Aqui os dias passam com um andar devagar e preguiçoso. Vou observando as pessoas, imaginando as suas vidas, metendo-me, inconscientemente, nas suas conversas. Acho que esse namorado não te merece, que devias comprar a camisola azul, que os teus pais têm razão nessa parte da história. São desconhecidos de língua estranha, com quem partilho bancos de jardim, mesas de café, cadeiras de cinema. E em cada coscuvilhice uma palavra nova, uma expressão, uma correcta entoação da voz. E assim se vão passando os dias, l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Como quem não tem pressa em aprender, quem se deixa absorver por uma nova cidade.
Ás vezes sinto falta de um amigo, uma conversa no café, uma companhia para o cinema das oito da noite. Outras vezes não. Vou passeando comigo mesma em horas infinitas de caminhadas ao mar. Vou conversando comigo todas aquelas conversas que ainda não tinha encontrado tempo para ter. Vou lendo o que pensam os outros e moldando o meu pensamento.
E aos poucos vou me conhecendo. O que às vezes é bom. Outras vezes não.
23 septiembre 2008
22 septiembre 2008
Despedida e Peras
Desta vez não houve dramas, nem lágrimas, nem letras de músicas ditas ao acaso. Houve a serenidade de quem sabe aguardar o futuro. Agora aqui estou eu nesta cidade tão estranha e que quero tanto que venha a ser minha. Sinto-me um homenzinho verde a passear por estas ruas de sotaque espanhol, uma menina indefesa que quer a sua mãe, ou quem sabe, só alguém a quem ligar a dizer “hei, dói-me o joelho”.
E não houve lágrimas, nem despedidas. Como se nunca me fosse embora, como se não fosse por muito tempo. Nada de radical iria acontecer. Um beijinho, um olhar para trás.
Não houve jantar formal, noite passada às claras, maquilhagem e presentes. “Se choras dou-te uma pêra”. Por agora apetecia-me ter dramatizado, levado peras e peras de recordações que ficariam marcadas na pele. Por agora queria ter tido consciência do ridículo das discussões e aproveitado esse tempo para declarações debaixo do lençol.
Comer peras debaixo do lençol. É isso que me apetece agora.
E não houve lágrimas, nem despedidas. Como se nunca me fosse embora, como se não fosse por muito tempo. Nada de radical iria acontecer. Um beijinho, um olhar para trás.
Não houve jantar formal, noite passada às claras, maquilhagem e presentes. “Se choras dou-te uma pêra”. Por agora apetecia-me ter dramatizado, levado peras e peras de recordações que ficariam marcadas na pele. Por agora queria ter tido consciência do ridículo das discussões e aproveitado esse tempo para declarações debaixo do lençol.
Comer peras debaixo do lençol. É isso que me apetece agora.
03 septiembre 2008
O homem grisalho
Há um homem cinzento a espreitar os meus dias. Vejo-lhe sempre primeiro os pés.
Acho que devia mandar polir aquelas botas da tropa. São pretas, cano alto, atacador daqueles que é preciso colocar o despertador para cinco minutos mais cedo só para poder calçar os sapatos em condições. Mas ele não faz isso. Tem sempre as botas mal abotoadas. Que desleixe!
Tento voltar ao trabalho e lá está ele, do lado esquerdo do meu campo de visão.
Incomoda-me que salte as casas do atacador. Qualquer dia aquilo sai-lhe dos pés. Quero sempre avisar-lhe. Espremo os olhos e tento, mentalmente, ajeitar-lhe os sapatos. Nada feito.
- Quanto caracteres tenho para a noticia da fusão das agências?
Ele tem uns jeans escuros esbatidos que lhe estão largos na cintura. Engraçado. Ainda não tinha reparado nisso. Acho que têm ficado mais largos a cada dia que passa. Curioso.
Mas se há uma coisa que está sempre impecável é a sua camisa, preta, claro.
- Achas que não me consegues mais espaço? Consegui um exclusivo com o CEO.
Impecável se não contarmos com a caspa que decora os ombros e o terceiro botão a contar de baixo que está meio partido (mas abotoa mesmo assim).
É bonita a sua camisa. Outro dia ocorreu-me que aquele brilho que ela ostenta possa ser sebo e não cetim. Tentei afastar a ideia.
- Talvez se mudares a notícia para a página 16 já dê, não achas?
É claro que os seus cabelos compridos e mal lavados não ajudam à sua caspa constante. Talvez devesse mudar de shampoo, sei lá. Notei que estão a aparecer-lhe uns brancos. Mas eu até gostei, dá-lhe um certo ar de sabedoria grisalha.
Tem estado cansado, ultimamente. Acho que não anda a comer como deve ser.
- Quando é que te vais embora?
- Dia 16.
- O tempo está a acabar.
Parece que já me afeiçoei a ele. Agora nem tenho tido muita vontade de o mandar embora. Talvez eu seja a única a achar isto, mas aquele grisalho fica-lhe mesmo bem. Se pelo menos ele andasse a comer como deve ser...
Acho que devia mandar polir aquelas botas da tropa. São pretas, cano alto, atacador daqueles que é preciso colocar o despertador para cinco minutos mais cedo só para poder calçar os sapatos em condições. Mas ele não faz isso. Tem sempre as botas mal abotoadas. Que desleixe!
Tento voltar ao trabalho e lá está ele, do lado esquerdo do meu campo de visão.
Incomoda-me que salte as casas do atacador. Qualquer dia aquilo sai-lhe dos pés. Quero sempre avisar-lhe. Espremo os olhos e tento, mentalmente, ajeitar-lhe os sapatos. Nada feito.
- Quanto caracteres tenho para a noticia da fusão das agências?
Ele tem uns jeans escuros esbatidos que lhe estão largos na cintura. Engraçado. Ainda não tinha reparado nisso. Acho que têm ficado mais largos a cada dia que passa. Curioso.
Mas se há uma coisa que está sempre impecável é a sua camisa, preta, claro.
- Achas que não me consegues mais espaço? Consegui um exclusivo com o CEO.
Impecável se não contarmos com a caspa que decora os ombros e o terceiro botão a contar de baixo que está meio partido (mas abotoa mesmo assim).
É bonita a sua camisa. Outro dia ocorreu-me que aquele brilho que ela ostenta possa ser sebo e não cetim. Tentei afastar a ideia.
- Talvez se mudares a notícia para a página 16 já dê, não achas?
É claro que os seus cabelos compridos e mal lavados não ajudam à sua caspa constante. Talvez devesse mudar de shampoo, sei lá. Notei que estão a aparecer-lhe uns brancos. Mas eu até gostei, dá-lhe um certo ar de sabedoria grisalha.
Tem estado cansado, ultimamente. Acho que não anda a comer como deve ser.
- Quando é que te vais embora?
