Disseste que bom. Contra todas as minhas expectativas disseste que-bom. Assimila, assimila. Q-u-e-b-o-m. B-b-b-o-o-o-m-m-m.
E então congelei.
Lembrei-me de tudo o que tinha anotado para te dizer e acabei por calar, todas as conversas que escrevi na minha cabeça e, instintivamente, apaguei.
E de rascunho em rascunho, construíram-se romances inteiros, auto-estradas de histórias desinteressantes, momentos que moldam a nossa vida. As setas, pela primeira vez, vão em direcções opostas. Radicalmente opostas.
Tu no deserto, eu, nas ondas da praia.
Tu com som e eu com palavras. Tu, indiferente, eu, congelada.
E no meio deste caos averbal, fizemo-nos estranhos.
Desconhecidos do pé à cabeça. Do pensamento à alma.
Ignorados. Incógnitos.
Desprezíveis, talvez.
E foi então que hoje o teu agente secreto falhou. Caiu-te o disfarce, a máscara e a pistola. Esqueceste-te que neste jogo, cada palavra é uma bala. E feriste.
Então apercebi-me que estou a jogar sozinha e que nem sequer és tão sexy como o James Bond.
Apertei o off e guardei o brinquedo no armário.
Quem sabe outro dia.
22 julio 2010
13 julio 2010
Suspiro
Apareceste quando tudo se avisava tão negro. Quando a vida não queria mudar, quando as correntes do passado me faziam feridas nas mãos. Quando, prisioneira, dava aquela batalha como perdida. E então chagaste, tão normal, tão cheio de ti. E, nesse momento, suspirei. E depois suspirei pelo suspiro. E uma vez mais pelo suspiro do suspiro. Meti-me num ciclo vicioso de respiração sonora. E fui feliz.
06 julio 2010
Chauffeur
E de repente estávamos ali, em plena saída do liceo, em pleno “aina men, bueda louco”, em plenas duvidas existências. Porque se ele gosta de mim, mas eu gosto do outro, e o outro gosta dela, então ela no fundo gosta mesmo é do que gosta de mim. Portanto a vida não tem sentido. Existência injusta. E partimos para a ignorância. Bebemos álcool barato e fumamos dois cigarros com uma postura de “quem é que manda aqui?”. Pegamos no primeiro da esquina e buscamos-lhe uma qualidade. De preferência que seja giro, de boas famílias. Mas se aperta o desespero não faz mal, serve que seja mais velho, que, sei lá, conheça os RPs das discotecas. Pronto, está bem, não sejamos tão exigentes. Que tenha um carro, basta que tenha um carro que um chauffeur, precisa-se. Até que um dia pegamos nesse carro, no dito carro do chauffeur improvisado e perdemo-nos no mundo. Fazem-nos uma surpresa adolescente e quando nos damos conta estamos ali, com dores nas costas, sorriso derretido e abraço apertado. Pensamos, preciso arranjar outra desculpa para gostar tanto dele. A do chauffeur não está mais a colar.
Gloriosos tempos de adolescência.
Gloriosos tempos de adolescência.
01 julio 2010
O unicórnio
Há um unicórnio no meu quarto. Sim. Um unicórnio gigante que assombra a minha vida. Um quem sabe um dia que não me deixa descansar. Ele desfila, esbelto, falando e vendendo um futuro feliz. Tem voz doce e tom meloso. Historias viajantes, dia-a-dia apaixonado, noites de música e cinema, tardes de passeio e jogos na relva.
O problema é que às vezes, em lapsos de consciência, acredito nele, esse mentiroso, farsante, hipócrita. E então a vida muda de tom. Ganha uma serenidade prazenteira, uma segurança de destino traçado, de vidas cruzadas, de forças exteriores ao mundo. E essa ideia faz-me sorrir. Eu, tonta, imbecil, sorrio. Até que o lapso passa, a banda sonora risca-se, a razão ganha a batalha, abre-se a janela e por ela entra a vida real. Fere os olhos, magoa o corpo. Nódoas negras de projecções fictícias de uma menina sonhadora. A cabeça lateja de um desespero angustiante. Hiperventilação.
Raio do unicórnio.
O problema é que às vezes, em lapsos de consciência, acredito nele, esse mentiroso, farsante, hipócrita. E então a vida muda de tom. Ganha uma serenidade prazenteira, uma segurança de destino traçado, de vidas cruzadas, de forças exteriores ao mundo. E essa ideia faz-me sorrir. Eu, tonta, imbecil, sorrio. Até que o lapso passa, a banda sonora risca-se, a razão ganha a batalha, abre-se a janela e por ela entra a vida real. Fere os olhos, magoa o corpo. Nódoas negras de projecções fictícias de uma menina sonhadora. A cabeça lateja de um desespero angustiante. Hiperventilação.
