Hoje vou contar uma história.
Um dia conheci um rapaz, ops, não foi um, foram 30.
O primeiro era divertido, o segundo eu achava um pouco infantil. O terceiro e o quarto usavam roupas largas e andavam de skate. O quinto era gordo e o sexto roçava a obesidade. O sétimo era bastante inteligente e o oitavo era tão arrogante. O nono passava horas a conversar à porta da minha casa e o décimo nunca se esquecia do meu aniversário. O 11º sabia que em jornalismo a partir do 11 se escreve por números. O 12º desenhava tão bem e desperdiçava tanto as suas capacidades. O 13º cresceu. O 14º mostrou-se interessado nos meus interesses e o 15º ria-se das minhas histórias. O 16º e o 17º eram tão esquisitos e cheios de tiques. O 18º nunca desistia. O 19º dizia que com calções não se pode atar os sapatos e o 20º deitava-se sempre na areia.
O 21º era tão carinhoso. O 22º e o 23º andavam sempre juntos, um adorava música e cantava baixinho, o outro bebia muito e fazia serenatas para a vizinha inglesa. Dizem que o 24º era um pouco banana mas ele defende-se dizendo que estava apenas apaixonado. O 25º gostava de gelatina amarela. O 27º ralhava e o 28º estimulava-me a ser melhor. O 29º, coitado, ficava antes do 30º e então sempre teve medo do seu futuro.
Esse tal de Trigésimo (os nomes próprios são por extenso) foi o meu preferido. Se calhar sou uma criança iludida que acha que o último presente é sempre o melhor. Mas o Trigésimo foi um presente inesperado. Ele veio muito bem embrulhado, cheio de fitas de laçarotes. Entregaram-no na minha casa com um casaco de couro castanho e um carro sem o espelho direito. Era como aquele presente que vamos abrindo e abrindo até encontrar a prenda a sério. Tinha um embrulho bonito e eu fiquei interessada. Fui me aventurando e encontrei uns papeis rasgados e umas fitas-cola difíceis de arrancar.
Insisti.
Não foi fácil abrir aquele presente. Ameacei deixá-lo e desistir. Quem foi a pessoa que teve a ideia de o embrulhar tão bem?
Mas ainda bem. Senão já teriam o descoberto, posto em leilão e licitado um preço muito mais alto do que o que posso pagar.
Era baratinho aquele presente. Era daqueles simples e úteis. Inteligente esse tal presente. Foi conhecendo-me e tornando-se indispensável. Aparecia em casa quando estava cansada e ajudava-me a adormecer, deixava-me escolher os caminhos e impunha-me sempre a sua música. Ele começou a meter-se no meu bolso e na minha mala, nos meus ténis sujos e no meu top colorido. Enfiou-se no autocarro cheio a segurar as sacolas das senhoras e nas aulas de filosofia enquanto discutia politica. Ele era o computador e era o livro que estava a ler, era a cor do verniz e a fruta da sobremesa. Meteu-se na minha vida e infiltrou-se no meu perfume e nos brincos que usava, nos amigos que escolhia e nos objectivos que traçava. Mas o pequeno presente, que é tão quietinho e que fala pouco, virou-se para mim e disse: um dia vou materializar-me. Então eu acho que vou ficar à espera, porque depois de tanto trabalho estou um pouco cansada para voltar a desembrulhar outro primeiro.
01 octubre 2007
29 septiembre 2007
cola peganhenta
Hoje acordei com o vento a sussurrar baixinho. Parecia haver fios invisíveis a puxarem estridentemente os meus músculos. Eles contrariam-se em forma de boca aberta e lábios erguidos. Músicas cantaloravam na minha cabeça, como vozes de divas vindas de lugares perdidos.
Porque há coisas que nos fazem pensar. E há objectivos que não são para daqui a uma hora, ou um mês. Há coisas na vida que são para longe. Que são para o lugar onde a cidade borbulha e o horário esmaga a correria atribulada. Há momentos da vida com cores e cheiros, com raças e idades e instantes.
E atingi-los não é um sonho.
Fitas vermelhas no fundo do túnel que nos fazem querer correr mais depressa, e virar na esquina à esquerda, em busca de um caminho mais rápido. (Nunca vires à direita. Pode haver um precipício). Viagens ao mundo em busca de um eu que se perdeu nas birras e das palavras pingadas no papel. A busca de uma solidão acompanhada.
E às vezes atrelamo-nos às pessoas.
Têm um cheiro confortável, um sorriso familiar, uma parte deles que é sé nossa e fica escondida no fundo oculto do saquinho de recordações.
E nesta matéria não há chaves. No mundo das solidões não há serras eléctricas e nem cadeados. Foram abolidos, proibidos, censurados.
Este fascismo de descampados colectivos é uma tortura pequenina que pica, mexe, coça naquele lugar onde é impossível tocar. E vai se tornando maior.
Até que um dia recorremos à cola.
Porque há coisas que nos fazem pensar. E há objectivos que não são para daqui a uma hora, ou um mês. Há coisas na vida que são para longe. Que são para o lugar onde a cidade borbulha e o horário esmaga a correria atribulada. Há momentos da vida com cores e cheiros, com raças e idades e instantes.
E atingi-los não é um sonho.
Fitas vermelhas no fundo do túnel que nos fazem querer correr mais depressa, e virar na esquina à esquerda, em busca de um caminho mais rápido. (Nunca vires à direita. Pode haver um precipício). Viagens ao mundo em busca de um eu que se perdeu nas birras e das palavras pingadas no papel. A busca de uma solidão acompanhada.
E às vezes atrelamo-nos às pessoas.
Têm um cheiro confortável, um sorriso familiar, uma parte deles que é sé nossa e fica escondida no fundo oculto do saquinho de recordações.
E nesta matéria não há chaves. No mundo das solidões não há serras eléctricas e nem cadeados. Foram abolidos, proibidos, censurados.
Este fascismo de descampados colectivos é uma tortura pequenina que pica, mexe, coça naquele lugar onde é impossível tocar. E vai se tornando maior.
Até que um dia recorremos à cola.
contrariedades
As diferenças gritam e exclamam e goleiam na baliza oposta. Dizem que não conheço o suficiente. Pode ser.
Sou demasiado eu mesma na minha concha, no meu pé e meio de distância, com sorrisos e carinhos corteses. Sou fugidia nas brechas e nos silêncios. Sou sombra estrangeira que observa e pensa.
