Revolta-me, é claro.
Eles perseguem-me, colam-se à minha cabeça, avassalam a minha imaginação. Torturam-me com aqueles sussurros amolecidos e olhares afeminados.
Mas a vingança aproxima-se. Vem com o seu manto de liberdade, espalhando a inveja de sorriso malicioso.
Não há mal nenhum em tal costume. Os jovens têm mesmo essa função e os cantos não têm outra utilidade. Olho para o meu quarto. Recheado de cantos desabitados.
Quero ir. As minhas pernas mexem-se sem que eu mande nelas. As pernas também são pessoas. Inferiores aos braços, é claro. Mas valem-se a si mesmas.
Elas querem andar. Até onde for preciso.
Afinal aqueles cantos, coitadinhos, não podem continuar tão abandonados.
31 enero 2008
A senhora saiu
É branca, não há problema.
Vale só um Pai Nosso. Ou então uma Avé Maria, que ainda vale menos no bafo de vinho do padre curioso.
É como um dia de Inverno debaixo do cobertor e da página 153 do livro de lançamento. E toca o telefone. A empregada vem dizer, com pés de algodão, que amiga quer passar aqui. Talvez um chá com um bolinho, quem sabe. Só para pôr a conversa em dia. E ela, debaixo dos lençóis, com cara limpa de maquilhagem, diz no meio do cabelo desalinhado: “Diga que a Senhora saiu”.
Vale só um Pai Nosso. Ou então uma Avé Maria, que ainda vale menos no bafo de vinho do padre curioso.
É como um dia de Inverno debaixo do cobertor e da página 153 do livro de lançamento. E toca o telefone. A empregada vem dizer, com pés de algodão, que amiga quer passar aqui. Talvez um chá com um bolinho, quem sabe. Só para pôr a conversa em dia. E ela, debaixo dos lençóis, com cara limpa de maquilhagem, diz no meio do cabelo desalinhado: “Diga que a Senhora saiu”.
30 enero 2008
Nut.
Estava com olheiras, coitado. O truque dos três lugares no avião não tinha sido suficiente para comportar tamanho dispêndio de energia.
Gosto de reparar como os seus olhos praticamente inexistentes brilham pela conexão transoceânica. Parece que a voz mudou, não sei. Já não me lembrava como eram bonitas as suas mãos. Hoje estão diferentes. Dinâmicas, controladas, com o ritmo de uma fila que virava o quarteirão.
Surreal Que grande noite.
Uma noite que durou um dia, ou mais. Foi uma vida e uma morte anunciada pela companhia telefónica. Foram choros e gritos e mensagens cheias de estrelas. Risos e gargalhadas derretidas. Carinhos electrónicos.
Mas depois chegou o electricista e a história mudou. Ele apareceu no meio dos olhares curiosos no metro e deu-lhes uma nota para a mão. Cortou a noite do aeroporto. Subornou as horas de sono. Já não interessava o comboio, o metro, a morte ou a ressurreiçao. Para que falar do público, dos gritos ou do mullet cor-de-rosa?
Ele veio lá de longe, do meio da neve, com a sua casa de guitarras e amigos estrangeiros. A discoteca foi na cozinha e o dinheiro não foi problema.
Abraçou-os. Contou dos pais, das viagens e como a esperteza vale mais que um diploma. Chamam-lhe Nut. “Now I understand why” disse o amigo que abusou do ginásio.
Gosto de reparar como os seus olhos praticamente inexistentes brilham pela conexão transoceânica. Parece que a voz mudou, não sei. Já não me lembrava como eram bonitas as suas mãos. Hoje estão diferentes. Dinâmicas, controladas, com o ritmo de uma fila que virava o quarteirão.
Surreal Que grande noite.
Uma noite que durou um dia, ou mais. Foi uma vida e uma morte anunciada pela companhia telefónica. Foram choros e gritos e mensagens cheias de estrelas. Risos e gargalhadas derretidas. Carinhos electrónicos.
Mas depois chegou o electricista e a história mudou. Ele apareceu no meio dos olhares curiosos no metro e deu-lhes uma nota para a mão. Cortou a noite do aeroporto. Subornou as horas de sono. Já não interessava o comboio, o metro, a morte ou a ressurreiçao. Para que falar do público, dos gritos ou do mullet cor-de-rosa?
Ele veio lá de longe, do meio da neve, com a sua casa de guitarras e amigos estrangeiros. A discoteca foi na cozinha e o dinheiro não foi problema.
Abraçou-os. Contou dos pais, das viagens e como a esperteza vale mais que um diploma. Chamam-lhe Nut. “Now I understand why” disse o amigo que abusou do ginásio.
24 enero 2008
Elgydium
Às vezes tenho dificuldade em dizer certas palavras.
Apercebi-me disso hoje.
Talvez seja mais do que isso.