- Dia 16.
- O tempo está a acabar.
Parece que já me afeiçoei a ele. Agora nem tenho tido muita vontade de o mandar embora. Talvez eu seja a única a achar isto, mas aquele grisalho fica-lhe mesmo bem. Se pelo menos ele andasse a comer como deve ser...
02 septiembre 2008
Cem euros
Escrevi as palavras no google, meio a medo, porque só o acto de soletra-las torna tudo mais oficial. Carreguei um enter tremido.
Lá no fundo rezei para que não aparecesse nada, que fosse mais uma pesquisa mal feita. Assim desistiria logo dessa ideia maluca. Nós? Claro que não! Que ideia mais sem sentido!
Mas a internet é um mundo de segundos e apareceu logo ali, no primeiro link, a resposta para a minha pergunta internauta.
Cem. Cem euros são dois dias de interrail, quatro noites num bom hostel, um mês de comida no supermercado. É quanto custa uma semana de curso intensivo de espanhol, é metade do aluguer da casa. Cem euros compram um bom par de calças, umas botas de couro e uns tenis all-star, ultimo grito da moda. Fiquei sem saber se era muito ou pouco.
Mas o acto de pesquisa estava feito. Um primeiro passo tinha sido dado e o futuro espreitava-nos com olhos de criança em véspera de Natal.
Calma, o Pai Natal (ou seriam os Reis Magos?) já está quase a chegar.
Lá no fundo rezei para que não aparecesse nada, que fosse mais uma pesquisa mal feita. Assim desistiria logo dessa ideia maluca. Nós? Claro que não! Que ideia mais sem sentido!
Mas a internet é um mundo de segundos e apareceu logo ali, no primeiro link, a resposta para a minha pergunta internauta.
Cem. Cem euros são dois dias de interrail, quatro noites num bom hostel, um mês de comida no supermercado. É quanto custa uma semana de curso intensivo de espanhol, é metade do aluguer da casa. Cem euros compram um bom par de calças, umas botas de couro e uns tenis all-star, ultimo grito da moda. Fiquei sem saber se era muito ou pouco.
Mas o acto de pesquisa estava feito. Um primeiro passo tinha sido dado e o futuro espreitava-nos com olhos de criança em véspera de Natal.
Calma, o Pai Natal (ou seriam os Reis Magos?) já está quase a chegar.
31 agosto 2008
Suores frios
Há um suor frio nos meus pés que me faz fechar os olhos. E nas celulóides de momentos futuros vejo-me longe. Queria entender por que a felicidade está sempre tão distante, vemo-la naquele país para onde queremos ir, no trabalho que sonhamos ter (e nunca conseguimos). Nunca aqui, na algibeira dos jeans desgastados. Queria perceber porquê.
Dizem que é bom. Isso de nunca estar satisfeito. Bem, é o que dizem.
Mas aquele calafrio no pé dá-me dores de barriga. Há remédios para essa dor. Não pode ser uma coisa boa.
É a constante incerteza do destino, um ímpeto irresistível de se atirar daquela varanda do sétimo andar. Uma atracção pelo desconhecido e uma promessa de felicidade.
Passo todos os dias por lá. Penso da minha queda. Faço os prós e os contras e volto para casa.
A varanda continua ali, com o seu charme atraente e intelectual, a sua postura certa e independente. Falta só dar o passo.
Mas os suores dão-me dores de barriga. Por enquanto, vou tomando remédios.
Dizem que é bom. Isso de nunca estar satisfeito. Bem, é o que dizem.
Mas aquele calafrio no pé dá-me dores de barriga. Há remédios para essa dor. Não pode ser uma coisa boa.
É a constante incerteza do destino, um ímpeto irresistível de se atirar daquela varanda do sétimo andar. Uma atracção pelo desconhecido e uma promessa de felicidade.
Passo todos os dias por lá. Penso da minha queda. Faço os prós e os contras e volto para casa.
A varanda continua ali, com o seu charme atraente e intelectual, a sua postura certa e independente. Falta só dar o passo.
Mas os suores dão-me dores de barriga. Por enquanto, vou tomando remédios.
30 agosto 2008
Lar doce Lar
Dizem que não se volta a um lugar onde já se foi feliz. Eu também dizia isso.
Mas se houve uma coisa que aprendi nestes últimos tempos é que o português é uma língua difícil, já que para cada regra há uma excepção.
Deliciei-me durante um mês a aprende-las.
E em cada lugar passado, em qualquer monumento de fotografia antiga, em toda a história recordada pela fachada de uma loja vulgar, descobri uma diferente história e uma recordação que os novos acontecimentos não irão esbater.
É a sétima língua mais difícil do mundo, o português.
Não se pode tentar encontrar plenitude nos moldes antigos, na segurança de modelos de sucesso. Mas a excepção que dita a regra diz: volte e reinvente a fórmula.
Eu sabia que voltaria a este lugar.
É bom regressar a casa.
Mas se houve uma coisa que aprendi nestes últimos tempos é que o português é uma língua difícil, já que para cada regra há uma excepção.
Deliciei-me durante um mês a aprende-las.
E em cada lugar passado, em qualquer monumento de fotografia antiga, em toda a história recordada pela fachada de uma loja vulgar, descobri uma diferente história e uma recordação que os novos acontecimentos não irão esbater.
É a sétima língua mais difícil do mundo, o português.
Não se pode tentar encontrar plenitude nos moldes antigos, na segurança de modelos de sucesso. Mas a excepção que dita a regra diz: volte e reinvente a fórmula.
Eu sabia que voltaria a este lugar.
É bom regressar a casa.
16 abril 2008
Margem de Erro
Rodeada de papeis, computadores e citações, o mundo mudou. Já não há histórias e experiências transcendentes. Há o dia-a-dia. Umas vezes mais cinzento, outras mais inspirador. Mas não o suficiente.
Prometo desta vez tentar poupar-vos de metáforas surrealistas.
Pois é, mudei de blog.
Quem sabe temporariamene. Até os entreactos voltarem.
Por enquanto, podem ler-me em www.margemdeerro.blogspot.com
Desta vez, um blog sem mateáforas =)
Prometo desta vez tentar poupar-vos de metáforas surrealistas.
Pois é, mudei de blog.
Quem sabe temporariamene. Até os entreactos voltarem.
Por enquanto, podem ler-me em www.margemdeerro.blogspot.com
Desta vez, um blog sem mateáforas =)
24 marzo 2008
Sr. Carlos
De volta ao pacato mundo cinzento. De volta ao negro véu que envolve as horas silenciosas.
Os dias passam-se como fotografia emoldurada. A sombra escurece o retrato. Sempre o mesmo retrato. Sempre.
E enquanto os minutos espreguiçam e as migalhas de bolacha água e sal se espalham, as recordações voam em imagens de ressacas passadas.
