26 mayo 2010

Os isleños

Os isleños foram os primeiros a chegar. Tornaram-se imediatamente donos e detentores desse pedaço rocha perdido no meio de uma água gelada de peixes. Eram rei, senhor e príncipe. Princepessa, dessas do cinema italiano.
E depois de muito pensar, optaram por viver uma anarquia organizada, já que, dadas as circunstancias, a maioria absoluta seria, deveras, um tema complicado. Criaram, então, um inovador sistema político que se sustentava com apenas uma regra: dentro daqueles domínios as coisas faziam-se de cinco em cinco. Ora ai está uma boa lei.
Toca a comer cinco maçãs, e cinco caroços, dar meia dezena de passeios e cinco olhares, daqueles de corar a ponta do nariz. Cinco, os minutos babados de boca na toalha e um v romano de furinhos da perdida orelha do mar. Que descanse em paz.
Uma mão cheia de dedos entrelaçados, cabelos enrolados e caracóis rebeldes. Uma língua de fora. Dessas não havia cinco. Mas a regra do seis menos um era muito rígida e não sobreviviam nem os sorriso-gargalhadas. Cinquenta? Vá, acrescenta-lhe um zero e negócio fechado.
No fim do dia, os donos e senhores da meia dezena abandonaram o seu reino, deixaram gosto na boca ao futuro legado e, entre furacões e rodopios, desocuparam a coroa dos isleños.
Ao chegar a terra quiseram dizer algo, fazer um discurso pomposo. Coisas de filme. Mas só saiu um gesto. Um, não, cinco.

20 mayo 2010

Politicamente incorrecto

Fugiste. Já tinhas avisado tantas vezes. Ameaçado, assustado, anunciado. Até que um dia, chegou o dia. Pegaste nessa tua vida desorganizada, nos teus projectos intermináveis, no teu registo do nosso passado e correste. Correste até cansar.
Criaste uma nova história para ti, a história que tanto quisemos criar juntos.
E o que ficou foi uma referência interminável às nossas piadas internas, uma menina chata que fala sempre do mesmo. Daquela viagem de pão e sol, dos concertos de pés da areia, daquelas tardes-noites de pipocas e gomas ácidas. Dos personagens que aprendemos juntos a idolatrar.
Mas eu sou menina mimada, !sabes disso como ninguém!, e queria que voltasses. Tu, e essa tua cara de pato alegre, a tua vozinha de manha perdida, e o teu jeito confortável de ser. Tu e os nossos filmes, as conversas quotidianas, o fui-ao-shopping-e-comprei-umas-calças-novas. Tu e as tuas idas ao shopping.
Eu sei que não vais voltar. Eu entendo. Mas esta é só a minha maneira desengonçada e politicamente incorrecta de dizer-te que fazes falta.

19 mayo 2010

A paradiña

Na vida, às vezes, há que fazer uma paradiña. Há que deixar de lado as teorias, os rótulos e as etiquetas. Acalmar a histeria das ideias, dar um beijinho de boa noite aos prazos de validade pré estabelecidos. Pegar em todos os preconceitos, inimigos e pensamentos baratos. Juntar tudo isso e enfiar no congelador.
Quem sabe um dia esses alimentos de cérebros agitados derretam e voltem às grandes manchetes dos informativos. Quem sabe até se tornem realidade. Quizás.
Mas naquele dia pediram-me uma resposta. Uma palavra, um detalhe que pudesse organizar a vida. Não houve tempo para grandes reflexões. Chegou o sol e, com ele, aquela manhã de dia normal. Fizemos uma paradiña. E, pelos vistos, resultou.

