13 marzo 2010

Mentiroso!

Dizes que estás bem, que estás okay, que não há problema. E eu acredito, Ingénua, egocêntrica, não sei, mas acredito.
E agora só me apetece encontrar-te pela rua dar-te um safanão, apertar-te o pescoço e insultar-te da melhor maneira que sei: “Mentiroso!”
E depois iria à televisão, aos programas da tarde, à entrevista com a Júlia Pinheiro. Iria ali, com a minha cara podre e os meus olhos verdes contar-lhes, a eles e a todo o mundo, que um amigo me mentiu e eu, claro, como poderia deixar de ser, apanhei-o numa esquina e pumbas. Espera!, que não me mal interpretem, pumbas de porrada, valente e poderoso enxerto.
- Vi-o na rua e não resisti. A raiva entrou em ebulição e dei-lhe num murro nas trombas, parti-lhe os dentes, e depois esganei-o até que ficasse roxo pela falta de ar.
Tudo isso porque ele me mentiu, repito vezes e vezes sem conta neste meu sonho-delírio.
Depois, claro está, além de ser estrela de tv, seria alvo de investigações policiais e gabinetes de ética. Seria capa de jornais. Foi ou não legitimo o enfardo que deu aquela jovem ao seu amigo mentiroso?
E as pessoas discutiriam o nosso drama nos cafés, nas páginas de sociedade, desse lixo virtual que é a blogosfera.
Até que um dia, numa entrevista em prime time eu desabafaria perante um jornalista desconcertado:
- É que se ele me tivesse dito a verdade, eu pelo menos poderia ter tentado ajudar…
O mundo se emocionaria perante tal sinceridade e eu sairia ilibada de todas as minhas penas.
Agora saltemos todos os passos e que venha o cara-a-cara.

07 marzo 2010

Vida saltimbanca

Mais um dia daqueles. Outro, outra vez, outro. E só ontem me passou pela cabeça que deveria começar a colecciona-los.
Que ideia genial.
Guardaria o adeus numa caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. O "eu venho visitar-te" de choro engolido e de choro chorado. O "gosto muito de ti" de abraço apertado que estala os ossos. Aquele "eu ligo-te quando chegar" que leva um olhar e um beijo que jamais esqueceremos. O "até sempre" contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta no sofá.
Ficaria rica de tantos "vou ter saudades" e, quando me entregassem um prémio em honra à minha invejável colecção, perguntar-me-iam:
- Como conseguiu chegar a esta quantidade de despedidas?
E então eu diria, orgulhosa:
- É o resultado de uma vida saltimbanca.
Pose. Flash. Troféu na estante.
Parece-me um prémio merecido.

01 marzo 2010

Mais-que-perfeito

Falhara a sintaxe, o verbo e o predicado. Colapsara o sistema das letras racionais. Conjugara os verbos na ultra perfeição de um indicativo do plural.
Buscáramos os beijos que tínhamos programado um dia na nossa agenda rasgada. Tínhamos encontrado o tempo composto. Mas não funcionara. Não fora suficiente e voltáramos ao singular. Fôramos só um, mas devagar, não corrêramos. Não fora preciso, porque já não houvera mais pausas para a publicidade. Agora fôramos só tu e eu num envelope selado no individual. Lágrimas engolidas com um romance de papel.

Desculpara-me se corro, mas nunca me ensinaram a andar. Desculpara-me se fugira ou se misturara flashes de passado com cocktails de álcool. Restos de futuro com chutos de ficção. Desculpara-me se inventara, se criara, se fizera-nos sonhar. Mas tivera a cabeça em blackout. Já não soubera conjugar outro tempo verbal.

