refazer.
E tu foste fazendo. Indo e ficando.
Foi então que te disse que fazias demais. Que não fosses tão obediente.
Rebelaste-te e isso aborreceu-me.
E tu desfizeste-o.
Disse que não te queria, que te queria demais. Que já não aguentava e que contigo, de mãos entrelaçadas, poderíamos ser um nós para sempre.
Mas depois neguei-o.
E tu aceitas-me as mentiras, engoliste-as, vomitaste-as, quando necessário.
Falei-te de amor, e os teus olhos brilharam. Em seguida desconversei e fingiste não conhecer o tema.
E nessa altura reclamei. Que não te armasses em homem perfeito que eu não engoliria essa história.
Desarmaste-te.
Seguiste na tua, a meu lado.
E eu na minha, procurando um lado para estar.
Logo encontrei um lado. Era o esquerdo.
Mas nessa altura já estavas tu muito longe.
E foi então que me chamei de pedinchona.
Tu riste-te.
Mas tinha de pedir, só uma última coisa.
Fica, disse.
E tu ficaste.
Agora acho que já te pedi demais. Que te dei de menos.
E peço-te, apesar de não ter mais crédito, que, de uma vez por todas,
Sejas tu agora a pedir.
10 octubre 2008
Aprendiz
Sou aprendiz de tudo e mestre de nada. E ando pela vida procurando.
Vou e venho neste movimento de forças que me faz sempre ir um passo à frente. Queria compreender esta energia que nos faz procurar sempre algo maior, uma meta mais arriscada, um desafio mais melindroso.
E no final, sinto-me uma eterna buscadora e falhadamente encontrada.
Pergunto-me se chegará o momento em que os pés se colarão a uma terra, em que os olhos chorarão de alegria pela mesma paisagem revisitada. Ou talvez esse dia nunca chegue. Talvez eu seja mesmo uma eterna aprendiz em busca de um complemento. E a minha plenitude varie de ofício em ofício. Ou, quem sabe, tudo isto seja apenas uma desculpa poética de alguém que nunca se sentirá suficientemente boa, capaz, apropriada. De alguém que nunca se deixou viver de verdade. Viver o suficiente.
Enquanto as respostas não chegam – será que um dia chegarão? – sigo dedicando-me à minha mestria: ser aprendiz.
Vou e venho neste movimento de forças que me faz sempre ir um passo à frente. Queria compreender esta energia que nos faz procurar sempre algo maior, uma meta mais arriscada, um desafio mais melindroso.
E no final, sinto-me uma eterna buscadora e falhadamente encontrada.
Pergunto-me se chegará o momento em que os pés se colarão a uma terra, em que os olhos chorarão de alegria pela mesma paisagem revisitada. Ou talvez esse dia nunca chegue. Talvez eu seja mesmo uma eterna aprendiz em busca de um complemento. E a minha plenitude varie de ofício em ofício. Ou, quem sabe, tudo isto seja apenas uma desculpa poética de alguém que nunca se sentirá suficientemente boa, capaz, apropriada. De alguém que nunca se deixou viver de verdade. Viver o suficiente.
Enquanto as respostas não chegam – será que um dia chegarão? – sigo dedicando-me à minha mestria: ser aprendiz.
07 octubre 2008
A cor do verniz
Estávamos em momentos de revelações sentados no chão do reggae dos populares. Uma palavra ao ouvido e um toque que faz o mundo dar cambalhotas.
E, de repente, sem aviso prévio ou olhar denunciador, comenta:
- Usas verniz vermelho – ou será que ele disse encarnado?
Na verdade, estava preparada para qualquer comentário, tinha ensaiado, qual exame oral, todas as respostas possíveis. E tinha também pintado as unhas horas antes da festa, claro. Um vermelho sedutor. Nestas alturas há que tentar tudo.
Respondi-lhe um “sim” cor de verniz, e fiz um gesto de pouca importância, sem querer delatar qualquer prévia preocupação sobre o assunto.
Ele não tinha gostado da escolha, conclui.
- Não, não é isso, claro que gosto.
Apesar de tudo, no próximo encontro passei-lhe acetona.
