18 octubre 2009

Ela

Ela é assim. Aterriza com a sua voz de comando e o seu olhar de controlo de qualidade. Quer saber se a vida vai bem, se o dinheiro chega, se o trabalho satisfaz e se o futuro promete. Pergunta, comenta e, sem que perceba, já se instalou. Já é de casa. A minha casa. Chega de sorriso aberto e abraço apertado, traz uma mala de saudades e uma sacola com os meus jornais preferidos. Porque ela é assim: nunca falha.
Abre a mala e começa a espalhar-se. Enche a casa de vestígios e arranja um buraquinho no armário. Alisa o lençol, reorganiza o quarto e, em cinco minutos, dominou o mundo. O meu mundo. Porque ela é assim. E eu gosto.
Vem sempre com um rolo interminável de histórias narradas a conta gotas. Vem com serões de conversas debaixo do cobertor. Com o corta casaca dos amigos da lista negra. Com as novidades mais escaldantes da apetecível vida alheia.
- E agora vamos dizer mal de quem? – pergunta, para mudar de conversa. E nós mudamos e voltamos a mudar, interminavelmente.
E de repente apercebo-me da minha presença. Que eu estou ali. Que estive ali todo este tempo, ouvindo e admirando este incansável camaleão que faz o mundo hipnotizar-se. Ela anda e nós seguimos, ela diz e nós fazemos, ela ri e nós gargalhamos. Porque ela é assim, tem este incrível dom de fazer-nos girar, rodopiar à sua volta, sem nunca ficarmos tontos. Sem nunca cair.

08 octubre 2009

Equações absurdas

A variável xis tem muito que se lhe diga. Discute-se por ai se x=1 ou x=2. Burros. Hipócritas. Vê-se mesmo que não tinham na adolescência uma professora de matemática que lhes causava febre antes dos testes. À matemática há que ter-lhe medo e respeito. Há que tratar-la com carinho, dedicação e uma boa dose de benuorns.
Porque, meus amigos, se bem me lembro, xis pode ser uma variável nula. E é ai que as cosias se complicam: nessa pequena e ínfima possibilidade de xis não ter par, de que não tenha um equivalente numérico perdido no mundo da álgebra. E se x=0, então temos um problema. Porque equação incompleta é como morangos sem leite condensado ou hambúrguer sem batatas fritas. Um absurdo.
E, quando o incompleto já parece absurdo, descobrimos que os números são tramados e que estas lógicas transcendentais de Pitágoras, Euclides e Arquimedes vão mais longe. Vão sempre tão longe. É que não chega que xis tenha de andar sempre sozinho na rua, suportar o ípsilon com a sua cara metade aos beijos na fila do cinema, ler, todos os dias, as revistas de fofocas com as mais recentes equações matemáticas bem sucedidas. Não, não chega.
O pobre do xis, ¡que miserável!, teve de viver uns longos meses a passear na rua com a companhia do seu zero para descobrir que matemática é coisa seria, com ela não se brinca. Podes pegar no teu zero e colocar-lhe um roupa nova, uma peruca à maneira e um perfume cítrico, podes chamar-lhe “relação moderna” e “felicidade instantânea”, podes mentir, ocultar, esconder o zero debaixo do lençol. Não adianta, porque dizem os deuses da matemática que com 0, com 1, ou com 2, “as equações sem sentido, que não são válidas para nenhum valor, denominam-se absurdas”.
E, convenhamos, ninguém gosta de equações absurdas. Dão negativas nos testes de matemática. A todos menos ao Dali.

29 septiembre 2009

Dizem...

Se calhar ainda somos aquilo que erámos, dizes tu. Uma espuma do passado, um restinho de chocolate no fundo da caneca de Cola-Cao. Se calhar é só porque não sabemos ser diferentes (que desculpa tão apetecível), ou talvez seja porque estamos acomodados, sedentários, rotineiros, medrosos, digo eu.
É mais fácil esconder-se na exteriolidade do nosso problema, na felicidade fácil e superficial, no tempo como salvador do mundo, diz uma voz sábia de por aí. Preferimos evitar os caminhos espinhosos de uma vida nova, fugir da responsabilidade de um ser solitario, buscar no antes uma justificação para o agora, uma esperança para o depois.
Diz o povo que passado vive no museo e que o futuro a Deus pertence. Mas, o presente, o que se vive e não o que se oferece, não devería se tão planeado, pensado, dissecado e digerido, dizemos os dois como forma de auto-convencimento. E, enquanto continuamos a viver neste limbo intemporal, vamos representando as cenas felizes daquele guião de antigamente, dizes tu e eu confirmo.