26 febrero 2010

É azul, digo

Olho para o azul e pergunto: Como sei que não vês amarelo? Sei lá, verde, roxo, castanho. Fixo-me bem fundo nos teus olhos. Penetro na retina e procuro respostas. Isto é azul!, digo-te, a-zu-l. E tu respondes que sim, que claro que sim, que aprendeste isso na escola. Mas não consigo evitar este sentimento misturado que me garante que sempre que falamos de azul estamos, no fundo, a viajar num degradé de tons cianos, numa escala indefinida de nomes e conceitos abstractos. Afinal, quem tem a paleta definitiva das cores? Quem é o Deus, grande mestre, das misturas coloríficas?
E de perguntona perdi-me pelo mundo dos tons, misturei-os todos e, estranhamente, deram preto. A professora tinha me dito que o branco era a resposta. Mas nunca o comprovei. Teorias.
E agora estou aqui, nesta vida de tons pastel onde o azul é só um conceito distante que gosto de defender como meu.
É azul!, digo, a-zu-l. E tu respondes que sim, que claro que sim, que aprendeste isso na escola.

22 febrero 2010

Com palitos nos olhos

E, quando parece que a vida se está a encaminhar outra vez, tremo. Tremo e temo por aquilo que posso não vir a ser. Pelos sonhos a cair do penhasco, a escorregar, ribeira abaixo, encharcados de frustração molhadas. Assusto-me com um futuro negro, sombrio, insatisfeito e acomodado. Arisco-me e duvido as decisões que tomei. Repergunto os sins e nãos que deveria ter gritado.
Mas, naquele futuro distante, já não há meia volta volver, pára o disco e toca outro. Vejo-me atrapada nos impulsos de uma jovem ambiciosa, afogada num mar de sonhos não concretizados, numa “vocação” inventada em noites de luar na fogueira de uma praia qualquer.
E depois paro, levanto-me, acordo desta espiral negra que me põe palitos nos olhos durante as profundezas da madrugada, respiro fundo e penso: foi só um pesadelo. Mais um pesadelo.

09 febrero 2010

Uh lá lá, minhôcá

Dizem-me que minhoca não tem movimento.
- Como não? – pergunta a centopeia que puxa, estica e vai andando, por ai, correndo, verde, pela vida.
Revolução! Juntemos pessoas apressadas, o rapper da esquina e o um ou dois megafones. Façamos uma sessão fotográfica. Clic, clic. E la vai ela, a minhoca, esplendorosa, graciosa, desfilando pela passarela com o seu vestido esvoaçante. Uma ventoinha, uma ventania, um vulcão de vento, algo. Reprovado, que os franceses não atinam com o “vê”.
Então coloquemos a dita graciosa num carrossel, numa montanha russa talvez. As palavras compostas estão na moda. Que faça uma corrida, que se junte a uma marcha, que dê um salto duplo numa piscina de ondas. Coitada, que se afoga, que as minhocas que não sabem nadar. Então façamos-lhe um rio, um lago. Sim, um verme a chapinhar numa poça. Mas de tanta agitação ficou tonta, zonza, com o mundo às voltas como se estivesse a centrifugar. Pula, estreita, treme e foca-te. Centra-te para que te passe o reboliço. Rébôlissô, diriam os galgos.
Mas se por fim os tremeliques não funcionarem, levemos a esplendorosa de viagem. Um jacto, um furação, uma expedição em anos luz. Ali poderá experimentar o calafrio de uma nova cultura, a brisa de cheiros extravagantes, o pingar arrítmico que só conseguem as gotas dos países estrangeiros. Façamo-la suar, jogar com o ping-pong da vida. Pronto, está bem, que se apaixone, que isso também é movidito. Que lhe rompam e estilhacem o coração em mil partes. Porque os amores de viagens são assim, imprevisíveis, a minhoca também deveria viver-lo. Abandonada, exausta, com o pé a arder e o coração a coçar, a estrambólica regressa a casa. Desta vez para descansar. Chega de movimento por hoje.