12 mayo 2010

A ressaca do adeus

Mais um dia daqueles. Outro, outra vez, outro. E só ontem me passou pela cabeça que deveria começar a colecciona-los.
Guardaria o adeus em uma caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. Poderia fazer com isto uma valente fortuna. O adeus de choro engolido e de choro chorado. O de abraço apertado que estala os ossos. Aquele que leva um beijo que jamais esqueceremos. O adeus contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta do sofá. O adeus que vira as costas e não olha para trás. O que gira a cabeça. O adeus que se disfarça de até já e aquele que tem pressa e, quando vemos, já passou.
No fundo, o que eu queria mesmo era que o adeus fosse um bolo de chocolate. Que boa ideia! Coleccionar bolos de chocolate. Ou sacos recheados de gomas coloridas. Não, espera, que seja leite condensado comido à colher. Esquece, tanto faz, não me importa. Só queria que o adeus fosse doce. Docinho.
E se for possível, senhores lá de cima, queria que o adeus tivesse uma voz meiguinha e olhos de cão sem dono, que soubesse olhar, sorrir e abraçar. Sim, que o adeus soubesse abraçar. Queria que fosse um menino espontâneo, desses que caem na graça das avozinhas.
Porque eu presumo sempre que eu e ele somos amigos, velhos conhecidos de outras batalhas. Mas na verdade, e mesmo que ele pareça inofensivo e pouco amargo, há um dia que a ressaca chega. E de adeus passamos a tenho saudades. É o ciclo normal da vida. Ou isso querem que pensemos.
Se pelo menos a ressaca soubesse a bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro...

11 mayo 2010

Asas em segunda mão

Atenção, que voar é coisa difícil. Não é como andar de bicicleta sem esfolar-se, alimentar elefantes ou passar vinte horas a viver de uma hormona com nome de remédio. Não podes fazer essas coisas. Chegar aí todo relaxado e sorridente com o teu cabelo despenteado e óculos desalinhados. Aparecer do nada e dizer, desinteressadamente, “vamos aprender a voar”. Voar? Voar é coisa de gente demasiado grande ou demasiado pequena. Voar é coisa de gente demasiado e todos sabemos (e tu sabes) que eu sou normal normalinha e os normalíssimos não voam. Mas pronto, desculpas dadas, já sei que não foi tua intenção causar a discórdia. Nunca é. Quase nunca é.
Mas já que insististes tanto, aprendamos.
Leva-me à feira da ladra e ajuda-me a escolher umas asas em segunda mão. E como poupamos na hélice, o orçamento deve chegar para comprar uma faca, ou similar. Pois cortemos as amarras, desfaçamo-nos de todos os pesos. Esses malditos que dão dores nas costas. Livres e leves, falta encontrar mecanismos de soltura. Sei lá, um pouco de açúcar na veia deve chegar. Busquemos um instrutor e procuremos a rota mais indicada. Não esquecer da banda sonora e da cesta de picnic.
Ate que, um dia, quando tudo estiver a postos, provas feitas, material revisado e exames aprovados. Quando tudo estiver okay, chegará a hora decisiva. O momento, ai esse grande momento, em que o instrutor aproxima-se e grita lá de baixo, com a segurança dos seus pés pisando terra: “Hei menina, atira-se ou não?”.
Já te tinha dito que voar era coisa difícil.

09 mayo 2010

Sonhatortilhas

Aquela capa preta de estrelas redondas separava-os do mundo. Usavam-na de refúgio para dias maus, de compensação para tardes de conversa em tom de nanas estrangeiras. Ali, naquele esconderijo em espiral, só existiam eles. Dois sonhatortilhas perdidos numa escola de crianças. Somiatruites que somiavan que el seu llit tenia ales. I a mitjanit despegavan i volavan, volavan i volavan.
E debaixo daquele manto de invisibilidade tudo era possível. Podia discutir-se sobre os tinteiros da impressora e o almoço daquela tarde, a salvação do mundo ou o valor do silêncio. Até podiam ficar calados. E essa era uma grande novidade.
Cobertos pela capa mágica, eram tudo o que sempre sonharam e negaram ser. Eram eles sem preconceitos, sem aquelas regras avassaladoras que os deitavam abaixo a cada momento. Eram versões melhores deles mesmos. Eram sonhatortilhas.
E quando aqueles dois ovos fritos e reboçados se escondíamos no cantinho do infinito, o relógio desaparecia do pulso e a razão fugia por uns instantes dessa posição líder. Não havia frio, fome ou sono. Eles eram demovíveis. Porque estavam ali para sentir. E sentiam forte. Sonhavam forte.