Sinto que as palavras não podem expressar realmente aquilo que sentimos. Essa tal palavra. Aquele cliché que vem no fim do sms e que até tem abreviatura. (Será que quando vem abreviada é porque o sentimento também abreviou? Será que a escolha do “s” ou do “x” faz alguma diferença?)
A abreviatura consonântica que me faz ranger os dentes. Porque dizê-la sempre no fim da conversa, como ritual sagrado e vazio?
Não quero ser o Garra anti-sistema, anti regras sociais pré-estabelecidas. Quero perceber se aquela sensação de frescura, de publicidade televisiva com direito a seguro para os dentes, é o significado deste cliché tão cibernético.
A palavra leva consigo aquele gostinho remanescente a hortelã? O apertar que não deixa marcas? O bico que não entope?
Porque se sim, e se o mundo estiver do meu lado, descobri finalmente o significado de mais um cliché detestável.
E deixo-o aqui, bem no fim deste post.
Sdds
Apercebi-me disso hoje.
Talvez seja mais do que isso.
Sinto que as palavras não podem expressar realmente aquilo que sentimos. Essa tal palavra. Aquele cliché que vem no fim do sms e que até tem abreviatura. (Será que quando vem abreviada é porque o sentimento também abreviou? Será que a escolha do “s” ou do “x” faz alguma diferença?)
A abreviatura consonântica que me faz ranger os dentes. Porque dizê-la sempre no fim da conversa, como ritual sagrado e vazio?
Não quero ser o Garra anti-sistema, anti regras sociais pré-estabelecidas. Quero perceber se aquela sensação de frescura, de publicidade televisiva com direito a seguro para os dentes, é o significado deste cliché tão cibernético.
A palavra leva consigo aquele gostinho remanescente a hortelã? O apertar que não deixa marcas? O bico que não entope?
Porque se sim, e se o mundo estiver do meu lado, descobri finalmente o significado de mais um cliché detestável.
E deixo-o aqui, bem no fim deste post.
Sdds
22 enero 2008
Caixeiro Viajante
Narizes empinados no ar congelado dos espelhos. Labirintos de andares interrompidos e salas ocultas. O balançar embala o estômago satisfeito e faz o sol embelezar melhor.
Não caias, segura. Apoia-te a mim. Não há problema, estamos todos num desmoronar de camera lenta. O monumento do nosso orgulho desaba aos poucos, como prédio de Veneza inundado. Imagem patética.
Queria ser caixeiro-viajante. E ser feliz. Absorver as cores do Tango e as mãos que saem da areia, dizer um bom giorno e um buon dia e causar sorrisos derretidos. Estão a cair os muros e eu só precisava de um pouquinho mais de cimento.
Não é mão-de-obra que falta, não. É dificuldade de equilíbrio no abanar do navio em alto mar. São 3mil pessoas. Só uma se aguenta.
O comandante fala um italiano tímido e diz por trás da sua fortaleza. Eu consegui. O balançar não me afecta mais.
Jornalistas, atentem! Preparem já o lead e punch final. O título é obvio.
“Caixeiro-viajante: a profissão do futuro”
Não caias, segura. Apoia-te a mim. Não há problema, estamos todos num desmoronar de camera lenta. O monumento do nosso orgulho desaba aos poucos, como prédio de Veneza inundado. Imagem patética.
Queria ser caixeiro-viajante. E ser feliz. Absorver as cores do Tango e as mãos que saem da areia, dizer um bom giorno e um buon dia e causar sorrisos derretidos. Estão a cair os muros e eu só precisava de um pouquinho mais de cimento.
Não é mão-de-obra que falta, não. É dificuldade de equilíbrio no abanar do navio em alto mar. São 3mil pessoas. Só uma se aguenta.
O comandante fala um italiano tímido e diz por trás da sua fortaleza. Eu consegui. O balançar não me afecta mais.
Jornalistas, atentem! Preparem já o lead e punch final. O título é obvio.
“Caixeiro-viajante: a profissão do futuro”
09 enero 2008
precariamente Noite
Noite.
Noite vagabunda, irresponsável, secreta.
Vivo e respiro para ela. Para aqueles arrepios escondidos debaixo do cobertor. A luz artificial que faz brilhar os momentos históricos de revelações estonteantes. O zumbido constante intercalados com o soluçar da máquina. Melodia nostálgica de situações precárias.
Os minutos arrastam-se no seu vagar preguiçoso. As horas, diamantes lapidados na perfeição. Vem, chega rápido. Pingos de águas caem do tecto e a tortura começa a ensandecer-me.
Já está quase ai, tem calma.
Imagino, com sorriso desbotado a pauta do dia. As risadas e as trevas, o esconder e o proibido. Talvez um ensaio do grande clímax. Não, talvez precise arranjar o cabelo, ou aprontar o quarto.
O melhor é ver se está tudo a funcionar.
Já vejo estrelas.
Parece que hoje não haverá Noite.
Noite vagabunda, irresponsável, secreta.