Raio do unicórnio.
A vinoteca
Há dias em que acho que vivemos numa bolha. Numa bolha de sabão apertadinha e transparente com reflexos violeta e cheiro a detergente perfumado. E nós ali dentro, sorridentes. O mundo pode cair, o telefone morrer, o relógio espernear. Nós não ouvimos. A nossa bolha é a prova de som.
Só que o calendário passa e com os riscos há sempre um despiste, um pensamento mais profundo, mais racional, mais sei-lá-o-quê. Um algo que, pleft, rebenta o nosso refúgio de passeios e abraços, de conversas na cozinha, de pequenos-almoços com dedos sujos de jornal. Pleft. Vem o mundo e leva-te com ele.
E então fazes-te outro, mais tu, mais o que tu queres ser. Menos eu. Menos nós naquela redoma com gosto de sal. E desse eu não gosto. Tão banal, tão homem moderno, tão centrado no seu mundinho de rotinas tarde-noite, tão pouco aquele eu que um dia encaixou tão bem numa bolha de sabão que voava perdida pela cidade de cristal.
Se calhar isto são só rabugisses de uma sonhadora. Ou, quiçá, visões quadradas de uma velha viciada. Se calhar o melhor seria parar de escrever e ir afogar as minhas mágoas na vinoteca mais próxima. Não sei, diz-me tu.
Só que o calendário passa e com os riscos há sempre um despiste, um pensamento mais profundo, mais racional, mais sei-lá-o-quê. Um algo que, pleft, rebenta o nosso refúgio de passeios e abraços, de conversas na cozinha, de pequenos-almoços com dedos sujos de jornal. Pleft. Vem o mundo e leva-te com ele.
E então fazes-te outro, mais tu, mais o que tu queres ser. Menos eu. Menos nós naquela redoma com gosto de sal. E desse eu não gosto. Tão banal, tão homem moderno, tão centrado no seu mundinho de rotinas tarde-noite, tão pouco aquele eu que um dia encaixou tão bem numa bolha de sabão que voava perdida pela cidade de cristal.
Se calhar isto são só rabugisses de uma sonhadora. Ou, quiçá, visões quadradas de uma velha viciada. Se calhar o melhor seria parar de escrever e ir afogar as minhas mágoas na vinoteca mais próxima. Não sei, diz-me tu.
22 junio 2010
Ama e senhora
Disseste-me que não podia ter saudades tuas. E eu não gostei. Não gostei nada, tsss, tsss.
Porque sou menina expatriada, imigrante de profissão. Sou cidadã do mundo com pós doutorado em lágrimas de despedida. Sou ama e senhora da saudade. E o que esse teu espírito livre e caprichoso não te deixa ver é que saudade é coisa boa. Saudade come-se ao pequeno-almoço molhado no leite e faz-nos sorrir quando na rádio toca determinada música. Uma espanholada, sei lá.
Nessa tua cabeça de pessoa moderna e soberana, saudade é dependência. E isso te faz tão pequeno, tão mesquinho, tão egoísta. Tantas coisas que podias não ter sido. E tal como eu não consigo evitar essa saudade com gosto de cerejas, tu tampouco sabes olhar-me sem essa tua superioridade automática de quem acha que a vida é o que a nossa cabeça pensa dela. Uma vez mais erraste. Não sei porque o digo. Tu jamais aceitarás essa crítica, como nunca aceitaste qualquer outra, dirás que tudo isto é mais um capricho de uma menina pequena. E já agora, juntado a fama ao proveito, tenho de te dizer que apesar das tuas sábias recomendações,
eu tive e tenho saudades tuas.
Língua de fora, bate o pé no chão e vira as costas, a menina amuada.
Porque sou menina expatriada, imigrante de profissão. Sou cidadã do mundo com pós doutorado em lágrimas de despedida. Sou ama e senhora da saudade. E o que esse teu espírito livre e caprichoso não te deixa ver é que saudade é coisa boa. Saudade come-se ao pequeno-almoço molhado no leite e faz-nos sorrir quando na rádio toca determinada música. Uma espanholada, sei lá.
Nessa tua cabeça de pessoa moderna e soberana, saudade é dependência. E isso te faz tão pequeno, tão mesquinho, tão egoísta. Tantas coisas que podias não ter sido. E tal como eu não consigo evitar essa saudade com gosto de cerejas, tu tampouco sabes olhar-me sem essa tua superioridade automática de quem acha que a vida é o que a nossa cabeça pensa dela. Uma vez mais erraste. Não sei porque o digo. Tu jamais aceitarás essa crítica, como nunca aceitaste qualquer outra, dirás que tudo isto é mais um capricho de uma menina pequena. E já agora, juntado a fama ao proveito, tenho de te dizer que apesar das tuas sábias recomendações,
eu tive e tenho saudades tuas.