27 septiembre 2009

O Picasso sabia chorar


Porque para chorar é preciso lágrimas e muitas caixas de lenços.

É preciso ficar verde, azul e amarelo. Babar-se e inchar o nariz.

Para chorar é preciso que dos teus olhos saia um rio de lágrimas. Que a tua cabeça rebente e o tamanho da tua orelha deixe de importar.
O Picasso, esse sim, sabia chorar. Porque se queremos chorar, meus senhores, é preciso um mínimo de dramatismo. E não me venham cá com choraminguices.

23 septiembre 2009

O problema

O problema é que acabámos como um caso mal resolvido. Um caroço entalado na garganta. Aquele gostinho meio amargo, meio azedo, que surge de vez em quando no final de uma conversa ou numa sequência de pensamentos silenciosos.
O problema é que o tal carocito arde fundo e(já) não tem lágrimas, ele doí, bem forte, como aquela distensão muscular que tivemos preguiça de tratar. Mas,pelo menos, conforta-me saber que não é sempre assim, todos os dias o mesmo incómodo. Há largas e extensas temporadas em que a pontadinha adormece. Numa hibernação feliz de hamster pachorrento. Mas nestas andanças da vida não se pode vacilar. Basta uma mínima distracção e, zás, lá surge a dorzinha outra vez.
O problema foi que isto saiu-nos dos planos, transbordou-nos das mãos. Era para ser só mais uma história de noites aborrecidas com novos amigos. Um suspiro dramático num circulo de álcool em copos de plástico. Uma memoria. Um passado distante.
O problema é quando o presente supera a agenda meticulosa que controla os dias. E ali estás tu.Outra vez.
Chegou, felizmente e sem querer, o dia que há anos esperavamos. Quero dar-te um abraço forte e pedir-te desculpa. Quero cuspir-te na cara. Não, escarrar-te e insultar-te e bater-te para que fiquem para sempre no teu corpo as cicatrizes que deixaste em mim.
Quero descobrir se mudaste de perfume. Sussurrar-te uma frase ao ouvido e ver se ainda sabes a resposta. Quero saber da tua mãe, da tua avó, da casa de verão e do gato bebé.
Quero que te lixes e quanto pior melhor. Quero que sofras pelo menos uma lágrima das que eu sofri.
O problema é quando a dor volta e ficamos a pensar em tudo o que podíamos ter feito para evitar a lesão.

02 septiembre 2009

"The more you leave, the less you loose"

A minha vida é uma eterna despedida. Um vai e vem de adeus e olá-caras-novas. O medo de ir e a vontade de voltar. Aquele passo meio dado, meio forçado, meio com vontade de fazer o mundo dar cambalhotas para trás, daquelas que eu nas aulas de ginástica nunca conseguia acabar em pé. E ainda não consigo. No fim saio sempre com um andar cambaleante e um sorriso forçado, esperando que a atitude do atleta melhore a sua pontuação. Engano os mais distraídos, que admiram a dita “coragem”, e comovo os que achavam que a minha vida era um fútil e desentendido abrir e fechar de portas.
E então ouço aquele famoso adeus. Aquele adeus já chorado tantas vezes nas filas de aeroportos, nas mesas de um jantar barato, nas cartas de juras de amizade eternas lidas à beira mar. É um adeus em coro e sem volta.
Já não peço telefones, nem contactos. Nunca olho para trás. Já não tiro fotografias, nem escrevo dedicatórias. Isso é para os novatos. Limito-me a escutar, com a atenção de uma eterna peregrina, os votos de boa viagem, as “certezas” de que terei uma vida melhor. “Vem visitar-me”, “vou visitar-te”. Tu não vens e eu não virei. Eu sei, mas eles parecem ter esperança.
Agarro-me a esses votos e repito-os obsessivamente na minha cabeça.
“Vai correr tudo bem”, dizem-me. E eu decoro. Até ao dia em que não precise mais de palavras encorajadoras. O dia em que encontre o meu lugar nesse mundo de despedidas.
O dia em que, quem sabe, me canse de fugir.