Com o passar do tempo, esses detalhes deixaram de importar. Esquecia-me dos brincos da cabeceira e dizia-lhe que o verniz lascado era para me dar um ar “mais original e desportivo”.
Mas hoje, quando acordei, pensei: vou pinta-las de vermelho.
Como naquele dia.
E, de repente, sem aviso prévio ou olhar denunciador, comenta:
- Usas verniz vermelho – ou será que ele disse encarnado?
Na verdade, estava preparada para qualquer comentário, tinha ensaiado, qual exame oral, todas as respostas possíveis. E tinha também pintado as unhas horas antes da festa, claro. Um vermelho sedutor. Nestas alturas há que tentar tudo.
Respondi-lhe um “sim” cor de verniz, e fiz um gesto de pouca importância, sem querer delatar qualquer prévia preocupação sobre o assunto.
Ele não tinha gostado da escolha, conclui.
- Não, não é isso, claro que gosto.
Apesar de tudo, no próximo encontro passei-lhe acetona.
Com o passar do tempo, esses detalhes deixaram de importar. Esquecia-me dos brincos da cabeceira e dizia-lhe que o verniz lascado era para me dar um ar “mais original e desportivo”.
Mas hoje, quando acordei, pensei: vou pinta-las de vermelho.
Como naquele dia.
05 octubre 2008
! Nos mola mogollón !
Nas ondas borbulhantes os pensamentos voam e vêm ao sabor de assobios salgados. Os cabelos enchem-se de nós em passeios de bicicleta de assento duro.
E foi numa viagem solarenga à beira mar que tomamos esta decisão.
Foi uma conversa que durou horas, quem sabe dias. Discutíamos os pesos da balança, fazíamos listas imaginárias de prós e contras.
Estávamos na cidade de cristal. Não, risca, não lhe atribuamos fragilidades. Sentíamo-nos vidro robusto e reluzente. Encontrávamo-nos longe de casa e, estranhamente, o sol continuava a reflectir as mesmas ondas.
No fundo é tudo uma questão estética. O amarelo é o novo azul, diz-me. É preciso que te modernizes. Explico-lhe que os sentimentos são coisas do passado.
Convence-me. O mundo agora é amarelo, porque desapareceu de mim a sombra cinzenta que me perseguia. Cortemos-lhe o cabelo, demos-lhe um look actual. Quero dizer, um “mood” actual, se é que me entendem.
Isto para concluir que, como está à vista de todos, mudámos de visual. E quando digo nós digo eu e ele. Rendemo-nos ao amarelo.
Para quem está confuso, porque isto do mundo das metáforas é complexo demais, resumo tudo em uma frase:
! Coruña nos mola mogollón ! e agora temos a cara disso. Que não nos olhem mais com cara de reticências.
E foi numa viagem solarenga à beira mar que tomamos esta decisão.
Foi uma conversa que durou horas, quem sabe dias. Discutíamos os pesos da balança, fazíamos listas imaginárias de prós e contras.
Estávamos na cidade de cristal. Não, risca, não lhe atribuamos fragilidades. Sentíamo-nos vidro robusto e reluzente. Encontrávamo-nos longe de casa e, estranhamente, o sol continuava a reflectir as mesmas ondas.
No fundo é tudo uma questão estética. O amarelo é o novo azul, diz-me. É preciso que te modernizes. Explico-lhe que os sentimentos são coisas do passado.
Convence-me. O mundo agora é amarelo, porque desapareceu de mim a sombra cinzenta que me perseguia. Cortemos-lhe o cabelo, demos-lhe um look actual. Quero dizer, um “mood” actual, se é que me entendem.
Isto para concluir que, como está à vista de todos, mudámos de visual. E quando digo nós digo eu e ele. Rendemo-nos ao amarelo.
Para quem está confuso, porque isto do mundo das metáforas é complexo demais, resumo tudo em uma frase:
! Coruña nos mola mogollón ! e agora temos a cara disso. Que não nos olhem mais com cara de reticências.
03 octubre 2008
A expressão maldita dos amantes
O tempo veio e transformou o amanhã num ontem muito distante. Partiu ao meio as fantasias sonhadas com os cabelos salgados. Mas há sempre um momento, aquele momento, que nem o andar do relógio nos faz esquecer.
