Sempre adorei papéis. Papéis, canetas, blocos, cadernos.
Quando era pequena fazia colecção de papéis de carta. E que bela colecção que eu tinha. Havia alguns que eram muito valiosos e ficavam a meio do dossier (para não se estragarem) e eu colocava-os numa mica especial (que ia substituindo de tempos a tempos. Papéis de carta valiosos não podem ficar expostos em micas riscadas).
Eram impagáveis os meus papéis de carta. E tanta inveja que as outras crianças tinham deles.
Eu gostava de os ver e cheirar (porque muitos deles tinham perfume) e, acima de tudo, de os exibir.
Mas mania dos papais de carta foi passando e fui começando a coleccionar outros tipos de papéis. Papéis secretos, não-exibíveis.
Eram cartas e recordações, eram bilhetes e histórias.
Antigamente tinha uma caixa. Era de madeira e tinha o meu nome gravado por cima. Comecei a guardar ali as minhas recordações papelísticas. Mas a caixa encheu rápido demais e pus-me a pensar: Talvez isso de guardar papéis numa caixa não seja boa ideia. A caixa era como uma recordação gigante e proibida. Uma recordação triste-alegre que trazia lágrimas e sorrisos, arrepios e suspiros. Continha palavras proibidas e segredos selados. Desenhos rabiscados e declarações apaixonadas. Um buraquinho intenso demais para um comum mortal. Resolvi abandonar o dito objecto numa gaveta e pus-lhe um aviso em cima com a frase “material potencialmente perigoso”.
Espalhei os meus segredos pela casa, pelas roupas, carteiras e malas. Para, quem sabe, serem encontrados um dia.
Guardei cada segredo num canto refundido, cada recordação num pedacinho de espaço invisível. Talvez um dia os volte a encontrar, ou talvez as recordações fiquem para sempre escondidas no labirinto dos segredos e das memórias. Não sei.
Tudo isto porque ontem ofereceram-me um post-it. E agora não sei onde o colocar. (ou esconder).
31 julio 2007
30 julio 2007
marginalmente romântica
Sou marginal. Marginal e vadia na rua das mentiras e dos enganos.
Tenho uma pele que arrepia e estremece a cada grão de areia que se cola. A praia tem pouca areia, é um facto. As famílias comem-na lambuzam-na, escorregam-na para o mar revolto. A onda vem e vai num ritmo congelante de circulação parada. E o sol frita.
Existem certos rituais que são imagem fotográfica. Croquetes de areia e mãos que abrem e fecham num deslumbre preocupante pela fisionomia humana.
Sou um cigano itinerante, um velho bigode alongado de saltos e nuvens de perfume. Perfumes nostálgicos e molhados. De línguas e lágrimas que escorregam em segredo pela pele queimada. Mas está frio. Muito frio. O ambiente começar a tornar-se inóspito. Quando o perfume se vai, qual nómada atrevido, vou-me com ele em viagens de violinos e acordeões. Há um fantasma que me segue. Um fantasma secreto que me faz cócegas pelo corpo quando passa por mim como uma brisa daquele mar remexido de sábado à tarde.
Às vezes o fantasma passa por mim, faz-me rir com caretas e histórias incontáveis. E eu penso: O romantismo já não está na moda.
Tenho uma pele que arrepia e estremece a cada grão de areia que se cola. A praia tem pouca areia, é um facto. As famílias comem-na lambuzam-na, escorregam-na para o mar revolto. A onda vem e vai num ritmo congelante de circulação parada. E o sol frita.
Existem certos rituais que são imagem fotográfica. Croquetes de areia e mãos que abrem e fecham num deslumbre preocupante pela fisionomia humana.
Sou um cigano itinerante, um velho bigode alongado de saltos e nuvens de perfume. Perfumes nostálgicos e molhados. De línguas e lágrimas que escorregam em segredo pela pele queimada. Mas está frio. Muito frio. O ambiente começar a tornar-se inóspito. Quando o perfume se vai, qual nómada atrevido, vou-me com ele em viagens de violinos e acordeões. Há um fantasma que me segue. Um fantasma secreto que me faz cócegas pelo corpo quando passa por mim como uma brisa daquele mar remexido de sábado à tarde.
Às vezes o fantasma passa por mim, faz-me rir com caretas e histórias incontáveis. E eu penso: O romantismo já não está na moda.
25 julio 2007
Pudim
Estou a enterrar-me na areia movediça da ampulheta. Os grãos caem como pedras que ecoam na minha cabeça e cantam uma música de adeus.
Mas tenho a pele colada a este lugar. A estes cheiros a esta rotina de papel e suspiros.
Rezar para que o tempo passe depressa e rogar para que o tempo nunca passe. Deus fica confuso e resolve deixar-me abandonada na selva de leopardos vaidosos.
Não quero ir, não quero ficar.
Fui ao supermercado e comprei um saco cheio de pudins. Pus um pouco de ketchup por cima e comi. Comi até não poder mais.
Achei que talvez um bocado de conservante pudesse ajudar. Quem sabe.
Mas tenho a pele colada a este lugar. A estes cheiros a esta rotina de papel e suspiros.
Rezar para que o tempo passe depressa e rogar para que o tempo nunca passe. Deus fica confuso e resolve deixar-me abandonada na selva de leopardos vaidosos.
Não quero ir, não quero ficar.
Fui ao supermercado e comprei um saco cheio de pudins. Pus um pouco de ketchup por cima e comi. Comi até não poder mais.
Achei que talvez um bocado de conservante pudesse ajudar. Quem sabe.
