Tenho o sapato gasto e o gravador sem pilhas. O caderno acabou e a caneta ficou sem tinta. Tenho o bolso vazio, a cabeça com histórias e as pálpebras a fechar. Dói-me o cansaço, os sonhos e o futuro de folhas brancas por escrever.
Quero ser assim. Como eles.
Levar a vida de horas desconexas, falar do ministro como o gato de estimação, entender os problemas do senhor analfabeto e explica-los ao senhor presidente.
Sair e respirar noticias.
Quero falar, conhecer e descobrir. Quero fechar os olhos e escutar teclas, teclas atrás de teclas, numa música apresada de ritmo desfasado. Quero crescer e não me preocupar mais com a ecologia. Mergulhar-me em papéis. Pilhas de papel não reciclado com notinhas em gatafunho de caneta bic azul.
Quero comprar mensalmente packs de canetas bic.
E depois dizem que a paixão não serve. Nem a força de vontade. Falam da crise, da crise e da crise. Fazem delete em todas as linhas que já tinha começado a escrever nas folhas brancas do meu futuro. Enquanto isso vou comprando sapatos. Para quando chegar o momento em que gastar as solas vire uma rotina.
19 febrero 2009
06 febrero 2009
"Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."
Nuno Júdice
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."
Nuno Júdice
25 enero 2009
Caos Orquestrado
Ele tem aquele jeito esquisito de acordar. Meio despenteado, meio de mau humor matinal. Olha-me com aquela cara de vincos de quem quer ficar o dia todo a preguiçar. Confortável.
Ele tem a habilidade de não fazer nada o dia todo e mesmo assim manter-se ocupado. Ele é tão desarrumado e arruma tão bem. Um paradoxo, diria.
Falta-lhe sempre uma peça de roupa no armário, um instrumento musical e dinheiro na conta bancária. Eu faço-lhe listas para ajuda-lo a gerir-se melhor. Mas ele nunca as cumpre.
Para ele as coisas são para sempre. É um eterno romântico, mas nunca o admitirá.
É aventureiro e medroso. Proactivo e propassivo. Estou sempre a dizer-lhe para canalizar melhor as suas qualidades. Ele não me faz caso. Faz parte da sua complexidade, gosto de pensar. Um caos orquestrado, corrigiria ele.
Tem problemas e nunca soluções. Tem ideias e nunca projectos, inícios e nunca finais.
É daquelas pessoas que aparece um dia à porta de tua casa e diz: faz as malas, vamos viajar. Eu fico nervosa, pego num mapa, anoto o caminho, faço três ou quatro telefonemas importantes. Ele pega em tudo e manda pela janela.
Agora estamos separados. E isso custa.
Mas o maldito tem uma impressionante capacidade de, apesar da distância, conseguir manter a minha vida um pouco mais desorganizada. E eu? Tento ordenar-lhe os dias telefonicamente. Nunca com muito sucesso, admito.
Ele tem a habilidade de não fazer nada o dia todo e mesmo assim manter-se ocupado. Ele é tão desarrumado e arruma tão bem. Um paradoxo, diria.
Falta-lhe sempre uma peça de roupa no armário, um instrumento musical e dinheiro na conta bancária. Eu faço-lhe listas para ajuda-lo a gerir-se melhor. Mas ele nunca as cumpre.
Para ele as coisas são para sempre. É um eterno romântico, mas nunca o admitirá.
É aventureiro e medroso. Proactivo e propassivo. Estou sempre a dizer-lhe para canalizar melhor as suas qualidades. Ele não me faz caso. Faz parte da sua complexidade, gosto de pensar. Um caos orquestrado, corrigiria ele.
Tem problemas e nunca soluções. Tem ideias e nunca projectos, inícios e nunca finais.
É daquelas pessoas que aparece um dia à porta de tua casa e diz: faz as malas, vamos viajar. Eu fico nervosa, pego num mapa, anoto o caminho, faço três ou quatro telefonemas importantes. Ele pega em tudo e manda pela janela.
Agora estamos separados. E isso custa.
Mas o maldito tem uma impressionante capacidade de, apesar da distância, conseguir manter a minha vida um pouco mais desorganizada. E eu? Tento ordenar-lhe os dias telefonicamente. Nunca com muito sucesso, admito.
22 enero 2009
E depois lembro-me daquele dia em que fomos saltimbancos ciganos. Da areia da praia que se metia entre os dedos dos pés. Do acordar cedo e ficar a preguiçar. Juntos.
Lembro-me dos programas de domingo que nunca se repetiam, do pequeno-almoço das sete da manhã. Da palavra não dita numa noite de presentes.
Houve os jantares de cartão de crédito e aqueles que nunca chegámos a jantar. Os de comida descongelada e pão do supermercado.