Língua de fora, bate o pé no chão e vira as costas, a menina amuada.
16 junio 2010
Variações
Conheço bem aquele sorriso. Aquele sorriso e as suas variações. Houve aquele que fizeste no dia das tesouras do Eduardo abraçadas num sofá de improviso. E o que veio um pouco mais tarde, com um amanhecer não dormido de gosto ácido a tangerina. Esse parecia-se ao daquele concerto dos sapatos perdidos e encontrados. Lembras-te? Mas falando de concerto, que conste que o outro, o dos aplausos em pé de satisfação, foi um sorriso diferente, mais calmo, mais profundo. Com gosto a café.
Claro que tampouco vale compra-lo ao que gastaste e gastaste no dia dos ciganos à beira mar. Mas isso, mais do que um sorriso, foi uma história.
É que esse teu sorriso, o famoso, também tem a variação que estreaste com sotaque do norte, entre uma guitarra e um jardim. E horas mais tarde, comendo bombas calóricas com um toquesinho de picante. Depois há também o seu primo, o das mochilas às costas. Mas aí é jogo sujo. Que esse tem vantagem competitiva.
Até que outro dia conheci uma nova variação. Vinha com um brilho diferente nos olhos, uma bochecha meio corada, com a covinha a querer mostrar-se. Tinha cheiro a novidade, a perfume de flores e abraços apertados de êxtase. Tinha som de música indie escutada e discutida em quilómetros de costa e auto-estrada. Tinha sabor a sol e naturalidade. A noites sem dormir pelas avenidas dos eléctricos. Era uma nova variação daquele meu velho e conhecido sorriso. Mas essa, pela primeira vez, não era para mim.
Claro que tampouco vale compra-lo ao que gastaste e gastaste no dia dos ciganos à beira mar. Mas isso, mais do que um sorriso, foi uma história.
É que esse teu sorriso, o famoso, também tem a variação que estreaste com sotaque do norte, entre uma guitarra e um jardim. E horas mais tarde, comendo bombas calóricas com um toquesinho de picante. Depois há também o seu primo, o das mochilas às costas. Mas aí é jogo sujo. Que esse tem vantagem competitiva.
Até que outro dia conheci uma nova variação. Vinha com um brilho diferente nos olhos, uma bochecha meio corada, com a covinha a querer mostrar-se. Tinha cheiro a novidade, a perfume de flores e abraços apertados de êxtase. Tinha som de música indie escutada e discutida em quilómetros de costa e auto-estrada. Tinha sabor a sol e naturalidade. A noites sem dormir pelas avenidas dos eléctricos. Era uma nova variação daquele meu velho e conhecido sorriso. Mas essa, pela primeira vez, não era para mim.
26 mayo 2010
Os isleños
Os isleños foram os primeiros a chegar. Tornaram-se imediatamente donos e detentores desse pedaço rocha perdido no meio de uma água gelada de peixes. Eram rei, senhor e príncipe. Princepessa, dessas do cinema italiano.
E depois de muito pensar, optaram por viver uma anarquia organizada, já que, dadas as circunstancias, a maioria absoluta seria, deveras, um tema complicado. Criaram, então, um inovador sistema político que se sustentava com apenas uma regra: dentro daqueles domínios as coisas faziam-se de cinco em cinco. Ora ai está uma boa lei.
Toca a comer cinco maçãs, e cinco caroços, dar meia dezena de passeios e cinco olhares, daqueles de corar a ponta do nariz. Cinco, os minutos babados de boca na toalha e um v romano de furinhos da perdida orelha do mar. Que descanse em paz.
Uma mão cheia de dedos entrelaçados, cabelos enrolados e caracóis rebeldes. Uma língua de fora. Dessas não havia cinco. Mas a regra do seis menos um era muito rígida e não sobreviviam nem os sorriso-gargalhadas. Cinquenta? Vá, acrescenta-lhe um zero e negócio fechado.
No fim do dia, os donos e senhores da meia dezena abandonaram o seu reino, deixaram gosto na boca ao futuro legado e, entre furacões e rodopios, desocuparam a coroa dos isleños.
Ao chegar a terra quiseram dizer algo, fazer um discurso pomposo. Coisas de filme. Mas só saiu um gesto. Um, não, cinco.
E depois de muito pensar, optaram por viver uma anarquia organizada, já que, dadas as circunstancias, a maioria absoluta seria, deveras, um tema complicado. Criaram, então, um inovador sistema político que se sustentava com apenas uma regra: dentro daqueles domínios as coisas faziam-se de cinco em cinco. Ora ai está uma boa lei.
