29 enero 2010

Ali

Ali, onde a névoa esconde o céu azul das tardes de primavera com pé na agua. Onde se caminha na rua, porque as rodas não compensam e os carris subterrâneos são apenas um sonho longínquo de um político populista. Naquele lugar, onde o mar toca nas nuvens e fá-las derreter. Onde o pára-aguas é um eterno companheiro de viagens.
Ali, onde o jornal se lê no café da esquina e a tapa tem um gosto de óleo usado que insulta o gourmet. Onde se oferecem sorrisos, abraços, “há quanto tempo” e a melhor tortilha do mundo. Onde os corredores cheiram a páginas de jornal viradas e das cabeças saem letras com gosto de tinta de papel.
Ali, onde o ar tem cheiro a casa e as ruas uma estranha sensação de lar.

25 enero 2010

De uma maneira muito estranha

De uma maneira muito estranha eu um dia me apaixonei. Assim, ao de leve, de mansinho, quase sem sentir. E por uma razão ou outra, o fardo recaiu sobre ti, tão tu mesmo nessa tua vidinha de ir e vir. Então meti-me no meio, revirei-a e amachuquei os cantos, fui comendo-a aos bocadinhos, até que um dia deu enjoo.
De uma maneira muito estranha eu um dia desapaixonei. E então perguntaste o que era de mim, o mim de antes, dos momentos, dos agoras para sempre. E eu pus cara de interrogação e depois de enfado. Perguntar ofende, sim senhor.
Caminhávamos para seguir caminhando e sorriamos para seguir vivendo e foi então que um dia, de uma maneira muito estranha, éramos amigos outra vez. Sempre soube que o nosso era um caminho sem retorno.

20 enero 2010

Um dia

Ela, que guardava numa caixinha de cartão todas as cartas que nunca tinha enviado. Todas as que nunca tinha tido a coragem de selar. Que fazia planos debaixo do chuveiro e cantava para si mesma antes de adormecer. Que acreditava que a felicidade tinha cheiro de chá de camela com raspas de laranja, que coleccionava sonhos de algodão doce. Ela, que nunca usava saltos altos para poder estar mais perto do chão, que quando punha saias passava o dia a rodopiar, que acreditava na bondade humana. Ela, que passava horas a ensaiar hipotéticas conversas futuras, e eu digo, e ele diz, e eu respondo. Ela, que nunca tinha coragem de dizer o planeado. Ela, que quando fechava os olhos via azul, um sorriso rasgado e um domingo na lareira. Até.
Até ao dia.
Até que ela
Um dia.
Acordou para a vida.

18 enero 2010

Duas moscas

Somos duas moscas. Desculpa dizer-te isto assim sem preparação prévia, mas chegou a hora, não posso guardar mais este segredo.
Sim, enfrenta a realidade. Alimentamo-nos da nossa própria matéria em autodestrução, dos fotogramas futuros impressos em tardes de cinema, das promessas de amor engolidas com um copo de coca-cola, daquelas pequenas pinceladas de realidade que não queremos deixar sucumbir.
Somos um insecto pequeno, preto e asqueroso. Apenas uns centímetros de carne esponjosa e peluda que descansa em excrementos. Um animal irracional que já nasce com data de caducidade, que é como quem diz, com um obituário escrito e a tumba montada. Somos alimento de outros bichos, assunto de conversa nas mesas dos cafés.
- Raio da mosca!
E da-lhe uma patada e outra e outra ainda. E nós ali, heroicamente, aguentando um e mais um safanão. Porque somos assim, sempre o fomos. Fatídicos, autodestructivos, masoquistas. E persistentes. Insistimos, achamos que um dia conseguiremos contrariar a lógica. ¡Ingénuos!, nós.
E, como moscas que somos, a nossa morte aproxima-se, já sabes, nascemos para isso. Pensa bem, não há jornada que não termine, nem vida que não pereça. E então aqui estamos nós, mutilados, feridos e humilhados pela fragilidade humana e pela imbecil crença de que seremos melhores, super heróis modernos com poderes mágicos.
Não engonhemos mais. Que venha logo a morte e acabe, com uma facada definitiva, esta desgraçada, intensa e longa vida de uma semana que tivemos.
Fim, escreveu-se com letras de sangue.