Aquela gargalhada que te fez orgulhoso e o primeiro dia em que ajeitaste o meu cabelo. De quando saímos e não lembramos de ter voltado. Das vezes em que achámos melhor não sair.
E é então que me lembro de ontem. O dia em que deste tanto e eu tão pouco. Em que olhaste-me e eu fiz questão de desviar-te.
O dia em que me percebeste. E não deixaste de sorrir.
Apesar de tudo.
Lembro-me dos programas de domingo que nunca se repetiam, do pequeno-almoço das sete da manhã. Da palavra não dita numa noite de presentes.
Houve os jantares de cartão de crédito e aqueles que nunca chegámos a jantar. Os de comida descongelada e pão do supermercado.
Aquela gargalhada que te fez orgulhoso e o primeiro dia em que ajeitaste o meu cabelo. De quando saímos e não lembramos de ter voltado. Das vezes em que achámos melhor não sair.
E é então que me lembro de ontem. O dia em que deste tanto e eu tão pouco. Em que olhaste-me e eu fiz questão de desviar-te.
O dia em que me percebeste. E não deixaste de sorrir.
Apesar de tudo.
21 enero 2009
A primeira página
Tocaram o sino como na época da escola. Como aquela octogenária doente no terceiro andar da sua mansão. Acudia-lhe uma empregada fardada, de sapatilhas antiderrapantes e uma bandeja de prata.
Mas este sino era diferente. Dele não vinham alunos suados, nem amas do lar alinhadas ou sequer um padre para começar a missa. Vinham pessoas normais, daqueles ídolos estranhos que fomos aprendendo a criar. Iam enchendo e esvaziando aquela sala de veludo verde. Do seu discurso, só um comentário: compro.
E assim se negociavam palavras, linhas e até vírgulas.
Compro.
E daquelas compras saíam vendedores satisfeitos, compradores que se sentiam burlados. Saíam homens a correr, outros em passo lento, indiferente. No ar pairava uma angústia corriqueira, daquela que dorme por baixo da almofada. Os minutos corriam em contra-relógio e quando contavam os 54, fim.
Desta vez sem sinos, nem despedidas. A sala esvaziou. Ficou apenas o silêncio e o veludo verde que adornava aquela primeira página.
A que um dia fará história.
Mas este sino era diferente. Dele não vinham alunos suados, nem amas do lar alinhadas ou sequer um padre para começar a missa. Vinham pessoas normais, daqueles ídolos estranhos que fomos aprendendo a criar. Iam enchendo e esvaziando aquela sala de veludo verde. Do seu discurso, só um comentário: compro.
E assim se negociavam palavras, linhas e até vírgulas.
Compro.
E daquelas compras saíam vendedores satisfeitos, compradores que se sentiam burlados. Saíam homens a correr, outros em passo lento, indiferente. No ar pairava uma angústia corriqueira, daquela que dorme por baixo da almofada. Os minutos corriam em contra-relógio e quando contavam os 54, fim.
Desta vez sem sinos, nem despedidas. A sala esvaziou. Ficou apenas o silêncio e o veludo verde que adornava aquela primeira página.
A que um dia fará história.
19 enero 2009
Algodão doce embrulhado
Tinha-o imaginado um sem número de vezes na minha cabeça. Era aquele discurso do sempre, da força, do desculpa e do eu também. Vinha embrulhado em papel de presente brilhante. Daqueles vermelhos com bolinhas brancas. Tinha um laço discreto e abria-se com facilidade. Lá de dentro saíam palavras com sabor a algodão doce. Mas não dos cor-de-rosa. Dos azuis, os mais raros. Palavras que se podiam comer ou só ficar ali, a contempla-las, enquanto se enrolavam à volta do palitinho.
E no fim deixavam aquele saber gostoso na boca. O sabor do quero mais, do pagava o que fosse para ter essa maquina em minha casa, do venda-ma por favor, imploro.
E então atende o telefone:
- Olá, desculpa, é que ‘tou ocupado.
- Ah, não faz mal, não era nada de importante, já falamos.
Era só uma história de palavras embrulhadas em papel brilhante. Coisas de crianças que ainda sonham com algodão doce. E ainda por cima dos azuis.
E no fim deixavam aquele saber gostoso na boca. O sabor do quero mais, do pagava o que fosse para ter essa maquina em minha casa, do venda-ma por favor, imploro.
E então atende o telefone:
- Olá, desculpa, é que ‘tou ocupado.
- Ah, não faz mal, não era nada de importante, já falamos.
Era só uma história de palavras embrulhadas em papel brilhante. Coisas de crianças que ainda sonham com algodão doce. E ainda por cima dos azuis.
