14 mayo 2009

Soldado

Sou como aquele soldado húngaro que se gabava dos seus uniformes e dos hinos harmoniosos, dos sapatos engraxados, do batalhão organizado e das armas detalhadamente polidas. Até ao dia em que chegou a guerra e ele descobriu que nunca tinha aprendido a lutar.

07 mayo 2009

A otra cosa mariposa

Sai vício, sai.
Já te pedi de todas as maneiras que sabia, já chorei lágrimas de mendigagem, já implorei, já cedi e já te desprezei.
Por que é que então não abandonas, de uma vez, este corpo de que te fizeste escravo? Porque não migras para um novo paradeiro e conquistas outro coração vulnerável.
Preciso fechar-me numa casa, acorrentar-me à minha cama e sofrer, dor a dor, todas as torturas desta desintoxicação.
Sai vício, sai.
Leva contigo a tua voz aconchegante, as horas de conversas-gargalhadas tidas em sussurro num ouvido qualquer. Vai-te embora e arrasta os flashs de memória, o sorriso de cada pensamento teu, a perfeição daquele dia passado, preguiçosamente, à beira-mar.
Sai, imploro-te, sai.
Inscreve-te numa maratona e foge.
Mas mais rápido. Por favor.

06 mayo 2009

O eterno escavar

De repente toda a sua vida transformou-se num eterno escavar na areia. Um buraco mais e mais profundo que o asfixiava gradualmente. Uma cova sem fim, que a cada movimento o soterrava um grão mais e o aproximava da fatalidade que vinha omitindo há tanto tempo. Ao dar-se conta, as palavras morderam-lhe os lábios, as lágrimas e os soluços escaparam dissonantes em resposta. Saiu como um louco daquele buraco e instalou-se num cubículo qualquer.
Ali a vida era mais segura. Ali, podia menosprezar os penosos degraus da escadaria da aprendizagem e as regras mais elementares de uma grandiosidade futura. Ali podia passar os dias entre lágrimas e pensamentos. E se falhasse, não teria grande relevância porque, pelo menos, não tinha sequer tentado.

05 mayo 2009

A viagem.

Enquanto a vida passa à velocidade de um cronómetro de segundos apressados, eu vou fazendo notas mentais para não me esquecer daquele olhar, do comentário mal conseguido, da história da amiga do vizinho que tem um gato novo. Os meus apontamentos vão acumulando-se em resmas de folhas coloridas que me pesam na cabeça. Mas não importa, há que anotar tudo para não esquecer nada. Anotar tudo, para poder contar depois.
Depois como daquelas vezes em que ias de viagem ou passavas a noite em casa de um amigo. Depois como um “já te ligo daqui a bocado”.
Depois como se houvesse realmente um depois.
Mas parece que depois do depois não há nada.
É um silêncio total, cuja banda sonora são os clicks desesperados nos ícones sociais que outrora me conectaram a ti. Um pequeno suspiro à espera do dia em que me deixem, finalmente, dizer: “Que tal essa viagem? Conta-me tudo.”

30 abril 2009

Caroços de tangerina

Acreditava que seria uma espiral perfeita, eterna, colorida e brilhante, como as tardes de domingo a jogar Sonic na Sega Saturn. Que aquele cheirinho cítrico de fruta descascada iria continuar impregnado na nossa pele, recém queimada de sol. Via-nos numa fotografia congelada de sorrisos extravagantes, num passado que nunca chegaria ao futuro banal de passividade amorfa.
Mas foram comendo as nossas costuras e, aos poucos, deixámos de ser capazes de remendar-nos. Andávamos rotos pelas ruas sinuosas de um país estrangeiro, em que naquela imagem, reflectida nos vidros das lojas de marca, não éramos nós que aparecíamos. O meu nariz já não cheirava os caroços de tangerina engolidos ao acaso, nem aquele perfume que um dia deixaste no lençol.
Nós éramos eu e tu. E isso já não me servia.
Neguei 29 vezes e à trigésima disse: chega.
Agora chegou e chegámos nós aqui. Sem saber muito bem se preferimos o 29 ou o 31.