17 enero 2010

Uma farsa esquizofrénica

Vivo vidas entrelaçadas. Vivo a existência de quem quer ser e ainda não é. Aquela que tem gosto de tarte de limão com cobertura de suspiro. A vida do eterno aspirante a coisa alguma, de um cavaleiro que parte sem rumo para expedições em países impronunciáveis. Um poço que nunca acabará de encher, um labirinto cujo final estará eternamente fora de alcance. Vivo uma vida sem alcance, sem alça, sem capuz e sem asa, só sonho. Vivo uma vida de sonho.
Mas sou agente disfarçada de menina, dançarina vendida, polícia camuflada. No fundo, sou uma farsa esquizofrénica que vai costurando pedaços de diferentes vidas num tecido que, no fim das contas, não é mais que caos.
E nesse caos cabe tudo. Entra a senhora trabalhadora e a rapariga marota. Se espremermos bem, há espaço para o aventureiro de pés descalços, para o funk da favela e o after-party das seis da manhã. É só remexer um pouco que lá esta ela, a menina literatura, os filmes de domingo à tarde e a música alternativa de calças roxas. Há a rapariga livre, independente, hiperactiva, a que tem voz de charme e a que sonha com uma casa de piscina e churrasqueira no terraço.
O problema, porque não há história sem fricção, é quando as vidas se misturam e a esquizofrenia confunde-se. Então recebemos um email para a senhora responsável e logo em seguida outro que recorda os dias de sol e praia em viagens saltimbancos. E então senti-nos traidores, farsantes, embusteiros. Porque estamos a jogar um jogo duplo e este não tem bónus no final. Sabemos que um dia a vida pagará factura e, entretanto, lançamo-nos e entranhamo-nos cada vez mais fundo nesta vida de multifaces à espera de encontrar alguém que, quem sabe, compreenda essa nossa pequena doença incurável.

13 enero 2010

Pernas para o ar

A vida está de ponta cabeça. Comecemos, então, pelos pés que tanto querem andar, sair, mexer-se. Que sonham em percorrer o mundo de palmas no chão, que querem fugir mas quando dão o primeiro passo apercebem-se que os atacadores deram um nó. Malditas vidas entrelaçadas.
Dos pés ao joelho, esse bastardo. Tinha de nascer com um osso deficiente. O menisco deslocado, dizem os médicos, mas eu não acredito. Acho que me dói só porque sim, por teimosia, para lembrar-me diariamente da minha imperfeição. Não que eu precise, mas ele insiste.
Do joelho salto para a barriga, esse espelho da alma. Quando estamos tristes, o chocolate consola, felizes, a cerveja celebra, apáticos, as gomas alegram, deprimidos, a fome cava mais fundo. E quando o mundo está ao contrário? Comemos e vamos ao ginásio gastar calorias. Para depois poder comer mais.
E quase sem perceber passamos da barriga aos ombros, esses, os que aguentam com o peso da mochila. A mochila que nos levará mais longe. A nossa companheira de onde quisermos. Porque, acreditem em mim, quando mais afastados estamos, menos peso sentem os ombros.
A cabeça, coitada, está meio zonza. "Não faças o pino que o sangue vai-te todo para a cabeça", diziam os professores. Não a mim, claro, que nunca tive jeito para a ginasitca. A cabeça, que no fundo é só uma carapaça, esse tal utencilio tão valorizado pela sociedade moderna. Esse órgão pensa, dizem os espertos. Não, quem manda é o coração, contestam os românticos. No fundo, tudo isto são só enzimas.
E então chegamos ao cabelo, malandro. Queremos fugir, mudar e disfarçar. Treinamos cabelereiros, odiamo-los de morte, pomos gel, espuma e creme modelador. Porque no fundo, a pior parte de ter o mundo virado ao contrario é que não há forma de conseguir pôr o cabelo como deve ser. Acho que no final das contas é ai que reside o meu problema.