18 enero 2009
Desconectar
Hoje quero sair, desconectar, deixar para trás esta vida de dependências. Quero correr pelo mundo de mochila às costas, alimentar-me de gomas e batatas fritas. Chega de encenar este filme de bonzinhos e vilões, em que ganham os solidários de sorriso forçado e trabalho árduo.
De repente, toda a existência torna-se um ponto de interrogação contínuo e derrete pelo corpo, alimentando a terra.
Sinto-me tonta, crédula, daquelas espécies que o mundo moderno já anulou. Sinto-me usada, violada, uma rainha nua que durante muito tempo desfilou pela cidade. Até que chegou o dia em que descobriu a sua nudez. Nunca mais pôde sair de casa, nem olhar o seu povo de cabeça erguida. Desconectou.
De repente, toda a existência torna-se um ponto de interrogação contínuo e derrete pelo corpo, alimentando a terra.
Sinto-me tonta, crédula, daquelas espécies que o mundo moderno já anulou. Sinto-me usada, violada, uma rainha nua que durante muito tempo desfilou pela cidade. Até que chegou o dia em que descobriu a sua nudez. Nunca mais pôde sair de casa, nem olhar o seu povo de cabeça erguida. Desconectou.
17 enero 2009
Sem hipoteca
Ele queria matar os andaluzes e atirar os ingleses ao mar. Mas era pacífico, assegurava. Falava-nos com frases erráticas e desinteressadas, daquelas que o professor recomendou nas entrevistas. Pena não terem sentido.
Eu notava como lhe caíam bem as luzes azuis daquele bar de música americana. Ele, na sua solidão, sentado de copo cheio, à espera de uma presa. E nós, sem querer, comemos o isco.
Formou-se artista de trajes estranhos. Palhaço, imaginei. Mas acabou ganhando a vida servindo bebidas num bar. Pelo menos não a perdeu numa hipoteca, comentou. Era calvo, daqueles que mais preferiam ser carecas. Balançava a cabeça, freneticamente, enquanto dissertava sobre os urinóis. E sobre o amor. A noite ia avançando e aquela veia da loucura que tinha saliente na testa aumentava com olhos cada vez mais esbugalhados. Em certas circunstancias, tive medo que explodisse.
E vieram mais frases nunca acabadas, ideias que não era capaz de concluir. Outra vez os urinóis, outra vez a vida de sexo ocasional e sexo indefinido.
Pagou-nos duas cervejas para nos compensar o tempo desperdiçado.
Era mais um filho da cocaína.
Mas este, pelo menos, não tem a casa hipotecada, pensei.
Eu notava como lhe caíam bem as luzes azuis daquele bar de música americana. Ele, na sua solidão, sentado de copo cheio, à espera de uma presa. E nós, sem querer, comemos o isco.
Formou-se artista de trajes estranhos. Palhaço, imaginei. Mas acabou ganhando a vida servindo bebidas num bar. Pelo menos não a perdeu numa hipoteca, comentou. Era calvo, daqueles que mais preferiam ser carecas. Balançava a cabeça, freneticamente, enquanto dissertava sobre os urinóis. E sobre o amor. A noite ia avançando e aquela veia da loucura que tinha saliente na testa aumentava com olhos cada vez mais esbugalhados. Em certas circunstancias, tive medo que explodisse.
E vieram mais frases nunca acabadas, ideias que não era capaz de concluir. Outra vez os urinóis, outra vez a vida de sexo ocasional e sexo indefinido.
Pagou-nos duas cervejas para nos compensar o tempo desperdiçado.
Era mais um filho da cocaína.
Mas este, pelo menos, não tem a casa hipotecada, pensei.
14 enero 2009
Entre o salgado e o inexistente
Um momento congelado. Ele olha-me de olhos inexistentes, daqueles que só ele sabe fazer. Os meus estão salgados, mas isso nem é preciso mencionar.
Eu não queria ter dito aquilo e nem sei porque tudo começou.
Não, isso não é verdade. Eu lembro-me bem do princípio desta história.
Aconteceu no dia em que ele tinha olhos grandes e os meus estavam, surpreendentemente, salgados. Os dele olhavam envergonhados para baixo, e os meus para cima, num piscar superior de quem quer fotografar o momento.
O chão estava frio e a noite cheirava-me a cerveja derramada, camisa azul clara e suor nervoso.
Algo foi dito e, de repente, os seus olhos mudaram. Foi-se-lhe a expressão e aquele brilho lubrificado que nutria os escassos centímetros que lhe separam a as pálpebras dos cílios. Por momentos, juro que nevou. E então os meus olhos, mal-educados, deixaram de saber para onde olhar e escorregaram para baixo.
Foi nesta dança de olhos vagabundos que se fez um olhar. Aquele a que nos fomos habituando a ter.