06 mayo 2010

Pucheritos

Ele tem um jeito de ontem à noite, uma maneira caótica de ser. E muitos tiques nervosos.
Ele tem as mão pequenas, pequeninas, e uma cabeça que cresceu mais rápido que as orelhas. Ele é cabeçudo. E eu orelhuda. Que dois.
Então discutimos sobre tudo. Mas sobretudo sobre as coisas que não têm discussão. E ele agora diria que estas frases estão mal construídas. Mas o que ele não sabe, é que foi tudo feito “a posta”, ou, só para dar o braço a torcer, “a propósito”.
Tem pinta de caladinho, de introvertido. Rá. Enganem-se os tontos. Porque quando fala, não se cala e depois ainda pergunta: “Não consegues estar uns minutinhos sem falar?”.
E então eu zango-me, amuo, ou como diríamos por aqui, faço pucheritos. Tudo parte do show, porque já sabemos, que é regra escrita e revisada, que no fim, previsivelmente, quem ganha a batalha sou sempre eu.

02 mayo 2010

Noites

Ultimamente as noites têm sido curtas. As noites e aquele seu gostinho a frutas tropicais, açúcar, amigos e abraços. Elas e aquele toque tão evitado. O pele-a-pele que um dia fez o olhar estremecer. E então as noites acabam e o sol está ao contrário. Maquilhamo-lo com persianas eléctricas e cobertores black-out.
Porque de noite valem sussurros e a rouquidão tem som de piada, valem erros verbais, gritos desnecessários, valem insultos que se reconciliam em questão de segundos. À noite discutir é parte do protocolo. Não há conversas complexas, nem frases elaboradas. Um ano vive-se em dez minutos. Dez minutos mais dois ou três pormenores engraçados. À noite todos temos um sentido de humor especial.
E quando o dia chega, fechamos os olhos, fazemos beicinho e birras de criança mimada. A luz revela coisas que não queremos ver. Faz-nos mais sérios, mais pensativos, mais regradamente regulados. Por favor noite não te vás embora, não leves contigo esse teu aroma a iogurte com mel.

14 abril 2010

"Todo lo que podríamos haber sido tú y yo si no fueramos tú y yo"*

O que seria de mim e de ti se não fossemos tu e eu? Não sei me entendes, é que sabes, a minha cabeça pensa confuso. O que eu queria saber, a pergunta que não cala neste constante sussurro interior que é o meu cérebro é se nós, se fossemos outros, seriamos alguém.
Penso em tudo o que poderíamos ter sido se, simplesmente, não fossemos nós. Nós e esse nosso masoquismo inato, este pica e foge que nos é tão característico. Nós, e as nossas gargalhadas às três da manhã, os nossos cafés à beira mar, as nossas conversas que aceleram o relógio. Nós e tudo aquilo que nos faz tão adoravelmente incompatíveis.
Nós e este intenso sonho de ser quem não somos.
E então pego em ti e, qual mecânico, vou arranjando-te. Um retoque aqui, e outro ali. Um pouco de óleo, três ou quatro parafusos. Ah, esta peça seria melhor mudar, veio com defeito de fábrica. E depois levo-me também a esse tal retocador divino, peço-lhe uma lavagem a fundo, uma mudança radical, um xis e um ipslon que me faltavam.
E então somos perfeitos. Somos exactamente quem queríamos ser.
Mas, claro está, já não somos tu e eu.
*Albert Espinosa

11 abril 2010

Feliz

Quando estou feliz não escrevo.
Ponto.
Final.

03 abril 2010

Reinventar-se

Naquele dia perdi-me. Perguntavam-me o nome e já não sabia o que responder. Começa por éme, dizia, era a única certeza. Depois a conversa ia crescendo e as minhas convicções diminuíam. Sabia que já não era aquela que tinha sido, a que tinha aprendido a ser. Mas quem era então? Um ser amorfo, estático, errante pelos caminhos da vida. Não tinha filme preferido, nem género musical. Restaurante ou perfume de referencia.
Era o fim. E com ele vinha o princípio

13 marzo 2010

Mentiroso!