O olhar altivo e brioso de quem é mais, de quem pode ver de outra maneira. E a mistura é difícil e é emproada, porque entoam os olhares de quem partilha do mesmo mundo. E sem erro, nem dúvida, batem naquela parede invisível, tão morosamente erguida. Esmagam-se e ensanguentam-se. Porque ali só passa quem souber. E saber é reconhecer o parco, limitado espaço.
Há valores e há listas. E há futuro, futuro.
Às vezes acho que o presente é efémero. E outras vezes quero guarda-lo para sempre no meu congelador.
Sou demasiado eu mesma na minha concha, no meu pé e meio de distância, com sorrisos e carinhos corteses. Sou fugidia nas brechas e nos silêncios. Sou sombra estrangeira que observa e pensa.
O olhar altivo e brioso de quem é mais, de quem pode ver de outra maneira. E a mistura é difícil e é emproada, porque entoam os olhares de quem partilha do mesmo mundo. E sem erro, nem dúvida, batem naquela parede invisível, tão morosamente erguida. Esmagam-se e ensanguentam-se. Porque ali só passa quem souber. E saber é reconhecer o parco, limitado espaço.
Há valores e há listas. E há futuro, futuro.
Às vezes acho que o presente é efémero. E outras vezes quero guarda-lo para sempre no meu congelador.
28 septiembre 2007
desculpas desculpas e desculpas
É uma batalha constante de sins e nãos de perto e longe. Espadas que lutam com a volúpia de carícias escondidas, correntezas de murros e arranhões em mares onde o peixe é tubarão. Vem, mata, morre. Tortura-me com olhares e palavras, arrasta-me por esse rio de dúvidas e hesitações e consome-me, qual labareda resplandecente.
Somos todos poemas e sorrisos secretos, histórias e gestos cúmplices, palavras e gostos memoráveis.
Porque a distância é um cliché.
Ali tudo é possível e o sentimento é temperado num tubo de ensaio com água ocular e cabelos lambidos. É tudo tão perfeito quando o tempo é pouco e as coisas boas têm mais valor notícia. Elas explodem e circulam, cirandando pelo ar e mudando de cor à medida que o vento sopra baixinho.
E à distância é possível suspirar e deixar cair lágrimas de desespero feliz. E à distância podemos ser foleiros e lamechas e pegajosos e piegas e, finalmente, dizer aquelas coisas que soam alerta na nossa cabeça. Não interessa o sinal vermelho, nem o stop, nem os quilómetros. Porque à distância podemos tudo. Até cliché.
Somos todos poemas e sorrisos secretos, histórias e gestos cúmplices, palavras e gostos memoráveis.
Porque a distância é um cliché.
Ali tudo é possível e o sentimento é temperado num tubo de ensaio com água ocular e cabelos lambidos. É tudo tão perfeito quando o tempo é pouco e as coisas boas têm mais valor notícia. Elas explodem e circulam, cirandando pelo ar e mudando de cor à medida que o vento sopra baixinho.
E à distância é possível suspirar e deixar cair lágrimas de desespero feliz. E à distância podemos ser foleiros e lamechas e pegajosos e piegas e, finalmente, dizer aquelas coisas que soam alerta na nossa cabeça. Não interessa o sinal vermelho, nem o stop, nem os quilómetros. Porque à distância podemos tudo. Até cliché.
23 septiembre 2007
um especialista
Queria uma bola de cristal. Agora que o vinte e um está por perto, achei que deveria montar uma lista de presentes. Os números adicionais apanham-me sempre desprevenida. Desta vez não quero festas, nem amigos (quais?), nem telefonemas.
No topo da minha lista vem escrito, Arranjem-me uma bruxa, uma pedra preciosa, um baralho de cartas, um espelho mágico.
Vou ser criança mimada que esperneia e gesticula, que grita e irrita. Aquele bebé intragável que faz birras insistentes até conseguir o que quer. Transformei-me, regredi.
Não é um pedido assim tão difícil. Nem um objectivo demasiado ambicioso.
Fecha os olhos dois minutos e imagina-te daqui a alguns anos. Dez anos.
Vivo num lugar nublado. E mesmo que viaje a onda de névoa acompanha o meu percurso. Quero ouvir-me, fala mais alto, grita e diz-me que língua falas. Pelo menos dá-me uma pista. Escreve num papel o teu estado de alma e põe em P.S a tua profissão. Não entres nessa nuvem de poeira, não te feches nas linhas das minhas mãos, dá-te a conhecer, peço-te, não me tortures mais.
Preciso de um especialista, de um doutor, de anos de estudo e experiência.
Pode ter cabelos vermelhos e uma verruga na ponta do nariz, pode ser gordo e transparente, pode ver além do meu corpo. Podes ser tu, quem sabe.
No topo da minha lista vem escrito, Arranjem-me uma bruxa, uma pedra preciosa, um baralho de cartas, um espelho mágico.
Vou ser criança mimada que esperneia e gesticula, que grita e irrita. Aquele bebé intragável que faz birras insistentes até conseguir o que quer. Transformei-me, regredi.
Não é um pedido assim tão difícil. Nem um objectivo demasiado ambicioso.
Fecha os olhos dois minutos e imagina-te daqui a alguns anos. Dez anos.
Vivo num lugar nublado. E mesmo que viaje a onda de névoa acompanha o meu percurso. Quero ouvir-me, fala mais alto, grita e diz-me que língua falas. Pelo menos dá-me uma pista. Escreve num papel o teu estado de alma e põe em P.S a tua profissão. Não entres nessa nuvem de poeira, não te feches nas linhas das minhas mãos, dá-te a conhecer, peço-te, não me tortures mais.
Preciso de um especialista, de um doutor, de anos de estudo e experiência.
Pode ter cabelos vermelhos e uma verruga na ponta do nariz, pode ser gordo e transparente, pode ver além do meu corpo. Podes ser tu, quem sabe.
chiu
Ele tocou-me. Olhou para mim com cores de mel, com águas de sal, com uma lista infindável de palavras caladas.
É uma pequena contracção de um músculo, um majestoso contorcer na cadeira, um elegante, profundo e distante silêncio.
O calar não é um bicho feio, nem um elefante pesado. Ele é um vento fugidio que voa entre brisas aconchegantes e sonoras.