23 julio 2007
músculos vadios
Os olhos insistem em fechar. O cérebro concentra-se neste movimento paralisado de cessar. Não posso piscar os olhos porque eles gritam de sono, também não posso pensar porque se pensar os olhos adormecem e sonham em cenários paradisíacos de sol e lua minguante.
O dia vai passando com horas contadas ao minuto e o fazer nada vai esmagando os momentos de alegria.
E o tempo não passa. Os músculos ardem e rasgam a pele. Músculos estranhos, estes. Não os conhecia mas não me parecem muito afáveis. Apresentam-se de rojão, sem sorrisos e sem formalidades. Gritam a sua presença e trazem cartazes de dias coloridos. O pescoço também dói da areia dura de cestas ao sol. São músculos nómadas e vadios que vêm e vão como as ondas de calor.
Mas agora a dor já não define o sentimento. São pontadas fortes de férias encantadas, são pensamentos magoados que desviam o humor.
Acho que preciso de uma massagem.
O dia vai passando com horas contadas ao minuto e o fazer nada vai esmagando os momentos de alegria.
E o tempo não passa. Os músculos ardem e rasgam a pele. Músculos estranhos, estes. Não os conhecia mas não me parecem muito afáveis. Apresentam-se de rojão, sem sorrisos e sem formalidades. Gritam a sua presença e trazem cartazes de dias coloridos. O pescoço também dói da areia dura de cestas ao sol. São músculos nómadas e vadios que vêm e vão como as ondas de calor.
Mas agora a dor já não define o sentimento. São pontadas fortes de férias encantadas, são pensamentos magoados que desviam o humor.
Acho que preciso de uma massagem.
22 julio 2007
e
Às vezes as palavras não chegam.
Preciso de um dicionário, de um génio linguístico que se instale na minha cabeça e me que articule os maxilares em forma de palavra.
São momentos.
O abraço esmaga os ossos e repara-os num beijo apertado de respiração prolongada.
E o ar percorre o corpo num arrepio triplo de sussurros e toques. E os dedos entrelaçam-se numa dança clássica de valsa para crianças, que rodopia o ouvido, como cotonete molhado. E as memórias de adolescentes surgem com confissões e segredos embutidos em compartimentos reservados. E as reservas de energia revelam-se, com saltinhos sorridentes e espreguiçares matinais. E os sorrisos são abertos e têm som de felicidade extrema. E o limite da plenitude é ultrapassado e arrasa com as barreiras da racionalidade. E a razão desaparece, e com ela o mundo. E tudo à nossa volta se extingue.
Isto é como um jogo de ligações. As palavras trazem recordações a cada piscar de olhos e as imagens invadem a mente, num turbilhão frenético de gritos e suor. O suor escorre e molha o corpo como água derramada de perfume feminino. A água seca na toalha proibida de uma praia fictícia qualquer. As mentiras arrastam-se e criam cenários idílicos para onde nos transportamos com a facilidade de quem foge da dieta. As calorias comem as calças e transformam-se em monstros açucarados de ruminantes loucos.
Mas a pálpebra descola e a luz fere o olho. Preciso de um soporífero. Deixem-me voltar a sonhar.
Preciso de um dicionário, de um génio linguístico que se instale na minha cabeça e me que articule os maxilares em forma de palavra.
São momentos.
O abraço esmaga os ossos e repara-os num beijo apertado de respiração prolongada.
E o ar percorre o corpo num arrepio triplo de sussurros e toques. E os dedos entrelaçam-se numa dança clássica de valsa para crianças, que rodopia o ouvido, como cotonete molhado. E as memórias de adolescentes surgem com confissões e segredos embutidos em compartimentos reservados. E as reservas de energia revelam-se, com saltinhos sorridentes e espreguiçares matinais. E os sorrisos são abertos e têm som de felicidade extrema. E o limite da plenitude é ultrapassado e arrasa com as barreiras da racionalidade. E a razão desaparece, e com ela o mundo. E tudo à nossa volta se extingue.
Isto é como um jogo de ligações. As palavras trazem recordações a cada piscar de olhos e as imagens invadem a mente, num turbilhão frenético de gritos e suor. O suor escorre e molha o corpo como água derramada de perfume feminino. A água seca na toalha proibida de uma praia fictícia qualquer. As mentiras arrastam-se e criam cenários idílicos para onde nos transportamos com a facilidade de quem foge da dieta. As calorias comem as calças e transformam-se em monstros açucarados de ruminantes loucos.
Mas a pálpebra descola e a luz fere o olho. Preciso de um soporífero. Deixem-me voltar a sonhar.
20 julio 2007
coro de multidão
Zumbidos de sons luminosos.
O suor escorria ao som de guitarras vibrantes e as pessoas deliravam com mãos que abanavam em ondas de calor e êxtase. A voz falhava em gritos de entusiasmo dilacerado e o chão tremia e saltava em minutos onde o lugar dos pés era a vários centímetros do chão.
Corpos que roçavam na homogeneidade dos gostos e no uníssono de vozes em coro que se perdiam na multidão.
Perdem-se as personalidades e os sapatos em massas populacionais ao rubro em busca de uma existência com sentido.
Quer-se saber e mostrar que a música é o espelho, a alma, o cobertor e a pista de dança dos nossos dias. E numa narrativa-surpresa de notas ensaiadas atinge-se um deslumbramento colectivo e o que sobra são restos de pessoas.
Mares de suor que jorram dos poros dilatados das músicas de colunas gigantes, e no fim um momento de êxtase febril. Uma respiração. Um silêncio. Uma recordação.