08 febrero 2010

O apelo

As minhocas têm nove corações, um para cada dor. O primeiro sofre baixinho, para dentro, com um grunhido interior que cala o som, abafa a voz, põe fita-cola nessa boca tagarela. O segundo é o que ama. O que voa com o silvar do vento, com a banda sonora do primeiro encontro, mas sabe, porque no fundo todos sabemos, que como diria Woody Allen “to love is to suffer, not to love is to suffer, to suffer is to suffer”, e então chora por antecedência o golpe futuro que terá o seu coração.
O terceiro é preguiçoso e sofre por inércia, o quarto deprime-se com a fome do mundo, as mutilações femininas e o tráfego de crianças. Que serio é esse coração. E então chega o quinto, esse histérico. É o que grita, esbofeteia, insulta e berra o mais alto que pode. Eu chamo-lhe coração-revolta, mas isso sou só eu. Ao seu lado está o seis, o cínico. O que põe um sorriso nos lábios engole o choro e segue em frente. O sete sofre por pensar demasiado e o oito sabe que, simplesmente, não pertence a este mundo.
Mas então chega o nono a passos lentos, arrastando os pés. Tem o cabelo despenteado e as olheiras roxas de sono. Ele é macro. Está apenas irritado, desiludido, farto de sofrer nos seus nove corações. Então pega num sapato e mata-se a si mesmo. A si e aos seus oito irmãos. !Suicida!, gritam os seus companheiros, enquanto o resto do reino animal aplaude.
Este é somente um apelo ao suicídio das minhocas. Pela morte limpa e digna. O próximo passo será o massacre.

07 febrero 2010

A morte matemática

Um mais um será sempre igual a dois. Um menos um, zero. De súbito acredito que a existência se resume à matemática. É feita de uma história que se foi. De uma história que nós fomos. De um passado com cheiro e gosto. De quando eu sofria por coisas alheias. De conversas debaixo do lençol. De chocolate com churros. Do sorriso de surpresa. Da coisa boa e da ruim. Dos momentos que imprimimos em fotografias retocadas. Do vazio. De um medo que se foi sem susto. Do que eu pensava que seria impossível. Das tardes sem pensar. De muito. Do demasiado elevado ao cubo. E de repente parece que alguém quer acabar com tudo isto. E de dois passamos a zero. Porque a morte é matemática. Mas a vida, não.

01 febrero 2010

Eles

Ela gosta dele porque diz que ele é bonzinho. Ele não diz, mas gosta dela porque sem ela a sua vida não teria graça nenhuma. Eles reclamam, implicam e reviram os olhos. Dão beijinhos, abraços e gargalhadas em uníssono. Ela gosta de ténis e ele de futebol, ele de ler e ela de ouvir. Qualquer um diria que se completam. Ignorantes. Eles são tudo menos um cliché.
Desde que os conheço, proclamam orgulhosos que no seu vocabulário não existe nem “tu”, nem “eu” e então lá tivemos todos de aprender a conjugar os verbos em “nós”.
- Duh, que bobagem! – diziam os adolescentes com sentido de ridículo.
Deve ser defeito meu, de memória selectiva, mas olhando para trás, só me lembro de terem discutido duas vezes. Em ambas as ocasiões chorei em silêncio. Chorei porque queria que vissem o mundo pelos meus olhos, que percebessem que o que conta piadas tem de acabar com a miudinha que se ri, que a carinhosa termina sempre com o armado em machão e que o que lê a secção de politica precisa de alguém que lhe conte sobre o apartado das fofocas. E o resto são peanuts.
Mas, fosse como fosse, sempre que o mundo dava cambalhotas ali ressurgiam eles (ou deveria dizer nós) naquela imagem imbatível de duas mãos dadas pela vida. Pela vida e por um telefonema de feliz Páscoa.
Porque eles são assim, eternos.
Cresci pensando que seria fácil imita-los, ser feliz. Aos poucos e largos sofrimentos descobri que não, que não era tão simples seguir a sua fórmula secreta de sucesso eterno. Que era preciso mais do que um conhecimento correcto da gramática para aprender a conjugar os verbos na primeira pessoa do plural. Mas que por uma ou outra misteriosa razão, eles tinham encontrado esse plus.

Tudo isso, ou talvez esta seja apenas a visão torcida de uma filha babada.