Uma bomba de gasolina e uma noite fria. Um beijo gelado em rua íngreme. Gritos de insinuações prometidas que soam desafinados a bigodes desconhecidos.
Há sempre um senhor Carlos na nossa vida. Aquele bigode e o dizer amigável. Que venha mais uma rodada. E outra. E outra. E ele vai ajeitando a comida no prato. Mais pão. Sinto-me tonta.
A mesa pinga alegria derramada, range a dor de barriga de gargalhadas cúmplices.
Já não precisamos de jogos, porque agora as danças iniciam-se de costas e terminam com um turbilhão de risadas. Com um grito de reprovação, um olhar de desprezo censurado.
E sem saber como, ou onde começou, quem teve a ideia ou quem deveria ficar com os louros, sentimos que afinal é bom voltar para casa.
Mas para isso, é preciso antes partir.
Os dias passam-se como fotografia emoldurada. A sombra escurece o retrato. Sempre o mesmo retrato. Sempre.
E enquanto os minutos espreguiçam e as migalhas de bolacha água e sal se espalham, as recordações voam em imagens de ressacas passadas.
Uma bomba de gasolina e uma noite fria. Um beijo gelado em rua íngreme. Gritos de insinuações prometidas que soam desafinados a bigodes desconhecidos.
Há sempre um senhor Carlos na nossa vida. Aquele bigode e o dizer amigável. Que venha mais uma rodada. E outra. E outra. E ele vai ajeitando a comida no prato. Mais pão. Sinto-me tonta.
A mesa pinga alegria derramada, range a dor de barriga de gargalhadas cúmplices.
Já não precisamos de jogos, porque agora as danças iniciam-se de costas e terminam com um turbilhão de risadas. Com um grito de reprovação, um olhar de desprezo censurado.
E sem saber como, ou onde começou, quem teve a ideia ou quem deveria ficar com os louros, sentimos que afinal é bom voltar para casa.
Mas para isso, é preciso antes partir.
19 marzo 2008
O nosso prêmio Nobel
Dizem que ele vai receber o prêmio Nobel, que é um geniozinho, um intelectual reprimido, o futuro ministro da saúde.
Isso é para os outros. Para mim ele é o companheiro de viagens intermináveis de ônibus, de almoços no PF da esquina, de queijo coalho assado na brasa.
É desligado, atrapalhado, desengonçado. É aquela pessoa com quem podemos ficar durante três horas conversando sobre nada e no final concluir que tivemos uma conversa instrutiva.
Ele é o cara te que liga e diz “vamos no cinema?”, “quando?” pergunto eu, já com a agenda na mão “Agora, vou ai te pegar”.
E depois disso, se segue uma noite de conversa fiada, cinema e um barzinho qualquer. E no dia seguinte o celular toca: “Pô Má, são 9 da manhã e você ainda não acordou?”
Acho que é isso que faz dele o irmão promissor e de mim a “filha adotada”.
Isso é para os outros. Para mim ele é o companheiro de viagens intermináveis de ônibus, de almoços no PF da esquina, de queijo coalho assado na brasa.
É desligado, atrapalhado, desengonçado. É aquela pessoa com quem podemos ficar durante três horas conversando sobre nada e no final concluir que tivemos uma conversa instrutiva.
Ele é o cara te que liga e diz “vamos no cinema?”, “quando?” pergunto eu, já com a agenda na mão “Agora, vou ai te pegar”.
E depois disso, se segue uma noite de conversa fiada, cinema e um barzinho qualquer. E no dia seguinte o celular toca: “Pô Má, são 9 da manhã e você ainda não acordou?”
Acho que é isso que faz dele o irmão promissor e de mim a “filha adotada”.
18 marzo 2008
Este mundo tão pequenino
Vivo num labirinto claustrofóbico de tectos altos e janelas compridas.
Sou anã em busca de um pé de feijão, de uma janela de onde possa laçar as minhas tranças.
Dizem-me para usar saltos, plataformas, riscas verticais. Nada funciona. Existem também aqueles tratamentos que se fazem às crianças. Mas já passei dessa idade. É pena.
Outro dia lembrei-me que talvez, se eu comesse uma dose cavalar de fermento e me enfiasse no forno, podia ser que aumentasse.
O Joãzinho e a Mariazinha só cresceram para os lados. Mas cresceram. É isso que importa. Alguém conhece uma casa de doces com uma bruxa avarenta?
Sinto-me formiga à volta do açúcar, melga a sugar o sangue doce. Preciso crescer.
Extravasar o mundo, bater com a cabeça no tecto, andar corcunda de tanto olhar para baixo.
Logo eu que sempre fui a mais alta da turma.
Sou anã em busca de um pé de feijão, de uma janela de onde possa laçar as minhas tranças.
Dizem-me para usar saltos, plataformas, riscas verticais. Nada funciona. Existem também aqueles tratamentos que se fazem às crianças. Mas já passei dessa idade. É pena.
Outro dia lembrei-me que talvez, se eu comesse uma dose cavalar de fermento e me enfiasse no forno, podia ser que aumentasse.
O Joãzinho e a Mariazinha só cresceram para os lados. Mas cresceram. É isso que importa. Alguém conhece uma casa de doces com uma bruxa avarenta?
Sinto-me formiga à volta do açúcar, melga a sugar o sangue doce. Preciso crescer.
Extravasar o mundo, bater com a cabeça no tecto, andar corcunda de tanto olhar para baixo.
Logo eu que sempre fui a mais alta da turma.
14 marzo 2008
ressequida
Há caminhos de terra que me percorrem o rosto. As estradas tornam-se mais fundas, os olhos mais chatos, a cabeça se inclina em um desistir pendurado.
Sou folha seca em árvore perene. Resisto.
Quero ir mais longe e superar o que está escrito. Insisto.
A minha vida é um soluçar de bons momentos. É um dicionário de dúvidas, de uma felicidade roubada nas crises de adolescência. Porque nada é bom demais. Bom o suficiente.
Os soluços sufocam-me o ar. Rodopio de tontura em busca de uma linha exacta que há tanto tempo perdi. Sou da estabilidade, do compasso de círculos perfeitos.
Agora vivo aos gemidos. Sou CD com partículas de poeira. Limpa-a que voltará a sinfonia harmónica. As melhores músicas são as que se aproximam da ópera.
O rosto seca com a terra dos anos. Sou diva ressequida dos meses passados em dias de horas lentas e preocupadas. De sono fugido, de ânsias engolidas.
Repudiam-me as felicidades gratuitas, as vidas fáceis de botas lambidas. Quero vomitar os que não resistem, os que não se impõem, os que se deixam beijar as mãos.
Precoce. Prematura. Sim, vou morrer aos quarenta.
Mas antes disso, preciso de um lifting.