Dizes que estás bem, que estás okay, que não há problema. E eu acredito, Ingénua, egocêntrica, não sei, mas acredito.
E agora só me apetece encontrar-te pela rua dar-te um safanão, apertar-te o pescoço e insultar-te da melhor maneira que sei: “Mentiroso!”
E depois iria à televisão, aos programas da tarde, à entrevista com a Júlia Pinheiro. Iria ali, com a minha cara podre e os meus olhos verdes contar-lhes, a eles e a todo o mundo, que um amigo me mentiu e eu, claro, como poderia deixar de ser, apanhei-o numa esquina e pumbas. Espera!, que não me mal interpretem, pumbas de porrada, valente e poderoso enxerto.
- Vi-o na rua e não resisti. A raiva entrou em ebulição e dei-lhe num murro nas trombas, parti-lhe os dentes, e depois esganei-o até que ficasse roxo pela falta de ar.
Tudo isso porque ele me mentiu, repito vezes e vezes sem conta neste meu sonho-delírio.
Depois, claro está, além de ser estrela de tv, seria alvo de investigações policiais e gabinetes de ética. Seria capa de jornais. Foi ou não legitimo o enfardo que deu aquela jovem ao seu amigo mentiroso?
E as pessoas discutiriam o nosso drama nos cafés, nas páginas de sociedade, desse lixo virtual que é a blogosfera.
Até que um dia, numa entrevista em prime time eu desabafaria perante um jornalista desconcertado:
- É que se ele me tivesse dito a verdade, eu pelo menos poderia ter tentado ajudar…
O mundo se emocionaria perante tal sinceridade e eu sairia ilibada de todas as minhas penas.
Agora saltemos todos os passos e que venha o cara-a-cara.

07 marzo 2010

Vida saltimbanca

Mais um dia daqueles. Outro, outra vez, outro. E só ontem me passou pela cabeça que deveria começar a colecciona-los.
Que ideia genial.
Guardaria o adeus numa caixa azul com um grande laço de cetim. Já tenho acumulados tantos, muitos, demasiados. O "eu venho visitar-te" de choro engolido e de choro chorado. O "gosto muito de ti" de abraço apertado que estala os ossos. Aquele "eu ligo-te quando chegar" que leva um olhar e um beijo que jamais esqueceremos. O "até sempre" contado e recontado em noites de ronha debaixo da manta no sofá.
Ficaria rica de tantos "vou ter saudades" e, quando me entregassem um prémio em honra à minha invejável colecção, perguntar-me-iam:
- Como conseguiu chegar a esta quantidade de despedidas?
E então eu diria, orgulhosa:
- É o resultado de uma vida saltimbanca.
Pose. Flash. Troféu na estante.
Parece-me um prémio merecido.

01 marzo 2010

Mais-que-perfeito

Falhara a sintaxe, o verbo e o predicado. Colapsara o sistema das letras racionais. Conjugara os verbos na ultra perfeição de um indicativo do plural.
Buscáramos os beijos que tínhamos programado um dia na nossa agenda rasgada. Tínhamos encontrado o tempo composto. Mas não funcionara. Não fora suficiente e voltáramos ao singular. Fôramos só um, mas devagar, não corrêramos. Não fora preciso, porque já não houvera mais pausas para a publicidade. Agora fôramos só tu e eu num envelope selado no individual. Lágrimas engolidas com um romance de papel.

Desculpara-me se corro, mas nunca me ensinaram a andar. Desculpara-me se fugira ou se misturara flashes de passado com cocktails de álcool. Restos de futuro com chutos de ficção. Desculpara-me se inventara, se criara, se fizera-nos sonhar. Mas tivera a cabeça em blackout. Já não soubera conjugar outro tempo verbal.