29 enero 2010

Ali

Ali, onde a névoa esconde o céu azul das tardes de primavera com pé na agua. Onde se caminha na rua, porque as rodas não compensam e os carris subterrâneos são apenas um sonho longínquo de um político populista. Naquele lugar, onde o mar toca nas nuvens e fá-las derreter. Onde o pára-aguas é um eterno companheiro de viagens.
Ali, onde o jornal se lê no café da esquina e a tapa tem um gosto de óleo usado que insulta o gourmet. Onde se oferecem sorrisos, abraços, “há quanto tempo” e a melhor tortilha do mundo. Onde os corredores cheiram a páginas de jornal viradas e das cabeças saem letras com gosto de tinta de papel.
Ali, onde o ar tem cheiro a casa e as ruas uma estranha sensação de lar.

25 enero 2010

De uma maneira muito estranha

De uma maneira muito estranha eu um dia me apaixonei. Assim, ao de leve, de mansinho, quase sem sentir. E por uma razão ou outra, o fardo recaiu sobre ti, tão tu mesmo nessa tua vidinha de ir e vir. Então meti-me no meio, revirei-a e amachuquei os cantos, fui comendo-a aos bocadinhos, até que um dia deu enjoo.
De uma maneira muito estranha eu um dia desapaixonei. E então perguntaste o que era de mim, o mim de antes, dos momentos, dos agoras para sempre. E eu pus cara de interrogação e depois de enfado. Perguntar ofende, sim senhor.
Caminhávamos para seguir caminhando e sorriamos para seguir vivendo e foi então que um dia, de uma maneira muito estranha, éramos amigos outra vez. Sempre soube que o nosso era um caminho sem retorno.

20 enero 2010

Um dia

Ela, que guardava numa caixinha de cartão todas as cartas que nunca tinha enviado. Todas as que nunca tinha tido a coragem de selar. Que fazia planos debaixo do chuveiro e cantava para si mesma antes de adormecer. Que acreditava que a felicidade tinha cheiro de chá de camela com raspas de laranja, que coleccionava sonhos de algodão doce. Ela, que nunca usava saltos altos para poder estar mais perto do chão, que quando punha saias passava o dia a rodopiar, que acreditava na bondade humana. Ela, que passava horas a ensaiar hipotéticas conversas futuras, e eu digo, e ele diz, e eu respondo. Ela, que nunca tinha coragem de dizer o planeado. Ela, que quando fechava os olhos via azul, um sorriso rasgado e um domingo na lareira. Até.
Até ao dia.
Até que ela
Um dia.
Acordou para a vida.

18 enero 2010

Duas moscas

Somos duas moscas. Desculpa dizer-te isto assim sem preparação prévia, mas chegou a hora, não posso guardar mais este segredo.
Sim, enfrenta a realidade. Alimentamo-nos da nossa própria matéria em autodestrução, dos fotogramas futuros impressos em tardes de cinema, das promessas de amor engolidas com um copo de coca-cola, daquelas pequenas pinceladas de realidade que não queremos deixar sucumbir.
Somos um insecto pequeno, preto e asqueroso. Apenas uns centímetros de carne esponjosa e peluda que descansa em excrementos. Um animal irracional que já nasce com data de caducidade, que é como quem diz, com um obituário escrito e a tumba montada. Somos alimento de outros bichos, assunto de conversa nas mesas dos cafés.
- Raio da mosca!
E da-lhe uma patada e outra e outra ainda. E nós ali, heroicamente, aguentando um e mais um safanão. Porque somos assim, sempre o fomos. Fatídicos, autodestructivos, masoquistas. E persistentes. Insistimos, achamos que um dia conseguiremos contrariar a lógica. ¡Ingénuos!, nós.
E, como moscas que somos, a nossa morte aproxima-se, já sabes, nascemos para isso. Pensa bem, não há jornada que não termine, nem vida que não pereça. E então aqui estamos nós, mutilados, feridos e humilhados pela fragilidade humana e pela imbecil crença de que seremos melhores, super heróis modernos com poderes mágicos.
Não engonhemos mais. Que venha logo a morte e acabe, com uma facada definitiva, esta desgraçada, intensa e longa vida de uma semana que tivemos.
Fim, escreveu-se com letras de sangue.