E agora estamos aqui, entre o salgado e o inexistente, tentando olhar-nos outra vez.
E sei que a culpa toda foi daquele dia.
O dia em que olhar pareceu tão fácil.
Eu não queria ter dito aquilo e nem sei porque tudo começou.
Não, isso não é verdade. Eu lembro-me bem do princípio desta história.
Aconteceu no dia em que ele tinha olhos grandes e os meus estavam, surpreendentemente, salgados. Os dele olhavam envergonhados para baixo, e os meus para cima, num piscar superior de quem quer fotografar o momento.
O chão estava frio e a noite cheirava-me a cerveja derramada, camisa azul clara e suor nervoso.
Algo foi dito e, de repente, os seus olhos mudaram. Foi-se-lhe a expressão e aquele brilho lubrificado que nutria os escassos centímetros que lhe separam a as pálpebras dos cílios. Por momentos, juro que nevou. E então os meus olhos, mal-educados, deixaram de saber para onde olhar e escorregaram para baixo.
Foi nesta dança de olhos vagabundos que se fez um olhar. Aquele a que nos fomos habituando a ter.
E agora estamos aqui, entre o salgado e o inexistente, tentando olhar-nos outra vez.
E sei que a culpa toda foi daquele dia.
O dia em que olhar pareceu tão fácil.
01 enero 2009
Aquele ano
Foi um ano. Um ano em que todas as coisas planeadas antecipadamente saíram à sua própria maneira. Um ano em que de Janeiro a Agosto foi Verão. Um Verão molhado de lágrimas à distancia, de inutilidade perdida, de trabalho não recompensado.
Foi um ano de tristeza atenta e de êxtase europeu. De seleccionar para melhorar. Um ano de escolhas e de metas. Desta vez todas cumpridas.
Foi um ano que começou num sotaque e acabou em língua estrangeira. Em que se seguiu à risca as regras da vida de uma cidadã expatriada que foge em busca de soluções.
Um ano sem raízes, como me ensinaram a ser.
Foi o ano em que fizemos um ano.
Um ano de desgaste e escapadelas. De saídas, jantares e viagens. Foi um ano em que se duvidou mais do que nunca e, nos momentos certos, a certeza chegou.
Foi um ano em que o cinzento e o roxo estiveram na moda. Em que ir ao cinema ficou fora dos limites do orçamento, mas se descobriu a magia dos downloads ilegais.
Foi mais um ano em que durante as doze baladas ardia-me o escaldão, a sandália alta doía-me no pé e o ouvido latejava com as explosões de cor no céu. E na última badalada um grito histérico de felicidade, enquanto uma lágrima caía de um flash back de mais um ano.
“É emoção”. Daquele ano que já passou.
Foi um ano de tristeza atenta e de êxtase europeu. De seleccionar para melhorar. Um ano de escolhas e de metas. Desta vez todas cumpridas.
Foi um ano que começou num sotaque e acabou em língua estrangeira. Em que se seguiu à risca as regras da vida de uma cidadã expatriada que foge em busca de soluções.
Um ano sem raízes, como me ensinaram a ser.
Foi o ano em que fizemos um ano.
Um ano de desgaste e escapadelas. De saídas, jantares e viagens. Foi um ano em que se duvidou mais do que nunca e, nos momentos certos, a certeza chegou.
Foi um ano em que o cinzento e o roxo estiveram na moda. Em que ir ao cinema ficou fora dos limites do orçamento, mas se descobriu a magia dos downloads ilegais.
Foi mais um ano em que durante as doze baladas ardia-me o escaldão, a sandália alta doía-me no pé e o ouvido latejava com as explosões de cor no céu. E na última badalada um grito histérico de felicidade, enquanto uma lágrima caía de um flash back de mais um ano.
“É emoção”. Daquele ano que já passou.
30 diciembre 2008
Estás e não estás e eu já não sei onde estou.
Estamos, queremos tanto estar, mas não passa de um querer.
Já não sei o que quero e por onde estou.
Porque quando estás não estou e quando estou nunca estás.
E assim andamos desencontrados nesta rápida estadia.
Vamos estando. E o tempo vai passando.
Onde estamos, afinal?
Estamos, queremos tanto estar, mas não passa de um querer.
Já não sei o que quero e por onde estou.
Porque quando estás não estou e quando estou nunca estás.
E assim andamos desencontrados nesta rápida estadia.
Vamos estando. E o tempo vai passando.
Onde estamos, afinal?
26 diciembre 2008
Pipocas
O mal é ver demasiados filmes. Com pipocas e Coca-Cola.
É chorar por trás dos óculos dedilhados. Tirar o sapato e esticar os pés por cima da poltrona da frente. Menina má. Isso é falta de educação.