Ensinámos os lábios, censurámo-lo, explicámos-lhe que não queríamos voltar a errar. Mas o pensamento é um aluno ranhoso, daqueles traquinas de óculos com fita-cola. Lá está ele, na fila da frente, numa insistência torturante:
- Diz, sente, faz, não omitas, diz, explode, corre, berra.
Para sempre é a expressão maldita dos amantes. Foi carimbada de vermelho há muito tempo atrás.
Mas há aquele momento, aquele um momento, em que o menino birrento vence a nossa autoridade rígida.
Aquele momento em que fechamos o cadeado, em que o pensamento pressiona, insiste, implora.
- Para sempre.
O menino limpa o ranho, ajeita os olhos e pergunta:
- Doeu?
Mas desta vez queremos mesmo que seja verdadeiro. Que não voltemos atrás, que não nos cresçam os calos. Fechamos os cadeados na expectativa de que o futuro seja um jardim de flores perfumadas, ou, quem sabe, uma longa conversa sobre o debate presidencial dos Estados Unidos. Está fechado. E engolimos a chave.
Ensinámos os lábios, censurámo-lo, explicámos-lhe que não queríamos voltar a errar. Mas o pensamento é um aluno ranhoso, daqueles traquinas de óculos com fita-cola. Lá está ele, na fila da frente, numa insistência torturante:
- Diz, sente, faz, não omitas, diz, explode, corre, berra.
Para sempre é a expressão maldita dos amantes. Foi carimbada de vermelho há muito tempo atrás.
Mas há aquele momento, aquele um momento, em que o menino birrento vence a nossa autoridade rígida.
Aquele momento em que fechamos o cadeado, em que o pensamento pressiona, insiste, implora.
- Para sempre.
O menino limpa o ranho, ajeita os olhos e pergunta:
- Doeu?
Mas desta vez queremos mesmo que seja verdadeiro. Que não voltemos atrás, que não nos cresçam os calos. Fechamos os cadeados na expectativa de que o futuro seja um jardim de flores perfumadas, ou, quem sabe, uma longa conversa sobre o debate presidencial dos Estados Unidos. Está fechado. E engolimos a chave.
29 septiembre 2008
Pé
Há muitas pessoas que não gostam de pés. Dizem que mete nojo.
Nunca percebi muito bem esse conceito. Eu gosto de pés. Rio-me com as unhas encravadas e os pelos tipo hobbit no dedo grande. Opino sobre a cor do verniz e o anel ao lado do mindinho. É uma existência feliz, essa dos pés.
Há aqueles pés que são mais andantes e os que são mais parados. Um dia disseram-me que os meus dedos dos pés pareciam porquinhos. Isso faz deles andantes?
Pé andante não é um pé que anda, como é obvio. Pé andante é pé que não sabe ficar quieto, que quer sempre ir um passo a frente. Não é pé rápido, é pé com formigas nas plantas que dão cócegas e nos fazem correr. Não há exigências para pés andantes, pode pisar errado e ter andar um quarto para as três, não faz mal. O único requisito é ser inquieto. Pé andante é pé inquieto.
Dos porquinhos passei a ter “ritmo” no pé. Não que isso signifique dançar (neste momento tenho todos os meus amigos/colegas/conhecidos a rirem-se – obvio que não poderia significar que ritmo de dança, quem me conhece saberia). Explicou-me, então.
Pé com ritmo é pé que quer sempre ir mais longe, que quando está parado pensa para onde irá a seguir. Pé com ritmo é pé pensante. Quando o meu pai acaba de comer pergunta: o que vai ser o jantar? Isso é estômago com ritmo, se me faço entender.
E, para quem não percebeu, porque gramática de pé não é das mais simples, isto é um grito de socorro de um pé porquinho andante e com ritmo que procura pé interessante e companheiro que partilhe passeio na praia de pé enterrado na areia. Quem sabe o passeio acabe num entrelaçar de pés. Mas isso, só o futuro dirá. E, sim, pé também tem futuro.
Nunca percebi muito bem esse conceito. Eu gosto de pés. Rio-me com as unhas encravadas e os pelos tipo hobbit no dedo grande. Opino sobre a cor do verniz e o anel ao lado do mindinho. É uma existência feliz, essa dos pés.