17 enero 2010

Uma farsa esquizofrénica

Vivo vidas entrelaçadas. Vivo a existência de quem quer ser e ainda não é. Aquela que tem gosto de tarte de limão com cobertura de suspiro. A vida do eterno aspirante a coisa alguma, de um cavaleiro que parte sem rumo para expedições em países impronunciáveis. Um poço que nunca acabará de encher, um labirinto cujo final estará eternamente fora de alcance. Vivo uma vida sem alcance, sem alça, sem capuz e sem asa, só sonho. Vivo uma vida de sonho.
Mas sou agente disfarçada de menina, dançarina vendida, polícia camuflada. No fundo, sou uma farsa esquizofrénica que vai costurando pedaços de diferentes vidas num tecido que, no fim das contas, não é mais que caos.
E nesse caos cabe tudo. Entra a senhora trabalhadora e a rapariga marota. Se espremermos bem, há espaço para o aventureiro de pés descalços, para o funk da favela e o after-party das seis da manhã. É só remexer um pouco que lá esta ela, a menina literatura, os filmes de domingo à tarde e a música alternativa de calças roxas. Há a rapariga livre, independente, hiperactiva, a que tem voz de charme e a que sonha com uma casa de piscina e churrasqueira no terraço.
O problema, porque não há história sem fricção, é quando as vidas se misturam e a esquizofrenia confunde-se. Então recebemos um email para a senhora responsável e logo em seguida outro que recorda os dias de sol e praia em viagens saltimbancos. E então senti-nos traidores, farsantes, embusteiros. Porque estamos a jogar um jogo duplo e este não tem bónus no final. Sabemos que um dia a vida pagará factura e, entretanto, lançamo-nos e entranhamo-nos cada vez mais fundo nesta vida de multifaces à espera de encontrar alguém que, quem sabe, compreenda essa nossa pequena doença incurável.

13 enero 2010

Pernas para o ar

A vida está de ponta cabeça. Comecemos, então, pelos pés que tanto querem andar, sair, mexer-se. Que sonham em percorrer o mundo de palmas no chão, que querem fugir mas quando dão o primeiro passo apercebem-se que os atacadores deram um nó. Malditas vidas entrelaçadas.
Dos pés ao joelho, esse bastardo. Tinha de nascer com um osso deficiente. O menisco deslocado, dizem os médicos, mas eu não acredito. Acho que me dói só porque sim, por teimosia, para lembrar-me diariamente da minha imperfeição. Não que eu precise, mas ele insiste.
Do joelho salto para a barriga, esse espelho da alma. Quando estamos tristes, o chocolate consola, felizes, a cerveja celebra, apáticos, as gomas alegram, deprimidos, a fome cava mais fundo. E quando o mundo está ao contrário? Comemos e vamos ao ginásio gastar calorias. Para depois poder comer mais.
E quase sem perceber passamos da barriga aos ombros, esses, os que aguentam com o peso da mochila. A mochila que nos levará mais longe. A nossa companheira de onde quisermos. Porque, acreditem em mim, quando mais afastados estamos, menos peso sentem os ombros.
A cabeça, coitada, está meio zonza. "Não faças o pino que o sangue vai-te todo para a cabeça", diziam os professores. Não a mim, claro, que nunca tive jeito para a ginasitca. A cabeça, que no fundo é só uma carapaça, esse tal utencilio tão valorizado pela sociedade moderna. Esse órgão pensa, dizem os espertos. Não, quem manda é o coração, contestam os românticos. No fundo, tudo isto são só enzimas.
E então chegamos ao cabelo, malandro. Queremos fugir, mudar e disfarçar. Treinamos cabelereiros, odiamo-los de morte, pomos gel, espuma e creme modelador. Porque no fundo, a pior parte de ter o mundo virado ao contrario é que não há forma de conseguir pôr o cabelo como deve ser. Acho que no final das contas é ai que reside o meu problema.