Toca a comer cinco maçãs, e cinco caroços, dar meia dezena de passeios e cinco olhares, daqueles de corar a ponta do nariz. Cinco, os minutos babados de boca na toalha e um v romano de furinhos da perdida orelha do mar. Que descanse em paz.
Uma mão cheia de dedos entrelaçados, cabelos enrolados e caracóis rebeldes. Uma língua de fora. Dessas não havia cinco. Mas a regra do seis menos um era muito rígida e não sobreviviam nem os sorriso-gargalhadas. Cinquenta? Vá, acrescenta-lhe um zero e negócio fechado.
No fim do dia, os donos e senhores da meia dezena abandonaram o seu reino, deixaram gosto na boca ao futuro legado e, entre furacões e rodopios, desocuparam a coroa dos isleños.
Ao chegar a terra quiseram dizer algo, fazer um discurso pomposo. Coisas de filme. Mas só saiu um gesto. Um, não, cinco.
20 mayo 2010
Politicamente incorrecto
Fugiste. Já tinhas avisado tantas vezes. Ameaçado, assustado, anunciado. Até que um dia, chegou o dia. Pegaste nessa tua vida desorganizada, nos teus projectos intermináveis, no teu registo do nosso passado e correste. Correste até cansar.
Criaste uma nova história para ti, a história que tanto quisemos criar juntos.
E o que ficou foi uma referência interminável às nossas piadas internas, uma menina chata que fala sempre do mesmo. Daquela viagem de pão e sol, dos concertos de pés da areia, daquelas tardes-noites de pipocas e gomas ácidas. Dos personagens que aprendemos juntos a idolatrar.
Mas eu sou menina mimada, !sabes disso como ninguém!, e queria que voltasses. Tu, e essa tua cara de pato alegre, a tua vozinha de manha perdida, e o teu jeito confortável de ser. Tu e os nossos filmes, as conversas quotidianas, o fui-ao-shopping-e-comprei-umas-calças-novas. Tu e as tuas idas ao shopping.
Eu sei que não vais voltar. Eu entendo. Mas esta é só a minha maneira desengonçada e politicamente incorrecta de dizer-te que fazes falta.
Criaste uma nova história para ti, a história que tanto quisemos criar juntos.
E o que ficou foi uma referência interminável às nossas piadas internas, uma menina chata que fala sempre do mesmo. Daquela viagem de pão e sol, dos concertos de pés da areia, daquelas tardes-noites de pipocas e gomas ácidas. Dos personagens que aprendemos juntos a idolatrar.
Mas eu sou menina mimada, !sabes disso como ninguém!, e queria que voltasses. Tu, e essa tua cara de pato alegre, a tua vozinha de manha perdida, e o teu jeito confortável de ser. Tu e os nossos filmes, as conversas quotidianas, o fui-ao-shopping-e-comprei-umas-calças-novas. Tu e as tuas idas ao shopping.
Eu sei que não vais voltar. Eu entendo. Mas esta é só a minha maneira desengonçada e politicamente incorrecta de dizer-te que fazes falta.
19 mayo 2010
A paradiña
Na vida, às vezes, há que fazer uma paradiña. Há que deixar de lado as teorias, os rótulos e as etiquetas. Acalmar a histeria das ideias, dar um beijinho de boa noite aos prazos de validade pré estabelecidos. Pegar em todos os preconceitos, inimigos e pensamentos baratos. Juntar tudo isso e enfiar no congelador.
Quem sabe um dia esses alimentos de cérebros agitados derretam e voltem às grandes manchetes dos informativos. Quem sabe até se tornem realidade. Quizás.
Mas naquele dia pediram-me uma resposta. Uma palavra, um detalhe que pudesse organizar a vida. Não houve tempo para grandes reflexões. Chegou o sol e, com ele, aquela manhã de dia normal. Fizemos uma paradiña. E, pelos vistos, resultou.
Quem sabe um dia esses alimentos de cérebros agitados derretam e voltem às grandes manchetes dos informativos. Quem sabe até se tornem realidade. Quizás.
Mas naquele dia pediram-me uma resposta. Uma palavra, um detalhe que pudesse organizar a vida. Não houve tempo para grandes reflexões. Chegou o sol e, com ele, aquela manhã de dia normal. Fizemos uma paradiña. E, pelos vistos, resultou.
12 mayo 2010
A ressaca do adeus
Mais um dia daqueles. Outro, outra vez, outro. E só ontem me passou pela cabeça que deveria começar a colecciona-los.
Guardaria o adeus em uma caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. Poderia fazer com isto uma valente fortuna. O adeus de choro engolido e de choro chorado. O de abraço apertado que estala os ossos. Aquele que leva um beijo que jamais esqueceremos. O adeus contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta do sofá. O adeus que vira as costas e não olha para trás. O que gira a cabeça. O adeus que se disfarça de até já e aquele que tem pressa e, quando vemos, já passou.