25 agosto 2009

Eu podia parar com isto

Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse. E isso provoca ecos que duram o tempo que tiver de ser. Ecos que cantam dentro de mim e nunca me largam. Vejo-me de saltos altos e cara maquilhada a esfregar-te o meu discurso de gente adulta, crescida, essa que tem cartão visa gold e casa própria. Eu podia parar com isto, a sério. Mas nunca to disse.
Éramos todo um piropo, um olhar desfocado, um “mais que tudo”. Até ao dia. O dia do costume. O dia em que tropeçámos um no outro e descobrimos que os nossos ecos eram pura estética ou preguiça. O dia em que nos tornamos numa piada que ambos achavamos graça. E isso era preocupante.
Agora somos os restos do que fomos e fazemos tudo por esconde-lo. Porque cada um se sente num patamar superior. Convence-se que o faz pelo outro, por amor ao passado, porque fazê-lo não mexe em nada com os seus sentimentos. E cada vez que alguém saca um gesto daqueles do antigamente, o outro pensa em silêncio: “Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse”.
E seguimos em frente.

15 julio 2009

Vou explicar.
Tu estás ai, eu estou aqui.
Eu, no meu canto, no meu livro super interessante.
Tu, destino incerto.
Eu, cozendo e remendando os meus pensamento, na minha alegria quotidiana de pequenos prazeres. Tu, bem longe deles.
Até que te vejo, deixo tudo, e vou falar contigo.
Assim de simples. Só por falar. Só por dizer.
Iman ou rotina?

13 julio 2009

Silêncio

O problema é quando chegam os silêncios. Esses insuportáveis momentos em que as trivialidades deixam de preencher o nosso pensamento. Aí, nos eternos espaços em branco, olhamos para nós e paramos.
Descobrimos que um não sabe o que fazer com o silêncio do outro. Nunca o aprendemos. Não nos servirão os quilos de livros que estudei ou o catálogo dos filmes que já viste. Pois parece que para este ofício não há diplomas nem livros de instruções.
Estamos lixados.
Porque são nessas pausas em que a presença do passado se torna intragável. Cada gesto, cada movimento discreto, cada tic, tudo se junta num coro celeste que tem como missão lembrar-nos que nós já não somos risadas cúmplices debaixo do lençol. Agora somos silêncio. E continuamos (e continuaremos?) lutando para não admiti-lo.

12 julio 2009

Não és tu, mas a ideia que criei de ti. São as memórias que cozinhei longamente no meu caldeirão de momentos fingidos, que encenei e estreei naquele palco que, de tanto sonhar, tornou-se parte de mim.
Não és tu, são os filmes que vejo e a poesia que imagino ler. É este mundo em que para cada amor há uma esquina, para cada casal, um anel perfeito, para cada dois, um só coração.
Não és tu, é a minha a minha fúria contra o mundo quando descubro que ele não obedeceu às minhas ordens. Incompetente! Que os pincéis que lhe comprei não pintaram o quatro encomendado. Que não existem pincéis.
Não és tu, são os clichés impossíveis de evitar.
Não és tu, sou eu.

08 julio 2009

A professora de matemática

Não sei o que te devo, nem como actuar. Não conheço as ruas que piso, os instintos que me assaltam, essa desgraçada mania do mundo de acabar sempre, e mais uma vez, em ti.
Sinto-me uma mafiosa de cabelo despenteado e de roupa imprópria para a ocasião. Vim de chinelos ao casamento do rei e saí com os dedos do pé a sangrar de pisadelas de salto de agulha.
Esqueci-me do escudo e a bala atingiu-me fundo. Doeu.
Agora, derrubada neste chão pestilento, busco uma explicação e concluo que não sei distinguir entre o que sou e o que me ensinaste a ser, entre o que aprendi nos meus tratamentos de prevenção cardíaca e as drogas que me injectaste directamente na aorta. Desculpa, mas não consigo passar factura. É que, como já sabes, a professora de matemática metia-me medo.