Sou folha seca em árvore perene. Resisto.
Quero ir mais longe e superar o que está escrito. Insisto.
A minha vida é um soluçar de bons momentos. É um dicionário de dúvidas, de uma felicidade roubada nas crises de adolescência. Porque nada é bom demais. Bom o suficiente.
Os soluços sufocam-me o ar. Rodopio de tontura em busca de uma linha exacta que há tanto tempo perdi. Sou da estabilidade, do compasso de círculos perfeitos.
Agora vivo aos gemidos. Sou CD com partículas de poeira. Limpa-a que voltará a sinfonia harmónica. As melhores músicas são as que se aproximam da ópera.
O rosto seca com a terra dos anos. Sou diva ressequida dos meses passados em dias de horas lentas e preocupadas. De sono fugido, de ânsias engolidas.
Repudiam-me as felicidades gratuitas, as vidas fáceis de botas lambidas. Quero vomitar os que não resistem, os que não se impõem, os que se deixam beijar as mãos.
Precoce. Prematura. Sim, vou morrer aos quarenta.
Mas antes disso, preciso de um lifting.
10 marzo 2008
Aih, o mundo fantástico
Um carro, uma caneta e uma guitarra. Daquelas portáteis, com desenhos camuflados e fios soltos. Éramos mais rápidos que o mundo. Fazíamo-lo correr, apressar-se nas estradas perdidas, no almoço a horas tardias e no supermercado de uvas sem grainha. Mas o mundo é preguiçoso, não gosta de esforço. Castigou-nos com tomates assassinos.
Daqueles que fazem as tomadas parecerem portas de impressão visual e o tambor um fiel amigo do bambi.
Vieram os diários de letras macarrónicas e conteúdo ilegível, a sirene dos bombeiros e as panelas sujas. O tomate acabou esmagado num molho de natas com mostarda e limão. Pouco apetitoso.
Mas o mundo é forte e poderoso e não se fica pelas leguminosas. Conhece a sociedade em Rede, já diria o mestre de CC. Manda então mensagens que nos fazem rir de pânico, passar manhãs acordadas num respirar profundo de pesadelos adormecidos. O telefone toca. One missed call. Vem o rebuçado vermelho e a música fúnebre.
Vamos morrer. Ninguém aguenta tantas horas de frio e tortura. De inchaços e ligaduras. De promessas impossíveis e pensamentos irrealizáveis.
E foi então que o mundo percebeu. Estávamos presos ao nosso corpo. Este era o pior castigo.
Começou a matar japoneses de três em três minutos.
Mas essa parte eu já não vi. As legendas eram em inglês. O relógio marcava 3 a.m. Não é apenas o mundo que é preguiçoso.
Daqueles que fazem as tomadas parecerem portas de impressão visual e o tambor um fiel amigo do bambi.
Vieram os diários de letras macarrónicas e conteúdo ilegível, a sirene dos bombeiros e as panelas sujas. O tomate acabou esmagado num molho de natas com mostarda e limão. Pouco apetitoso.
Mas o mundo é forte e poderoso e não se fica pelas leguminosas. Conhece a sociedade em Rede, já diria o mestre de CC. Manda então mensagens que nos fazem rir de pânico, passar manhãs acordadas num respirar profundo de pesadelos adormecidos. O telefone toca. One missed call. Vem o rebuçado vermelho e a música fúnebre.
Vamos morrer. Ninguém aguenta tantas horas de frio e tortura. De inchaços e ligaduras. De promessas impossíveis e pensamentos irrealizáveis.
E foi então que o mundo percebeu. Estávamos presos ao nosso corpo. Este era o pior castigo.
Começou a matar japoneses de três em três minutos.
Mas essa parte eu já não vi. As legendas eram em inglês. O relógio marcava 3 a.m. Não é apenas o mundo que é preguiçoso.
05 marzo 2008
Demais
Não te vás embora.
Que mania de abandonar as pessoas. Fugir como se de nada se tratasse.
Sabes qual é o teu problema? Irritas-me. Criança.
Chegas como se nada fosse. Bates à minha porta, olhas-me com sorriso de gelados e castelos. Invades a rotina com o “prim-pim” do telemóvel e o café a meio da tarde. E se vou à farmácia, lá estás tu. E se vou almoçar, tu mais uma vez. Larga-me. Deixa-me viver à minha maneira.
Não faças isto assim, vai por aquele caminho, porque é que ainda fizeste aquilo? Não te esqueças do remédio. Obvio que ainda não lavaste o carro. Desaparece.
Cala-te uma vez na vida! Agora quem fala sou eu.
Não gosto que te vás embora. Não és a rainha do universo.
Que mania de lapidar o destino.
Egoísta.
E nem pensaste em mim. Eu sei que não pensaste.
E eu? Vou ficar aqui. Onde não há mails porque nada se passa, onde não há diversão porque já nem gosto deles tanto assim.
Culpa tua.
Levaste-me para dentro do teu mundinho perfeito. De diversão sem álcool, de risadas sem sexo, de cafés, lanches e idas à praia sem surf.
E agora que já me estava a habituar. Já sabia os nomes, os sítios e as historias. Agora que eles até me achavam piada.
Agora vais embora. E o pior. Finges que não vais. Fazes planos para Abril, Maio, Junho. Fazes planos para Dezembro e para 2010.
Cínica. Falsa.
E tudo isto, para dizer que tenho um problema.
É que gosto de ti. Demais.
Que mania de abandonar as pessoas. Fugir como se de nada se tratasse.
Sabes qual é o teu problema? Irritas-me. Criança.
Chegas como se nada fosse. Bates à minha porta, olhas-me com sorriso de gelados e castelos. Invades a rotina com o “prim-pim” do telemóvel e o café a meio da tarde. E se vou à farmácia, lá estás tu. E se vou almoçar, tu mais uma vez. Larga-me. Deixa-me viver à minha maneira.
Não faças isto assim, vai por aquele caminho, porque é que ainda fizeste aquilo? Não te esqueças do remédio. Obvio que ainda não lavaste o carro. Desaparece.
Cala-te uma vez na vida! Agora quem fala sou eu.
Não gosto que te vás embora. Não és a rainha do universo.
Que mania de lapidar o destino.
Egoísta.
E nem pensaste em mim. Eu sei que não pensaste.
E eu? Vou ficar aqui. Onde não há mails porque nada se passa, onde não há diversão porque já nem gosto deles tanto assim.
Culpa tua.
Levaste-me para dentro do teu mundinho perfeito. De diversão sem álcool, de risadas sem sexo, de cafés, lanches e idas à praia sem surf.
E agora que já me estava a habituar. Já sabia os nomes, os sítios e as historias. Agora que eles até me achavam piada.
Agora vais embora. E o pior. Finges que não vais. Fazes planos para Abril, Maio, Junho. Fazes planos para Dezembro e para 2010.