10 enero 2010

Uma questão de respeito

Ele está ai, escondido atrás das portas, como o pó e o cotão de um quarto recém arrumado. Ele chegará, um dia chegará. Ou pelo menos isso me dizem. De comboio expresso, avião de baixo custo ou ténis desgastados. Seja como for, naquele dia, o dia em que ele aparecer, se ele aparecer, vou correr para os seus braços, qual filme de Hollywood e, contrariando todas as expectativas, num twist absolutamente inesperado, vou dar-lhe um valente bofetão e perguntar-lhe enquanto bato com o pé de birra: “E onde estiveste este tempo todo?”
Onde estiveste nas noites de frio com a janela estragada, nas manhãs de preguiça enroladas no sofá, nos passeios pelo parque, no pequeno-almoço do café da esquina. Já busquei por toda a casa, nas gavetas do trabalho e nos bolsos do casaco. Revisei a lista telefónica e a loja do senhor Josito. Não estás, mas insistem em dizer-me que estás, que chegarás, que vens a caminho.
E eu sou menina teimosa. E, por capricho, espero. Pacientemente, aguardo que esta expectativa prolongada chegue ao fim. Que eu possa unir-me ao mundo neste sorriso pasmacento estampado na cara de todos aqueles que já tiveram o seu prémio.
Mas não te enganes, meu querido, não te enganes, porque quando chegares não te esperarão mil e muitas noites de amor ronhento e vozinha de charme. Quando chegares, se chegares, teremos muitas contas a ajustar. Porque isso de demorar tanto, meu caro, é uma falta de respeito. Os teus pais não te deram educação?

05 enero 2010

O menino caladinho

O menino caladinho tinha um olhar tímido e um punhado de conversas silenciosas. Mantinha a inexplicável empolgação de uma criança e um rol de “desculpa”, “obrigado” e “com licença” que tanto orgulharia os seus pais.
Era rapaz de comunicação, mas comunicar não era o seu forte. “É que eu me enrolo, sabe?”, justificava, e lá ia ele enrolando-se no fio das suas próprias historias. Até que o fio enroscava-se de tal maneira que, de repente, dava nó. E eu ria, gargalhava e desfrutava da sua trapalhice. “É que eu gosto mais de contemplar”, explicava. E isso, claro, dava azo a mais risada.
Mas para menino calado, até tinha das suas. Gostava de arte, de literatura, de Bob Dylan e de pôr gel no cabelo antes de dormir: assim já acordava penteado. Sonhava com história e com ruínas romanas. Os museus eram a sua casa.
Dizia que os óculos usavam-se a meio do nariz e então eu chamava-o de velho e ele irritava-se, mas não muito, porque nada superava a sua ira de quando eu soltava um “é que você é um adolescentezinho” no meio de alguma situação empolgante. Dizem que a crítica faz parte do charme, ou isso defendo eu.
Mas os dias passaram e ele foi soltando os nós: e não é que o menino caladinho falava?
E se falava.
Contava do pai, da mãe e do trabalho. Da rotina que era viver. Queixava-se dele mesmo e da sua atitude, que queria ser melhor. Que não conseguia ser melhor. E depois vieram as histórias. As entrevistas aos deputados, os professores despedidos, os amigos e o eterno amor platónico. Amar é sofrer, disse um dia entre uma batata frita e um golo de Coca Cola.
Mas a magia acabou logo e precisamente quando ele, o menino caladinho, estava tão tagarela, o seu avião partiu. Deixou para trás uma garganta rouca de bares e aventuras, e ao despedir-se, deu-me um abraço forte e balbuciou: “Obrigado”.
O menino caladinho tinha voltado a calar-se.

06 diciembre 2009

Era melhor

Olhávamo-nos com olhar acostumado. Com remelas nos olhos e bocejo na boca. Criticávamos cada gesto, cada acção, cada tropeço em quem éramos realmente.
Não era amor.
Era uma tarde de inverno a ver filmes pirata e a comer pizzas de ananás. Eram dois telemóveis desligados. Uma música e uma guitarra. Eram massagens nos pés e exposições de domingo. Pequenos-almoços madrugadores. Um beijo na ponta do nariz.
Não era amor. Era melhor.
E então transformámo-nos naquela velha televisão que, mesmo desligada, continua a fazer um zumbido constante. Num gira-discos estragado. Naquele Tolstoi que nunca nos atreveremos a acabar. Somos o lixo do que soubemos ser, os restos daquele que deveria ter sido um final feliz.
Porque o fim nunca é bom. Se fosse bom, seria o começo.