O mal é ver demasiados filmes e lembrar daquele nosso primeiro encontro. Tu, qual galã desajeitado, a conquistar os corações das adolescentes. Eu, sedutora pretensiosa, ganhando a ira dos espectadores. “Dissimulada!”, gritaria a minha mãe no meio das pipocas.
Imagino então os nossos passeios em contra-picado com filtro azul. Cheio de flashes do passado com momentos embaraçosos de crianças que querem crescer. Seria uma pós-produção complicada. Custosa. Põe mais um olhar naquele encontro desinteressado. Um sorriso no dia que não ficou marcado na agenda. Esquecimento.
Faz das discussões reencontros apaixonados. Dos dias aborrecidos uma banda sonora com folhas de Outono. Diálogos rápidos e inteligentes. Gestos impulsivos, acertados e heróicos. Como aqueles que se compram com as gomas ao quilo.
O mal é ver demasiados filmes. Por que é que a vida não se pode comer com pipocas?
É chorar por trás dos óculos dedilhados. Tirar o sapato e esticar os pés por cima da poltrona da frente. Menina má. Isso é falta de educação.
O mal é ver demasiados filmes e lembrar daquele nosso primeiro encontro. Tu, qual galã desajeitado, a conquistar os corações das adolescentes. Eu, sedutora pretensiosa, ganhando a ira dos espectadores. “Dissimulada!”, gritaria a minha mãe no meio das pipocas.
Imagino então os nossos passeios em contra-picado com filtro azul. Cheio de flashes do passado com momentos embaraçosos de crianças que querem crescer. Seria uma pós-produção complicada. Custosa. Põe mais um olhar naquele encontro desinteressado. Um sorriso no dia que não ficou marcado na agenda. Esquecimento.
Faz das discussões reencontros apaixonados. Dos dias aborrecidos uma banda sonora com folhas de Outono. Diálogos rápidos e inteligentes. Gestos impulsivos, acertados e heróicos. Como aqueles que se compram com as gomas ao quilo.
O mal é ver demasiados filmes. Por que é que a vida não se pode comer com pipocas?
23 diciembre 2008
A cidade do fingimento
Era o mesmo colchão. O dos pesadelos.
Tinha ainda aquele toque de lençol barato. De borbotos com sabão em pó.
Era real. Eu tinha voltado àquele lugar.
Todos os sentimentos que critiquei, as atitudes que nunca entendi. O egoísmo do café que nunca chegaria a marcar, do telefone que fingi não ouvir. O eu desprezível que tanto detestava e de quem tentei fugir, de quem forcei o esquecimento.
Estava de volta.
De repente à memória chegam sensações de dias de angústia por acabar, de sorrisos falsos, palavras forçadas, do ser incompleto que à noite, antes de dormir, reza para que o próximo dia não chegue. Mais um dia de rotina preguiçosa que finge estar ocupada. Um dia mais de fingimento.
Aquele suor frio que te acompanha pelos dias de pobreza cinzenta. Que te pressiona para seres melhor. E que te faz mal, tão pior do que aquilo que aprendeste ser. A concorrência de desconhecidos que paira pelo ar desta cidade onde não basta ser normal. Onde não te deixam ser feliz.
Eu estava de volta. E dormia naquele mesmo colchão.
Tinha ainda aquele toque de lençol barato. De borbotos com sabão em pó.
Era real. Eu tinha voltado àquele lugar.
Todos os sentimentos que critiquei, as atitudes que nunca entendi. O egoísmo do café que nunca chegaria a marcar, do telefone que fingi não ouvir. O eu desprezível que tanto detestava e de quem tentei fugir, de quem forcei o esquecimento.
Estava de volta.
De repente à memória chegam sensações de dias de angústia por acabar, de sorrisos falsos, palavras forçadas, do ser incompleto que à noite, antes de dormir, reza para que o próximo dia não chegue. Mais um dia de rotina preguiçosa que finge estar ocupada. Um dia mais de fingimento.
Aquele suor frio que te acompanha pelos dias de pobreza cinzenta. Que te pressiona para seres melhor. E que te faz mal, tão pior do que aquilo que aprendeste ser. A concorrência de desconhecidos que paira pelo ar desta cidade onde não basta ser normal. Onde não te deixam ser feliz.
Eu estava de volta. E dormia naquele mesmo colchão.
13 diciembre 2008
Um jantar
Foi só um jantar.
E tanta coisa mudou.
Havia aquela mais séria, que rebolou de língua enrolada e copo na mão. A sorridente que confessou a alegria de amores recém descobertos em terras esquecidas. O menino das camisas que se descompôs em passos deslizantes de dança, entre histórias de conquistas e de corredores estudantis.
Não havia mulheres interessantes e bonitas ao mesmo tempo. E essas já estavam ocupadas. Mas isso é outra história. Uma sobre pessoas fúteis.