Vivo e respiro para ela. Para aqueles arrepios escondidos debaixo do cobertor. A luz artificial que faz brilhar os momentos históricos de revelações estonteantes. O zumbido constante intercalados com o soluçar da máquina. Melodia nostálgica de situações precárias.
Os minutos arrastam-se no seu vagar preguiçoso. As horas, diamantes lapidados na perfeição. Vem, chega rápido. Pingos de águas caem do tecto e a tortura começa a ensandecer-me.
Já está quase ai, tem calma.
Imagino, com sorriso desbotado a pauta do dia. As risadas e as trevas, o esconder e o proibido. Talvez um ensaio do grande clímax. Não, talvez precise arranjar o cabelo, ou aprontar o quarto.
O melhor é ver se está tudo a funcionar.
Já vejo estrelas.
Parece que hoje não haverá Noite.
04 enero 2008
pensamento rebelde
É como se de repente a corda se rompesse, o vidro rachasse e a cegonha caísse.
A voz se exalta e o ardor dos olhos começa a incomodar.
Já não há como discorrer pensamentos neste raciocínio travado. A cabeça respira um batimento cardíaco nervoso e a boca contém-se, costurada pela educação de anos.
Dizem que nos podam. Eu diria que costuram as nossas acções.
Pensamento rebelde, arisco, matreiro. Mas na hora, no xis do momento em que o timbre irá ousar e a língua se sujar, a boca retrai-se com o sal da água. Resseca, foge, esconde-se entre os dentes de cáries de doces comidos às escondidas.
E ai surge o sorriso esmaltado. O brilho cínico. “É melhor reflectires”.
Mais uma vez de volta aos pensamentos.
Desperdiçaste a tua chance.
Cobarde.
A voz se exalta e o ardor dos olhos começa a incomodar.
Já não há como discorrer pensamentos neste raciocínio travado. A cabeça respira um batimento cardíaco nervoso e a boca contém-se, costurada pela educação de anos.
Dizem que nos podam. Eu diria que costuram as nossas acções.
Pensamento rebelde, arisco, matreiro. Mas na hora, no xis do momento em que o timbre irá ousar e a língua se sujar, a boca retrai-se com o sal da água. Resseca, foge, esconde-se entre os dentes de cáries de doces comidos às escondidas.
E ai surge o sorriso esmaltado. O brilho cínico. “É melhor reflectires”.
Mais uma vez de volta aos pensamentos.
Desperdiçaste a tua chance.
Cobarde.
Sim
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Ricardo Reis
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Ricardo Reis
28 diciembre 2007
533 mil
Está tão perto.
Vejo-o ali, depois do terceiro buraco à esquerda. Cuidado para não cair.
Está tão perto que me suga como um aspirador de folhas das experiências científicas. Olha-me com um sorriso tentador. Uma prostituta eterna.
Vicias-me em ti e nas tuas promessas de amanhã. De uma vida passada que foi e não volta e que afinal não era assim tão apetitosa como o bolinho de carne e o molho de tomate. Ou talvez fosse até melhor. Um melhor mais açucarado, com mais gosto de uma cozinha de calorias baixas e bolachas integrais com água.
Tentas-me como se de um sonho de tratasse. Como se a cortina laranja e as almofadas coloridas me trouxessem um conforto extraviado que na verdade de perdeu na indelével inconsistência da plenitude.
Pára de me enganar seu chulo comedor de mentes.
Eu bem sei que não estas assim tão perto.
Ainda faltam alcançar muitos longes pra esse perto se aproximar.
A prefeitura diz que fecha 553 mil buracos por ano.
Vem daí a fama dos políticos
Vejo-o ali, depois do terceiro buraco à esquerda. Cuidado para não cair.
Está tão perto que me suga como um aspirador de folhas das experiências científicas. Olha-me com um sorriso tentador. Uma prostituta eterna.
Vicias-me em ti e nas tuas promessas de amanhã. De uma vida passada que foi e não volta e que afinal não era assim tão apetitosa como o bolinho de carne e o molho de tomate. Ou talvez fosse até melhor. Um melhor mais açucarado, com mais gosto de uma cozinha de calorias baixas e bolachas integrais com água.
Tentas-me como se de um sonho de tratasse. Como se a cortina laranja e as almofadas coloridas me trouxessem um conforto extraviado que na verdade de perdeu na indelével inconsistência da plenitude.
Pára de me enganar seu chulo comedor de mentes.
Eu bem sei que não estas assim tão perto.
Ainda faltam alcançar muitos longes pra esse perto se aproximar.
A prefeitura diz que fecha 553 mil buracos por ano.
Vem daí a fama dos políticos
27 diciembre 2007
rolha de Natal
Todos temos aquele primo que está acima do peso e o outro que nunca se deu bem na escola. O anti-social e o que todos suspeitam (ou já suspeitaram) ser gay. Aquela tia que quando éramos pequenos dos dava os melhores presentes e chocolates e que agora “pois, está bem”. O tio afastado que nos faz rir e pensar “quem sabe eu tenha alguns dos seus genes”.