Cínica. Falsa.
E tudo isto, para dizer que tenho um problema.
É que gosto de ti. Demais.
"fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga."
José Luis Peixoto
José Luis Peixoto
03 marzo 2008
Mormon no elevador
As palavras fogem-me. Efémeras.
Falo, qual rádio de informação inútil. Conto e rio das minhas aventuras de nada. Falo e não paro até a garganta secar, porque existe ainda tanto por dizer. Quero contar que acordei despenteada e tenho uma borbulha nova no rosto, que vesti os ténis vermelhos porque os castanhos me faziam bolhas nos pés. Quero contar tudo, para que não se perca nada.
Quero contar o olhar apertado de covinhas, aquele sussurro inesperado ao ouvido. Quero conseguir descrever na perfeição o abraço que encaixa e o silêncio de sorrisos rasgados. Mas eu sou escudo. Escudo de traumas pisados e Internet com dor de barriga. A plenitude nega-se a cada momento. Sou mormon dentro do elevador.
E o pensamento arrasta-se para futuros longínquos onde o nós é um espatifado de eus e tus. Seguem-se as frases sem sentido, as dúvidas existenciais de quem esperou demais.
Esperou mais do que era humanamente possível. Ansiou uma afinação heróica, uma orquestra que se regia sem maestro. E agora a espera culmina num amontoado de sentimentos imperfeitos, com o nariz grande e o couro cabeludo que descama. Há o amigo que telefonou e o jantar de hoje à noite.
E existimos nós, e os hematomas dos beliscões.
Já não são precisos. Isto é mais do que real.
Falo, qual rádio de informação inútil. Conto e rio das minhas aventuras de nada. Falo e não paro até a garganta secar, porque existe ainda tanto por dizer. Quero contar que acordei despenteada e tenho uma borbulha nova no rosto, que vesti os ténis vermelhos porque os castanhos me faziam bolhas nos pés. Quero contar tudo, para que não se perca nada.
Quero contar o olhar apertado de covinhas, aquele sussurro inesperado ao ouvido. Quero conseguir descrever na perfeição o abraço que encaixa e o silêncio de sorrisos rasgados. Mas eu sou escudo. Escudo de traumas pisados e Internet com dor de barriga. A plenitude nega-se a cada momento. Sou mormon dentro do elevador.
E o pensamento arrasta-se para futuros longínquos onde o nós é um espatifado de eus e tus. Seguem-se as frases sem sentido, as dúvidas existenciais de quem esperou demais.
Esperou mais do que era humanamente possível. Ansiou uma afinação heróica, uma orquestra que se regia sem maestro. E agora a espera culmina num amontoado de sentimentos imperfeitos, com o nariz grande e o couro cabeludo que descama. Há o amigo que telefonou e o jantar de hoje à noite.
E existimos nós, e os hematomas dos beliscões.
Já não são precisos. Isto é mais do que real.
26 febrero 2008
Ossos do ofício
Vai e muda o mundo. Pega no teu pacote de cinquenta canetas bic, nos bloquinhos que coleccionaste pela vida e descobre.
Bate à porta. Suja o sapato. Não basta que senhor tenha mordido o cão. Tens de ir mais longe. Onde nenhuma pergunta indiscreta chegou, onde não conhecem o flash nem a assessoria de imprensa.
Encontra o que mordeu o zoológico inteiro. Esse sim. Conquista-o.
Fá-lo contar-te o sonho de ontem e o que comeu ao almoço. Come com ele. Come aquela refeição super calórica e desculpa-te com a tua nutricionista num sorriso orgulhoso: “ossos do ofício”.
Os filmes estão feitos. Os conselhos estão dados.
Agora só falta tornar o ofício real.
E eu tenho tanta pressa.
Bate à porta. Suja o sapato. Não basta que senhor tenha mordido o cão. Tens de ir mais longe. Onde nenhuma pergunta indiscreta chegou, onde não conhecem o flash nem a assessoria de imprensa.
Encontra o que mordeu o zoológico inteiro. Esse sim. Conquista-o.
Fá-lo contar-te o sonho de ontem e o que comeu ao almoço. Come com ele. Come aquela refeição super calórica e desculpa-te com a tua nutricionista num sorriso orgulhoso: “ossos do ofício”.
Os filmes estão feitos. Os conselhos estão dados.
Agora só falta tornar o ofício real.
E eu tenho tanta pressa.
18 febrero 2008
A chuva faz pensar
E lá estava eu naquela terra escorregadia de temporais com estradas invisíveis.
Os pés afundavam-se em ritmo de marcha fúnebre e as botas novas gritavam desesperos de lama.
Isolei-me cada vez mais naquele redemoinho de terra molhada. Cobarde, não conseguia chegar ao meio. Àquele ilhéu de equilíbrio perfeito. De contos de fada e jaulas para anelídeos.
O cobertor já não servia para esconder as ideias espinhosas. Era um tudo ou nada que assustava. Um lacear, como bota de couro usada. Um ceder que não pertencia ao dicionário.
E naquele dia. Dia de tempestade lasciva, veio a revolta e as palavras temidas.
Era tempo decisões.
Afoga o orgulho, ensopa os pés.
Chegou a hora de atravessar.
Os pés afundavam-se em ritmo de marcha fúnebre e as botas novas gritavam desesperos de lama.
Isolei-me cada vez mais naquele redemoinho de terra molhada. Cobarde, não conseguia chegar ao meio. Àquele ilhéu de equilíbrio perfeito. De contos de fada e jaulas para anelídeos.
O cobertor já não servia para esconder as ideias espinhosas. Era um tudo ou nada que assustava. Um lacear, como bota de couro usada. Um ceder que não pertencia ao dicionário.
E naquele dia. Dia de tempestade lasciva, veio a revolta e as palavras temidas.
Era tempo decisões.
Afoga o orgulho, ensopa os pés.
Chegou a hora de atravessar.
17 febrero 2008
Alguns ajustes.
De repente, já eram cinco, seis, não sei.
Foi como se nunca tivesse saído dali. Não me tentem esconder. Eu sei que o tempo parou, que lhe deram um remédio daqueles que os bichinhos não comem. Embalsamaram-no, qual koala em montra de vidro, e mandaram-no esperar por mim. Paciente, parecia não querer andar.
Ainda há a mesma amiga cujos lábios continuam sujos de vinho. Ela ainda grita distorcidamente com frágeis beliscões, eu testei. Os calções continuam escondidos no casaco vermelho, com uma máquina do Paraguai e aventuras, daquelas só dela, desta vez em terras estrangeiras. Amarraram-lhe o braço ao peito mas ainda vai às manifestações. Assiste-as do café. O pior é cortar a carne.