Há aqueles pés que são mais andantes e os que são mais parados. Um dia disseram-me que os meus dedos dos pés pareciam porquinhos. Isso faz deles andantes?
Pé andante não é um pé que anda, como é obvio. Pé andante é pé que não sabe ficar quieto, que quer sempre ir um passo a frente. Não é pé rápido, é pé com formigas nas plantas que dão cócegas e nos fazem correr. Não há exigências para pés andantes, pode pisar errado e ter andar um quarto para as três, não faz mal. O único requisito é ser inquieto. Pé andante é pé inquieto.
Dos porquinhos passei a ter “ritmo” no pé. Não que isso signifique dançar (neste momento tenho todos os meus amigos/colegas/conhecidos a rirem-se – obvio que não poderia significar que ritmo de dança, quem me conhece saberia). Explicou-me, então.
Pé com ritmo é pé que quer sempre ir mais longe, que quando está parado pensa para onde irá a seguir. Pé com ritmo é pé pensante. Quando o meu pai acaba de comer pergunta: o que vai ser o jantar? Isso é estômago com ritmo, se me faço entender.
E, para quem não percebeu, porque gramática de pé não é das mais simples, isto é um grito de socorro de um pé porquinho andante e com ritmo que procura pé interessante e companheiro que partilhe passeio na praia de pé enterrado na areia. Quem sabe o passeio acabe num entrelaçar de pés. Mas isso, só o futuro dirá. E, sim, pé também tem futuro.
26 septiembre 2008
Ontem à noite
Estávamos juntos. Eu corria numa vida apressada, de passo acelerado. Tu mergulhavas nos sonhos da ficção em tela grande. A conversa era um entusiasmo histérico de novidades e mundos novos.
Estávamos juntos.
A vida corria separada em tempo record, as experiências faziam-nos diferentes, mais perto daquilo que sempre quisermos ser. A distância era um desafio aliciante, de fuga ao rotineiro e ao velho andar da carruagem.
O guião era bom, os actores nem tanto. Éramos nós a brincar aos filmes de amor no sonho de ontem a noite desta cidade de cristal.
Estávamos juntos.
A vida corria separada em tempo record, as experiências faziam-nos diferentes, mais perto daquilo que sempre quisermos ser. A distância era um desafio aliciante, de fuga ao rotineiro e ao velho andar da carruagem.
O guião era bom, os actores nem tanto. Éramos nós a brincar aos filmes de amor no sonho de ontem a noite desta cidade de cristal.
25 septiembre 2008
Fora dos trilhos
Havia aquela sensação do adquirido, a rotina do mesmo rosto, as conversas do-que-se-fez-hoje. Um beijinho ao acaso e um olhar de admiração. Era a confusão de dias passados na tensão da convivência e do mundo que, estranhamente, agora corria alinhado nos trilhos.
Mas foi um futuro decidido ao acaso que mudou o rumo da história, descarrilou a maquineta, pôs os ponteiros ao contrário. Não que isso resolvesse alguma coisa, não. A sabedoria alheia conta como tudo agora poderia piorar, partir, ter um acidente fatal. No entanto, de volta aos ecrãs digitais e aos pensamentos não partilhados por SMS monossilábicos, sinto-me maior.
E com a autoridade do meu novo estatuto, olho para trás e penso em tudo o que teria feito diferente. Quem não teria?
Mas foi um futuro decidido ao acaso que mudou o rumo da história, descarrilou a maquineta, pôs os ponteiros ao contrário. Não que isso resolvesse alguma coisa, não. A sabedoria alheia conta como tudo agora poderia piorar, partir, ter um acidente fatal. No entanto, de volta aos ecrãs digitais e aos pensamentos não partilhados por SMS monossilábicos, sinto-me maior.
E com a autoridade do meu novo estatuto, olho para trás e penso em tudo o que teria feito diferente. Quem não teria?