Não dá para evitar aquele pai que conta sempre as mesmas histórias e que queríamos tanto que tivesse rebolado mais connosco na relva. Uma mãe menos espalhafatosa, um irmão que fosse um pouquinho menos genial.
Não há como maquilhar.
Mas há um dia. Um dia só - que às vezes se traduz em alguns segundos fugazes - em que não trocávamos por nada os erros de português da avó estrangeira, nem as risadas barulhentas da prima do tio que veio por acaso. É nesse dia, no meio dos doces desmilinguidos e dos cacos de vidro no chão, que os oito mil quilómetros compensam. Culminam numa euforia de presentes, videogames antigos, de pistas, elogios e quilos de flashes fotográficos.
Este ano, levei com a rolha do champanhe na cabeça. Dizem que dá boa sorte. Eu digo que é mais um galo a cantar de madrugada.
Não dá para evitar aquele pai que conta sempre as mesmas histórias e que queríamos tanto que tivesse rebolado mais connosco na relva. Uma mãe menos espalhafatosa, um irmão que fosse um pouquinho menos genial.
Não há como maquilhar.
Mas há um dia. Um dia só - que às vezes se traduz em alguns segundos fugazes - em que não trocávamos por nada os erros de português da avó estrangeira, nem as risadas barulhentas da prima do tio que veio por acaso. É nesse dia, no meio dos doces desmilinguidos e dos cacos de vidro no chão, que os oito mil quilómetros compensam. Culminam numa euforia de presentes, videogames antigos, de pistas, elogios e quilos de flashes fotográficos.
Este ano, levei com a rolha do champanhe na cabeça. Dizem que dá boa sorte. Eu digo que é mais um galo a cantar de madrugada.
20 diciembre 2007
19 diciembre 2007
não estavas...
Acordei com os ponteiros ao contrário. O horário media umas horas estranhas e as ramelas desprendiam-se so-no-len-ta-men-te do cantinho dos olhos. Caiam águas despertadas na almofada e aquele grito de pássaro denunciava o sol. Quando abri os olhos vi fantasmas a passearem-se no quarto. Falavam comigo na língua das preguiças e afofavam a almofada para descansar melhor. Pescava sonhos acordados de olhos quase epilépticos, quase despretenciosamente reais.
À esquerda a parede. Faz figas, rezas e macumbas. Espreme as rugas da cara.
Mas à direita estava o cobertor de leopardo e o lenço perfumado.
Mais uma vez um sonho.
Quem sabe um dia tudo volte a ser real.
À esquerda a parede. Faz figas, rezas e macumbas. Espreme as rugas da cara.
Mas à direita estava o cobertor de leopardo e o lenço perfumado.
Mais uma vez um sonho.
Quem sabe um dia tudo volte a ser real.
14 diciembre 2007
Ladra de palavras
Há pessoas que chegam e brilham.
Elas aparecem com o seu jeitinho de pai natal disfarçado, gesticulam e aumentam o volume da casa.
Fazem os sorrisos adormecerem nos lábios e todos quererem ficar para tomar mais uma caneca de chá.
Ela é assim. Abraça-me com o seu ar de praia e deixa escapar do seu rosto redondinho “que saudades”.
Como não se render à sua gargalhada tosca e ao seu jeito de dizer “acho que estas muito magra”? Ela “acha” sempre alguma coisa.
Valeu lhe a opinião neste mundo de viagens e mudanças de rota. Na vida da discriminação acentual. Ela e o seu charme genuíno que conquista a senhora das revistas, o moço da farmácia e o secretário do medico. Ela também já foi disso e, na verdade, já foi de tudo. Nunca se achou.
Preferiu fingir-se de perdida numa família cheia de mapas e direcções. Agitar o ritmo desta casa sem música e cheia de “a conjuntura do país está visivelmente favorável”. Ela não gosta dessas coisas nem do telejornal pois “passa na hora da minha novela”. Mas ensina à filha pequena: “é preciso ver novela para depois estares dentro das conversas”.
No seu mundo fala-se de novela das oito e da coitada da Karen Maria que foi traída pelo Mário Roberto. “Um absurdo!”. Por cá também. As fofocas vão desde o Tratado Lisboa à cassação do Kassab. Inaceitável.
Era esse brilho de decibéis intoleráveis de que estava a faltar. Esses que fazem tatuagem na cabeça e olhares melancólicos.
E ontem ainda teve a audácia de me dizer do nada “Sem a ti a casa não tem graça nenhuma”.
Elas aparecem com o seu jeitinho de pai natal disfarçado, gesticulam e aumentam o volume da casa.
Fazem os sorrisos adormecerem nos lábios e todos quererem ficar para tomar mais uma caneca de chá.
Ela é assim. Abraça-me com o seu ar de praia e deixa escapar do seu rosto redondinho “que saudades”.