23 abril 2009

All-star

Não quis olhar. Congelei-te numa imagem e fechei os olhos. A luz doía muito e mostrava um filme serie B que falava de um homem que se queria compor, que lutava por encontrar o tom certo, a nota perfeita, afinada, ritmada a uma melodia pré estabelecida. Guião medíocre. Apertei mais os olhos e respirei.
Aqueles não éramos nós. E os nossos ouvidos sangravam de ferida aberta com remédio errado. A voz tremia a cada piada mal conseguida, a cada palavra engolida com miolo de pão.
Tu és aquele all-star roto com o dedo de fora. És o sapato que se sabe lixo e mesmo assim, heróico, resiste até ao fim da viagem. Sem descompor-se, sem nunca desmaterializar.
E eu sou só um acompanhante desse all-star de caveira desbotada. Sigo, cega, os seus passos. Porque há que protege-lo. Custe o que custar.

a coleira

Penso naqueles dias em que a vida era um constante count-down de sacos de goma e museus de ciência. Olho à minha volta e estremeço com os sorrisos derretidos de felicidade, com os lugares comuns de satisfação, com os meus pés, sozinhos, metidos debaixo da areia.
Agora tudo o que eu queria era sair, libertar-me destas amarras de material indestrutível. Construir um novo eu, um que soubesse voar longe e regressar com as suas conquistas. Quero ser pássaro predador, mas há algo que me prende à terra, uma coleira incómoda que amarra as minhas asas e diz-me baixinho que a liberdade é sofrimento.

20 abril 2009

Liliputiense

Sou uma formiga na fila para conseguir um grão de açúcar. Um pontinho negro em busca de uma cor complementar.
Sou formiga preta e medrosa, sempre expectante de quando chegará a dita pisadela. Quando esmagar-me-ão com uma sola de sapato lamacenta ou um salto agulha de uma tia afectada qualquer?
E do pisão ao espatifamento total, um segundo. Assim, puff.
Tudo porque hoje apresentei-me à minha essência numa entrada de dicionário. Respirei fundo e pensei: “Até é uma palavra engraçada. Parece-se com uma formiga”

18 abril 2009

Estás sozinha. Mergulhada em ti mesma num mundo egoísta no qual nunca aprendeste a viver. O teu umbigo cresceu, a tua cara mudou e a tua roupa ganhou todo um novo significado. És tu jogada aos leões. Tu sem carro de apoio, lançada a um cenário agreste que faz bolhas nos pés e lesões no joelho.
Meio a coxear, apercebeste-te da dimensão da tua nova existência. Cambaleias, duvidas, dás um passo de segurança para trás. Porque te crês sempre tão corajosa?

16 abril 2009

O tombo

Ela caiu e enquanto tombava via a sua queda em câmara lenta. Tropeçando, pouco a pouco, nas pedras do caminho, ferindo os pés e inclinando-se para a frente, para trás. Resistindo. Mas era inevitável. As forças da gravidade sempre venciam.
Primeiro um pé, depois o outro, uma aterrizagem brilhante, daquelas que fazem pouco barulho e quase não levantam poeira.
De repente, tudo mudou.
Depois de meses a ensaiar aquela queda, apercebeu-se que a genialidade da técnica de pouco lhe valia, pois estava ali, no chão, caída.
Ao nível da baba do cão, da formiga venenosa e da lesta gorda.
O mundo parecia tão grande visto desde baixo.
Grande e assustador.
Foi nesse momento que arriscou e pediu: “Gravidade, dás-me mais uma chance?”

31 marzo 2009

Palavras de silêncio

Escrevi no silêncio o que não tive coragem de falar.
Tu leste-o e agora perguntas-me,
“O que isso quer dizer?”
Eu respondo-te que o que foi emudecido por aí seguirá.
Argumentas então que sem som não há palavras.
E eu grito-te:
“Shhhiiuuu”.