O suor escorria ao som de guitarras vibrantes e as pessoas deliravam com mãos que abanavam em ondas de calor e êxtase. A voz falhava em gritos de entusiasmo dilacerado e o chão tremia e saltava em minutos onde o lugar dos pés era a vários centímetros do chão.
Corpos que roçavam na homogeneidade dos gostos e no uníssono de vozes em coro que se perdiam na multidão.
Perdem-se as personalidades e os sapatos em massas populacionais ao rubro em busca de uma existência com sentido.
Quer-se saber e mostrar que a música é o espelho, a alma, o cobertor e a pista de dança dos nossos dias. E numa narrativa-surpresa de notas ensaiadas atinge-se um deslumbramento colectivo e o que sobra são restos de pessoas.
Mares de suor que jorram dos poros dilatados das músicas de colunas gigantes, e no fim um momento de êxtase febril. Uma respiração. Um silêncio. Uma recordação.
15 julio 2007
É Verão
O sol arde e queima as gotas de suor dos poros bronzeados. É verão.
E no verão apetece dançar no meio da rua, saltar muros e vedações, espreguiçar um sono que não acaba.
Vou fugir daqui na estrada de terra que suja o carro e salpica os pés de alcatrão.
É tão ténue a linha entre a plenitude e a tortura.
A felicidade dói fraquinho, como pingos de água que caem espaçadamente. Já chega de sofrer.
A alegria aperta a mão com força num olhar confidente, gargalha de comentário inofensivos e arrepia a pele em músicas que encaixam na história.
A areia entra nos cabelos com cambalhotas de ondas inesperadas. O sol arde e solidifica o momento numa fotografia de céu azul.
Não há óculos de sol, e os jogos de cartas têm uma nova forma.
O Verão chegou, e com ele a plenitude perfeita da cumplicidade trabalhada. Aquela que sempre existiu.
Amanheceu Inverno e, de repente, a nuvem preta trouxe consigo recordações de bolachas de chocolate. Mas comi uma fruta. Porque é verão e quando o sol bate não há espaço para calorias. (nem recordações)
E no verão apetece dançar no meio da rua, saltar muros e vedações, espreguiçar um sono que não acaba.
Vou fugir daqui na estrada de terra que suja o carro e salpica os pés de alcatrão.
É tão ténue a linha entre a plenitude e a tortura.
A felicidade dói fraquinho, como pingos de água que caem espaçadamente. Já chega de sofrer.
A alegria aperta a mão com força num olhar confidente, gargalha de comentário inofensivos e arrepia a pele em músicas que encaixam na história.
A areia entra nos cabelos com cambalhotas de ondas inesperadas. O sol arde e solidifica o momento numa fotografia de céu azul.
Não há óculos de sol, e os jogos de cartas têm uma nova forma.
O Verão chegou, e com ele a plenitude perfeita da cumplicidade trabalhada. Aquela que sempre existiu.
Amanheceu Inverno e, de repente, a nuvem preta trouxe consigo recordações de bolachas de chocolate. Mas comi uma fruta. Porque é verão e quando o sol bate não há espaço para calorias. (nem recordações)
14 julio 2007
vicio do combate
É perigoso, tem arestas afiadas. Enfia na pela e faz sangue. Vai dormir que isso passa amanhã.
As pontadas latejam e contagiam o corpo estendido no chão.
Ali, deitada na alcatifa escaldada, ensanguentada de pensamentos de olhares.
E estamos a lutar.
A luta vai acabar um dia. Está condenada e todos sabemos disso. Mas vale a pena.
Vale a pena batermo-nos por alguns dias de sorrisos derretidos. Por algumas palavras inesperadas em dias de surpresa.
Mas à nossa volta, espalharam calendários de dias riscados. Atirem-me vidros para os olhos. Firam-me as pupilas com luz branca. Não quero ver nada.
E cega, de braços e pernas partidas, quero continuar a lutar. Quero mais e mais.
Chega de rodeios. Acabou.
Sempre que olharmos para trás vamos sorrir e gargalhar de bons momentos. Estamos mais fortes e dependentes desse vício do combate. E quem luta não se separa, tem laços de sangue partilhado entre feridas abertas e ardentes. Voltamos à nossa vida corriqueira.
Mas continuo a ser um alvo fácil e ensanguentado à espera do meu próximo adversário.
Quem sabe serás tu, outra vez.
As pontadas latejam e contagiam o corpo estendido no chão.
Ali, deitada na alcatifa escaldada, ensanguentada de pensamentos de olhares.
E estamos a lutar.
A luta vai acabar um dia. Está condenada e todos sabemos disso. Mas vale a pena.
Vale a pena batermo-nos por alguns dias de sorrisos derretidos. Por algumas palavras inesperadas em dias de surpresa.
Mas à nossa volta, espalharam calendários de dias riscados. Atirem-me vidros para os olhos. Firam-me as pupilas com luz branca. Não quero ver nada.
E cega, de braços e pernas partidas, quero continuar a lutar. Quero mais e mais.
Chega de rodeios. Acabou.
Sempre que olharmos para trás vamos sorrir e gargalhar de bons momentos. Estamos mais fortes e dependentes desse vício do combate. E quem luta não se separa, tem laços de sangue partilhado entre feridas abertas e ardentes. Voltamos à nossa vida corriqueira.
Mas continuo a ser um alvo fácil e ensanguentado à espera do meu próximo adversário.
Quem sabe serás tu, outra vez.
09 julio 2007
carne-balão
E se estivermos todos a viver uma farsa?