23 septiembre 2008
lentamente só
Aqui os dias passam com um andar devagar e preguiçoso. Vou observando as pessoas, imaginando as suas vidas, metendo-me, inconscientemente, nas suas conversas. Acho que esse namorado não te merece, que devias comprar a camisola azul, que os teus pais têm razão nessa parte da história. São desconhecidos de língua estranha, com quem partilho bancos de jardim, mesas de café, cadeiras de cinema. E em cada coscuvilhice uma palavra nova, uma expressão, uma correcta entoação da voz. E assim se vão passando os dias, l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Como quem não tem pressa em aprender, quem se deixa absorver por uma nova cidade.
Ás vezes sinto falta de um amigo, uma conversa no café, uma companhia para o cinema das oito da noite. Outras vezes não. Vou passeando comigo mesma em horas infinitas de caminhadas ao mar. Vou conversando comigo todas aquelas conversas que ainda não tinha encontrado tempo para ter. Vou lendo o que pensam os outros e moldando o meu pensamento.
E aos poucos vou me conhecendo. O que às vezes é bom. Outras vezes não.
Ás vezes sinto falta de um amigo, uma conversa no café, uma companhia para o cinema das oito da noite. Outras vezes não. Vou passeando comigo mesma em horas infinitas de caminhadas ao mar. Vou conversando comigo todas aquelas conversas que ainda não tinha encontrado tempo para ter. Vou lendo o que pensam os outros e moldando o meu pensamento.
E aos poucos vou me conhecendo. O que às vezes é bom. Outras vezes não.
22 septiembre 2008
Despedida e Peras
Desta vez não houve dramas, nem lágrimas, nem letras de músicas ditas ao acaso. Houve a serenidade de quem sabe aguardar o futuro. Agora aqui estou eu nesta cidade tão estranha e que quero tanto que venha a ser minha. Sinto-me um homenzinho verde a passear por estas ruas de sotaque espanhol, uma menina indefesa que quer a sua mãe, ou quem sabe, só alguém a quem ligar a dizer “hei, dói-me o joelho”.
E não houve lágrimas, nem despedidas. Como se nunca me fosse embora, como se não fosse por muito tempo. Nada de radical iria acontecer. Um beijinho, um olhar para trás.
Não houve jantar formal, noite passada às claras, maquilhagem e presentes. “Se choras dou-te uma pêra”. Por agora apetecia-me ter dramatizado, levado peras e peras de recordações que ficariam marcadas na pele. Por agora queria ter tido consciência do ridículo das discussões e aproveitado esse tempo para declarações debaixo do lençol.
Comer peras debaixo do lençol. É isso que me apetece agora.
E não houve lágrimas, nem despedidas. Como se nunca me fosse embora, como se não fosse por muito tempo. Nada de radical iria acontecer. Um beijinho, um olhar para trás.
Não houve jantar formal, noite passada às claras, maquilhagem e presentes. “Se choras dou-te uma pêra”. Por agora apetecia-me ter dramatizado, levado peras e peras de recordações que ficariam marcadas na pele. Por agora queria ter tido consciência do ridículo das discussões e aproveitado esse tempo para declarações debaixo do lençol.
Comer peras debaixo do lençol. É isso que me apetece agora.
03 septiembre 2008
O homem grisalho
Há um homem cinzento a espreitar os meus dias. Vejo-lhe sempre primeiro os pés.
Acho que devia mandar polir aquelas botas da tropa. São pretas, cano alto, atacador daqueles que é preciso colocar o despertador para cinco minutos mais cedo só para poder calçar os sapatos em condições. Mas ele não faz isso. Tem sempre as botas mal abotoadas. Que desleixe!
Tento voltar ao trabalho e lá está ele, do lado esquerdo do meu campo de visão.
Incomoda-me que salte as casas do atacador. Qualquer dia aquilo sai-lhe dos pés. Quero sempre avisar-lhe. Espremo os olhos e tento, mentalmente, ajeitar-lhe os sapatos. Nada feito.
- Quanto caracteres tenho para a noticia da fusão das agências?
Ele tem uns jeans escuros esbatidos que lhe estão largos na cintura. Engraçado. Ainda não tinha reparado nisso. Acho que têm ficado mais largos a cada dia que passa. Curioso.
Mas se há uma coisa que está sempre impecável é a sua camisa, preta, claro.
- Achas que não me consegues mais espaço? Consegui um exclusivo com o CEO.
Impecável se não contarmos com a caspa que decora os ombros e o terceiro botão a contar de baixo que está meio partido (mas abotoa mesmo assim).