30 junio 2009

Outro dia normal

O meu calendário tem buracos e desenhos. Os seus números ganham nomes e os dias um karma que tarda em perder-se. A minha vida anda em contrarrelógio de metas pequeninas, aos tropeções de semana a semana, de festa em festa, saltando, com pernas compridas, os dias normais que rasgamos na agenda.
Mas o meu calendário, de um momento para outro, perdeu um dia do mês. O que decidi abdicar, tempos atrás, naquele fim-de-semana cansado de dores musculares. Num ápice, esse número despiu-se do seu traje de festa, perdeu os corações que o rodeavam, os postais improvisados e os presentes às escondidas. Juntou-se, choramingando, à normalidade dos dias passageiros que à noite dormem abraçados com mais um risco do calendário.
Hoje quando acordei limpei as lágrimas ao dia trinta e disse-lhe baixinho: “Bem-vindo a mais um dia normal”.

28 junio 2009

Pés queimados de desejo

Era uma competição de carrinhos de supermercado, uma tarde de madeira junto ao mar. A cidade estava de férias e as sardinhas tinham sofrido uma repentina chacina. O mar mais vazio e o estômago mais cheio, diriam os radicais.
A mesa de jantar do senhorio que nos maltratou, a cadeira roubada do liceu enquanto a menina bonita distraía o segurança. O plano perfeito para aniquilar aquela estante lá de casa que a bisavó deixou-nos no testamento. Tudo teria finalmente um objectivo nobre: aquecer os corpos ébrios de estudantes festeiros, trabalhadores ressacados e desocupados em busca de evasão.
Ajudaram a queimar os pés de desejos e a iluminar os brindes a um futuro melhor. Testemunharam as juras de amor eterno e os arrependimentos de dia seguinte. As zangas sem sentido e aquela paixão encontrada numa noite sem dormir. Com as horas, o fogo transformou-se me fumo, esse perfume que tatua os corpos na famosa noite de San Juan.

17 junio 2009

Manjerico

Foi uma noite de danças pelas calçadas escorregadias, de gritos encostados a paredes molhadas, de abraços e apertos que não queriam mais largar.
Foi-se um manjerico e veio outro ao som da música com cheiro a sardinha assada. Aquela que se canta bem alto, com um copo cheio a transbordar para as mãos. Tropeçávamos, sem querer, em pés conhecidos. Um abraço, uma jura de amor eterna, um adeus de data indefinida. E íamos caminhando, como quem vai pela vida sem destino, à procura de mais rostos, de mais histerismo, de mais conversas confessadas num degrau de uma escada qualquer.
Por momentos o mundo parecia uma dança de multidões. Tão barulhento, tão confuso, tão dramático…
E os gritos e as lágrimas, os empurrões e os insultos, as promessas e os segredos, ficaram escritos naquelas esquinas embriagadas, naqueles olhares perdidos pelas ruas sem nome da nossa cidade. E serão esquecidos até ao dia em que, entre dois copos ou três mais, alguém relembre aquele dia em que…
O dia em que, diz a lenda, se celebra a melhor noite do ano.
O dia em que, mais uma vez, a profecia voltou a cumprir-se. Mas desta vez, sem casamentos.

15 junio 2009

Cara de póquer

Tu mentes-me e eu finjo acreditar nesta teia de pensamentos inventados que fomos construindo. Passeamos por ela, quais aranhas coxas de uma pata, e fazemo-la nosso reino. Somos assim, mentirosos compulsivos.
E não vale negar que é mentira sempre que dizemos que o sol brilha outra vez. Tripla negativa.
Não vale fingir que é verdade que já estamos em outra, que o resto é passado, que somos mais, melhores e independentes.
Não vale porque eu há muito tempo descodifiquei a tua cara de póquer. E o meu nariz, esse imbecil, acaba sempre por denunciar os meus pinóquios.
E a corda vai ficando cada vez mais grossa, mais resistente, mais estável. Até chegar ao dia em que deixemos de reparar que vivemos neste palácio de teias de aranha.
A tripla negativa torna-se verdade, e nós, uma mentira.