No fundo, o que eu queria mesmo era que o adeus fosse um bolo de chocolate. Que boa ideia! Coleccionar bolos de chocolate. Ou sacos recheados de gomas coloridas. Não, espera, que seja leite condensado comido à colher. Esquece, tanto faz, não me importa. Só queria que o adeus fosse doce. Docinho.
E se for possível, senhores lá de cima, queria que o adeus tivesse uma voz meiguinha e olhos de cão sem dono, que soubesse olhar, sorrir e abraçar. Sim, que o adeus soubesse abraçar. Queria que fosse um menino espontâneo, desses que caem na graça das avozinhas.
Porque eu presumo sempre que eu e ele somos amigos, velhos conhecidos de outras batalhas. Mas na verdade, e mesmo que ele pareça inofensivo e pouco amargo, há um dia que a ressaca chega. E de adeus passamos a tenho saudades. É o ciclo normal da vida. Ou isso querem que pensemos.
Se pelo menos a ressaca soubesse a bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro...
Guardaria o adeus em uma caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. Poderia fazer com isto uma valente fortuna. O adeus de choro engolido e de choro chorado. O de abraço apertado que estala os ossos. Aquele que leva um beijo que jamais esqueceremos. O adeus contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta do sofá. O adeus que vira as costas e não olha para trás. O que gira a cabeça. O adeus que se disfarça de até já e aquele que tem pressa e, quando vemos, já passou.
No fundo, o que eu queria mesmo era que o adeus fosse um bolo de chocolate. Que boa ideia! Coleccionar bolos de chocolate. Ou sacos recheados de gomas coloridas. Não, espera, que seja leite condensado comido à colher. Esquece, tanto faz, não me importa. Só queria que o adeus fosse doce. Docinho.
E se for possível, senhores lá de cima, queria que o adeus tivesse uma voz meiguinha e olhos de cão sem dono, que soubesse olhar, sorrir e abraçar. Sim, que o adeus soubesse abraçar. Queria que fosse um menino espontâneo, desses que caem na graça das avozinhas.
Porque eu presumo sempre que eu e ele somos amigos, velhos conhecidos de outras batalhas. Mas na verdade, e mesmo que ele pareça inofensivo e pouco amargo, há um dia que a ressaca chega. E de adeus passamos a tenho saudades. É o ciclo normal da vida. Ou isso querem que pensemos.
Se pelo menos a ressaca soubesse a bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro...
11 mayo 2010
Asas em segunda mão
Atenção, que voar é coisa difícil. Não é como andar de bicicleta sem esfolar-se, alimentar elefantes ou passar vinte horas a viver de uma hormona com nome de remédio. Não podes fazer essas coisas. Chegar aí todo relaxado e sorridente com o teu cabelo despenteado e óculos desalinhados. Aparecer do nada e dizer, desinteressadamente, “vamos aprender a voar”. Voar? Voar é coisa de gente demasiado grande ou demasiado pequena. Voar é coisa de gente demasiado e todos sabemos (e tu sabes) que eu sou normal normalinha e os normalíssimos não voam. Mas pronto, desculpas dadas, já sei que não foi tua intenção causar a discórdia. Nunca é. Quase nunca é.
Mas já que insististes tanto, aprendamos.
Leva-me à feira da ladra e ajuda-me a escolher umas asas em segunda mão. E como poupamos na hélice, o orçamento deve chegar para comprar uma faca, ou similar. Pois cortemos as amarras, desfaçamo-nos de todos os pesos. Esses malditos que dão dores nas costas. Livres e leves, falta encontrar mecanismos de soltura. Sei lá, um pouco de açúcar na veia deve chegar. Busquemos um instrutor e procuremos a rota mais indicada. Não esquecer da banda sonora e da cesta de picnic.
Ate que, um dia, quando tudo estiver a postos, provas feitas, material revisado e exames aprovados. Quando tudo estiver okay, chegará a hora decisiva. O momento, ai esse grande momento, em que o instrutor aproxima-se e grita lá de baixo, com a segurança dos seus pés pisando terra: “Hei menina, atira-se ou não?”.
Já te tinha dito que voar era coisa difícil.
Mas já que insististes tanto, aprendamos.
Leva-me à feira da ladra e ajuda-me a escolher umas asas em segunda mão. E como poupamos na hélice, o orçamento deve chegar para comprar uma faca, ou similar. Pois cortemos as amarras, desfaçamo-nos de todos os pesos. Esses malditos que dão dores nas costas. Livres e leves, falta encontrar mecanismos de soltura. Sei lá, um pouco de açúcar na veia deve chegar. Busquemos um instrutor e procuremos a rota mais indicada. Não esquecer da banda sonora e da cesta de picnic.