Há aquele que cresceu com a história da depilação e do novo creme corporal. Ele lava a sua própria roupa, no seu humor característico, tão intrigado. Vão se casar, não há ainda data certa. O meu primeiro casamento.
Ele continua preso a este isolado país que não lhe pertence. Ele é do mundo e das viagens, dos cursos que os pais engolem, da música estranha, dos livros eruditos, dos beijos de entretenimento.
Há aqueles que não falam. Ou se falam, fazem silêncio. Há aqueles que continuam contratados pelas máquinas fotográficas para fazer rir. Que chegam, dão aquele abraço, e são família outra vez.
Agora havia uma diferença. Aquele tal rapaz. Que leva a mala, encontra a carteira e ajeita-me o cabelo. Que fala de música e filmes que ninguém entende. Que tem amigos com casas embebedadas.
Afinal o tempo não parou, precisou de pequenos ajustes. Poliu aqui, afinou ali.
Sinto que agora ele vai acelerar.
Foi como se nunca tivesse saído dali. Não me tentem esconder. Eu sei que o tempo parou, que lhe deram um remédio daqueles que os bichinhos não comem. Embalsamaram-no, qual koala em montra de vidro, e mandaram-no esperar por mim. Paciente, parecia não querer andar.
Ainda há a mesma amiga cujos lábios continuam sujos de vinho. Ela ainda grita distorcidamente com frágeis beliscões, eu testei. Os calções continuam escondidos no casaco vermelho, com uma máquina do Paraguai e aventuras, daquelas só dela, desta vez em terras estrangeiras. Amarraram-lhe o braço ao peito mas ainda vai às manifestações. Assiste-as do café. O pior é cortar a carne.
Há aquele que cresceu com a história da depilação e do novo creme corporal. Ele lava a sua própria roupa, no seu humor característico, tão intrigado. Vão se casar, não há ainda data certa. O meu primeiro casamento.
Ele continua preso a este isolado país que não lhe pertence. Ele é do mundo e das viagens, dos cursos que os pais engolem, da música estranha, dos livros eruditos, dos beijos de entretenimento.
Há aqueles que não falam. Ou se falam, fazem silêncio. Há aqueles que continuam contratados pelas máquinas fotográficas para fazer rir. Que chegam, dão aquele abraço, e são família outra vez.
Agora havia uma diferença. Aquele tal rapaz. Que leva a mala, encontra a carteira e ajeita-me o cabelo. Que fala de música e filmes que ninguém entende. Que tem amigos com casas embebedadas.
Afinal o tempo não parou, precisou de pequenos ajustes. Poliu aqui, afinou ali.
Sinto que agora ele vai acelerar.
14 febrero 2008
11/02
“Perai, vou só reiniciar o computador”
Olha ao espelho. Olha de novo.
Muda de casaco. Ele não deve gostar desse.
- Apressa-te. Se calhar devias correr.
- Claro que não! Depois chego ofegante.
Nada sedutor.
- Então anda rápido, vá. Um computador não demora assim tanto a reiniciar.
(Vê-se as pernas a tremer)
- Eu imaginava isto com chuva. Assim perde todo o romantismo.
(cheesy)
- Ok. Agora é so reensaiar a frase. Como era mesmo? Eu deveria ter escrito num papel, que raiva. Aquela frase era mesmo boa.
- Vá lá, não sejas parva. É só um telefonema. Liga logo. Não estragues tudo.
- Espera. Arranja melhor o cabelo. Cobre as orelhas. Respira fundo.
(está a chamar)
- Como era mesmo que tínhamos combinado? Abraço ou beijinho?
- Cala-te. Isso é o que menos interessa.
Olha ao espelho. Olha de novo.
Muda de casaco. Ele não deve gostar desse.
- Apressa-te. Se calhar devias correr.
- Claro que não! Depois chego ofegante.
Nada sedutor.
- Então anda rápido, vá. Um computador não demora assim tanto a reiniciar.
(Vê-se as pernas a tremer)
- Eu imaginava isto com chuva. Assim perde todo o romantismo.
(cheesy)
- Ok. Agora é so reensaiar a frase. Como era mesmo? Eu deveria ter escrito num papel, que raiva. Aquela frase era mesmo boa.
- Vá lá, não sejas parva. É só um telefonema. Liga logo. Não estragues tudo.
- Espera. Arranja melhor o cabelo. Cobre as orelhas. Respira fundo.
(está a chamar)
- Como era mesmo que tínhamos combinado? Abraço ou beijinho?
- Cala-te. Isso é o que menos interessa.
08 febrero 2008
Casa
As palavras-sorriso usam perfume preto e branco, óculos espelhados e umas calças meio duvidosas. São feitas de manteiga, daquela para fazer os biscoitos da Ana Teresa.
São raras de encontrar. Muito bem cotadas no mercado coleccionador.
E lá vem uma covinha, um dente meio escurecido, um ténue inclinar da cabeça.
Valiosas, muito valiosas.
Não deixem que se desgastem. Se as encontrarem guardem-na numa redoma de momentos especiais. Não, corrijo: momentos extravagantes, singulares, esbanjadores. E nesse momento saboreiem o seu gosto a maresia amanhecida com pasta de dentes de hortelã. O seu gosto de banana com leite condensado e massa ao pequeno-almoço. Digam-na com todas as letras e deixem que o momento exclame uma interjeição de felicidade.
Um dia encontrei uma palavra, perdida num meio de um livro para pintar.
Guardei-a.
Ela implora-me por liberdade. Mas é sempre tão difícil quando o nosso filho mais velho sai de casa.
Prometo que não sou pedra, nem diamante valioso.
Mas se fosse médica, seria famosa e quem sabe me convidassem para os Óscares.
Mas assim sendo, vejo-os em casa, com cobertor e pipocas (salgadas).
São raras de encontrar. Muito bem cotadas no mercado coleccionador.
E lá vem uma covinha, um dente meio escurecido, um ténue inclinar da cabeça.
Valiosas, muito valiosas.
Não deixem que se desgastem. Se as encontrarem guardem-na numa redoma de momentos especiais. Não, corrijo: momentos extravagantes, singulares, esbanjadores. E nesse momento saboreiem o seu gosto a maresia amanhecida com pasta de dentes de hortelã. O seu gosto de banana com leite condensado e massa ao pequeno-almoço. Digam-na com todas as letras e deixem que o momento exclame uma interjeição de felicidade.
Um dia encontrei uma palavra, perdida num meio de um livro para pintar.
Guardei-a.
Ela implora-me por liberdade. Mas é sempre tão difícil quando o nosso filho mais velho sai de casa.
Prometo que não sou pedra, nem diamante valioso.
Mas se fosse médica, seria famosa e quem sabe me convidassem para os Óscares.
Mas assim sendo, vejo-os em casa, com cobertor e pipocas (salgadas).