Houve sorrisos enviados pelo correio, confissões de amor e uma ou outra traição. Sem julgamentos. Pelo menos não muitos.
O álcool da concorrência tornava-se comunitário e as músicas resultavam em grandes abraçados sem jeito, seguidos de passos de dança tropeçados e uma gargalhada abafada pelo novo hit espanol. Desconhecido. Mais uma vez.
E aquele que antes era a autoridade em cima do estrado, baixou até nós em piadas desrespeitosas, discussões mais ou menos agressivas e lágrimas de risadas estridentes.
E tinha sido só um jantar.
Mas tanta coisa tinha mudado.
E tanta coisa mudou.
Havia aquela mais séria, que rebolou de língua enrolada e copo na mão. A sorridente que confessou a alegria de amores recém descobertos em terras esquecidas. O menino das camisas que se descompôs em passos deslizantes de dança, entre histórias de conquistas e de corredores estudantis.
Não havia mulheres interessantes e bonitas ao mesmo tempo. E essas já estavam ocupadas. Mas isso é outra história. Uma sobre pessoas fúteis.
Houve sorrisos enviados pelo correio, confissões de amor e uma ou outra traição. Sem julgamentos. Pelo menos não muitos.
O álcool da concorrência tornava-se comunitário e as músicas resultavam em grandes abraçados sem jeito, seguidos de passos de dança tropeçados e uma gargalhada abafada pelo novo hit espanol. Desconhecido. Mais uma vez.
E aquele que antes era a autoridade em cima do estrado, baixou até nós em piadas desrespeitosas, discussões mais ou menos agressivas e lágrimas de risadas estridentes.
E tinha sido só um jantar.
Mas tanta coisa tinha mudado.
Borde
Apareceu do nada, chocando com as frases de linguagem universal. Explicaram-mo com meias palavras, sentidos ambíguos, com o medo de dizer o assertivo.
Seria uma esquina de um objecto pontiagudo. Daqueles em que não queres tropeçar. Sangue, choro, hospital.
É a personificação de uma seta afiada que chega, vem e destrói. Sem piedade. Diriam, sem compaixão.
Erro no sistema. Bloqueou-se o computador central. A definição não encaixa ao protocolo.
Estado actual de saúde: extinção forçada.
Há que polir as arestas. Socializemos as nossas esquinas. Queremos sorrisos constantes, palavras meio-ditas, protocolo, dicionário, protocolo.
Mas a sociedade é benevolente, avisam-me. Não há que me preocupar. Os génios da ciência já encontraram a cura.
Desiste de ti e faz-te outra pessoa. Uma mais gostável. Uma menos bruta.
Uma menos “borde”.
Seria uma esquina de um objecto pontiagudo. Daqueles em que não queres tropeçar. Sangue, choro, hospital.
É a personificação de uma seta afiada que chega, vem e destrói. Sem piedade. Diriam, sem compaixão.
Erro no sistema. Bloqueou-se o computador central. A definição não encaixa ao protocolo.
Estado actual de saúde: extinção forçada.
Há que polir as arestas. Socializemos as nossas esquinas. Queremos sorrisos constantes, palavras meio-ditas, protocolo, dicionário, protocolo.
Mas a sociedade é benevolente, avisam-me. Não há que me preocupar. Os génios da ciência já encontraram a cura.
Desiste de ti e faz-te outra pessoa. Uma mais gostável. Uma menos bruta.
Uma menos “borde”.
12 diciembre 2008
Enjoo
Não tenho paciência para namorar. Nunca tive.
Isso do vou aqui, vou ali, importas-te que vá sem ti?
Enjoa-me. Tal como baba de camelo.
Isso do és tão bonitinho meu amorzinho, és a luz do meu mundinho.
Dá-me vómitos. Igual a sopa de legumes.
Irrita-me o tens que ligar, tens que fazer, tens que jurar amor eterno.
Ou não é amor.
Pois que não seja. Porque o amor enjoa-me. Como leite com chocolate.
E, no fim das contas, concluem que não tenho sentimentos.
Morrerei velha e amarga.
Mas a verdade é que isso não me preocupa muito. Porque um dia conheci por ai a um tipo, que até me pareceu interessante, e que gostava de baba de camelo, batas fritas com gordura e sopa de legumes.
Formámos uma parceria estratégica. Eu dava-lhe a minha amargura, ele os seus sorrisos. E isso, estranhamente, não me enjoou.
Dizem que, a partir daí, passei a ser uma nova pessoa.
Dizem.
Isso do vou aqui, vou ali, importas-te que vá sem ti?
Enjoa-me. Tal como baba de camelo.
Isso do és tão bonitinho meu amorzinho, és a luz do meu mundinho.