Ate que, um dia, quando tudo estiver a postos, provas feitas, material revisado e exames aprovados. Quando tudo estiver okay, chegará a hora decisiva. O momento, ai esse grande momento, em que o instrutor aproxima-se e grita lá de baixo, com a segurança dos seus pés pisando terra: “Hei menina, atira-se ou não?”.
Já te tinha dito que voar era coisa difícil.
09 mayo 2010
Sonhatortilhas
Aquela capa preta de estrelas redondas separava-os do mundo. Usavam-na de refúgio para dias maus, de compensação para tardes de conversa em tom de nanas estrangeiras. Ali, naquele esconderijo em espiral, só existiam eles. Dois sonhatortilhas perdidos numa escola de crianças. Somiatruites que somiavan que el seu llit tenia ales. I a mitjanit despegavan i volavan, volavan i volavan.
E debaixo daquele manto de invisibilidade tudo era possível. Podia discutir-se sobre os tinteiros da impressora e o almoço daquela tarde, a salvação do mundo ou o valor do silêncio. Até podiam ficar calados. E essa era uma grande novidade.
Cobertos pela capa mágica, eram tudo o que sempre sonharam e negaram ser. Eram eles sem preconceitos, sem aquelas regras avassaladoras que os deitavam abaixo a cada momento. Eram versões melhores deles mesmos. Eram sonhatortilhas.
E quando aqueles dois ovos fritos e reboçados se escondíamos no cantinho do infinito, o relógio desaparecia do pulso e a razão fugia por uns instantes dessa posição líder. Não havia frio, fome ou sono. Eles eram demovíveis. Porque estavam ali para sentir. E sentiam forte. Sonhavam forte.
E debaixo daquele manto de invisibilidade tudo era possível. Podia discutir-se sobre os tinteiros da impressora e o almoço daquela tarde, a salvação do mundo ou o valor do silêncio. Até podiam ficar calados. E essa era uma grande novidade.
Cobertos pela capa mágica, eram tudo o que sempre sonharam e negaram ser. Eram eles sem preconceitos, sem aquelas regras avassaladoras que os deitavam abaixo a cada momento. Eram versões melhores deles mesmos. Eram sonhatortilhas.
E quando aqueles dois ovos fritos e reboçados se escondíamos no cantinho do infinito, o relógio desaparecia do pulso e a razão fugia por uns instantes dessa posição líder. Não havia frio, fome ou sono. Eles eram demovíveis. Porque estavam ali para sentir. E sentiam forte. Sonhavam forte.
06 mayo 2010
Pucheritos
Ele tem um jeito de ontem à noite, uma maneira caótica de ser. E muitos tiques nervosos.
Ele tem as mão pequenas, pequeninas, e uma cabeça que cresceu mais rápido que as orelhas. Ele é cabeçudo. E eu orelhuda. Que dois.
Então discutimos sobre tudo. Mas sobretudo sobre as coisas que não têm discussão. E ele agora diria que estas frases estão mal construídas. Mas o que ele não sabe, é que foi tudo feito “a posta”, ou, só para dar o braço a torcer, “a propósito”.
Tem pinta de caladinho, de introvertido. Rá. Enganem-se os tontos. Porque quando fala, não se cala e depois ainda pergunta: “Não consegues estar uns minutinhos sem falar?”.
E então eu zango-me, amuo, ou como diríamos por aqui, faço pucheritos. Tudo parte do show, porque já sabemos, que é regra escrita e revisada, que no fim, previsivelmente, quem ganha a batalha sou sempre eu.
Ele tem as mão pequenas, pequeninas, e uma cabeça que cresceu mais rápido que as orelhas. Ele é cabeçudo. E eu orelhuda. Que dois.
Então discutimos sobre tudo. Mas sobretudo sobre as coisas que não têm discussão. E ele agora diria que estas frases estão mal construídas. Mas o que ele não sabe, é que foi tudo feito “a posta”, ou, só para dar o braço a torcer, “a propósito”.
Tem pinta de caladinho, de introvertido. Rá. Enganem-se os tontos. Porque quando fala, não se cala e depois ainda pergunta: “Não consegues estar uns minutinhos sem falar?”.
E então eu zango-me, amuo, ou como diríamos por aqui, faço pucheritos. Tudo parte do show, porque já sabemos, que é regra escrita e revisada, que no fim, previsivelmente, quem ganha a batalha sou sempre eu.