02 diciembre 2009

Mesmo quando não escrevo

Então escreve.
Fecha os olhos, respira fundo e deixa as palavras apoderarem-se de ti. Desenha com elas um piscar de olho cúmplice, um esboçar de um sorriso, uma risadinha matreira. Faz das palavras um ecstasy barato, vicia-os, hipnotiza-os para o segundo parágrafo, o terceiro, o quarto.
Conta-lhes uma história, daquelas fáceis e universais, daquelas que basta substituir o nome para que sejamos nós os protagonistas, das que se tivéssemos o telefone, simplesmente marcaríamos o número, sem pensar mais. Conta-lhes histórias felizes, porque é mentira que o povo gosta de desgraças. O povo gosta de sentir. Mas é mais fácil causar emoções negativas.
Então escreve e narra histórias felizes, apoia causas sociais, constrói a proximidade, ganha o leitor. Diz-lhe o que quer ouvir, mas nem sempre, e quando não, di-lo com jeitinho, com graça, com a humildade de um mero informador. E denuncia, mas não por ti, nem pelo teu nome citado em todas as partes. Vai, escava, desce ao buraco, conquista a fonte e no fim põe na balança. Pergunta-te se o fazes pelo teu ego ou se ajudarás a vida de alguém. Pergunta-te se essa raivinha residual que foste criando contra aquele personagem está a influenciar-te (a resposta será, irremediavelmente, sim). Pergunta, pergunta sempre, porque afinal, isso é o que melhor sabes fazer.
E se já ganhaste o leitor, agarra-te a ele como a cura para a sida. Não o deixes escapar. Cuida o ritmo, atenção às aspas, pontuação correcta e nada de rimas. Não ponhas palavras difíceis, por favor, não. Poupa-nos também daquelas expressões muleta. O leitor agradece.
E agora que estamos a chegar ao final, que já lhe cansámos a vista e aumentamos os índices de leitura, não o abandones assim. Ele espera mais que um “concluí” ou “finaliza”. Ele merece mais. Então escreve e dá-he uma punch line, daquelas redondinhas que fazem rir, gritar, engolir o choro e estremecer. Tudo, para que ao fim de três minutos, ele tenha vontade de virar a página e seguir em frente.
“Por favor, Marina, coño, no dejes de escribir”, dizia o mail de hoje.
E então eu escrevo. Mesmo quando não escrevo.

25 noviembre 2009

A involução

Tínhamos um ar mudado. Como se a vida, de repente, tivesse deixado de ser um momento. Sentíamos aquele peso nas costas das velhas memorias de alegrias instantâneas, de compromissos com o cair da noite, de gargalhadas em troca de copos de plástico.
O mundo tinha voltado atrás, mas a maquineta estragou-se a meio caminho e ficámos ali, perdidos entre a felicidade e o conformismo. Entre o querer ser e aquilo que a vida nos tornou.
Tentámos fingir e repetir, mecanicamente, o passado. A criação ideal que cada um desenhou da sua vida anterior. Da Vida com vê maiúsculo.
Já não havia razão para chorar porque agora as lágrimas seriam profundas, sofridas, existenciais. E todos sabem que o lacrimejar verdadeiro não é para aqui chamado.
Então engole o choro e sorri. Constata, uma vez mais, o fracasso em que te tornaste. O triste processo de involução que empreendeste nos últimos anos. Olha-te na agua espelhada daquele rio urbano e conclui que este não és tu ou, pelo menos, quem tinhas planeado ser.
E, pela primeira vez, não é mais preciso fazer juras de amor ao fim da noite. Elas estão subentendidas naquela dura realidade contada no frio de uma janela aberta durante a madrugada.