Como não se render à sua gargalhada tosca e ao seu jeito de dizer “acho que estas muito magra”? Ela “acha” sempre alguma coisa.
Valeu lhe a opinião neste mundo de viagens e mudanças de rota. Na vida da discriminação acentual. Ela e o seu charme genuíno que conquista a senhora das revistas, o moço da farmácia e o secretário do medico. Ela também já foi disso e, na verdade, já foi de tudo. Nunca se achou.
Preferiu fingir-se de perdida numa família cheia de mapas e direcções. Agitar o ritmo desta casa sem música e cheia de “a conjuntura do país está visivelmente favorável”. Ela não gosta dessas coisas nem do telejornal pois “passa na hora da minha novela”. Mas ensina à filha pequena: “é preciso ver novela para depois estares dentro das conversas”.
No seu mundo fala-se de novela das oito e da coitada da Karen Maria que foi traída pelo Mário Roberto. “Um absurdo!”. Por cá também. As fofocas vão desde o Tratado Lisboa à cassação do Kassab. Inaceitável.
Era esse brilho de decibéis intoleráveis de que estava a faltar. Esses que fazem tatuagem na cabeça e olhares melancólicos.
E ontem ainda teve a audácia de me dizer do nada “Sem a ti a casa não tem graça nenhuma”.
09 diciembre 2007
tudo
A cabeça lateja uma dor traiçoeira de mais uma noite pensativa. Sonambolei no corredor sem saber o que fazer, perdida na casa do chão de pedra e nos gritos do bem-te-vi.
Esbarraste em mim.
Tropeçaste naquele mundo só meu de lágrimas de alegria e voz de rapariga durona. Escondeste-te no meu bolso com cuidado para não ficar com os pés de fora.
Sorrias sempre que eu me enganava, me esquecia ou fazia uma rabugisse imperdoável. Perdoavas. De olhos espremidos e certezas asseguradas.
Só não podia haver próxima vez.
Nunca houve.
Porque no dia seguinte viviam-se ressacas de embriaguez sentimental, de sussurros nocturnos em areais semi-iluminados.
Mas fui te alimentando e deixando-te pesado. Gordo de churros com doce de leite, balas de goma e gelado com cobertura de chocolate. Reclamavas de frio nos pés e que o vento deixava o teu cabelo despenteado.
O bolso rasgava-se, como a borboleta preta a sobrevoar a cozinha. Costurei, reforcei, três e quatro pontos duplos. Nada.
Enganei-me.
Queria dizer, tudo.
Esbarraste em mim.
Tropeçaste naquele mundo só meu de lágrimas de alegria e voz de rapariga durona. Escondeste-te no meu bolso com cuidado para não ficar com os pés de fora.
Sorrias sempre que eu me enganava, me esquecia ou fazia uma rabugisse imperdoável. Perdoavas. De olhos espremidos e certezas asseguradas.
Só não podia haver próxima vez.
Nunca houve.
Porque no dia seguinte viviam-se ressacas de embriaguez sentimental, de sussurros nocturnos em areais semi-iluminados.
Mas fui te alimentando e deixando-te pesado. Gordo de churros com doce de leite, balas de goma e gelado com cobertura de chocolate. Reclamavas de frio nos pés e que o vento deixava o teu cabelo despenteado.
O bolso rasgava-se, como a borboleta preta a sobrevoar a cozinha. Costurei, reforcei, três e quatro pontos duplos. Nada.
Enganei-me.
Queria dizer, tudo.
04 diciembre 2007
Cai pulseira, cai
Toca telefone, toca.
Deito-me na cama num descansar hirto, numa postura séria de quem finge descontracção. Imagino como será a conversa.
Pergunto e respondo, com um ar superior, de quem irá ponderar o convite. Negoceio.
Há que saber dar-se valor.
Tenho de tomar cuidado para estar sempre com o aparelho em alerta. Talvez faça dele um acessório de moda, ou implante aqueles chips que se atendem com o dente.
Prioridade: ouvir o toque.
Já decidi que não vou mais a concertos, nem discotecas, nem pubs de música alta.
Atenção: o ouvido é o teu melhor órgão.
Toca telefone, toca.
Os dedos tremem no enviar. Formigas sobem-me pelo umbigo a cada chamada não atendida. “Eram eles, eu sei”.
Mas se fossem o destino estava apenas a brincar comigo. Este grande sábio que agora parece ser gay. Um dia disse que gostava de ter um filho homossexual. As pessoas riram-se.
Divago para não me lembrar que o meu olho direito está a piscar aqueles tremeliques que mais ninguém vê. Fujo para não ouvir mais uma vez a pergunta “já tocou?”
Mas, se um dia ele tocar, acho que vou guardar o toque para mim. E apenas os mais atentos irão notar. Porque o verdadeiro amigo repara quando a pulseira cai.
Deito-me na cama num descansar hirto, numa postura séria de quem finge descontracção. Imagino como será a conversa.