O silêncio coloca-se ali, ao meu lado. Tento tocá-lo e ele escorrega-se-me pelos dedos de verniz vermelho. Vem Silêncio, quero-te aqui. Cala esta multidão enlouquecida de palavras vazias e conversas inúteis. Aproxima-te de mim e toca-me com os teus olhos. Desce à plebe, olha-me de perto e coloca-te no teu lugar. Pesas-me a consciência e afastas-me os sentidos. Fazes-me acelerar o paço, correr as escadas, desfiar o frio do congelador industrial.
Mas dizem que não podes ser distante. Sábias palavras.
Sai dessa tua poltrona preta, enfrenta o preconceito e a racionalidade. Aproxima-te, por favor.
Faz-te meu.
É uma pequena contracção de um músculo, um majestoso contorcer na cadeira, um elegante, profundo e distante silêncio.
O calar não é um bicho feio, nem um elefante pesado. Ele é um vento fugidio que voa entre brisas aconchegantes e sonoras.
O silêncio coloca-se ali, ao meu lado. Tento tocá-lo e ele escorrega-se-me pelos dedos de verniz vermelho. Vem Silêncio, quero-te aqui. Cala esta multidão enlouquecida de palavras vazias e conversas inúteis. Aproxima-te de mim e toca-me com os teus olhos. Desce à plebe, olha-me de perto e coloca-te no teu lugar. Pesas-me a consciência e afastas-me os sentidos. Fazes-me acelerar o paço, correr as escadas, desfiar o frio do congelador industrial.
Mas dizem que não podes ser distante. Sábias palavras.
Sai dessa tua poltrona preta, enfrenta o preconceito e a racionalidade. Aproxima-te, por favor.
Faz-te meu.
17 septiembre 2007
o pinguim
Já tinha errado uma vez e iria errar de novo. A prática faz a perfeição.
Mas os erros são dúbios.
Olhas, analisas, preocupas, controlas. Achas que consegues controlar.
Resistes, amassas, recusas.
Mais um passo e menos uma defesa.
Sou fronteira mascarada de limite. Quero ir até ao topo, quero fugir das minhas possibilidades, quero correr e escorregar na água gelada das nascentes.
Mas eu sou marco e sou divisa. Um dia ensinaram-me a esbate-la.
E nesse momento senti alguma coisa.
Um calafrio na ponta dos dedos, um tremor nos órgãos escondidos. Uma sensação. Era como se quisesse pensar e tudo estivesse branco. Não há montanhas, nem rios, nem frio e nem nascente. Há uma cor e o infinito.
E agora podes ser quem quiseres e dizer que a tangerina tem sabor a beijo. E podes beijar a fruta. Desalmadamente.
Mas eu já tinha errado uma vez. Eu e essa minha mania de ser perfeita.
Prevejo os erros a distâncias alucinantes. Sofro-os em quantidades industriais. Vivo-os e remexo-os. Contorço-me e sufoco-me
Mas um dia ensinaram-me a rabiscar.
E ofereceram-me uma caneta.
Quem me dera ser um pinguim.
Mas os erros são dúbios.
Olhas, analisas, preocupas, controlas. Achas que consegues controlar.
Resistes, amassas, recusas.
Mais um passo e menos uma defesa.
Sou fronteira mascarada de limite. Quero ir até ao topo, quero fugir das minhas possibilidades, quero correr e escorregar na água gelada das nascentes.
Mas eu sou marco e sou divisa. Um dia ensinaram-me a esbate-la.
E nesse momento senti alguma coisa.
Um calafrio na ponta dos dedos, um tremor nos órgãos escondidos. Uma sensação. Era como se quisesse pensar e tudo estivesse branco. Não há montanhas, nem rios, nem frio e nem nascente. Há uma cor e o infinito.
E agora podes ser quem quiseres e dizer que a tangerina tem sabor a beijo. E podes beijar a fruta. Desalmadamente.
Mas eu já tinha errado uma vez. Eu e essa minha mania de ser perfeita.
Prevejo os erros a distâncias alucinantes. Sofro-os em quantidades industriais. Vivo-os e remexo-os. Contorço-me e sufoco-me
Mas um dia ensinaram-me a rabiscar.
E ofereceram-me uma caneta.
Quem me dera ser um pinguim.
16 septiembre 2007
hoje é fim de semana
Eu tentei apressar-me. A sério.
Mas há sempre tantas coisas a importunar o caminho. Os radares a detectar a velocidade, a gasolina que teima em faltar, o autocarro que demora sempre a vir. Às vezes parece que o casaco não combina com os sapatos ou que os brincos não vão bem com o colar.
Há dias em que acordo e tenho um olho maior que o outro, uma perna mais comprida, uma unha que se partiu.
E esses dias são inúteis. São dias de espera.
Parece que tudo anda mais devagar e é tão difícil tomar decisões. Turbilhões de ideias que salpicam todas as partes do corpo. São coloridas e retalhadas, saltam e escorregam pelas curvas e declínios de uma pele queimada.
Nesses dias os pensamentos brincam com a minha cabeça, fazem puzzels impossíveis, correm e escondem-se das chaves dos enigmas.
E não consigo andar.
Desculpa se me atrasei.
Mas parece que foi preciso uma eternidade para chegar aqui.
Mas há sempre tantas coisas a importunar o caminho. Os radares a detectar a velocidade, a gasolina que teima em faltar, o autocarro que demora sempre a vir. Às vezes parece que o casaco não combina com os sapatos ou que os brincos não vão bem com o colar.
Há dias em que acordo e tenho um olho maior que o outro, uma perna mais comprida, uma unha que se partiu.
E esses dias são inúteis. São dias de espera.
Parece que tudo anda mais devagar e é tão difícil tomar decisões. Turbilhões de ideias que salpicam todas as partes do corpo. São coloridas e retalhadas, saltam e escorregam pelas curvas e declínios de uma pele queimada.
Nesses dias os pensamentos brincam com a minha cabeça, fazem puzzels impossíveis, correm e escondem-se das chaves dos enigmas.
E não consigo andar.
Desculpa se me atrasei.
Mas parece que foi preciso uma eternidade para chegar aqui.
15 septiembre 2007
povoada
As pessoas têm barrigas e mãos e unhas sujas. Têm pelos pretos a saírem de lugares estranhos, têm dentes fungosos, olhares cabisbaixos, olheiras fundas, gorduras acumuladas.
As pessoas têm hálito e gases, e suor nas mãos e nas costas. As pessoas falam e gritam e gemem e arrotam.
Por um momento não tenho sentidos. Sou uma bolha abstraída do mundo, desprezada pelas sensações, esmagada pelas peles flácidas a precisar de um pouco de cera quente.