Dá-me vómitos. Igual a sopa de legumes.
Irrita-me o tens que ligar, tens que fazer, tens que jurar amor eterno.
Ou não é amor.
Pois que não seja. Porque o amor enjoa-me. Como leite com chocolate.
E, no fim das contas, concluem que não tenho sentimentos.
Morrerei velha e amarga.
Mas a verdade é que isso não me preocupa muito. Porque um dia conheci por ai a um tipo, que até me pareceu interessante, e que gostava de baba de camelo, batas fritas com gordura e sopa de legumes.
Formámos uma parceria estratégica. Eu dava-lhe a minha amargura, ele os seus sorrisos. E isso, estranhamente, não me enjoou.
Dizem que, a partir daí, passei a ser uma nova pessoa.
Dizem.
08 diciembre 2008
Memórias. E histórias.
Eram dois forasteiros em aventuras europeias.
Fizeram do continente o seu mundo, e decidiram andar por aí. À deriva.
Perdidos em quartos partilhados e corredores de supermercado. Contando moedas. E gastando-as em guloseimas.
A vida era uma rotina de paisagens, mapas, fotografias e solas de sapatos gastas. Era uma rotina do não rotineiro. E isso parecia tão normal.
Trocavam dinheiro e mudavam de casa, lidavam com os imprevistos com alguns berros e gargalhadas. O fast-food era o seu maior luxo.
Ás vezes mendigavam, isso é certo. Mas faziam-no com o estilo de quem tem zeros no cartão de crédito, de quem pode mais e não quer.
E assim perseguiram noivas, bares, amigos e o bom tempo. Assim meteram-se em direcções erradas, espalhando os seus pertences pelo mundo. Que generosos.
E agora de volta à escravidão do tempo, do espaço e da geografia, restam-lhes as memórias. E as histórias. Porque eles eram dois. E esta foi a sua aventura forasteira.
Fizeram do continente o seu mundo, e decidiram andar por aí. À deriva.
Perdidos em quartos partilhados e corredores de supermercado. Contando moedas. E gastando-as em guloseimas.
A vida era uma rotina de paisagens, mapas, fotografias e solas de sapatos gastas. Era uma rotina do não rotineiro. E isso parecia tão normal.
Trocavam dinheiro e mudavam de casa, lidavam com os imprevistos com alguns berros e gargalhadas. O fast-food era o seu maior luxo.
Ás vezes mendigavam, isso é certo. Mas faziam-no com o estilo de quem tem zeros no cartão de crédito, de quem pode mais e não quer.
E assim perseguiram noivas, bares, amigos e o bom tempo. Assim meteram-se em direcções erradas, espalhando os seus pertences pelo mundo. Que generosos.
E agora de volta à escravidão do tempo, do espaço e da geografia, restam-lhes as memórias. E as histórias. Porque eles eram dois. E esta foi a sua aventura forasteira.
05 diciembre 2008
Babel
Não nos entendemos. E isso parece importar tanto.
Aquilo da gramática universal não existe. Tonterias. Já apelamos ao inglês, ao espanhol e ao italiano. Já tentamos o esperanto e a linguagem gestual. Nada funciona.
Fomos então pedir um remédio a um médico especializado nesses males. Queríamos curar-nos da doença de Babel. Doença rara, disse.
Como solução surgiu a indiferença.
Seguimos levando a vida como se enfermidade nenhuma houvesse. E do desprezo veio a cura. Sentíamo-nos comunicados.
Mas a língua estrangeira é um eterno terreno escorregadio. Há que usar meias antiderrapantes.
E naquele dia esqueci-me. Que tamanho tropeção!
E caímos juntos, torre abaixo, numa cambalhota gigante de água salgada e soluços debaixo do lençol.
Foram-se as regras gramaticais nunca escritas, as muletas linguísticas que nos caíam tão bem. Sujou-se de lama o livrinho de vocabulário que levava na mala, aquele sorriso feito sem pensar, a frase sem sentido tão comummente compreendia.
Havia que começar de novo. Que reescrever as regras.
Mas e se não nos entendermos?
Dizem que está aí o mistério.
Aquilo da gramática universal não existe. Tonterias. Já apelamos ao inglês, ao espanhol e ao italiano. Já tentamos o esperanto e a linguagem gestual. Nada funciona.
Fomos então pedir um remédio a um médico especializado nesses males. Queríamos curar-nos da doença de Babel. Doença rara, disse.
Como solução surgiu a indiferença.
Seguimos levando a vida como se enfermidade nenhuma houvesse. E do desprezo veio a cura. Sentíamo-nos comunicados.
Mas a língua estrangeira é um eterno terreno escorregadio. Há que usar meias antiderrapantes.