Pergunto e respondo, com um ar superior, de quem irá ponderar o convite. Negoceio.
Há que saber dar-se valor.
Tenho de tomar cuidado para estar sempre com o aparelho em alerta. Talvez faça dele um acessório de moda, ou implante aqueles chips que se atendem com o dente.
Prioridade: ouvir o toque.
Já decidi que não vou mais a concertos, nem discotecas, nem pubs de música alta.
Atenção: o ouvido é o teu melhor órgão.
Toca telefone, toca.
Os dedos tremem no enviar. Formigas sobem-me pelo umbigo a cada chamada não atendida. “Eram eles, eu sei”.
Mas se fossem o destino estava apenas a brincar comigo. Este grande sábio que agora parece ser gay. Um dia disse que gostava de ter um filho homossexual. As pessoas riram-se.
Divago para não me lembrar que o meu olho direito está a piscar aqueles tremeliques que mais ninguém vê. Fujo para não ouvir mais uma vez a pergunta “já tocou?”
Mas, se um dia ele tocar, acho que vou guardar o toque para mim. E apenas os mais atentos irão notar. Porque o verdadeiro amigo repara quando a pulseira cai.
03 diciembre 2007
o samba dos focas
As consoantes mudas estão encarceradas na mais longínqua prisão. O “tu” foi para o paredão de fuzilamento, junto com o “connosco”, o “negoceio”, o “autoclismo” e o “telemóvel”. A minha cabeça deixou de lado as sirenes de alerta que disparavam sempre que eu lia “ação”, “inadimplência” ou “ególatra”. Agora penso num sotaque neutro, cheio de “todo o mundo”, “legal”, “galera” e “ponto de ônibus”.
Esqueci de me apresentar. Mas é fácil. O Chico Ornellas costuma descrever a 18ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado da seguinte forma: “São trinta alunos. Quinze de São Paulo e quinze de fora. E uma estrangeira, a Marina, que veio de Portugal”. Essa sou eu.
“Portuguesa de araque”, me descreveu uma vez um foca. A brincadeira acabou por se tornar a minha mais perfeita definição. Brasileira-portuguesa ou portuguesa-brasileira? Depois desses três meses, prefiro deixar a resposta em branco.
Agora me parece tão distante o primeiro dia em que o Luiz Carlos Ramos nos disse: “Eu vou passar uma pauta para vocês.” E eu franzi a testa e pensei: “O que será que é uma pauta?”
Mas esse dia passou rápido. A família dos focas me acolheu e me pegou para criar. Com paciência e determinação me alfabetizaram a este país e esticaram os meus horizontes. Foram noites sem dormir pensando na matéria que tinha que entregar às 23:59, analisando os possíveis erros e repassando as dicas de texto e regras do manual.
Propaganda enganosa. Isto não é um curso, é uma familia-escola. A forca e o chicote pendurados na sala, bem tentam amedrontar os focas mais ingênuos. Mas bastaram alguns dias para entendermos que na escola dos focas, a aprendizagem tem gosto de churrasco e noites de violão. Ritmo de samba-enredo cantado num bom paconhol.
Foi necessário atravessar o oceano para conhecer o meu vizinho Paco Sanchez, o “pai” do já famoso paconhol, e aprender a importância de um texto ousado, porque afinal, “No pasa nada, e se pasa, que importa? E se importa, que pasa?”.
Agora o samba dos focas está chegando ao fim. Os meus pés continuam se mexendo freneticamente ao ritmo de 12 horas por dia de redação, sem fins-de-semana ou feriados. Ainda não sei sambar muito bem, mas uma coisa eu sei: Samba, que é samba, não tem compasso final. E foca, que é foca, nunca vai desistir de sambar.
Esqueci de me apresentar. Mas é fácil. O Chico Ornellas costuma descrever a 18ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado da seguinte forma: “São trinta alunos. Quinze de São Paulo e quinze de fora. E uma estrangeira, a Marina, que veio de Portugal”. Essa sou eu.
“Portuguesa de araque”, me descreveu uma vez um foca. A brincadeira acabou por se tornar a minha mais perfeita definição. Brasileira-portuguesa ou portuguesa-brasileira? Depois desses três meses, prefiro deixar a resposta em branco.
Agora me parece tão distante o primeiro dia em que o Luiz Carlos Ramos nos disse: “Eu vou passar uma pauta para vocês.” E eu franzi a testa e pensei: “O que será que é uma pauta?”
Mas esse dia passou rápido. A família dos focas me acolheu e me pegou para criar. Com paciência e determinação me alfabetizaram a este país e esticaram os meus horizontes. Foram noites sem dormir pensando na matéria que tinha que entregar às 23:59, analisando os possíveis erros e repassando as dicas de texto e regras do manual.
Propaganda enganosa. Isto não é um curso, é uma familia-escola. A forca e o chicote pendurados na sala, bem tentam amedrontar os focas mais ingênuos. Mas bastaram alguns dias para entendermos que na escola dos focas, a aprendizagem tem gosto de churrasco e noites de violão. Ritmo de samba-enredo cantado num bom paconhol.