26 febrero 2010

É azul, digo

Olho para o azul e pergunto: Como sei que não vês amarelo? Sei lá, verde, roxo, castanho. Fixo-me bem fundo nos teus olhos. Penetro na retina e procuro respostas. Isto é azul!, digo-te, a-zu-l. E tu respondes que sim, que claro que sim, que aprendeste isso na escola. Mas não consigo evitar este sentimento misturado que me garante que sempre que falamos de azul estamos, no fundo, a viajar num degradé de tons cianos, numa escala indefinida de nomes e conceitos abstractos. Afinal, quem tem a paleta definitiva das cores? Quem é o Deus, grande mestre, das misturas coloríficas?
E de perguntona perdi-me pelo mundo dos tons, misturei-os todos e, estranhamente, deram preto. A professora tinha me dito que o branco era a resposta. Mas nunca o comprovei. Teorias.
E agora estou aqui, nesta vida de tons pastel onde o azul é só um conceito distante que gosto de defender como meu.
É azul!, digo, a-zu-l. E tu respondes que sim, que claro que sim, que aprendeste isso na escola.

22 febrero 2010

Com palitos nos olhos

E, quando parece que a vida se está a encaminhar outra vez, tremo. Tremo e temo por aquilo que posso não vir a ser. Pelos sonhos a cair do penhasco, a escorregar, ribeira abaixo, encharcados de frustração molhadas. Assusto-me com um futuro negro, sombrio, insatisfeito e acomodado. Arisco-me e duvido as decisões que tomei. Repergunto os sins e nãos que deveria ter gritado.
Mas, naquele futuro distante, já não há meia volta volver, pára o disco e toca outro. Vejo-me atrapada nos impulsos de uma jovem ambiciosa, afogada num mar de sonhos não concretizados, numa “vocação” inventada em noites de luar na fogueira de uma praia qualquer.
E depois paro, levanto-me, acordo desta espiral negra que me põe palitos nos olhos durante as profundezas da madrugada, respiro fundo e penso: foi só um pesadelo. Mais um pesadelo.

09 febrero 2010

Uh lá lá, minhôcá

Dizem-me que minhoca não tem movimento.
- Como não? – pergunta a centopeia que puxa, estica e vai andando, por ai, correndo, verde, pela vida.
Revolução! Juntemos pessoas apressadas, o rapper da esquina e o um ou dois megafones. Façamos uma sessão fotográfica. Clic, clic. E la vai ela, a minhoca, esplendorosa, graciosa, desfilando pela passarela com o seu vestido esvoaçante. Uma ventoinha, uma ventania, um vulcão de vento, algo. Reprovado, que os franceses não atinam com o “vê”.
Então coloquemos a dita graciosa num carrossel, numa montanha russa talvez. As palavras compostas estão na moda. Que faça uma corrida, que se junte a uma marcha, que dê um salto duplo numa piscina de ondas. Coitada, que se afoga, que as minhocas que não sabem nadar. Então façamos-lhe um rio, um lago. Sim, um verme a chapinhar numa poça. Mas de tanta agitação ficou tonta, zonza, com o mundo às voltas como se estivesse a centrifugar. Pula, estreita, treme e foca-te. Centra-te para que te passe o reboliço. Rébôlissô, diriam os galgos.
Mas se por fim os tremeliques não funcionarem, levemos a esplendorosa de viagem. Um jacto, um furação, uma expedição em anos luz. Ali poderá experimentar o calafrio de uma nova cultura, a brisa de cheiros extravagantes, o pingar arrítmico que só conseguem as gotas dos países estrangeiros. Façamo-la suar, jogar com o ping-pong da vida. Pronto, está bem, que se apaixone, que isso também é movidito. Que lhe rompam e estilhacem o coração em mil partes. Porque os amores de viagens são assim, imprevisíveis, a minhoca também deveria viver-lo. Abandonada, exausta, com o pé a arder e o coração a coçar, a estrambólica regressa a casa. Desta vez para descansar. Chega de movimento por hoje.