08 junio 2009

O balão e a criança

Quero fazer-te uma rasteira e rir-me de ti quando caias ao chão. Quero mostrar-te a língua e cuspir-te bolhas de saliva. Que vontade de puxar-te os cabelos e mandar-te migalhas de pão à cabeça.
Não quero mais ser prudente, nem razoável. O meu corpo está inchado de tanto engolir os insultos que ensaiei na minha cabeça. E assim ando pelo mundo, deformada como um balão amargurado que voou da mão de uma criança.
Então hoje decidi que não quero mais ser balão. Por um dia, pelo menos por um dia, serei eu a criança.

23 mayo 2009

eumaistu

Nós somos aquilo que fomos enquanto soubemos ser. E agora não somos, porque já não somamos nos números da calculadora.
Lembro-me de quando éramos. eumaistu. Agora transformámo-nos em eu e tu, o que quer dizer, em resumo, que já não formamos palavra.
Não existimos nesta Associacição de Seres Plurais que parece dominar o mundo. Nem eu, nem tu. Porque ali só entram nós.
E cada vez que nos vejo, eu e tu, em escritas separadas e conceitos distantes, surpreendo-me.
Porque a minha cabeça ainda não aprendeu a deixar de pensar no plural.

20 mayo 2009

Os astros e o caminho

Quero tecer palavras de algodão que te aconcheguem àquelas horas estranhas em que decides descansar.
Quero embrulhar-te num pacote cheio de fita-cola para que não te rasgues e depois envolver-te num impermeável, com um pouco de laca por cima. Melhor não arriscar.
Vou aparecer ai, de pontinhas dos pés, e ajeitar o teu cabelo de cogumelo e endireitar aquele caracol rebelde que insiste em desalinhar-se e esticar-te o lençol e dar-te todas as respostas àquelas perguntas que nunca tiveste coragem de fazer.
E, nessa noite, vou contar-te o que comi ao almoço, o que o professor respondeu à pergunta e falar-te da manchete de um jornal local. Vou rir-me da tua cara amassada e zangar-me porque estás sempre a ver filmes e nunca a filmar. Vou mostrar-te a verruga nova que me apareceu e queixar-me das enxaquecas.
E depois de tudo isso, já que estou ai, aproveito para me deitar um pouco e deixar-me embalar pela serena harmonia de outrora. Aquele tempo em que os astros se alinharam para mostrar-nos o caminho.
Prometo não acordar-te, nem queixar-me da tua apneia. Prometo usar sapatos de lã e banhar-me com as minhas próprias lágrimas. Prometo ficar ali até ao dia em que, finalmente, voltes a acordar a sorrir. Como naqueles dias. Os dias em que os astros…

14 mayo 2009

Soldado

Sou como aquele soldado húngaro que se gabava dos seus uniformes e dos hinos harmoniosos, dos sapatos engraxados, do batalhão organizado e das armas detalhadamente polidas. Até ao dia em que chegou a guerra e ele descobriu que nunca tinha aprendido a lutar.

07 mayo 2009

A otra cosa mariposa

Sai vício, sai.
Já te pedi de todas as maneiras que sabia, já chorei lágrimas de mendigagem, já implorei, já cedi e já te desprezei.
Por que é que então não abandonas, de uma vez, este corpo de que te fizeste escravo? Porque não migras para um novo paradeiro e conquistas outro coração vulnerável.
Preciso fechar-me numa casa, acorrentar-me à minha cama e sofrer, dor a dor, todas as torturas desta desintoxicação.
Sai vício, sai.
Leva contigo a tua voz aconchegante, as horas de conversas-gargalhadas tidas em sussurro num ouvido qualquer. Vai-te embora e arrasta os flashs de memória, o sorriso de cada pensamento teu, a perfeição daquele dia passado, preguiçosamente, à beira-mar.
Sai, imploro-te, sai.
Inscreve-te numa maratona e foge.
Mas mais rápido. Por favor.