Às vezes acho que a vida não passa de uma simulação decadente de seres errantes e iludidos. Voamos e chapinhamos nas lagoas esquecidas das florestas densas. Saltamos e cantarolamos pelas ruelas e avenidas, inchados por uma felicidade aparente.
Mas as agulhas são seres maléficos. Pequenas e afiadas, costuram e furam a uma velocidade alucinante.
A dor aguçada pica lentamente e vai penetrando na nossa carne-balão. Destrói dias e dias de oxigénio desperdiçado, aborrece as plantas que asfixiam a pureza da fotossíntese.
E o balão explode. Moléculas saltitantes nadam pelo ar poluído de chuvas ácidas. A agulha cai e vai perfurar a próxima vítima.
O balão é de hélio. A voz vai gritar.
Às vezes acho que a vida não passa de uma simulação decadente de seres errantes e iludidos. Voamos e chapinhamos nas lagoas esquecidas das florestas densas. Saltamos e cantarolamos pelas ruelas e avenidas, inchados por uma felicidade aparente.
Mas as agulhas são seres maléficos. Pequenas e afiadas, costuram e furam a uma velocidade alucinante.
A dor aguçada pica lentamente e vai penetrando na nossa carne-balão. Destrói dias e dias de oxigénio desperdiçado, aborrece as plantas que asfixiam a pureza da fotossíntese.
E o balão explode. Moléculas saltitantes nadam pelo ar poluído de chuvas ácidas. A agulha cai e vai perfurar a próxima vítima.
O balão é de hélio. A voz vai gritar.
08 julio 2007
o mundo gira
O tempo é uma máquina feroz que luta contra as leis da natureza. Mas tirei o relógio porque o tic-tac me dizia que o mundo podia acabar. Um dia.
De pulso nu, lanço-me para aventuras novas. Retempero as cores da paisagem, numa fotografia perfeita de meninas-modelo.
A porta abriu. Um passo tremido de insegurança inquieta.
Expectativas, expectativas.
Corpos que dançam músicas quaisquer, dedos que se entrelaçam e escorregam. Cordas desafinadas por hinos de sabedoria. Um sentimento que explode, qual lava crepitante, e sai pelos poros da pele em forma de fumo ardente.
Faz calor e a luz ilumina as frestas da janela. Revela vultos de segredos e declarações, de gelados e comida fria espalhada pelo prato.
E num abraço que esmaga, contorce e arrepia, tudo muda.
Vaipes de surrealismo e conversas de olhares cegos e confidentes.
Os dedos arrepiam as costas e manejam os lápis em desenhos de infância.
Agora posso conquistar o mundo.
Conheço os seus trejeitos e as suas manias. Sei que um dia ele vai girar.
O chão vai virar tecto e banda sonora vai começar com a frase “o tempo é uma máquina feroz”.
De pulso nu, lanço-me para aventuras novas. Retempero as cores da paisagem, numa fotografia perfeita de meninas-modelo.
A porta abriu. Um passo tremido de insegurança inquieta.
Expectativas, expectativas.
Corpos que dançam músicas quaisquer, dedos que se entrelaçam e escorregam. Cordas desafinadas por hinos de sabedoria. Um sentimento que explode, qual lava crepitante, e sai pelos poros da pele em forma de fumo ardente.
Faz calor e a luz ilumina as frestas da janela. Revela vultos de segredos e declarações, de gelados e comida fria espalhada pelo prato.
E num abraço que esmaga, contorce e arrepia, tudo muda.
Vaipes de surrealismo e conversas de olhares cegos e confidentes.
Os dedos arrepiam as costas e manejam os lápis em desenhos de infância.
Agora posso conquistar o mundo.
Conheço os seus trejeitos e as suas manias. Sei que um dia ele vai girar.
O chão vai virar tecto e banda sonora vai começar com a frase “o tempo é uma máquina feroz”.
06 julio 2007
6ºf
A felicidade absorve o nervoso de barulhinhos na barriga. Mas uma palavra-chave faz com que o mundo congele e, de repente, o ar torna-se denso e deixo de sentir as mãos molhadas e escorregadias. Chamem a ambulância. Preciso ser internada.
Trânsito, caos, violência.
Tenho medo. Outra vez.
Cai o escudo e sinto-me nua à frente do mundo. Com os pelos arrepiados e os cabelos embaraçados em nós eternos. Sou um molho de rosa a dois euros na feira, um golo da água quente de ontem. Sou frágil e vou partir. Sinto-o.
A perfeição salta à vista nesta terra de gente vulgar com flashes brilhantes e fosforescentes. Tudo é colorido à minha volta. Normal: os olhos vêem cores.
Mas hoje as coisas parecem diferentes. Não estou louca, estão mesmo a tocar canções de júbilo na minha cabeça.
E tudo começa outra vez.
Os sonhos atribulados durante as noites de calor transpiraste, as previsões mentais de dias perfeitos de melancolia abafada. A lágrima engolida a seco no momento em que os deuses, os carros e os mendigos parecem estar contra mim.
A sensação vai passar, eu sei.
E vai ser rápido, porque afinal, hoje é sexta-feira.
Trânsito, caos, violência.
Tenho medo. Outra vez.
Cai o escudo e sinto-me nua à frente do mundo. Com os pelos arrepiados e os cabelos embaraçados em nós eternos. Sou um molho de rosa a dois euros na feira, um golo da água quente de ontem. Sou frágil e vou partir. Sinto-o.
A perfeição salta à vista nesta terra de gente vulgar com flashes brilhantes e fosforescentes. Tudo é colorido à minha volta. Normal: os olhos vêem cores.
Mas hoje as coisas parecem diferentes. Não estou louca, estão mesmo a tocar canções de júbilo na minha cabeça.