10 enero 2010

Uma questão de respeito

Ele está ai, escondido atrás das portas, como o pó e o cotão de um quarto recém arrumado. Ele chegará, um dia chegará. Ou pelo menos isso me dizem. De comboio expresso, avião de baixo custo ou ténis desgastados. Seja como for, naquele dia, o dia em que ele aparecer, se ele aparecer, vou correr para os seus braços, qual filme de Hollywood e, contrariando todas as expectativas, num twist absolutamente inesperado, vou dar-lhe um valente bofetão e perguntar-lhe enquanto bato com o pé de birra: “E onde estiveste este tempo todo?”
Onde estiveste nas noites de frio com a janela estragada, nas manhãs de preguiça enroladas no sofá, nos passeios pelo parque, no pequeno-almoço do café da esquina. Já busquei por toda a casa, nas gavetas do trabalho e nos bolsos do casaco. Revisei a lista telefónica e a loja do senhor Josito. Não estás, mas insistem em dizer-me que estás, que chegarás, que vens a caminho.
E eu sou menina teimosa. E, por capricho, espero. Pacientemente, aguardo que esta expectativa prolongada chegue ao fim. Que eu possa unir-me ao mundo neste sorriso pasmacento estampado na cara de todos aqueles que já tiveram o seu prémio.
Mas não te enganes, meu querido, não te enganes, porque quando chegares não te esperarão mil e muitas noites de amor ronhento e vozinha de charme. Quando chegares, se chegares, teremos muitas contas a ajustar. Porque isso de demorar tanto, meu caro, é uma falta de respeito. Os teus pais não te deram educação?

05 enero 2010

O menino caladinho

O menino caladinho tinha um olhar tímido e um punhado de conversas silenciosas. Mantinha a inexplicável empolgação de uma criança e um rol de “desculpa”, “obrigado” e “com licença” que tanto orgulharia os seus pais.
Era rapaz de comunicação, mas comunicar não era o seu forte. “É que eu me enrolo, sabe?”, justificava, e lá ia ele enrolando-se no fio das suas próprias historias. Até que o fio enroscava-se de tal maneira que, de repente, dava nó. E eu ria, gargalhava e desfrutava da sua trapalhice. “É que eu gosto mais de contemplar”, explicava. E isso, claro, dava azo a mais risada.
Mas para menino calado, até tinha das suas. Gostava de arte, de literatura, de Bob Dylan e de pôr gel no cabelo antes de dormir: assim já acordava penteado. Sonhava com história e com ruínas romanas. Os museus eram a sua casa.
Dizia que os óculos usavam-se a meio do nariz e então eu chamava-o de velho e ele irritava-se, mas não muito, porque nada superava a sua ira de quando eu soltava um “é que você é um adolescentezinho” no meio de alguma situação empolgante. Dizem que a crítica faz parte do charme, ou isso defendo eu.
Mas os dias passaram e ele foi soltando os nós: e não é que o menino caladinho falava?
E se falava.
Contava do pai, da mãe e do trabalho. Da rotina que era viver. Queixava-se dele mesmo e da sua atitude, que queria ser melhor. Que não conseguia ser melhor. E depois vieram as histórias. As entrevistas aos deputados, os professores despedidos, os amigos e o eterno amor platónico. Amar é sofrer, disse um dia entre uma batata frita e um golo de Coca Cola.
Mas a magia acabou logo e precisamente quando ele, o menino caladinho, estava tão tagarela, o seu avião partiu. Deixou para trás uma garganta rouca de bares e aventuras, e ao despedir-se, deu-me um abraço forte e balbuciou: “Obrigado”.
O menino caladinho tinha voltado a calar-se.

06 diciembre 2009

Era melhor

Olhávamo-nos com olhar acostumado. Com remelas nos olhos e bocejo na boca. Criticávamos cada gesto, cada acção, cada tropeço em quem éramos realmente.
Não era amor.
Era uma tarde de inverno a ver filmes pirata e a comer pizzas de ananás. Eram dois telemóveis desligados. Uma música e uma guitarra. Eram massagens nos pés e exposições de domingo. Pequenos-almoços madrugadores. Um beijo na ponta do nariz.
Não era amor. Era melhor.
E então transformámo-nos naquela velha televisão que, mesmo desligada, continua a fazer um zumbido constante. Num gira-discos estragado. Naquele Tolstoi que nunca nos atreveremos a acabar. Somos o lixo do que soubemos ser, os restos daquele que deveria ter sido um final feliz.
Porque o fim nunca é bom. Se fosse bom, seria o começo.