26 marzo 2009

Preciso de uma chave.
A que engolimos naquele dia de verão.
No dia em que caminhávamos com as costas pesadas, o cabelo oleoso e as unhas dos pés sujas. O dia em que não paravas de falar. Em que me contavas histórias de fazer rir e aquelas que me levavam a viajar por sonhos distantes de mãos dadas e pés entrelaçados por baixo da areia de praia. Glup.
O cadeado é um labirinto sem fim. Em que a cada passo há um abismo, a cada obstáculo, um suspiro.
E de pensar que eu já tive essa chave. Era só ter feito click.

25 marzo 2009

O baralho de cartas

Éramos muitos. Falávamos como se fossemos o mesmo, numa complementaridade de defeitos que culminava em caretas de aborrecimento. No fundo, éramos um. E isso incomodava-nos.
No ar sentia-se uma aura de plenitude que se exaltava pelo meio dos dedos entrelaçados, dos olhares cúmplices, da cabeça que, lentamente, se inclinava sobre um ombro mais distraído.
Passeávamos por conversas esquecidas na gaveta, opiniões contraditórias de berros e insultos e carinhos de vermelho corado.
Fingíamo-nos frios, distantes. Intelectuais urbanos com sede de informação. Éramos pequenos, frágeis e estávamos a jogar os quartos de final das partidas de cartas que nos habituámos a começar sempre que uma noite corria mal. Agora tudo estava entrilhado. E, como o previsto, as cartas chegavam quase ao fim.
Mas com o baralho, nunca se sabe.

17 marzo 2009

Fechei os olhos e, sem querer, senti-me mais perto de mim.
Sou o fruto cansaço e das conversas de olhares roubados.
Sou aquilo que me mandam ser, empacotada em vinte quilos de bagagem sem liquidos.
Mas agora, pensando bem, apeteceu-me voltar atrás. Cerrar devagarinho as pestanas para todas que encaixem bem e não embaciem a paisagem.
Sou aquela que vejo de olhos espectantes perdida na escuridão.

08 marzo 2009

Cera de ouvido

Quis falar e não encontrei ouvidos. Quis dizer, mas calei. Quis fazer e desfiz.
Porque tive medo de errar. Outra vez.
Estava de língua grande, cabeça cheia e voz solta. Prendi-a.
Ficou a espreitar do muro, assustadiça, à espera da hora certa. Não chegou.
Tentei fazer o pino, virar o mundo ao contrário. Pôr uma cabeleira colorida e um chapéu pontiagudo. Não funcionou.
Vi um drama pouco dramático e li um livro pouco descritivo. Busquei inspiração em letras coloridas. Não chegou.
Decididamente, hoje o dia não está para mim: os ouvidos têm todos demasiada cera.

07 marzo 2009

Desfazer-me de mim

Sinto o peso do mundo nas costas, no pescoço e a fazer pressão na parte de trás da minha cabeça. Sinto-me pesada.
Vejo os meus passos cada vez mais lentos, arrastados, em busca de um banco para se sentarem. Resisto. E cada palavra, uma pequena faca sangrenta, uma gota menos nos litros que sangue que não me deixam doar. Preciso desfazer-me de mim. Comprar um outro eu em segunda mão. Um eu que tenha menos defeitos, menos calos da vida, cores mais brilhantes e certezas. Acima de tudo, certezas.
Vou à feira da ladra e, em desepero, procuro-me. Entre camisas velhas, roupa suja e vídeos usados. Eu estarei por ali, algures. É só procurar. Acabo por comprar um livro. Para não admitir o fracasso. E, de mansinho, desisto.
Queria ser forte e musculada, mas fizeram-me débil, de saúde instável e cabeça pensativa. Daquelas que não se calam. Chega o dia em que não aguento mais engolir. Esforço-me, mas e o meu corpo regurgita.
“Não devias ter dito isso”, respondem-me. E eu engulo-o. Outra vez. Mais uma vez.
Então hoje resolvi voltar à feira da ladra.
Quem sabe tenha mais sorte.