Tenho nojo.
Repugna-me a maquilhagem berrante, as roupas justas demais, as discussões de aperta-empurra.
Mas é aquele o momento, não posso deixar escapar a sorte da solidão. Voem pensamentos, venham e saiam e rodopiem pelo ar. Cambalhotem por cima de mim.
Sou eu e é o futuro. E de repente acabou a pressão, o nervoso e as mãos a tremer. Acabou o “para amanhã” o “não vou conseguir” o “não posso falhar”.
Foi só um segundo.
Um bom segundo. Havia gelados e sorrisos e amigos e praia e Marques Mendes e José Sócrates e passeios e mar e perfume e dietas e havia também uma pitada de passado, com um ventinho de leve a refrescar o dia.
Agora sou grande e não posso olhar para trás.
Até porque tenho um sovaco peludo encostado à minha bochecha. Seria um golpe arriscado.
Ultima estação. Veste, arranja, normaliza.
E se não sentires que pertences àquele mundo. Sorri.
É sempre uma boa opção.
As pessoas têm hálito e gases, e suor nas mãos e nas costas. As pessoas falam e gritam e gemem e arrotam.
Por um momento não tenho sentidos. Sou uma bolha abstraída do mundo, desprezada pelas sensações, esmagada pelas peles flácidas a precisar de um pouco de cera quente.
Tenho nojo.
Repugna-me a maquilhagem berrante, as roupas justas demais, as discussões de aperta-empurra.
Mas é aquele o momento, não posso deixar escapar a sorte da solidão. Voem pensamentos, venham e saiam e rodopiem pelo ar. Cambalhotem por cima de mim.
Sou eu e é o futuro. E de repente acabou a pressão, o nervoso e as mãos a tremer. Acabou o “para amanhã” o “não vou conseguir” o “não posso falhar”.
Foi só um segundo.
Um bom segundo. Havia gelados e sorrisos e amigos e praia e Marques Mendes e José Sócrates e passeios e mar e perfume e dietas e havia também uma pitada de passado, com um ventinho de leve a refrescar o dia.
Agora sou grande e não posso olhar para trás.
Até porque tenho um sovaco peludo encostado à minha bochecha. Seria um golpe arriscado.
Ultima estação. Veste, arranja, normaliza.
E se não sentires que pertences àquele mundo. Sorri.
É sempre uma boa opção.
09 septiembre 2007
coisas de bagagem
Enfia a tua casa numa maleta e foge com ela. Mas não te esqueças. Não podes avisar ninguém.
As coisas têm tendência a fugir, escorregar pelos cantos da mala, escapulir-se. Atenção: verificar sempre com muito tento se a bagagem não tem furos.
É difícil controlar o rumo das coisas. Que mania.
As coisas têm vida própria. Têm a sua própria bagagem, os seus próprios pés. Vão-se embora.
As coisas têm lágrimas nos olhos e têm maquilhagem borrada. Têm bilhetes de ida e às vezes datas de volta. Mas nem sempre.
Atenção: cozer os furos da mala com a máquina; fazer um ponto duplo e reforçado.
E nós somos também bagagens. Talvez apareça no google se pesquisarmos bem.
Pesquisar é uma arte.
Todos já fugimos alguma vez. Todos já abandonámos um ferido em combate. Todos já encontrámos um furinho, uma porta secreta, um túnel subterrâneo.
E todos já tiveram medo que a sua mala esvaziasse.
Mas para isso tenho uma dica: Colocar sempre um forro duplo. Ali ficam guardados para sempre aqueles que não queremos deixar fugir. Nunca.
Comigo funcionou.
As coisas têm tendência a fugir, escorregar pelos cantos da mala, escapulir-se. Atenção: verificar sempre com muito tento se a bagagem não tem furos.
É difícil controlar o rumo das coisas. Que mania.
As coisas têm vida própria. Têm a sua própria bagagem, os seus próprios pés. Vão-se embora.
As coisas têm lágrimas nos olhos e têm maquilhagem borrada. Têm bilhetes de ida e às vezes datas de volta. Mas nem sempre.
Atenção: cozer os furos da mala com a máquina; fazer um ponto duplo e reforçado.
E nós somos também bagagens. Talvez apareça no google se pesquisarmos bem.
Pesquisar é uma arte.
Todos já fugimos alguma vez. Todos já abandonámos um ferido em combate. Todos já encontrámos um furinho, uma porta secreta, um túnel subterrâneo.
E todos já tiveram medo que a sua mala esvaziasse.
Mas para isso tenho uma dica: Colocar sempre um forro duplo. Ali ficam guardados para sempre aqueles que não queremos deixar fugir. Nunca.
Comigo funcionou.
04 septiembre 2007
comprimidos para dormir
Não há estações do ano e os dias mudam ao sabor das marés (e da capacidade de ver belo no interessante).
Interessantes as pessoas que saem, fogem, encorajam e arriscam. Aquelas que deixam para trás a vida e a rotatividade do mundo para procurarem um sonho. Um sonho comum.
Diria que são sábias as pessoas que concorrem, competem que adormecem e acordam em função de uma meta: ser o melhor.
A supremacia é um extremo impalpável que nem o sentido mais apurado pode descobrir. O oculado que do alto dos seus escassos centímetros ousa desafiar em língua estrangeira os políticos nacionais. O bem parecido que só conversa com olhos azuis e que achou a apuração fácil demais, o pai de família que não sabe interromper frases e sente-se estrangeiro na cidade grande, o sumo de frutas com problemas de fígado, a estrangeira que faz perguntas vocabulares durante as aulas.
A cadeira não é confortável, o computador não é visível, a importância não é relevante. Um nome escrito em caneta azul no fim da página, uma pergunta cliché para quebrar o gelo.
Sem amigos, sem referências.
E aqui sim existe vida.
Energia em cada palavra dita, ideais em cada tinta debotada no bloco, revoltas internas com cada regra imperceptível.
Competição de sorrisos. O valor da obra é a capacidade de triunfar não obstante os obstáculos de contentamento, nem deixar-se vencer pelo “boa noite” quando na verdade deveria ser “bom dia”.
Mais um risco vermelho, e mais um risco vencido. Poderia acordar a sorrir, eu sei. Poderia acordar com preguiça, eu sei. Poderia acordar na praia, no sol, no céu azul e na casa silenciosa. Eu sei.