02 mayo 2010
Noites
Ultimamente as noites têm sido curtas. As noites e aquele seu gostinho a frutas tropicais, açúcar, amigos e abraços. Elas e aquele toque tão evitado. O pele-a-pele que um dia fez o olhar estremecer. E então as noites acabam e o sol está ao contrário. Maquilhamo-lo com persianas eléctricas e cobertores black-out.
Porque de noite valem sussurros e a rouquidão tem som de piada, valem erros verbais, gritos desnecessários, valem insultos que se reconciliam em questão de segundos. À noite discutir é parte do protocolo. Não há conversas complexas, nem frases elaboradas. Um ano vive-se em dez minutos. Dez minutos mais dois ou três pormenores engraçados. À noite todos temos um sentido de humor especial.
E quando o dia chega, fechamos os olhos, fazemos beicinho e birras de criança mimada. A luz revela coisas que não queremos ver. Faz-nos mais sérios, mais pensativos, mais regradamente regulados. Por favor noite não te vás embora, não leves contigo esse teu aroma a iogurte com mel.
Porque de noite valem sussurros e a rouquidão tem som de piada, valem erros verbais, gritos desnecessários, valem insultos que se reconciliam em questão de segundos. À noite discutir é parte do protocolo. Não há conversas complexas, nem frases elaboradas. Um ano vive-se em dez minutos. Dez minutos mais dois ou três pormenores engraçados. À noite todos temos um sentido de humor especial.
E quando o dia chega, fechamos os olhos, fazemos beicinho e birras de criança mimada. A luz revela coisas que não queremos ver. Faz-nos mais sérios, mais pensativos, mais regradamente regulados. Por favor noite não te vás embora, não leves contigo esse teu aroma a iogurte com mel.
14 abril 2010
"Todo lo que podríamos haber sido tú y yo si no fueramos tú y yo"*
O que seria de mim e de ti se não fossemos tu e eu? Não sei me entendes, é que sabes, a minha cabeça pensa confuso. O que eu queria saber, a pergunta que não cala neste constante sussurro interior que é o meu cérebro é se nós, se fossemos outros, seriamos alguém.
Penso em tudo o que poderíamos ter sido se, simplesmente, não fossemos nós. Nós e esse nosso masoquismo inato, este pica e foge que nos é tão característico. Nós, e as nossas gargalhadas às três da manhã, os nossos cafés à beira mar, as nossas conversas que aceleram o relógio. Nós e tudo aquilo que nos faz tão adoravelmente incompatíveis.
Nós e este intenso sonho de ser quem não somos.
E então pego em ti e, qual mecânico, vou arranjando-te. Um retoque aqui, e outro ali. Um pouco de óleo, três ou quatro parafusos. Ah, esta peça seria melhor mudar, veio com defeito de fábrica. E depois levo-me também a esse tal retocador divino, peço-lhe uma lavagem a fundo, uma mudança radical, um xis e um ipslon que me faltavam.
E então somos perfeitos. Somos exactamente quem queríamos ser.
Mas, claro está, já não somos tu e eu.
*Albert Espinosa
Penso em tudo o que poderíamos ter sido se, simplesmente, não fossemos nós. Nós e esse nosso masoquismo inato, este pica e foge que nos é tão característico. Nós, e as nossas gargalhadas às três da manhã, os nossos cafés à beira mar, as nossas conversas que aceleram o relógio. Nós e tudo aquilo que nos faz tão adoravelmente incompatíveis.
Nós e este intenso sonho de ser quem não somos.
E então pego em ti e, qual mecânico, vou arranjando-te. Um retoque aqui, e outro ali. Um pouco de óleo, três ou quatro parafusos. Ah, esta peça seria melhor mudar, veio com defeito de fábrica. E depois levo-me também a esse tal retocador divino, peço-lhe uma lavagem a fundo, uma mudança radical, um xis e um ipslon que me faltavam.
E então somos perfeitos. Somos exactamente quem queríamos ser.
Mas, claro está, já não somos tu e eu.
*Albert Espinosa
11 abril 2010
03 abril 2010
Reinventar-se
Naquele dia perdi-me. Perguntavam-me o nome e já não sabia o que responder. Começa por éme, dizia, era a única certeza. Depois a conversa ia crescendo e as minhas convicções diminuíam. Sabia que já não era aquela que tinha sido, a que tinha aprendido a ser. Mas quem era então? Um ser amorfo, estático, errante pelos caminhos da vida. Não tinha filme preferido, nem género musical. Restaurante ou perfume de referencia.
Era o fim. E com ele vinha o princípio
Era o fim. E com ele vinha o princípio
13 marzo 2010
Mentiroso!
Dizes que estás bem, que estás okay, que não há problema. E eu acredito, Ingénua, egocêntrica, não sei, mas acredito.