06 marzo 2009

A Mosca

Quero ter visão estroboscópica. Que a minha fonte de luz se interrompa e eu vá formando o movimento a preto e branco. Aos poucos. Ao meu tempo.
Quero poder dizer que ninguém nunca me vai apanhar. Quero saber fugir, contornar, antecipar. Vou voar e arriscar-me. Sem medo.
Serei mais um anfíbio. Eu sei. Mas com uma encantadora vida pela frente.
Serei poderosa, temida. Se pousar na comida, infecto-a, se adoentar-me propago.
Poderei dizer que fui alguém, que mereci viver, que ajudei a sociedade, que curei a gangrena.
Gostarei de carne morta, já o sei, mas não esconderei essa predilecção. Comerei os defuntos. Como os bichinhos. Serei usada na pesca e na medicina. Tornar-me-ei famosa e ganharei prémios.
E quando me tentarem apanhar, não poderão. Serei mais rápida e jogarei com uma vantagem: terei, finalmente, uma visão de 360º. Tu, comum mortal, só terás 50.
Passado um mês estarei cansada e, heroicamente, deixar-me-ei apanhar, apenas como um acto de compaixão. Para dar alegria àqueles que não conhecem a glorias. Escrever-se-ão livros sobre mim. E as crianças pedirão uma visão estroboscópica para o Natal.

03 marzo 2009

Casa de florista

Saímos de carro azul e tanque cheio, o jantar num saco e um mundo de CDs.
As histórias vinham com dores nos pés, redacções stressadas, entrevistas de rua. Tinham cor de semana de sol e um sorriso impossível de costurar.
As horas passaram animadas e acabaram com um passeio nocturno à beira mar. Eu tinha, finalmente, chegado.
Por ali ainda havia aquele perfume de casa de florista, aquela luz rosada com ar de cinema europeu. Por ali eu continuava a ser aquela menina mimada que fui um dia, aquela amiga sem preocupações, aquela risada mais alta que aguenta a noite toda sem cansar. E eu assim fui. Só para não desiludir.
Esperavam-me confissões, amigos e histórias não contadas. Noites de abraços apertados, de olhares de cumplicidade, de comentários que só a língua mãe pode entender.
E, de repente, já tinha acabado. O carro azul conduzia-nos mais uma vez por estradas bilingues. Na cabeça navegavam conversas de palavras não ditas e outras em que se falou demais, corriam memórias fotográficas daquele olhar, aquela palavra. Por momentos hesitei.
Mas agora olho pela janela e vejo o carro azul parado em frente à casa. Percebo, então, que aí é o seu lugar. Á espera de novas viagens.

19 febrero 2009

Folhas brancas

Tenho o sapato gasto e o gravador sem pilhas. O caderno acabou e a caneta ficou sem tinta. Tenho o bolso vazio, a cabeça com histórias e as pálpebras a fechar. Dói-me o cansaço, os sonhos e o futuro de folhas brancas por escrever.
Quero ser assim. Como eles.
Levar a vida de horas desconexas, falar do ministro como o gato de estimação, entender os problemas do senhor analfabeto e explica-los ao senhor presidente.
Sair e respirar noticias.
Quero falar, conhecer e descobrir. Quero fechar os olhos e escutar teclas, teclas atrás de teclas, numa música apresada de ritmo desfasado. Quero crescer e não me preocupar mais com a ecologia. Mergulhar-me em papéis. Pilhas de papel não reciclado com notinhas em gatafunho de caneta bic azul.
Quero comprar mensalmente packs de canetas bic.
E depois dizem que a paixão não serve. Nem a força de vontade. Falam da crise, da crise e da crise. Fazem delete em todas as linhas que já tinha começado a escrever nas folhas brancas do meu futuro. Enquanto isso vou comprando sapatos. Para quando chegar o momento em que gastar as solas vire uma rotina.

06 febrero 2009

"Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."

Nuno Júdice