As escolhas são copos de leite quente que nos vão ajudando a acalmar e a finalmente adormecer.
E a sonolência passou, venham os sonhos.
Interessantes as pessoas que saem, fogem, encorajam e arriscam. Aquelas que deixam para trás a vida e a rotatividade do mundo para procurarem um sonho. Um sonho comum.
Diria que são sábias as pessoas que concorrem, competem que adormecem e acordam em função de uma meta: ser o melhor.
A supremacia é um extremo impalpável que nem o sentido mais apurado pode descobrir. O oculado que do alto dos seus escassos centímetros ousa desafiar em língua estrangeira os políticos nacionais. O bem parecido que só conversa com olhos azuis e que achou a apuração fácil demais, o pai de família que não sabe interromper frases e sente-se estrangeiro na cidade grande, o sumo de frutas com problemas de fígado, a estrangeira que faz perguntas vocabulares durante as aulas.
A cadeira não é confortável, o computador não é visível, a importância não é relevante. Um nome escrito em caneta azul no fim da página, uma pergunta cliché para quebrar o gelo.
Sem amigos, sem referências.
E aqui sim existe vida.
Energia em cada palavra dita, ideais em cada tinta debotada no bloco, revoltas internas com cada regra imperceptível.
Competição de sorrisos. O valor da obra é a capacidade de triunfar não obstante os obstáculos de contentamento, nem deixar-se vencer pelo “boa noite” quando na verdade deveria ser “bom dia”.
Mais um risco vermelho, e mais um risco vencido. Poderia acordar a sorrir, eu sei. Poderia acordar com preguiça, eu sei. Poderia acordar na praia, no sol, no céu azul e na casa silenciosa. Eu sei.
As escolhas são copos de leite quente que nos vão ajudando a acalmar e a finalmente adormecer.
E a sonolência passou, venham os sonhos.
01 septiembre 2007
o melhor ângulo
Fecha os olhos, espreme-os, cola-os apertados e conta.
Contar foi o método mais eficiente que ela descobriu para afugentar a raiva. A resignação. E eles obedecem-na, emudecem mal o desfile de números parte do seu cérebro em direcção ao além. Os espasmos irrequietos, a vermelhidão das bochechas se esbatem e as orelhas diminuem.
Conta. Recita números, qual poema de Alexandre O’Neill. Também ele viveu em Constância. A terra dos poetas.
Afasta os pensamentos com resoluções aritméticas. Prova, justifica, aplica, desenvolve. Já não existem questões simples. O o quê morreu em combate entre o quarto e o quinto ano. Entre a mudança de caligrafia e a introdução à era paleolítica.
Ela vê-se ao espelho e a sua imagem está desfocada, qual narciso no rio. Fosse pela distância ou pelo brilho da ponta branca dos sapatos que reluziam ao sol. Sapatos mimados que vão morrendo, congelando e esbranquiçando as pontas. Aquele liquido salgado que verte dos olhos, parece ter um efeito decisivo no plástico falsificado dos sapatos. Ela pensou que um dia deveria patentear o seu líquido de pupilas verdes.
A falta de visão era uma vergonha que, no entanto, não a impedia de contemplar o seu monte de farrapos desfiados e fora de foco. É uma questão de procurar o melhor ângulo.
Bonita, ela.
Um, dois, três, quatro, cinco…
Bonita, ela.
Contar foi o método mais eficiente que ela descobriu para afugentar a raiva. A resignação. E eles obedecem-na, emudecem mal o desfile de números parte do seu cérebro em direcção ao além. Os espasmos irrequietos, a vermelhidão das bochechas se esbatem e as orelhas diminuem.
Conta. Recita números, qual poema de Alexandre O’Neill. Também ele viveu em Constância. A terra dos poetas.
Afasta os pensamentos com resoluções aritméticas. Prova, justifica, aplica, desenvolve. Já não existem questões simples. O o quê morreu em combate entre o quarto e o quinto ano. Entre a mudança de caligrafia e a introdução à era paleolítica.
Ela vê-se ao espelho e a sua imagem está desfocada, qual narciso no rio. Fosse pela distância ou pelo brilho da ponta branca dos sapatos que reluziam ao sol. Sapatos mimados que vão morrendo, congelando e esbranquiçando as pontas. Aquele liquido salgado que verte dos olhos, parece ter um efeito decisivo no plástico falsificado dos sapatos. Ela pensou que um dia deveria patentear o seu líquido de pupilas verdes.
A falta de visão era uma vergonha que, no entanto, não a impedia de contemplar o seu monte de farrapos desfiados e fora de foco. É uma questão de procurar o melhor ângulo.
Bonita, ela.
Um, dois, três, quatro, cinco…
Bonita, ela.
30 agosto 2007
Um dia
Era uma vez um pacote de açúcar.
Ele tem uma forma estranha e um valor impagável, é procurado no mercado negro, nos aeroportos e esquadras da polícia. Mas eu escondi-o bem. Muito bem.
Foi uma viagem difícil, sempre a suspeitarem de mim, a cheirarem-me um odor adocicado. Perguntas, muitas perguntas. Interrogatórios infindáveis, lágrimas de angústia apertada.
Era impossível fintar o pensamento. O pacote aparecia escondido nos sonhos de cinco minutos, acordava com as costas a arder em dor e pensava que tudo acabaria bem. Mas a viagem parecia contra mim. Os filmes tinham mensagens subliminares escondidas em cada diálogo, o jornal escrevia o meu crime em todas as páginas, o meu corpo e a almofada cheiravam a noites mal dormidas de tráfico açucarado.
Ás vezes tinha medo que descobrissem o meu segredo. Sou uma rapariga correcta que não se pode dar ao luxo de fazer coisas irracionais. Contrabandear pacotes de açúcar é crime, dá prisão. Fui muito influenciável, eu sei. Ele chegou-me com os seus olhinhos pequeninos (tens de abri-los quando te ris), com o seu sorriso fechado, discurso manso e pegajoso. Foi impossível resistir. Pareceu tão espontâneo, tão puro e simples, mas lá no fundo foi uma proposta cruel, eu sei. Foi propositada. Querias fazer-me enveredar pela vida do dinheiro fácil, dos sentimentos exacerbados, dos impulsos incontroláveis.
E agora aqui estou, com o produto do contrabando.
Ainda está escondido.
Tenho de libertá-lo e não consigo.
Sou uma criminosa. Mas estou a pensar ficar com a mercadoria para mim. Pelo menos por mais algum tempo.