E tudo começa outra vez.
Os sonhos atribulados durante as noites de calor transpiraste, as previsões mentais de dias perfeitos de melancolia abafada. A lágrima engolida a seco no momento em que os deuses, os carros e os mendigos parecem estar contra mim.
A sensação vai passar, eu sei.
E vai ser rápido, porque afinal, hoje é sexta-feira.
03 julio 2007
Atenção, isto é um erro cientifico
A lua já está cheia há tanto tempo.
Dias e dias de luar baixinho iluminando as mentiras brancas de noites fugidias.
Quero negar e dizer que sou feita de cimento. Que nada me pode afectar, que sou rocha calcada no mar gelado, absorvente, congelante.
Mas não consigo. Os meus olhos dizem que sim, e o meu corpo pendura-se no teu pescoço num instinto reflexivo de sentimentos cozinhados.
Isto não estava nos planos. É um erro científico.
Voltemos às planilhas, aos gráficos, aos exames e aos cálculos matemáticos.
Não gosto de sentimentos. Essa deformação de enzimas a que chamam afecto.
Vou dançar no semáforo vermelho, enquanto o mundo entoa uma melodia qualquer. Não interessa a música, nem o tom, nem a tablatura.
Vou roçar o meu corpo em alcatifas queimadas e morder, morder, morder. Fazer dor até sair sangue e poder usá-lo para fazer análises.
Diagnostiquem-me. (Vou ser famosa e aparecer nos jornais)
Vivo um erro científico.
Dias e dias de luar baixinho iluminando as mentiras brancas de noites fugidias.
Quero negar e dizer que sou feita de cimento. Que nada me pode afectar, que sou rocha calcada no mar gelado, absorvente, congelante.
Mas não consigo. Os meus olhos dizem que sim, e o meu corpo pendura-se no teu pescoço num instinto reflexivo de sentimentos cozinhados.
Isto não estava nos planos. É um erro científico.
Voltemos às planilhas, aos gráficos, aos exames e aos cálculos matemáticos.
Não gosto de sentimentos. Essa deformação de enzimas a que chamam afecto.
Vou dançar no semáforo vermelho, enquanto o mundo entoa uma melodia qualquer. Não interessa a música, nem o tom, nem a tablatura.
Vou roçar o meu corpo em alcatifas queimadas e morder, morder, morder. Fazer dor até sair sangue e poder usá-lo para fazer análises.
Diagnostiquem-me. (Vou ser famosa e aparecer nos jornais)
Vivo um erro científico.
29 junio 2007
Para o Pedro:
Queixam-se por aí das metáforas.
Hoje acordei e pensei que a vida não pode ser “uma chávena de café com açúcar a boiar no topo”. A vida é vida. E por aqui concluo a frase.
Hoje não há metáforas. Não há um cobertor cor-de-rosa debaixo do qual me possa esconder.
E agora digo, assim, num tom directo e objectivo, que estou feliz.
(Só porque não há metáforas não significa que devo comentar a situação do mundo, ou criticar os candidatos à câmara de Lisboa.)
Falemos de sentimentos.
Não vou tentar explicar a felicidade, nem dar razões profundas e metafísicas para tal estado de alma.
Acordei, com a cara amassada de uma noite de dez horas de sono, e sorri.
Foi assim, simples e nada poético.
Tal com é a vida.
Mas sorrir é felicidade?
Andar de transportes públicos é sempre uma inspiração. Tantas pessoas a sorrir.
Sorrisos quando se pede “com licença”, “desculpe”, ou, sem nenhuma palavra, quando uma criança se senta à nossa frente e começa a fazer traquinices.
Há sorrisos enquanto se lê a secção das fofocas dos jornais gratuitos, ou quando se consegue, finalmente, acabar o sudoku.
Sorrisos, sorrisos e sorrisos.
Eu sorrio e irrito-me naquela viagem que me encanta e repele.
Os senhores, de nacionalidade incerta, tocam músicas que me lembram momentos de felicidade utópica. Os idosos reclamam da falta de cortesia dos jovens e “se já temos os nossos problemas, porque é que agora temos de estar a levar com os dos outros?”.
E eu sorrio e irrito-me.
Devia fazer um inquérito e andar com a minha nova (hehe) postura jornalística a perguntar às pessoas dos transportes públicos se são ou não felizes. Mas eu não confio em inquéritos.
Então resta-me pensar.
E talvez um dia encontrar uma metáfora perfeita para a felicidade.
Mas hoje não.
Porque hoje não há metáforas. Nem comparações.
Queixam-se por aí das metáforas.
Hoje acordei e pensei que a vida não pode ser “uma chávena de café com açúcar a boiar no topo”. A vida é vida. E por aqui concluo a frase.
Hoje não há metáforas. Não há um cobertor cor-de-rosa debaixo do qual me possa esconder.
E agora digo, assim, num tom directo e objectivo, que estou feliz.
(Só porque não há metáforas não significa que devo comentar a situação do mundo, ou criticar os candidatos à câmara de Lisboa.)
Falemos de sentimentos.
Não vou tentar explicar a felicidade, nem dar razões profundas e metafísicas para tal estado de alma.
Acordei, com a cara amassada de uma noite de dez horas de sono, e sorri.
Foi assim, simples e nada poético.
Tal com é a vida.
Mas sorrir é felicidade?
Andar de transportes públicos é sempre uma inspiração. Tantas pessoas a sorrir.
Sorrisos quando se pede “com licença”, “desculpe”, ou, sem nenhuma palavra, quando uma criança se senta à nossa frente e começa a fazer traquinices.