Foi necessário atravessar o oceano para conhecer o meu vizinho Paco Sanchez, o “pai” do já famoso paconhol, e aprender a importância de um texto ousado, porque afinal, “No pasa nada, e se pasa, que importa? E se importa, que pasa?”.
Agora o samba dos focas está chegando ao fim. Os meus pés continuam se mexendo freneticamente ao ritmo de 12 horas por dia de redação, sem fins-de-semana ou feriados. Ainda não sei sambar muito bem, mas uma coisa eu sei: Samba, que é samba, não tem compasso final. E foca, que é foca, nunca vai desistir de sambar.
29 noviembre 2007
O futuro presente de um passado longínquo
Nunca fui boa com passados. Persiste em mim certa dificuldade de entender o que já foi e o que ainda é. O presente arrasta-se numa lentidão de sinais proibidos, de linhas brancas riscadas no chão, de compassos de espera em músicas electronicas.
E a cada recomeço é impossível apagar o que fica para trás.
Ele surge e volta e escapa-se do armário onde o tranquei. O bichinho rói a madeira e esquiva-se das ratoeiras. Esconde-se em caras conhecidas e sentimentos familiares.
O ano está a chegar ao fim.
Com ele as listas e as cores simbólicas, as prioridades e os objectivos.
E o que é futuro e o que é presente? O que é futuro passado no presente anterior? As ilusões e os sonhos rodopiam a cabeça. A lama do chão desliza e faz cair.
Papel e caneta. Teclado e tela branca. Vamos lá.
E a cada recomeço é impossível apagar o que fica para trás.
Ele surge e volta e escapa-se do armário onde o tranquei. O bichinho rói a madeira e esquiva-se das ratoeiras. Esconde-se em caras conhecidas e sentimentos familiares.
O ano está a chegar ao fim.
Com ele as listas e as cores simbólicas, as prioridades e os objectivos.
E o que é futuro e o que é presente? O que é futuro passado no presente anterior? As ilusões e os sonhos rodopiam a cabeça. A lama do chão desliza e faz cair.
Papel e caneta. Teclado e tela branca. Vamos lá.
25 noviembre 2007
direitos de autor
Planos equívocos em calendário incertos, dúvidas e ilusões que atormentam o pensamento. Os dias riscam-se e o relógio alerta: o futuro é um monstro sem face e violento.
Os meses rastejam numa agonia inesperada, remoem os órgãos e embaciam os cabelos. Os olhos, coitados, são os que mais sofrem. Eles e a sua visão futura incompleta.
O pensamento torna-se algo impuro. É difícil contornar suas viagens. A luz falha, seca e faz birra. Resiste. E hoje brilha num tom mais forte.
Todas as caras que vejo são dela. A luz que se esconde atrás das escadas, que grita por socorro com olhos de malária, que teima, teima, teima mas não pára.
Em cada dia e cada noite, o duelo se intensifica, os soldados se agridem e os heróis são condecorados.
Os mortos e os feridos recuperam-se. E as chamas permanecem ainda inabaladas.
Os meses rastejam numa agonia inesperada, remoem os órgãos e embaciam os cabelos. Os olhos, coitados, são os que mais sofrem. Eles e a sua visão futura incompleta.
O pensamento torna-se algo impuro. É difícil contornar suas viagens. A luz falha, seca e faz birra. Resiste. E hoje brilha num tom mais forte.
Todas as caras que vejo são dela. A luz que se esconde atrás das escadas, que grita por socorro com olhos de malária, que teima, teima, teima mas não pára.
Em cada dia e cada noite, o duelo se intensifica, os soldados se agridem e os heróis são condecorados.
Os mortos e os feridos recuperam-se. E as chamas permanecem ainda inabaladas.
24 noviembre 2007
Danguetis
Para ela nuguets é danguetis, self-service é servi-servi e nectarina é naftalina.
Todos já estamos habituados ao seu linguarejar atrapalhando, tropeçando nas palavras sem nunca cair. E quando, timidamente, a corrigimos, ela ri uma gargalhada profunda e balbucia em ritmo de tarantela. “É isso mesmo. É que eu não sei dizer direito”.
Ninguém resiste àquele rosto de menina que ainda está a aprender a viver, às birras de criança saída do berço, às manias aprendidas na televisão.
- Tchau. Estou indo.
E lá vem ela atrás de mim, num passo de pinguim apressado que reclama do calor e do frio.
- Pegou um casaco? E a maçã?
Foi assim que ela aprendeu a adaptar-se ao mundo. Fazendo da correria uma gigantesca rotina de obrigações e prazeres que desfilam diante de si.
- Já chegou? Ah é, você chega mais cedo na quinta-feira, né?
Não. Mas de que adianta contar-lhe que hoje o professor faltou, que o trabalho apertou ou que o cansaço bateu?