Ele tem uma forma estranha e um valor impagável, é procurado no mercado negro, nos aeroportos e esquadras da polícia. Mas eu escondi-o bem. Muito bem.
Foi uma viagem difícil, sempre a suspeitarem de mim, a cheirarem-me um odor adocicado. Perguntas, muitas perguntas. Interrogatórios infindáveis, lágrimas de angústia apertada.
Era impossível fintar o pensamento. O pacote aparecia escondido nos sonhos de cinco minutos, acordava com as costas a arder em dor e pensava que tudo acabaria bem. Mas a viagem parecia contra mim. Os filmes tinham mensagens subliminares escondidas em cada diálogo, o jornal escrevia o meu crime em todas as páginas, o meu corpo e a almofada cheiravam a noites mal dormidas de tráfico açucarado.
Ás vezes tinha medo que descobrissem o meu segredo. Sou uma rapariga correcta que não se pode dar ao luxo de fazer coisas irracionais. Contrabandear pacotes de açúcar é crime, dá prisão. Fui muito influenciável, eu sei. Ele chegou-me com os seus olhinhos pequeninos (tens de abri-los quando te ris), com o seu sorriso fechado, discurso manso e pegajoso. Foi impossível resistir. Pareceu tão espontâneo, tão puro e simples, mas lá no fundo foi uma proposta cruel, eu sei. Foi propositada. Querias fazer-me enveredar pela vida do dinheiro fácil, dos sentimentos exacerbados, dos impulsos incontroláveis.
E agora aqui estou, com o produto do contrabando.
Ainda está escondido.
Tenho de libertá-lo e não consigo.
Sou uma criminosa. Mas estou a pensar ficar com a mercadoria para mim. Pelo menos por mais algum tempo.
29 agosto 2007
Aqui...
Não há céu azul mas o cinzento faz trinta graus. As ruas são grandes, esburacadas, e cheias de camiões. É mais seguro atravessar no meio dos carros do que na passadeira.
Nunca se pode andar “distraída” e isso é tão óbvio que se nos distrairmos a culpa é nossa.
Não há ar condicionado mas não se pode andar de vidros abertos. A bolsa fica em casa e o dinheiro (indispensável) vai no bolso (que curiosamente não existe nas calças femininas).
Não se pode chamar a atenção (“vai ser difícil, não devias estar tão bronzeada”)
Toda a gente diz que deveria arranjar um namorado brasileiro para satisfazer a vontade da minha mãe e eu sei que se o fizer ela vai ter saudades dos portugueses.
Eu não quero arranjar namorados.
Sinto a falta daí e aí sentia tanta falta de fugir.
É pior do que aí mas mesmo assim vim para aqui com a ilusão de que aqui fosse melhor do que aí.
Os filmes são dobrados e eu adormeço a vê-los.
A vida começa as 7 da manhã.
Ando com um pacote de açúcar na mala.
Há família e há também problemas familiares.
Diz-se rotatória e não há prioridade. Os camiões podem andar em contra mão.
O motorista do autocarro conversa e olha para trás enquanto fala.
A culpa é sempre do outro (e normalmente do governo).
Há muitas notícias sobre os Estados Unidos e isso dá-me saudade.
Tenho um irmão mais novo e já não me lembrava o que era andar à porrada e jogar playstation.
Aqui sinto falta do teletransporte e prometo que na próxima semana o discurso será mais entusiasmante.
Nunca se pode andar “distraída” e isso é tão óbvio que se nos distrairmos a culpa é nossa.
Não há ar condicionado mas não se pode andar de vidros abertos. A bolsa fica em casa e o dinheiro (indispensável) vai no bolso (que curiosamente não existe nas calças femininas).
Não se pode chamar a atenção (“vai ser difícil, não devias estar tão bronzeada”)
Toda a gente diz que deveria arranjar um namorado brasileiro para satisfazer a vontade da minha mãe e eu sei que se o fizer ela vai ter saudades dos portugueses.
Eu não quero arranjar namorados.
Sinto a falta daí e aí sentia tanta falta de fugir.
É pior do que aí mas mesmo assim vim para aqui com a ilusão de que aqui fosse melhor do que aí.
Os filmes são dobrados e eu adormeço a vê-los.
A vida começa as 7 da manhã.
Ando com um pacote de açúcar na mala.
Há família e há também problemas familiares.
Diz-se rotatória e não há prioridade. Os camiões podem andar em contra mão.
O motorista do autocarro conversa e olha para trás enquanto fala.
A culpa é sempre do outro (e normalmente do governo).
Há muitas notícias sobre os Estados Unidos e isso dá-me saudade.
Tenho um irmão mais novo e já não me lembrava o que era andar à porrada e jogar playstation.
Aqui sinto falta do teletransporte e prometo que na próxima semana o discurso será mais entusiasmante.
28 agosto 2007
Fico
Se não te fizer muita diferença, fica. Só mais um bocadinho.
É o tempo da vida mudar, do rumo se estabelecer, do mundo aprender a engatinhar.
Um bocadinho é muito menos do que as horas penosas em que os minutos se contavam em batidas decrescentes e em que a música soava a cada hora, ou assim.
Não é tão bonito como o jantar na mesa de madeira, o filme com sussurros de arrepios ou os pés a entrelaçarem em cócegas e risadas.
Não é tão imenso como um abraço cúmplice, um olhar apertado, um presente desentendido.
É menos embaraçoso do que dançar na rua, cantar na varanda, ouvir uma última vez as tuas mãos a conversar baixinho com as minhas.
Mas se não te fizer diferença, não te vás embora depois do café da manhã. Fica para o almoço. Prometo que te faço uma comida cheia de hidratos de carbono. E se não gostares do meu tempero levo-te ao restaurante. Pago eu, não te preocupes.
Mas fica só mais umas horas.
Pega-me ao colo para eu espernear, diz piadas para que eu faça quarenta e seis não-sorrisos forçados, dança e obriga-me a dançar.
E durante o almoço podemos conversar sobre coisas quotidianas. Sobre o filme de ontem, a noite de hoje, os dias e dias e meses e meses de resistir derretido.
E se não te fizer mesmo nenhuma mossa, fica para o café.
Vai deixando-te ficar e embalar pelos momentos de gargalhadas improvisadas e continua a ensinar-me a viver o presente, sem agenda, sem relógio, sem esquemas e tabelas.
Desculpa se não tenho nada para te dar em troca. Mas posso oferecer o jantar.