02 diciembre 2009

Mesmo quando não escrevo

Então escreve.
Fecha os olhos, respira fundo e deixa as palavras apoderarem-se de ti. Desenha com elas um piscar de olho cúmplice, um esboçar de um sorriso, uma risadinha matreira. Faz das palavras um ecstasy barato, vicia-os, hipnotiza-os para o segundo parágrafo, o terceiro, o quarto.
Conta-lhes uma história, daquelas fáceis e universais, daquelas que basta substituir o nome para que sejamos nós os protagonistas, das que se tivéssemos o telefone, simplesmente marcaríamos o número, sem pensar mais. Conta-lhes histórias felizes, porque é mentira que o povo gosta de desgraças. O povo gosta de sentir. Mas é mais fácil causar emoções negativas.
Então escreve e narra histórias felizes, apoia causas sociais, constrói a proximidade, ganha o leitor. Diz-lhe o que quer ouvir, mas nem sempre, e quando não, di-lo com jeitinho, com graça, com a humildade de um mero informador. E denuncia, mas não por ti, nem pelo teu nome citado em todas as partes. Vai, escava, desce ao buraco, conquista a fonte e no fim põe na balança. Pergunta-te se o fazes pelo teu ego ou se ajudarás a vida de alguém. Pergunta-te se essa raivinha residual que foste criando contra aquele personagem está a influenciar-te (a resposta será, irremediavelmente, sim). Pergunta, pergunta sempre, porque afinal, isso é o que melhor sabes fazer.
E se já ganhaste o leitor, agarra-te a ele como a cura para a sida. Não o deixes escapar. Cuida o ritmo, atenção às aspas, pontuação correcta e nada de rimas. Não ponhas palavras difíceis, por favor, não. Poupa-nos também daquelas expressões muleta. O leitor agradece.
E agora que estamos a chegar ao final, que já lhe cansámos a vista e aumentamos os índices de leitura, não o abandones assim. Ele espera mais que um “concluí” ou “finaliza”. Ele merece mais. Então escreve e dá-he uma punch line, daquelas redondinhas que fazem rir, gritar, engolir o choro e estremecer. Tudo, para que ao fim de três minutos, ele tenha vontade de virar a página e seguir em frente.
“Por favor, Marina, coño, no dejes de escribir”, dizia o mail de hoje.
E então eu escrevo. Mesmo quando não escrevo.

25 noviembre 2009

A involução

Tínhamos um ar mudado. Como se a vida, de repente, tivesse deixado de ser um momento. Sentíamos aquele peso nas costas das velhas memorias de alegrias instantâneas, de compromissos com o cair da noite, de gargalhadas em troca de copos de plástico.
O mundo tinha voltado atrás, mas a maquineta estragou-se a meio caminho e ficámos ali, perdidos entre a felicidade e o conformismo. Entre o querer ser e aquilo que a vida nos tornou.
Tentámos fingir e repetir, mecanicamente, o passado. A criação ideal que cada um desenhou da sua vida anterior. Da Vida com vê maiúsculo.
Já não havia razão para chorar porque agora as lágrimas seriam profundas, sofridas, existenciais. E todos sabem que o lacrimejar verdadeiro não é para aqui chamado.
Então engole o choro e sorri. Constata, uma vez mais, o fracasso em que te tornaste. O triste processo de involução que empreendeste nos últimos anos. Olha-te na agua espelhada daquele rio urbano e conclui que este não és tu ou, pelo menos, quem tinhas planeado ser.
E, pela primeira vez, não é mais preciso fazer juras de amor ao fim da noite. Elas estão subentendidas naquela dura realidade contada no frio de uma janela aberta durante a madrugada.