E naquele dia esqueci-me. Que tamanho tropeção!
E caímos juntos, torre abaixo, numa cambalhota gigante de água salgada e soluços debaixo do lençol.
Foram-se as regras gramaticais nunca escritas, as muletas linguísticas que nos caíam tão bem. Sujou-se de lama o livrinho de vocabulário que levava na mala, aquele sorriso feito sem pensar, a frase sem sentido tão comummente compreendia.
Havia que começar de novo. Que reescrever as regras.
Mas e se não nos entendermos?
Dizem que está aí o mistério.
26 noviembre 2008
Dizes que não queres falar. E eu respeito.
Mas e se eu perguntar só assim ao de leve?
- Já te disse que não quero falar.
Desculpa. Eu respeito. Estava a ser invasiva. E isso não quero ser. Não. Isso não.
Mas eu não sei falar de outra coisa. Porque é só nisso que eu penso. Naquilo de que tu não queres falar.
E então não falo sobre nada, porque qualquer assunto seria um desvio ao tema principal. E tu nada respondes. Não queres, já sei. Eu respeito.
Mas a verdade é que não respeito coisa nenhuma. Porque quero mesmo saber. Porque me preocupa.
Mas não pergunto, nem comento. Porque tens direito a não querer falar. Tens esse direito, mas eu não o respeito.
E então pergunto.
Dizes que estás bem. Eu não acredito. Mas não insisto. Nem contesto.
E caímos na monotonia de pergunta e respostas ocas. Em que tudo o que dizem é: fala comigo, por favor, daquilo que não queres falar.
E mesmo assim não falas. E eu respeito.
Mas e se eu perguntar só assim ao de leve?
- Já te disse que não quero falar.
Desculpa. Eu respeito. Estava a ser invasiva. E isso não quero ser. Não. Isso não.
Mas eu não sei falar de outra coisa. Porque é só nisso que eu penso. Naquilo de que tu não queres falar.
E então não falo sobre nada, porque qualquer assunto seria um desvio ao tema principal. E tu nada respondes. Não queres, já sei. Eu respeito.
Mas a verdade é que não respeito coisa nenhuma. Porque quero mesmo saber. Porque me preocupa.
Mas não pergunto, nem comento. Porque tens direito a não querer falar. Tens esse direito, mas eu não o respeito.
E então pergunto.
Dizes que estás bem. Eu não acredito. Mas não insisto. Nem contesto.
E caímos na monotonia de pergunta e respostas ocas. Em que tudo o que dizem é: fala comigo, por favor, daquilo que não queres falar.
E mesmo assim não falas. E eu respeito.
18 noviembre 2008
Naquele banco de jardim
Hoje tive saudades de me sentar num banco de jardim. De me sentar, bem juntinho, naquele banco de jardim. E lembrei-me.
Lembrei-me de ficar em silêncio, apreciando o momento. Dos beijos que nunca contei, do roçar das mãos que só eu senti. Lembrei-me daquela primeira jura de amor. Eterno.
De como a chuva era a pior inimiga das relações. Das longas caminhadas ao frio de mãos entrelaçadas. Muito antes de existirem os carros.
De um jantar em um fast-food de centro comercial. Do quanto sonhava com esse momento de hambúrguer. E como era romântico. Aprender a dar as mãos no cinema. Devagarinho. E, quem sabe, às vezes, dizer um segredo ao ouvido. Arrepios.
Dos beijos eternos. De abrir os olhos e a paisagem já ter mudado. Radicalmente.
E hoje tive saudades dos amores escondidos. Daqueles que nunca contei. De me deitar na cama, num grande suspiro, e sonhar.
Sonhar com um banco de jardim. E um alguém, quem sabe.
Mas agora cresci e as casas têm aquecimento central. Já não é preciso passar frio.
Lembrei-me de ficar em silêncio, apreciando o momento. Dos beijos que nunca contei, do roçar das mãos que só eu senti. Lembrei-me daquela primeira jura de amor. Eterno.
De como a chuva era a pior inimiga das relações. Das longas caminhadas ao frio de mãos entrelaçadas. Muito antes de existirem os carros.
De um jantar em um fast-food de centro comercial. Do quanto sonhava com esse momento de hambúrguer. E como era romântico. Aprender a dar as mãos no cinema. Devagarinho. E, quem sabe, às vezes, dizer um segredo ao ouvido. Arrepios.
Dos beijos eternos. De abrir os olhos e a paisagem já ter mudado. Radicalmente.
E hoje tive saudades dos amores escondidos. Daqueles que nunca contei. De me deitar na cama, num grande suspiro, e sonhar.
Sonhar com um banco de jardim. E um alguém, quem sabe.
Mas agora cresci e as casas têm aquecimento central. Já não é preciso passar frio.
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