06 febrero 2008
C
A barriga espremia-se num ranger que incomodava. Pela cabeça passavam filmes de terror e segredo eterno. Por que submeter-me a tamanha humilhação?
Berros de garganta arranhada. Corada de calor interno. Flamejante. Não sabia onde colocar todas as noites de lágrimas e frases atabalhoadas, as manhãs preguiçosas de bolhas que sangram nos pés.
A sensação de impotência. Ela falava, com o seu buço por fazer, da desintegração social dos pobres. Expressão feita. Tão oportuna. Também queria ter um bigode e as sobrancelhas desalinhadas, nunca ter tido namorado e voltar para casa por saudades da família.
Mas passou. Fiquei-me pelo que “pessoalmente, eu acredito” e pus uma roupa confortável. Sentia a sua cabeça a pensar melhor que a minha e as suas escolhas invejavelmente mais acertivas.
Eu era uma amadora.
Dizem que só os números podem ser pares ou ímpares. Mas eu não sou japonesa e sempre me dei melhor com letras. E esta letrinha, todos sabem que é impar.
Conheço uma boa esteticista, se quiseres dou-te a morada.
Berros de garganta arranhada. Corada de calor interno. Flamejante. Não sabia onde colocar todas as noites de lágrimas e frases atabalhoadas, as manhãs preguiçosas de bolhas que sangram nos pés.
A sensação de impotência. Ela falava, com o seu buço por fazer, da desintegração social dos pobres. Expressão feita. Tão oportuna. Também queria ter um bigode e as sobrancelhas desalinhadas, nunca ter tido namorado e voltar para casa por saudades da família.
Mas passou. Fiquei-me pelo que “pessoalmente, eu acredito” e pus uma roupa confortável. Sentia a sua cabeça a pensar melhor que a minha e as suas escolhas invejavelmente mais acertivas.
Eu era uma amadora.
Dizem que só os números podem ser pares ou ímpares. Mas eu não sou japonesa e sempre me dei melhor com letras. E esta letrinha, todos sabem que é impar.
Conheço uma boa esteticista, se quiseres dou-te a morada.
31 enero 2008
os cantos
Revolta-me, é claro.
Eles perseguem-me, colam-se à minha cabeça, avassalam a minha imaginação. Torturam-me com aqueles sussurros amolecidos e olhares afeminados.
Mas a vingança aproxima-se. Vem com o seu manto de liberdade, espalhando a inveja de sorriso malicioso.
Não há mal nenhum em tal costume. Os jovens têm mesmo essa função e os cantos não têm outra utilidade. Olho para o meu quarto. Recheado de cantos desabitados.
Quero ir. As minhas pernas mexem-se sem que eu mande nelas. As pernas também são pessoas. Inferiores aos braços, é claro. Mas valem-se a si mesmas.
Elas querem andar. Até onde for preciso.
Afinal aqueles cantos, coitadinhos, não podem continuar tão abandonados.
Eles perseguem-me, colam-se à minha cabeça, avassalam a minha imaginação. Torturam-me com aqueles sussurros amolecidos e olhares afeminados.
Mas a vingança aproxima-se. Vem com o seu manto de liberdade, espalhando a inveja de sorriso malicioso.
Não há mal nenhum em tal costume. Os jovens têm mesmo essa função e os cantos não têm outra utilidade. Olho para o meu quarto. Recheado de cantos desabitados.
Quero ir. As minhas pernas mexem-se sem que eu mande nelas. As pernas também são pessoas. Inferiores aos braços, é claro. Mas valem-se a si mesmas.
Elas querem andar. Até onde for preciso.
Afinal aqueles cantos, coitadinhos, não podem continuar tão abandonados.
A senhora saiu
É branca, não há problema.
Vale só um Pai Nosso. Ou então uma Avé Maria, que ainda vale menos no bafo de vinho do padre curioso.
É como um dia de Inverno debaixo do cobertor e da página 153 do livro de lançamento. E toca o telefone. A empregada vem dizer, com pés de algodão, que amiga quer passar aqui. Talvez um chá com um bolinho, quem sabe. Só para pôr a conversa em dia. E ela, debaixo dos lençóis, com cara limpa de maquilhagem, diz no meio do cabelo desalinhado: “Diga que a Senhora saiu”.
Vale só um Pai Nosso. Ou então uma Avé Maria, que ainda vale menos no bafo de vinho do padre curioso.
É como um dia de Inverno debaixo do cobertor e da página 153 do livro de lançamento. E toca o telefone. A empregada vem dizer, com pés de algodão, que amiga quer passar aqui. Talvez um chá com um bolinho, quem sabe. Só para pôr a conversa em dia. E ela, debaixo dos lençóis, com cara limpa de maquilhagem, diz no meio do cabelo desalinhado: “Diga que a Senhora saiu”.
30 enero 2008
Nut.
Estava com olheiras, coitado. O truque dos três lugares no avião não tinha sido suficiente para comportar tamanho dispêndio de energia.
Gosto de reparar como os seus olhos praticamente inexistentes brilham pela conexão transoceânica. Parece que a voz mudou, não sei. Já não me lembrava como eram bonitas as suas mãos. Hoje estão diferentes. Dinâmicas, controladas, com o ritmo de uma fila que virava o quarteirão.
Surreal Que grande noite.
Uma noite que durou um dia, ou mais. Foi uma vida e uma morte anunciada pela companhia telefónica. Foram choros e gritos e mensagens cheias de estrelas. Risos e gargalhadas derretidas. Carinhos electrónicos.
Mas depois chegou o electricista e a história mudou. Ele apareceu no meio dos olhares curiosos no metro e deu-lhes uma nota para a mão. Cortou a noite do aeroporto. Subornou as horas de sono. Já não interessava o comboio, o metro, a morte ou a ressurreiçao. Para que falar do público, dos gritos ou do mullet cor-de-rosa?
Ele veio lá de longe, do meio da neve, com a sua casa de guitarras e amigos estrangeiros. A discoteca foi na cozinha e o dinheiro não foi problema.
Abraçou-os. Contou dos pais, das viagens e como a esperteza vale mais que um diploma. Chamam-lhe Nut. “Now I understand why” disse o amigo que abusou do ginásio.
Gosto de reparar como os seus olhos praticamente inexistentes brilham pela conexão transoceânica. Parece que a voz mudou, não sei. Já não me lembrava como eram bonitas as suas mãos. Hoje estão diferentes. Dinâmicas, controladas, com o ritmo de uma fila que virava o quarteirão.
Surreal Que grande noite.
Uma noite que durou um dia, ou mais. Foi uma vida e uma morte anunciada pela companhia telefónica. Foram choros e gritos e mensagens cheias de estrelas. Risos e gargalhadas derretidas. Carinhos electrónicos.