É bonita a sua camisa. Outro dia ocorreu-me que aquele brilho que ela ostenta possa ser sebo e não cetim. Tentei afastar a ideia.
- Talvez se mudares a notícia para a página 16 já dê, não achas?
É claro que os seus cabelos compridos e mal lavados não ajudam à sua caspa constante. Talvez devesse mudar de shampoo, sei lá. Notei que estão a aparecer-lhe uns brancos. Mas eu até gostei, dá-lhe um certo ar de sabedoria grisalha.
Tem estado cansado, ultimamente. Acho que não anda a comer como deve ser.
- Quando é que te vais embora?
- Dia 16.
- O tempo está a acabar.
Parece que já me afeiçoei a ele. Agora nem tenho tido muita vontade de o mandar embora. Talvez eu seja a única a achar isto, mas aquele grisalho fica-lhe mesmo bem. Se pelo menos ele andasse a comer como deve ser...
Acho que devia mandar polir aquelas botas da tropa. São pretas, cano alto, atacador daqueles que é preciso colocar o despertador para cinco minutos mais cedo só para poder calçar os sapatos em condições. Mas ele não faz isso. Tem sempre as botas mal abotoadas. Que desleixe!
Tento voltar ao trabalho e lá está ele, do lado esquerdo do meu campo de visão.
Incomoda-me que salte as casas do atacador. Qualquer dia aquilo sai-lhe dos pés. Quero sempre avisar-lhe. Espremo os olhos e tento, mentalmente, ajeitar-lhe os sapatos. Nada feito.
- Quanto caracteres tenho para a noticia da fusão das agências?
Ele tem uns jeans escuros esbatidos que lhe estão largos na cintura. Engraçado. Ainda não tinha reparado nisso. Acho que têm ficado mais largos a cada dia que passa. Curioso.
Mas se há uma coisa que está sempre impecável é a sua camisa, preta, claro.
- Achas que não me consegues mais espaço? Consegui um exclusivo com o CEO.
Impecável se não contarmos com a caspa que decora os ombros e o terceiro botão a contar de baixo que está meio partido (mas abotoa mesmo assim).
É bonita a sua camisa. Outro dia ocorreu-me que aquele brilho que ela ostenta possa ser sebo e não cetim. Tentei afastar a ideia.
- Talvez se mudares a notícia para a página 16 já dê, não achas?
É claro que os seus cabelos compridos e mal lavados não ajudam à sua caspa constante. Talvez devesse mudar de shampoo, sei lá. Notei que estão a aparecer-lhe uns brancos. Mas eu até gostei, dá-lhe um certo ar de sabedoria grisalha.
Tem estado cansado, ultimamente. Acho que não anda a comer como deve ser.
- Quando é que te vais embora?
- Dia 16.
- O tempo está a acabar.
Parece que já me afeiçoei a ele. Agora nem tenho tido muita vontade de o mandar embora. Talvez eu seja a única a achar isto, mas aquele grisalho fica-lhe mesmo bem. Se pelo menos ele andasse a comer como deve ser...
02 septiembre 2008
Cem euros
Escrevi as palavras no google, meio a medo, porque só o acto de soletra-las torna tudo mais oficial. Carreguei um enter tremido.
Lá no fundo rezei para que não aparecesse nada, que fosse mais uma pesquisa mal feita. Assim desistiria logo dessa ideia maluca. Nós? Claro que não! Que ideia mais sem sentido!
Mas a internet é um mundo de segundos e apareceu logo ali, no primeiro link, a resposta para a minha pergunta internauta.
Cem. Cem euros são dois dias de interrail, quatro noites num bom hostel, um mês de comida no supermercado. É quanto custa uma semana de curso intensivo de espanhol, é metade do aluguer da casa. Cem euros compram um bom par de calças, umas botas de couro e uns tenis all-star, ultimo grito da moda. Fiquei sem saber se era muito ou pouco.
Mas o acto de pesquisa estava feito. Um primeiro passo tinha sido dado e o futuro espreitava-nos com olhos de criança em véspera de Natal.
Calma, o Pai Natal (ou seriam os Reis Magos?) já está quase a chegar.