09 noviembre 2009

Coisas de meninas

Quando não estás sou diferente. Mais pesada, mais seria, mais Pinóquio construído a partir de uma colher de pau. Então sinto-me perdida num deserto onde os grãos de areia são pensamentos desencadeados, fraccionados de momentos que nunca viverei. Olho à volta e não estás. Outra vez. A música, ou melhor dito, a falta dela, grita de saudades. Descabela-se, tortura-se e tenta cortar os pulsos. Porque sem ti, música é memória.
As recordações impregnam os cheiros, os doces e a repentina vontade de comer batatas fritas às quatro da manhã. Os pensamentos saltam do bom ao mau como num jogo do Marco Pólo. Está quente, cada vez escalda mais. Quero-te perto para podermos espreguiçar os dedos dos pés e adormecer sem dar conta. Se estiveres ao meu lado, sei que posso acordar com as orelhas à mostra e o cabelo sem pentear. Porque tu não te importas, só gozas um pouco comigo. Só um pouquinho para eu fazer aquela cara de zangada que me vai dar tantas rugas no futuro. Rugas de expressão, já que contigo não há cá cremes nem maquilhagem. Para ti isso são coisas de meninas.
Então vem, quando puderes, vem. E deitamos no lado errado da cama e depois arrancamos o carro e só paramos para comprar gomas. E perseguimos casamentos e fazemos um picnic na praça principal. E brindamos com rimas e vestimos calças xadrez. Todo o dia. Todos os dias. Até aos últimos dias.
Mas se não puderes vir agora, não há problema. Eu percebo. Só queria que soubesses que quando não estás, sou diferente. E, às vezes, só às vezes, tenho saudades de mim.

02 noviembre 2009

Sussurros sigilosos de amantes amnésicos

Sei que sabes que sou só um sussurro sigiloso. Que venho e vou voando entre vidas vadias, variadas. Que mudo a cada momento, mas não por má-fé, por mania maluca de misturar-me com o mundo. Entendo que estejas estafado desta emanação de eloquência evasiva. Que queiras quebrar quem se queixa do que quis questionar. Não julgo jogadores jubilados, nem jovens jornalistas jubilosos. Ambos abusaram da amabilidade da ama-seca e aproveitaram-se da amizade amenésica do amor do destino. Despiram-se de datas, dicionários e definições e descolaram num disfarçado deleite de uma vida sem divisas. Bagunçaram o baile dos bibelôs birrentos. E agora queixam-se.
Por isso não podes pensar que procuro penalizar-te por este pavoroso palpite. Isto é apenas a minha ilustre imaginação a improvisar uma identidade idealista. Uma razão de rascunho que resolva este rebuliço que represento. Porque eu e tu, e tu e eu, agora somos apenas isto. Um conjunto de letras repetidas. Uma formula estragada e cacofónica que, estranhamente, para nós, soa-nos a musica. Sussurros sigilosos pronunciados por amantes amnésicos.

18 octubre 2009

Ela

Ela é assim. Aterriza com a sua voz de comando e o seu olhar de controlo de qualidade. Quer saber se a vida vai bem, se o dinheiro chega, se o trabalho satisfaz e se o futuro promete. Pergunta, comenta e, sem que perceba, já se instalou. Já é de casa. A minha casa. Chega de sorriso aberto e abraço apertado, traz uma mala de saudades e uma sacola com os meus jornais preferidos. Porque ela é assim: nunca falha.
Abre a mala e começa a espalhar-se. Enche a casa de vestígios e arranja um buraquinho no armário. Alisa o lençol, reorganiza o quarto e, em cinco minutos, dominou o mundo. O meu mundo. Porque ela é assim. E eu gosto.
Vem sempre com um rolo interminável de histórias narradas a conta gotas. Vem com serões de conversas debaixo do cobertor. Com o corta casaca dos amigos da lista negra. Com as novidades mais escaldantes da apetecível vida alheia.
- E agora vamos dizer mal de quem? – pergunta, para mudar de conversa. E nós mudamos e voltamos a mudar, interminavelmente.
E de repente apercebo-me da minha presença. Que eu estou ali. Que estive ali todo este tempo, ouvindo e admirando este incansável camaleão que faz o mundo hipnotizar-se. Ela anda e nós seguimos, ela diz e nós fazemos, ela ri e nós gargalhamos. Porque ela é assim, tem este incrível dom de fazer-nos girar, rodopiar à sua volta, sem nunca ficarmos tontos. Sem nunca cair.