Isto é, se não te importares muito de ficar mais um pouco.
É o tempo da vida mudar, do rumo se estabelecer, do mundo aprender a engatinhar.
Um bocadinho é muito menos do que as horas penosas em que os minutos se contavam em batidas decrescentes e em que a música soava a cada hora, ou assim.
Não é tão bonito como o jantar na mesa de madeira, o filme com sussurros de arrepios ou os pés a entrelaçarem em cócegas e risadas.
Não é tão imenso como um abraço cúmplice, um olhar apertado, um presente desentendido.
É menos embaraçoso do que dançar na rua, cantar na varanda, ouvir uma última vez as tuas mãos a conversar baixinho com as minhas.
Mas se não te fizer diferença, não te vás embora depois do café da manhã. Fica para o almoço. Prometo que te faço uma comida cheia de hidratos de carbono. E se não gostares do meu tempero levo-te ao restaurante. Pago eu, não te preocupes.
Mas fica só mais umas horas.
Pega-me ao colo para eu espernear, diz piadas para que eu faça quarenta e seis não-sorrisos forçados, dança e obriga-me a dançar.
E durante o almoço podemos conversar sobre coisas quotidianas. Sobre o filme de ontem, a noite de hoje, os dias e dias e meses e meses de resistir derretido.
E se não te fizer mesmo nenhuma mossa, fica para o café.
Vai deixando-te ficar e embalar pelos momentos de gargalhadas improvisadas e continua a ensinar-me a viver o presente, sem agenda, sem relógio, sem esquemas e tabelas.
Desculpa se não tenho nada para te dar em troca. Mas posso oferecer o jantar.
Isto é, se não te importares muito de ficar mais um pouco.
21 agosto 2007
Lady in Blue
O mar estava em reboliço. Vagas e crianças histéricas faziam uma sinfonia enjoada que derretia o sol escaldante. Eram ondas e ondas de libertação suprema.
Nadámos até ilhas desertas, almoçámos manjares dos Deuses, rimos e saltamos na velocidade inumana de plásticos flutuantes.
Partilhámos planos de futuro, fugimos dos olhares inquisidores, fizemos juras de amizade eterna.
A cabeça girou ao som da música indigente, o pé ficou descalço e sujou-se de areia nocturna. Caímos e levantá-mo-nos, corremos e desacelerámos, brincámos às celebridades e na cama, as lágrimas voltaram a cair.
Mas quando o dia nasce de novo, vem com ele o sorriso da união. Somos um só. Sempre fomos, desde o início.
Somos família de sangue fictício. Somos olhares e diversão garantida.
Somos gritos de encorajamento, somos viagens a quilómetros alucinantes, somos partidas e somos preguiça.
Para fugir do vendaval da praia, escondemo-nos em tostas de queijos e enchidos, em eleições americanas e estrelas cadentes. Porque as férias são assim. Há um pouco de tudo.
Nadámos até ilhas desertas, almoçámos manjares dos Deuses, rimos e saltamos na velocidade inumana de plásticos flutuantes.
Partilhámos planos de futuro, fugimos dos olhares inquisidores, fizemos juras de amizade eterna.
A cabeça girou ao som da música indigente, o pé ficou descalço e sujou-se de areia nocturna. Caímos e levantá-mo-nos, corremos e desacelerámos, brincámos às celebridades e na cama, as lágrimas voltaram a cair.
Mas quando o dia nasce de novo, vem com ele o sorriso da união. Somos um só. Sempre fomos, desde o início.
Somos família de sangue fictício. Somos olhares e diversão garantida.
Somos gritos de encorajamento, somos viagens a quilómetros alucinantes, somos partidas e somos preguiça.
Para fugir do vendaval da praia, escondemo-nos em tostas de queijos e enchidos, em eleições americanas e estrelas cadentes. Porque as férias são assim. Há um pouco de tudo.
20 agosto 2007
Sem relógio
Chega de lamechice e textos de amor.
Chega de discursos apaixonados e corações a voarem pelo ar.
Mas hoje. Hoje é um dia especial.
Passou-se tudo num instante.
Chegaste de carro novo, como quem não quer a coisa. Gravaste músicas invulgares, contaste histórias desconhecidas. E foste tu, mais uma vez tu.
De cara para o mar, com o ranger da madeira.Com vozes e sussurros que ultrapassavam paredes, com a preguiça solarenga e o banho que queimava os poros. Contigo e sem relógio.
Dizes que não gostas de doces mas adoras chocolates. Dizes que não vives sem música e cantas sempre tão baixinho. Nunca queres beber mas não recusas desafios. Dizes que está sempre tudo bem e revelas-te tão encimado. Dizes que vai ser fácil mas os teus olhos não sabem mentir. Dizes que dizes pouco e, afinal, dizes sempre tanto.
As peles colam e partilham perfumes.
Os olhares contêm palavras.
Os toques são livros inteiros de ternura.
Os dias sucedem-se sem contador. São momentos e momentos e momentos.
Ás vezes converso com o destino.
Em tantos anos acabámos por nos tornar muito próximos.
Simpático, afável, ternurento, resolveu pôr-me à prova.
E eu também não recuso desafios.
Vamos até ao limite, até ao último segundo da vida terrestre, até ao limiar da dor humana.
Fugimos e fugiremos outra vez. Porque a nossa vida é assim: sem relógio.
Chega de discursos apaixonados e corações a voarem pelo ar.
Mas hoje. Hoje é um dia especial.
Passou-se tudo num instante.
Chegaste de carro novo, como quem não quer a coisa. Gravaste músicas invulgares, contaste histórias desconhecidas. E foste tu, mais uma vez tu.
De cara para o mar, com o ranger da madeira.Com vozes e sussurros que ultrapassavam paredes, com a preguiça solarenga e o banho que queimava os poros. Contigo e sem relógio.
Dizes que não gostas de doces mas adoras chocolates. Dizes que não vives sem música e cantas sempre tão baixinho. Nunca queres beber mas não recusas desafios. Dizes que está sempre tudo bem e revelas-te tão encimado. Dizes que vai ser fácil mas os teus olhos não sabem mentir. Dizes que dizes pouco e, afinal, dizes sempre tanto.
As peles colam e partilham perfumes.
Os olhares contêm palavras.
Os toques são livros inteiros de ternura.
Os dias sucedem-se sem contador. São momentos e momentos e momentos.
Ás vezes converso com o destino.