Há sorrisos enquanto se lê a secção das fofocas dos jornais gratuitos, ou quando se consegue, finalmente, acabar o sudoku.
Sorrisos, sorrisos e sorrisos.
Eu sorrio e irrito-me naquela viagem que me encanta e repele.
Os senhores, de nacionalidade incerta, tocam músicas que me lembram momentos de felicidade utópica. Os idosos reclamam da falta de cortesia dos jovens e “se já temos os nossos problemas, porque é que agora temos de estar a levar com os dos outros?”.
E eu sorrio e irrito-me.
Devia fazer um inquérito e andar com a minha nova (hehe) postura jornalística a perguntar às pessoas dos transportes públicos se são ou não felizes. Mas eu não confio em inquéritos.
Então resta-me pensar.
E talvez um dia encontrar uma metáfora perfeita para a felicidade.
Mas hoje não.
Porque hoje não há metáforas. Nem comparações.
27 junio 2007
vento pequenino
As decisões são difíceis e morosas, são peixes na água que teimam em não se afogar.
E o momento de espera é um tortura. Olhos que não podem piscar, pingos de água que massacram os ouvidos.
Mas finalmente a decisão acontece.
E em alguns segundos a nossa vida muda.
Acabaram-se as dúvidas.
Agora é fácil fazer um telefonema. Dizer, entre gargalhadas, que está tudo bem. E está.
É estranho ver como acabaram as preocupações, as crises de meia-noite, as dúvidas sentimentais que atormentaram os sonhos de princesa.
Já não te peço para ires embora de mim.
Quero que fiques como memória de bons tempos passados. Como recordação de infância acompanhada de um sorriso nostálgico. Foi só um telefonema.
Fica.
Com o teu jeitinho esquisito de personalidade múltipla. As indecisões e os passeios de vento pequenino. Agora já não faz sentido pensar, porque está tudo dito.
As ruínas serão sempre nossas e as músicas, de macacos saltitantes em viagens às escondidas, são a banda sonora de uma história tímida.
E não há mais ninguém.
Os alguéns explodiram em momentos de revelação absoluta. Ficaram as saladas e a comida que se deixa no prato. A superioridade grátis de labirintos coloridos.
E hoje apetecia-me fugir. Com a Beatriz e o Diogo.
E o momento de espera é um tortura. Olhos que não podem piscar, pingos de água que massacram os ouvidos.
Mas finalmente a decisão acontece.
E em alguns segundos a nossa vida muda.
Acabaram-se as dúvidas.
Agora é fácil fazer um telefonema. Dizer, entre gargalhadas, que está tudo bem. E está.
É estranho ver como acabaram as preocupações, as crises de meia-noite, as dúvidas sentimentais que atormentaram os sonhos de princesa.
Já não te peço para ires embora de mim.
Quero que fiques como memória de bons tempos passados. Como recordação de infância acompanhada de um sorriso nostálgico. Foi só um telefonema.
Fica.
Com o teu jeitinho esquisito de personalidade múltipla. As indecisões e os passeios de vento pequenino. Agora já não faz sentido pensar, porque está tudo dito.
As ruínas serão sempre nossas e as músicas, de macacos saltitantes em viagens às escondidas, são a banda sonora de uma história tímida.
E não há mais ninguém.
Os alguéns explodiram em momentos de revelação absoluta. Ficaram as saladas e a comida que se deixa no prato. A superioridade grátis de labirintos coloridos.
E hoje apetecia-me fugir. Com a Beatriz e o Diogo.
25 junio 2007
lições
Diz-se por aí que de todas a experiências se devem saber tirar lições. Lições de vida. Lições de sabedoria.
Eu queria ser assim.
Saber dizer que tudo valeu a pena e que no final tornei-me uma pessoa melhor, mais sábia e experiente.
Mas na verdade não.
Passo imperturbável pelo mundo da tristeza e dos dias fechados de penumbra e tortura latejante.
Procuro uma rede de segurança que me salve da queda abrupta.
E lá está ela. Serena e tranquila. À espera.
Sempre admirei essa capacidade nos seres.
Esperar pelo momento certo. Ficar ali, parado e inerte, omitindo sentimentos. À escuta.
Olhos abertos e ouvidos atentos. Sentidos que se misturam num hirto momento de prazer.
E depois tudo se estraga.
Derrama-se o trabalho de uma vida, no chão impecável de esfregona nova.
O vidro quebra e restam cacos.
Caos inútil de momentos quebrados e movediços.
Sou memória. Memória ignóbil e inexperiente.
Eu queria ser assim.
Saber dizer que tudo valeu a pena e que no final tornei-me uma pessoa melhor, mais sábia e experiente.
Mas na verdade não.
Passo imperturbável pelo mundo da tristeza e dos dias fechados de penumbra e tortura latejante.
Procuro uma rede de segurança que me salve da queda abrupta.
E lá está ela. Serena e tranquila. À espera.
Sempre admirei essa capacidade nos seres.
Esperar pelo momento certo. Ficar ali, parado e inerte, omitindo sentimentos. À escuta.
Olhos abertos e ouvidos atentos. Sentidos que se misturam num hirto momento de prazer.
E depois tudo se estraga.
Derrama-se o trabalho de uma vida, no chão impecável de esfregona nova.
O vidro quebra e restam cacos.
Caos inútil de momentos quebrados e movediços.
Sou memória. Memória ignóbil e inexperiente.
22 junio 2007
olhos de azeitona
Quero beijos rápidos e barulhentos daqueles que dão piquinhos na pele e furam o casaco preto. Quero abraços e olhares de deslumbre.