- Hoje é quinta, tem macarrão. Tá no forno é só aquecer.
Fala com os “pés para o alto” na sua posição de novela mexicana. Diz, despreocupadamente, como se acreditasse mesmo que eu seria capaz de aquecer sozinha o jantar. “Ah, deixa que eu aqueço, vai” acrescenta numa espontaneidade teatral em tom de mãe benevolente. E eu deixo sempre.
É então que me conta do calor e do frio. E do tio que se magoou e da tia que está velha. Detesta velhos. Logo ela que nunca se senta para comer “porque comer sentado engorda”.
- Já são dais, vou dormir.
- Dez, nonna.
E lá vem a gargalhada de novo. Com as bochechas rosadas e um abanar dos cabelos encaracolados.
-Amanhã é sexta. É o dia que você acorda cedo, né?
Buona notte. Sogni d'oro.
Todos já estamos habituados ao seu linguarejar atrapalhando, tropeçando nas palavras sem nunca cair. E quando, timidamente, a corrigimos, ela ri uma gargalhada profunda e balbucia em ritmo de tarantela. “É isso mesmo. É que eu não sei dizer direito”.
Ninguém resiste àquele rosto de menina que ainda está a aprender a viver, às birras de criança saída do berço, às manias aprendidas na televisão.
- Tchau. Estou indo.
E lá vem ela atrás de mim, num passo de pinguim apressado que reclama do calor e do frio.
- Pegou um casaco? E a maçã?
Foi assim que ela aprendeu a adaptar-se ao mundo. Fazendo da correria uma gigantesca rotina de obrigações e prazeres que desfilam diante de si.
- Já chegou? Ah é, você chega mais cedo na quinta-feira, né?
Não. Mas de que adianta contar-lhe que hoje o professor faltou, que o trabalho apertou ou que o cansaço bateu?
- Hoje é quinta, tem macarrão. Tá no forno é só aquecer.
Fala com os “pés para o alto” na sua posição de novela mexicana. Diz, despreocupadamente, como se acreditasse mesmo que eu seria capaz de aquecer sozinha o jantar. “Ah, deixa que eu aqueço, vai” acrescenta numa espontaneidade teatral em tom de mãe benevolente. E eu deixo sempre.
É então que me conta do calor e do frio. E do tio que se magoou e da tia que está velha. Detesta velhos. Logo ela que nunca se senta para comer “porque comer sentado engorda”.
- Já são dais, vou dormir.
- Dez, nonna.
E lá vem a gargalhada de novo. Com as bochechas rosadas e um abanar dos cabelos encaracolados.
-Amanhã é sexta. É o dia que você acorda cedo, né?
Buona notte. Sogni d'oro.
19 noviembre 2007
Bílis de lesma derretida
A incerteza come-me as costuras. Bichinho vagaroso, lesma indolente, apática, preguiçosa. Não se limita a roer o fio e a desfazer o nó. Claro que não. Lesma pateta, imbecil. Ela vai ao casulo e saboreia-o com água a escorrer-lhe pelos beiços.
A minha barriga ronca um enjoo intragável e o corpo verga-se numa angústia sonora de choro seco e dor pontiaguda.
Em rodopio a cabeça segue o exemplo e viaja em ruas esburacadas e em rios de asfalto com esgoto entupido. A culpa é do prefeito. Mais uma vez.
O pecado nunca é nosso. É da mão invisível que não nos tocou, é da oportunidade falha, da roupa mal escolhida, daquela piadinha que não pegou.
Sou pura bílis e lesma desfeita. Sinto-a a romper-me os tecidos, a fazer de mim sanfona popular.
Não caibo no armário porque está grande e está pequeno. Não consigo decidir com gordura efervescente a borbulhar-me a cabeça.
Acho que estou a entrar em erupção.
Perigo.
Saiam das vossas casas. A lava costuma desfazer lares, destruir cidades, corroer corpos humanos, um a um com um sorriso diabólico de satisfação.
Este é o último aviso.
A minha barriga ronca um enjoo intragável e o corpo verga-se numa angústia sonora de choro seco e dor pontiaguda.
Em rodopio a cabeça segue o exemplo e viaja em ruas esburacadas e em rios de asfalto com esgoto entupido. A culpa é do prefeito. Mais uma vez.
O pecado nunca é nosso. É da mão invisível que não nos tocou, é da oportunidade falha, da roupa mal escolhida, daquela piadinha que não pegou.
Sou pura bílis e lesma desfeita. Sinto-a a romper-me os tecidos, a fazer de mim sanfona popular.
Não caibo no armário porque está grande e está pequeno. Não consigo decidir com gordura efervescente a borbulhar-me a cabeça.
Acho que estou a entrar em erupção.
Perigo.
Saiam das vossas casas. A lava costuma desfazer lares, destruir cidades, corroer corpos humanos, um a um com um sorriso diabólico de satisfação.
Este é o último aviso.
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