Em tantos anos acabámos por nos tornar muito próximos.
Simpático, afável, ternurento, resolveu pôr-me à prova.
E eu também não recuso desafios.
Vamos até ao limite, até ao último segundo da vida terrestre, até ao limiar da dor humana.
Fugimos e fugiremos outra vez. Porque a nossa vida é assim: sem relógio.
06 agosto 2007
só uma magiazinha?
Não gosto de pessoas gordas. Nunca gostei. Elas ocupam espaço. Muito espaço. Demasiado espaço.
Espalhaste-te na minha vida e correste com a rotina. Refizeste as fronteiras e gritaste-me baixinho.
És assim. Vens, imprevisivelmente, com pantufas de algodão e sorrisos tímidos. Tocas o meu telefone e comentas as minhas manias.
Irritas-me.
Eu grito e esperneio, reclamo, faço rugas na cara, cultivo cabelos brancos de velhice antecipada. E respondes-me com ventinho e abraços, com a tua mão a amaciar a minha pele. E isso deixa-me ainda mais nervosa.
Mas agora fazes-me falta.
Há bocados do meu mundo por preencher. O teu espaço é vácuo e nem os feiticeiros desviam-me o pensamento.
Dói-me a cicatriz na testa e o raio borbulha-me a ardência. Eles lutam, gritam bruxarias estrangeiras e eu que só queria uma magiazinha barata que congelasse, por alguns dias, todos os relógios do mundo.
Espalhaste-te na minha vida e correste com a rotina. Refizeste as fronteiras e gritaste-me baixinho.
És assim. Vens, imprevisivelmente, com pantufas de algodão e sorrisos tímidos. Tocas o meu telefone e comentas as minhas manias.
Irritas-me.
Eu grito e esperneio, reclamo, faço rugas na cara, cultivo cabelos brancos de velhice antecipada. E respondes-me com ventinho e abraços, com a tua mão a amaciar a minha pele. E isso deixa-me ainda mais nervosa.
Mas agora fazes-me falta.
Há bocados do meu mundo por preencher. O teu espaço é vácuo e nem os feiticeiros desviam-me o pensamento.
Dói-me a cicatriz na testa e o raio borbulha-me a ardência. Eles lutam, gritam bruxarias estrangeiras e eu que só queria uma magiazinha barata que congelasse, por alguns dias, todos os relógios do mundo.
03 agosto 2007
é a revolução
Dizem que “queixar” é um mau verbo. Dizem por ai que isso de reclamar, protestar, contestar e resistir, é uma coisa reprovável.
Pois eu não concordo.
Sobem-me os tremores pelos caminhos dérmicos, arrepiam-se os meus pelos e enlagrimam-se os olhos. O calor apodera-se do meu bom senso e começo a achar que os poucos decibéis permitidos pela lei são inaudíveis.
Mexem-se-me as mãos e os pés e os olhos e os cabelos. Gesticulo e articulo um discurso corrido e apressado de protestos e reivindicações.
Quero o mundo como eu quero.
Não sou rebelde nem contestatária. Sou eu.
E quero justiça.
Quero justiça pela comida que levou horas a ser preparada e vem mal servida no prato. Quero justiça pelos sorrisos que deveriam sair das bocas dos empregados.
Quero justiça pelas moedas que ficam a mais nos caixas.
Quero justiça pelas palavras amáveis que queriam sair e que são substituídas por discursos sexistas.
Quero justiça pelo direito ao silêncio que é quebrado pelo grito hormonal e sedento de trabalhadores empoeirados.
Quero justiça pela disponibilidade da função-publica-das-nove-as-cinco-e-às-quinze-para-as-cinco-já-está-tudo-fechado.
Quero justiça pela quantidade de árvores que poderia ser poupada nas burocracias inúteis.
E agora dizem-me para parar de me queixar. E eu não quero.
E queixo-me por causa disso.
Pois eu não concordo.
Sobem-me os tremores pelos caminhos dérmicos, arrepiam-se os meus pelos e enlagrimam-se os olhos. O calor apodera-se do meu bom senso e começo a achar que os poucos decibéis permitidos pela lei são inaudíveis.
Mexem-se-me as mãos e os pés e os olhos e os cabelos. Gesticulo e articulo um discurso corrido e apressado de protestos e reivindicações.
Quero o mundo como eu quero.
Não sou rebelde nem contestatária. Sou eu.
E quero justiça.
Quero justiça pela comida que levou horas a ser preparada e vem mal servida no prato. Quero justiça pelos sorrisos que deveriam sair das bocas dos empregados.
Quero justiça pelas moedas que ficam a mais nos caixas.
Quero justiça pelas palavras amáveis que queriam sair e que são substituídas por discursos sexistas.
Quero justiça pelo direito ao silêncio que é quebrado pelo grito hormonal e sedento de trabalhadores empoeirados.
Quero justiça pela disponibilidade da função-publica-das-nove-as-cinco-e-às-quinze-para-as-cinco-já-está-tudo-fechado.
Quero justiça pela quantidade de árvores que poderia ser poupada nas burocracias inúteis.
E agora dizem-me para parar de me queixar. E eu não quero.
E queixo-me por causa disso.
02 agosto 2007
melga
Tenho zumbidos no quarto. Há barulhos nos meus ouvidos que não me deixam dormir, que não me deixam estar acordada. Escondo-me por baixo do cobertor e enrolo-me com os cabelos na almofada perfumada. E o zumbido continua.
Quero abrir os olhos e triturar o som com as pupilas, mas as pestanas estão gosmentas e têm um liquido solidificado que não as deixa abrir.
Preciso de um pesticida forte, ou de um spray que me desatormente o sono. Quero voar nos lençóis cor-de-rosas e dormir com sorrisos e suspiros
Mas o rumor continua. Esbato-me e contorço-me num turbilhão de pensamentos maus. Batifes, Malandros, Brejeiros. Voltem os sonhos bons. Vão-se embora insectos detestáveis.
Quero abrir os olhos e triturar o som com as pupilas, mas as pestanas estão gosmentas e têm um liquido solidificado que não as deixa abrir.
Preciso de um pesticida forte, ou de um spray que me desatormente o sono. Quero voar nos lençóis cor-de-rosas e dormir com sorrisos e suspiros
Mas o rumor continua. Esbato-me e contorço-me num turbilhão de pensamentos maus. Batifes, Malandros, Brejeiros. Voltem os sonhos bons. Vão-se embora insectos detestáveis.
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