Mãos dadas a passear ali, naquele caminho de nenhum lugar, na rua esburacada que mais parece saída de um conto-de-fadas.
O céu mistura-se com o cor-de-rosa do vento e dança nas nuvens voadoras salpicadas de estrelas.
E no meio desta paisagem ilidica de ambiente campestre, pelo amor suave e terno da relva molhada nos pés tatuados, ele surge.
Afaga os cabelos e olha com pupilas carinhosas enquanto acaricia as mãos.
São momentos fotográficos de uma paixão passada em sentimentos cúmplice de olhos de azeitona.
A mesa derrete de inveja daquela felicidade latente que transborda da espuma do capuccino acabado de chegar.
Irremediavelmente sonhadora fecho os olhos e procuro uma brisa de vento que me diga ao ouvido, “tudo isto é realidade”.
Mãos dadas a passear ali, naquele caminho de nenhum lugar, na rua esburacada que mais parece saída de um conto-de-fadas.
O céu mistura-se com o cor-de-rosa do vento e dança nas nuvens voadoras salpicadas de estrelas.
E no meio desta paisagem ilidica de ambiente campestre, pelo amor suave e terno da relva molhada nos pés tatuados, ele surge.
Afaga os cabelos e olha com pupilas carinhosas enquanto acaricia as mãos.
São momentos fotográficos de uma paixão passada em sentimentos cúmplice de olhos de azeitona.
A mesa derrete de inveja daquela felicidade latente que transborda da espuma do capuccino acabado de chegar.
Irremediavelmente sonhadora fecho os olhos e procuro uma brisa de vento que me diga ao ouvido, “tudo isto é realidade”.
20 junio 2007
dor
Às vezes dói-me a barriga e apetece-me um chá quentinho.
Um chá que escalde os órgãos abraçando-os como uma manta acolchoada que lhes oferece uma vida leve e ditosa. Os defeitos são saltinhos transparentes e as falhas um charme escondido na ilha do tesouro.
Quando a barriga dói fecho os olhos com muita força e rogo para que continuem a uma velocidade alucinante.
E, como quem não quer a coisa, às vezes consigo teletransportar-me para um mundo alternativo onde não existem incompatibilidades, mas apenas uma vida divertida de passeios e tardes no jardim.
E tudo é possível.
A barriga aperta, contorce-se, dá lágrimas nos olhos e pede para parar.
Mas já se foi o tempo em que o masoquismo era condenável. Agora a automutilação é uma prática social que permite aos jovens atingir o nirvana e rirem-se das vidas alheias.
Sou jovem (e odeio essa palavra).
Insisto e estimulo a dor, espicaçando-a ao limite.
Já quase não consigo pensar. A cabeça gira e percorre um mundo surreal com passos inaudíveis rumo ao perigo iminente.
Estou a senti-lo.
A dor latejante avisa-me que estou à beira de um precipício vertiginoso.
Vou cair.
Um chá que escalde os órgãos abraçando-os como uma manta acolchoada que lhes oferece uma vida leve e ditosa. Os defeitos são saltinhos transparentes e as falhas um charme escondido na ilha do tesouro.
Quando a barriga dói fecho os olhos com muita força e rogo para que continuem a uma velocidade alucinante.
E, como quem não quer a coisa, às vezes consigo teletransportar-me para um mundo alternativo onde não existem incompatibilidades, mas apenas uma vida divertida de passeios e tardes no jardim.
E tudo é possível.
A barriga aperta, contorce-se, dá lágrimas nos olhos e pede para parar.
Mas já se foi o tempo em que o masoquismo era condenável. Agora a automutilação é uma prática social que permite aos jovens atingir o nirvana e rirem-se das vidas alheias.
Sou jovem (e odeio essa palavra).
Insisto e estimulo a dor, espicaçando-a ao limite.
Já quase não consigo pensar. A cabeça gira e percorre um mundo surreal com passos inaudíveis rumo ao perigo iminente.
Estou a senti-lo.
A dor latejante avisa-me que estou à beira de um precipício vertiginoso.
Vou cair.
19 junio 2007
me voy
Voltar e pousar na frágil pétala de rosa que se desfaz com a ponta dos pés.
Quero ser borboleta e planar nos rios, voar por entre montanhas de árvores outrora descascadas e que agora dão frutos coloridos. Crescer e aprender que tudo se vive uma vez.
E uma vez só.
Reviver é uma utopia inútil que nos acalenta as noites de dúvida e insucesso.
Não há viver de novo nem voltar atrás no tempo. O mundo continua a girar com dias e noites sucessivas de gargalhadas e dores de barriga.
Mas fui. O que era meu perdeu-se no mar das memórias apagadas de imperialismo num reinado de ninguém
E quem foi não volta a pisar as terras sagradas. Não volta a misturar-se com a poeira encabelada do chão pestilento e pegajoso que cola na palma dos pés preta e suada de tanto andar.
Me voy de vez desta terra encantada onde o sorriso é um flash fotográfico eterno que dói nas covinhas de tanto esforçar.
Agora já não há lágrimas para relembrar, nem perfeição para reinventar. Gravei o meu nome numa parede azul e num espelho barato. Resta-me esperar que um dia o ciclo se feche numa requintada sinfonia de experiências alternativas.
Esperar que um dia alguém queira viver a minha realidade. Assim como eu vivi a deles.
E gostei.
Quero ser borboleta e planar nos rios, voar por entre montanhas de árvores outrora descascadas e que agora dão frutos coloridos. Crescer e aprender que tudo se vive uma vez.
E uma vez só.