08 octubre 2009

Equações absurdas

A variável xis tem muito que se lhe diga. Discute-se por ai se x=1 ou x=2. Burros. Hipócritas. Vê-se mesmo que não tinham na adolescência uma professora de matemática que lhes causava febre antes dos testes. À matemática há que ter-lhe medo e respeito. Há que tratar-la com carinho, dedicação e uma boa dose de benuorns.
Porque, meus amigos, se bem me lembro, xis pode ser uma variável nula. E é ai que as cosias se complicam: nessa pequena e ínfima possibilidade de xis não ter par, de que não tenha um equivalente numérico perdido no mundo da álgebra. E se x=0, então temos um problema. Porque equação incompleta é como morangos sem leite condensado ou hambúrguer sem batatas fritas. Um absurdo.
E, quando o incompleto já parece absurdo, descobrimos que os números são tramados e que estas lógicas transcendentais de Pitágoras, Euclides e Arquimedes vão mais longe. Vão sempre tão longe. É que não chega que xis tenha de andar sempre sozinho na rua, suportar o ípsilon com a sua cara metade aos beijos na fila do cinema, ler, todos os dias, as revistas de fofocas com as mais recentes equações matemáticas bem sucedidas. Não, não chega.
O pobre do xis, ¡que miserável!, teve de viver uns longos meses a passear na rua com a companhia do seu zero para descobrir que matemática é coisa seria, com ela não se brinca. Podes pegar no teu zero e colocar-lhe um roupa nova, uma peruca à maneira e um perfume cítrico, podes chamar-lhe “relação moderna” e “felicidade instantânea”, podes mentir, ocultar, esconder o zero debaixo do lençol. Não adianta, porque dizem os deuses da matemática que com 0, com 1, ou com 2, “as equações sem sentido, que não são válidas para nenhum valor, denominam-se absurdas”.
E, convenhamos, ninguém gosta de equações absurdas. Dão negativas nos testes de matemática. A todos menos ao Dali.

29 septiembre 2009

Dizem...

Se calhar ainda somos aquilo que erámos, dizes tu. Uma espuma do passado, um restinho de chocolate no fundo da caneca de Cola-Cao. Se calhar é só porque não sabemos ser diferentes (que desculpa tão apetecível), ou talvez seja porque estamos acomodados, sedentários, rotineiros, medrosos, digo eu.
É mais fácil esconder-se na exteriolidade do nosso problema, na felicidade fácil e superficial, no tempo como salvador do mundo, diz uma voz sábia de por aí. Preferimos evitar os caminhos espinhosos de uma vida nova, fugir da responsabilidade de um ser solitario, buscar no antes uma justificação para o agora, uma esperança para o depois.
Diz o povo que passado vive no museo e que o futuro a Deus pertence. Mas, o presente, o que se vive e não o que se oferece, não devería se tão planeado, pensado, dissecado e digerido, dizemos os dois como forma de auto-convencimento. E, enquanto continuamos a viver neste limbo intemporal, vamos representando as cenas felizes daquele guião de antigamente, dizes tu e eu confirmo.

27 septiembre 2009

O Picasso sabia chorar


Porque para chorar é preciso lágrimas e muitas caixas de lenços.

É preciso ficar verde, azul e amarelo. Babar-se e inchar o nariz.

Para chorar é preciso que dos teus olhos saia um rio de lágrimas. Que a tua cabeça rebente e o tamanho da tua orelha deixe de importar.
O Picasso, esse sim, sabia chorar. Porque se queremos chorar, meus senhores, é preciso um mínimo de dramatismo. E não me venham cá com choraminguices.