Lá no fundo rezei para que não aparecesse nada, que fosse mais uma pesquisa mal feita. Assim desistiria logo dessa ideia maluca. Nós? Claro que não! Que ideia mais sem sentido!
Mas a internet é um mundo de segundos e apareceu logo ali, no primeiro link, a resposta para a minha pergunta internauta.
Cem. Cem euros são dois dias de interrail, quatro noites num bom hostel, um mês de comida no supermercado. É quanto custa uma semana de curso intensivo de espanhol, é metade do aluguer da casa. Cem euros compram um bom par de calças, umas botas de couro e uns tenis all-star, ultimo grito da moda. Fiquei sem saber se era muito ou pouco.
Mas o acto de pesquisa estava feito. Um primeiro passo tinha sido dado e o futuro espreitava-nos com olhos de criança em véspera de Natal.
Calma, o Pai Natal (ou seriam os Reis Magos?) já está quase a chegar.
31 agosto 2008
Suores frios
Há um suor frio nos meus pés que me faz fechar os olhos. E nas celulóides de momentos futuros vejo-me longe. Queria entender por que a felicidade está sempre tão distante, vemo-la naquele país para onde queremos ir, no trabalho que sonhamos ter (e nunca conseguimos). Nunca aqui, na algibeira dos jeans desgastados. Queria perceber porquê.
Dizem que é bom. Isso de nunca estar satisfeito. Bem, é o que dizem.
Mas aquele calafrio no pé dá-me dores de barriga. Há remédios para essa dor. Não pode ser uma coisa boa.
É a constante incerteza do destino, um ímpeto irresistível de se atirar daquela varanda do sétimo andar. Uma atracção pelo desconhecido e uma promessa de felicidade.
Passo todos os dias por lá. Penso da minha queda. Faço os prós e os contras e volto para casa.
A varanda continua ali, com o seu charme atraente e intelectual, a sua postura certa e independente. Falta só dar o passo.
Mas os suores dão-me dores de barriga. Por enquanto, vou tomando remédios.
Dizem que é bom. Isso de nunca estar satisfeito. Bem, é o que dizem.
Mas aquele calafrio no pé dá-me dores de barriga. Há remédios para essa dor. Não pode ser uma coisa boa.
É a constante incerteza do destino, um ímpeto irresistível de se atirar daquela varanda do sétimo andar. Uma atracção pelo desconhecido e uma promessa de felicidade.
Passo todos os dias por lá. Penso da minha queda. Faço os prós e os contras e volto para casa.
A varanda continua ali, com o seu charme atraente e intelectual, a sua postura certa e independente. Falta só dar o passo.
Mas os suores dão-me dores de barriga. Por enquanto, vou tomando remédios.
30 agosto 2008
Lar doce Lar
Dizem que não se volta a um lugar onde já se foi feliz. Eu também dizia isso.
Mas se houve uma coisa que aprendi nestes últimos tempos é que o português é uma língua difícil, já que para cada regra há uma excepção.
Deliciei-me durante um mês a aprende-las.
E em cada lugar passado, em qualquer monumento de fotografia antiga, em toda a história recordada pela fachada de uma loja vulgar, descobri uma diferente história e uma recordação que os novos acontecimentos não irão esbater.
É a sétima língua mais difícil do mundo, o português.
Não se pode tentar encontrar plenitude nos moldes antigos, na segurança de modelos de sucesso. Mas a excepção que dita a regra diz: volte e reinvente a fórmula.
Eu sabia que voltaria a este lugar.
É bom regressar a casa.
Mas se houve uma coisa que aprendi nestes últimos tempos é que o português é uma língua difícil, já que para cada regra há uma excepção.
Deliciei-me durante um mês a aprende-las.
E em cada lugar passado, em qualquer monumento de fotografia antiga, em toda a história recordada pela fachada de uma loja vulgar, descobri uma diferente história e uma recordação que os novos acontecimentos não irão esbater.
É a sétima língua mais difícil do mundo, o português.
Não se pode tentar encontrar plenitude nos moldes antigos, na segurança de modelos de sucesso. Mas a excepção que dita a regra diz: volte e reinvente a fórmula.
Eu sabia que voltaria a este lugar.
É bom regressar a casa.
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