Reviver é uma utopia inútil que nos acalenta as noites de dúvida e insucesso.
Não há viver de novo nem voltar atrás no tempo. O mundo continua a girar com dias e noites sucessivas de gargalhadas e dores de barriga.
Mas fui. O que era meu perdeu-se no mar das memórias apagadas de imperialismo num reinado de ninguém
E quem foi não volta a pisar as terras sagradas. Não volta a misturar-se com a poeira encabelada do chão pestilento e pegajoso que cola na palma dos pés preta e suada de tanto andar.
Me voy de vez desta terra encantada onde o sorriso é um flash fotográfico eterno que dói nas covinhas de tanto esforçar.
Agora já não há lágrimas para relembrar, nem perfeição para reinventar. Gravei o meu nome numa parede azul e num espelho barato. Resta-me esperar que um dia o ciclo se feche numa requintada sinfonia de experiências alternativas.
Esperar que um dia alguém queira viver a minha realidade. Assim como eu vivi a deles.
E gostei.
11 junio 2007
fita-cola?
És um monstro.
Um mostro calado e desgastado na revisão da minha vida.
Escondes-te por trás das árvores dos centros urbanos, dentro da caixa das bolachas e no fio do telefone ao pé da cama.
És resíduo constante, qual fóssil rochoso instalado no cerne da alma.
Falas e gesticulas com a naturalidade da vida-fantasia dos tempos já esbatidos pelo contínuo trabalhar do relógio.
Quero-te fora de mim.
Sei que o tema é recorrente e que a minha triste melancolia azeda já faz alergia aos ouvidos alheios.
É uma força que me empurra para o limbo pueril da angústia. E cada vez que veto o meu pensamento de desviar-se na deformidade das tuas promessas de felicidade, penso em ti.
Penso em não pensar-te. Penso em odiar-te pelas entranhas. E lembro-me que até já gostei de ti do avesso.
E quando surges no mais subconsciente da mente adormecida e dopada por gases pesticidas que inibem o raciocinar, apetece-me chorar e pôr-te no lixo (no recipiente azul da reciclagem). És um papel rasgado. Mas às vezes a fita-cola parece tão aliciante.
Não queria colar-te nem estragar-te nem elevar-te num pedestal cristalino. Queria que fosses apenas uma alma ambulante pelo meu rol de memórias que precisa de queijo e exercícios no ginásio.
Queria-te normal e esbatido por novas e estimulantes experiências.
Mas depois apareces-me e dizes que é possível fazer REW.
Um mostro calado e desgastado na revisão da minha vida.
Escondes-te por trás das árvores dos centros urbanos, dentro da caixa das bolachas e no fio do telefone ao pé da cama.
És resíduo constante, qual fóssil rochoso instalado no cerne da alma.
Falas e gesticulas com a naturalidade da vida-fantasia dos tempos já esbatidos pelo contínuo trabalhar do relógio.
Quero-te fora de mim.
Sei que o tema é recorrente e que a minha triste melancolia azeda já faz alergia aos ouvidos alheios.
É uma força que me empurra para o limbo pueril da angústia. E cada vez que veto o meu pensamento de desviar-se na deformidade das tuas promessas de felicidade, penso em ti.
Penso em não pensar-te. Penso em odiar-te pelas entranhas. E lembro-me que até já gostei de ti do avesso.
E quando surges no mais subconsciente da mente adormecida e dopada por gases pesticidas que inibem o raciocinar, apetece-me chorar e pôr-te no lixo (no recipiente azul da reciclagem). És um papel rasgado. Mas às vezes a fita-cola parece tão aliciante.
Não queria colar-te nem estragar-te nem elevar-te num pedestal cristalino. Queria que fosses apenas uma alma ambulante pelo meu rol de memórias que precisa de queijo e exercícios no ginásio.
Queria-te normal e esbatido por novas e estimulantes experiências.
Mas depois apareces-me e dizes que é possível fazer REW.
09 junio 2007
não tem mal
Há dias de sol e dias de chuva. Há dias de certezas e dias de dúvidas.
Há dias em que sorrimos no abraço acolchoado de um perfume familiar. Há dias em que apetece usar uma voz que se dissolve no vento e falar numa linguagem de ditongos monossilábicos.
Voar entre letras de músicas cantadas em dois tons e passear por entre castelos abandonados de fantasias de futuro.
Vou correr pelo campo com os sapatos desapertados (por causa dos calções) e deitar-me por cima da das pedras que fazem doer as costas.
Nesses dias não tem mal ser lamechas nem fazer planos utópicos de viagens à lua ou, quem sabe à Tailândia. Não tem mal gozar com os vizinhos nem contar segredos proibidos.E como os dias de certeza são tão raros. Nesses dias até podemos comer um pudim de leite condensado e pensar. Não tem mal
Há dias em que sorrimos no abraço acolchoado de um perfume familiar. Há dias em que apetece usar uma voz que se dissolve no vento e falar numa linguagem de ditongos monossilábicos.
Voar entre letras de músicas cantadas em dois tons e passear por entre castelos abandonados de fantasias de futuro.
Vou correr pelo campo com os sapatos desapertados (por causa dos calções) e deitar-me por cima da das pedras que fazem doer as costas.
Nesses dias não tem mal ser lamechas nem fazer planos utópicos de viagens à lua ou, quem sabe à Tailândia. Não tem mal gozar com os vizinhos nem contar segredos proibidos.E como os dias de certeza são tão raros. Nesses dias até podemos comer um pudim de leite condensado e pensar. Não tem mal
Suscribirse a:
Entradas (Atom)