23 septiembre 2009

O problema

O problema é que acabámos como um caso mal resolvido. Um caroço entalado na garganta. Aquele gostinho meio amargo, meio azedo, que surge de vez em quando no final de uma conversa ou numa sequência de pensamentos silenciosos.
O problema é que o tal carocito arde fundo e(já) não tem lágrimas, ele doí, bem forte, como aquela distensão muscular que tivemos preguiça de tratar. Mas,pelo menos, conforta-me saber que não é sempre assim, todos os dias o mesmo incómodo. Há largas e extensas temporadas em que a pontadinha adormece. Numa hibernação feliz de hamster pachorrento. Mas nestas andanças da vida não se pode vacilar. Basta uma mínima distracção e, zás, lá surge a dorzinha outra vez.
O problema foi que isto saiu-nos dos planos, transbordou-nos das mãos. Era para ser só mais uma história de noites aborrecidas com novos amigos. Um suspiro dramático num circulo de álcool em copos de plástico. Uma memoria. Um passado distante.
O problema é quando o presente supera a agenda meticulosa que controla os dias. E ali estás tu.Outra vez.
Chegou, felizmente e sem querer, o dia que há anos esperavamos. Quero dar-te um abraço forte e pedir-te desculpa. Quero cuspir-te na cara. Não, escarrar-te e insultar-te e bater-te para que fiquem para sempre no teu corpo as cicatrizes que deixaste em mim.
Quero descobrir se mudaste de perfume. Sussurrar-te uma frase ao ouvido e ver se ainda sabes a resposta. Quero saber da tua mãe, da tua avó, da casa de verão e do gato bebé.
Quero que te lixes e quanto pior melhor. Quero que sofras pelo menos uma lágrima das que eu sofri.
O problema é quando a dor volta e ficamos a pensar em tudo o que podíamos ter feito para evitar a lesão.

02 septiembre 2009

"The more you leave, the less you loose"

A minha vida é uma eterna despedida. Um vai e vem de adeus e olá-caras-novas. O medo de ir e a vontade de voltar. Aquele passo meio dado, meio forçado, meio com vontade de fazer o mundo dar cambalhotas para trás, daquelas que eu nas aulas de ginástica nunca conseguia acabar em pé. E ainda não consigo. No fim saio sempre com um andar cambaleante e um sorriso forçado, esperando que a atitude do atleta melhore a sua pontuação. Engano os mais distraídos, que admiram a dita “coragem”, e comovo os que achavam que a minha vida era um fútil e desentendido abrir e fechar de portas.
E então ouço aquele famoso adeus. Aquele adeus já chorado tantas vezes nas filas de aeroportos, nas mesas de um jantar barato, nas cartas de juras de amizade eternas lidas à beira mar. É um adeus em coro e sem volta.
Já não peço telefones, nem contactos. Nunca olho para trás. Já não tiro fotografias, nem escrevo dedicatórias. Isso é para os novatos. Limito-me a escutar, com a atenção de uma eterna peregrina, os votos de boa viagem, as “certezas” de que terei uma vida melhor. “Vem visitar-me”, “vou visitar-te”. Tu não vens e eu não virei. Eu sei, mas eles parecem ter esperança.
Agarro-me a esses votos e repito-os obsessivamente na minha cabeça.
“Vai correr tudo bem”, dizem-me. E eu decoro. Até ao dia em que não precise mais de palavras encorajadoras. O dia em que encontre o meu lugar nesse mundo de despedidas.
O dia em que, quem sabe, me canse de fugir.

25 agosto 2009

Eu podia parar com isto

Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse. E isso provoca ecos que duram o tempo que tiver de ser. Ecos que cantam dentro de mim e nunca me largam. Vejo-me de saltos altos e cara maquilhada a esfregar-te o meu discurso de gente adulta, crescida, essa que tem cartão visa gold e casa própria. Eu podia parar com isto, a sério. Mas nunca to disse.
Éramos todo um piropo, um olhar desfocado, um “mais que tudo”. Até ao dia. O dia do costume. O dia em que tropeçámos um no outro e descobrimos que os nossos ecos eram pura estética ou preguiça. O dia em que nos tornamos numa piada que ambos achavamos graça. E isso era preocupante.
Agora somos os restos do que fomos e fazemos tudo por esconde-lo. Porque cada um se sente num patamar superior. Convence-se que o faz pelo outro, por amor ao passado, porque fazê-lo não mexe em nada com os seus sentimentos. E cada vez que alguém saca um gesto daqueles do antigamente, o outro pensa em silêncio: “Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse”.
E seguimos em frente.