08 febrero 2010

O apelo

As minhocas têm nove corações, um para cada dor. O primeiro sofre baixinho, para dentro, com um grunhido interior que cala o som, abafa a voz, põe fita-cola nessa boca tagarela. O segundo é o que ama. O que voa com o silvar do vento, com a banda sonora do primeiro encontro, mas sabe, porque no fundo todos sabemos, que como diria Woody Allen “to love is to suffer, not to love is to suffer, to suffer is to suffer”, e então chora por antecedência o golpe futuro que terá o seu coração.
O terceiro é preguiçoso e sofre por inércia, o quarto deprime-se com a fome do mundo, as mutilações femininas e o tráfego de crianças. Que serio é esse coração. E então chega o quinto, esse histérico. É o que grita, esbofeteia, insulta e berra o mais alto que pode. Eu chamo-lhe coração-revolta, mas isso sou só eu. Ao seu lado está o seis, o cínico. O que põe um sorriso nos lábios engole o choro e segue em frente. O sete sofre por pensar demasiado e o oito sabe que, simplesmente, não pertence a este mundo.
Mas então chega o nono a passos lentos, arrastando os pés. Tem o cabelo despenteado e as olheiras roxas de sono. Ele é macro. Está apenas irritado, desiludido, farto de sofrer nos seus nove corações. Então pega num sapato e mata-se a si mesmo. A si e aos seus oito irmãos. !Suicida!, gritam os seus companheiros, enquanto o resto do reino animal aplaude.
Este é somente um apelo ao suicídio das minhocas. Pela morte limpa e digna. O próximo passo será o massacre.

07 febrero 2010

A morte matemática

Um mais um será sempre igual a dois. Um menos um, zero. De súbito acredito que a existência se resume à matemática. É feita de uma história que se foi. De uma história que nós fomos. De um passado com cheiro e gosto. De quando eu sofria por coisas alheias. De conversas debaixo do lençol. De chocolate com churros. Do sorriso de surpresa. Da coisa boa e da ruim. Dos momentos que imprimimos em fotografias retocadas. Do vazio. De um medo que se foi sem susto. Do que eu pensava que seria impossível. Das tardes sem pensar. De muito. Do demasiado elevado ao cubo. E de repente parece que alguém quer acabar com tudo isto. E de dois passamos a zero. Porque a morte é matemática. Mas a vida, não.

01 febrero 2010

Eles

Ela gosta dele porque diz que ele é bonzinho. Ele não diz, mas gosta dela porque sem ela a sua vida não teria graça nenhuma. Eles reclamam, implicam e reviram os olhos. Dão beijinhos, abraços e gargalhadas em uníssono. Ela gosta de ténis e ele de futebol, ele de ler e ela de ouvir. Qualquer um diria que se completam. Ignorantes. Eles são tudo menos um cliché.
Desde que os conheço, proclamam orgulhosos que no seu vocabulário não existe nem “tu”, nem “eu” e então lá tivemos todos de aprender a conjugar os verbos em “nós”.
- Duh, que bobagem! – diziam os adolescentes com sentido de ridículo.
Deve ser defeito meu, de memória selectiva, mas olhando para trás, só me lembro de terem discutido duas vezes. Em ambas as ocasiões chorei em silêncio. Chorei porque queria que vissem o mundo pelos meus olhos, que percebessem que o que conta piadas tem de acabar com a miudinha que se ri, que a carinhosa termina sempre com o armado em machão e que o que lê a secção de politica precisa de alguém que lhe conte sobre o apartado das fofocas. E o resto são peanuts.
Mas, fosse como fosse, sempre que o mundo dava cambalhotas ali ressurgiam eles (ou deveria dizer nós) naquela imagem imbatível de duas mãos dadas pela vida. Pela vida e por um telefonema de feliz Páscoa.
Porque eles são assim, eternos.
Cresci pensando que seria fácil imita-los, ser feliz. Aos poucos e largos sofrimentos descobri que não, que não era tão simples seguir a sua fórmula secreta de sucesso eterno. Que era preciso mais do que um conhecimento correcto da gramática para aprender a conjugar os verbos na primeira pessoa do plural. Mas que por uma ou outra misteriosa razão, eles tinham encontrado esse plus.

Tudo isso, ou talvez esta seja apenas a visão torcida de uma filha babada.