E agora só me apetece encontrar-te pela rua dar-te um safanão, apertar-te o pescoço e insultar-te da melhor maneira que sei: “Mentiroso!”
E depois iria à televisão, aos programas da tarde, à entrevista com a Júlia Pinheiro. Iria ali, com a minha cara podre e os meus olhos verdes contar-lhes, a eles e a todo o mundo, que um amigo me mentiu e eu, claro, como poderia deixar de ser, apanhei-o numa esquina e pumbas. Espera!, que não me mal interpretem, pumbas de porrada, valente e poderoso enxerto.
- Vi-o na rua e não resisti. A raiva entrou em ebulição e dei-lhe num murro nas trombas, parti-lhe os dentes, e depois esganei-o até que ficasse roxo pela falta de ar.
Tudo isso porque ele me mentiu, repito vezes e vezes sem conta neste meu sonho-delírio.
Depois, claro está, além de ser estrela de tv, seria alvo de investigações policiais e gabinetes de ética. Seria capa de jornais. Foi ou não legitimo o enfardo que deu aquela jovem ao seu amigo mentiroso?
E as pessoas discutiriam o nosso drama nos cafés, nas páginas de sociedade, desse lixo virtual que é a blogosfera.
Até que um dia, numa entrevista em prime time eu desabafaria perante um jornalista desconcertado:
- É que se ele me tivesse dito a verdade, eu pelo menos poderia ter tentado ajudar…
O mundo se emocionaria perante tal sinceridade e eu sairia ilibada de todas as minhas penas.
Agora saltemos todos os passos e que venha o cara-a-cara.
E agora só me apetece encontrar-te pela rua dar-te um safanão, apertar-te o pescoço e insultar-te da melhor maneira que sei: “Mentiroso!”
E depois iria à televisão, aos programas da tarde, à entrevista com a Júlia Pinheiro. Iria ali, com a minha cara podre e os meus olhos verdes contar-lhes, a eles e a todo o mundo, que um amigo me mentiu e eu, claro, como poderia deixar de ser, apanhei-o numa esquina e pumbas. Espera!, que não me mal interpretem, pumbas de porrada, valente e poderoso enxerto.
- Vi-o na rua e não resisti. A raiva entrou em ebulição e dei-lhe num murro nas trombas, parti-lhe os dentes, e depois esganei-o até que ficasse roxo pela falta de ar.
Tudo isso porque ele me mentiu, repito vezes e vezes sem conta neste meu sonho-delírio.
Depois, claro está, além de ser estrela de tv, seria alvo de investigações policiais e gabinetes de ética. Seria capa de jornais. Foi ou não legitimo o enfardo que deu aquela jovem ao seu amigo mentiroso?
E as pessoas discutiriam o nosso drama nos cafés, nas páginas de sociedade, desse lixo virtual que é a blogosfera.
Até que um dia, numa entrevista em prime time eu desabafaria perante um jornalista desconcertado:
- É que se ele me tivesse dito a verdade, eu pelo menos poderia ter tentado ajudar…
O mundo se emocionaria perante tal sinceridade e eu sairia ilibada de todas as minhas penas.
Agora saltemos todos os passos e que venha o cara-a-cara.
07 marzo 2010
Vida saltimbanca
Mais um dia daqueles. Outro, outra vez, outro. E só ontem me passou pela cabeça que deveria começar a colecciona-los.
Que ideia genial.
Guardaria o adeus numa caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. O "eu venho visitar-te" de choro engolido e de choro chorado. O "gosto muito de ti" de abraço apertado que estala os ossos. Aquele "eu ligo-te quando chegar" que leva um olhar e um beijo que jamais esqueceremos. O "até sempre" contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta no sofá.
Ficaria rica de tantos "vou ter saudades" e, quando me entregassem um prémio em honra à minha invejável colecção, perguntar-me-iam:
- Como conseguiu chegar a esta quantidade de despedidas?
E então eu diria, orgulhosa:
- É o resultado de uma vida saltimbanca.
Pose. Flash. Troféu na estante.
Parece-me um prémio merecido.
Que ideia genial.
Guardaria o adeus numa caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. O "eu venho visitar-te" de choro engolido e de choro chorado. O "gosto muito de ti" de abraço apertado que estala os ossos. Aquele "eu ligo-te quando chegar" que leva um olhar e um beijo que jamais esqueceremos. O "até sempre" contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta no sofá.
Ficaria rica de tantos "vou ter saudades" e, quando me entregassem um prémio em honra à minha invejável colecção, perguntar-me-iam:
- Como conseguiu chegar a esta quantidade de despedidas?
E então eu diria, orgulhosa:
- É o resultado de uma vida saltimbanca.
Pose. Flash. Troféu na estante.
Parece-me um prémio merecido.
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