Mas depois chegou o electricista e a história mudou. Ele apareceu no meio dos olhares curiosos no metro e deu-lhes uma nota para a mão. Cortou a noite do aeroporto. Subornou as horas de sono. Já não interessava o comboio, o metro, a morte ou a ressurreiçao. Para que falar do público, dos gritos ou do mullet cor-de-rosa?
Ele veio lá de longe, do meio da neve, com a sua casa de guitarras e amigos estrangeiros. A discoteca foi na cozinha e o dinheiro não foi problema.
Abraçou-os. Contou dos pais, das viagens e como a esperteza vale mais que um diploma. Chamam-lhe Nut. “Now I understand why” disse o amigo que abusou do ginásio.
24 enero 2008
Elgydium
Às vezes tenho dificuldade em dizer certas palavras.
Apercebi-me disso hoje.
Talvez seja mais do que isso.
Sinto que as palavras não podem expressar realmente aquilo que sentimos. Essa tal palavra. Aquele cliché que vem no fim do sms e que até tem abreviatura. (Será que quando vem abreviada é porque o sentimento também abreviou? Será que a escolha do “s” ou do “x” faz alguma diferença?)
A abreviatura consonântica que me faz ranger os dentes. Porque dizê-la sempre no fim da conversa, como ritual sagrado e vazio?
Não quero ser o Garra anti-sistema, anti regras sociais pré-estabelecidas. Quero perceber se aquela sensação de frescura, de publicidade televisiva com direito a seguro para os dentes, é o significado deste cliché tão cibernético.
A palavra leva consigo aquele gostinho remanescente a hortelã? O apertar que não deixa marcas? O bico que não entope?
Porque se sim, e se o mundo estiver do meu lado, descobri finalmente o significado de mais um cliché detestável.
E deixo-o aqui, bem no fim deste post.
Sdds
Apercebi-me disso hoje.
Talvez seja mais do que isso.
Sinto que as palavras não podem expressar realmente aquilo que sentimos. Essa tal palavra. Aquele cliché que vem no fim do sms e que até tem abreviatura. (Será que quando vem abreviada é porque o sentimento também abreviou? Será que a escolha do “s” ou do “x” faz alguma diferença?)
A abreviatura consonântica que me faz ranger os dentes. Porque dizê-la sempre no fim da conversa, como ritual sagrado e vazio?
Não quero ser o Garra anti-sistema, anti regras sociais pré-estabelecidas. Quero perceber se aquela sensação de frescura, de publicidade televisiva com direito a seguro para os dentes, é o significado deste cliché tão cibernético.
A palavra leva consigo aquele gostinho remanescente a hortelã? O apertar que não deixa marcas? O bico que não entope?
Porque se sim, e se o mundo estiver do meu lado, descobri finalmente o significado de mais um cliché detestável.
E deixo-o aqui, bem no fim deste post.
Sdds
22 enero 2008
Caixeiro Viajante
Narizes empinados no ar congelado dos espelhos. Labirintos de andares interrompidos e salas ocultas. O balançar embala o estômago satisfeito e faz o sol embelezar melhor.
Não caias, segura. Apoia-te a mim. Não há problema, estamos todos num desmoronar de camera lenta. O monumento do nosso orgulho desaba aos poucos, como prédio de Veneza inundado. Imagem patética.
Queria ser caixeiro-viajante. E ser feliz. Absorver as cores do Tango e as mãos que saem da areia, dizer um bom giorno e um buon dia e causar sorrisos derretidos. Estão a cair os muros e eu só precisava de um pouquinho mais de cimento.
Não é mão-de-obra que falta, não. É dificuldade de equilíbrio no abanar do navio em alto mar. São 3mil pessoas. Só uma se aguenta.
O comandante fala um italiano tímido e diz por trás da sua fortaleza. Eu consegui. O balançar não me afecta mais.
Jornalistas, atentem! Preparem já o lead e punch final. O título é obvio.
“Caixeiro-viajante: a profissão do futuro”
Não caias, segura. Apoia-te a mim. Não há problema, estamos todos num desmoronar de camera lenta. O monumento do nosso orgulho desaba aos poucos, como prédio de Veneza inundado. Imagem patética.
Queria ser caixeiro-viajante. E ser feliz. Absorver as cores do Tango e as mãos que saem da areia, dizer um bom giorno e um buon dia e causar sorrisos derretidos. Estão a cair os muros e eu só precisava de um pouquinho mais de cimento.
Não é mão-de-obra que falta, não. É dificuldade de equilíbrio no abanar do navio em alto mar. São 3mil pessoas. Só uma se aguenta.
O comandante fala um italiano tímido e diz por trás da sua fortaleza. Eu consegui. O balançar não me afecta mais.
Jornalistas, atentem! Preparem já o lead e punch final. O título é obvio.
“Caixeiro-viajante: a profissão do futuro”
09 enero 2008
precariamente Noite
Noite.
Noite vagabunda, irresponsável, secreta.
Vivo e respiro para ela. Para aqueles arrepios escondidos debaixo do cobertor. A luz artificial que faz brilhar os momentos históricos de revelações estonteantes. O zumbido constante intercalados com o soluçar da máquina. Melodia nostálgica de situações precárias.
Os minutos arrastam-se no seu vagar preguiçoso. As horas, diamantes lapidados na perfeição. Vem, chega rápido. Pingos de águas caem do tecto e a tortura começa a ensandecer-me.
Já está quase ai, tem calma.
Imagino, com sorriso desbotado a pauta do dia. As risadas e as trevas, o esconder e o proibido. Talvez um ensaio do grande clímax. Não, talvez precise arranjar o cabelo, ou aprontar o quarto.
O melhor é ver se está tudo a funcionar.
Já vejo estrelas.
Parece que hoje não haverá Noite.
Noite vagabunda, irresponsável, secreta.
Vivo e respiro para ela. Para aqueles arrepios escondidos debaixo do cobertor. A luz artificial que faz brilhar os momentos históricos de revelações estonteantes. O zumbido constante intercalados com o soluçar da máquina. Melodia nostálgica de situações precárias.
Os minutos arrastam-se no seu vagar preguiçoso. As horas, diamantes lapidados na perfeição. Vem, chega rápido. Pingos de águas caem do tecto e a tortura começa a ensandecer-me.
Já está quase ai, tem calma.
Imagino, com sorriso desbotado a pauta do dia. As risadas e as trevas, o esconder e o proibido. Talvez um ensaio do grande clímax. Não, talvez precise arranjar o cabelo, ou aprontar o quarto.
O melhor é ver se está tudo a funcionar.
Já vejo estrelas.
Parece que hoje não haverá Noite.
04 enero 2008
pensamento rebelde
É como se de repente a corda se rompesse, o vidro rachasse e a cegonha caísse.
A voz se exalta e o ardor dos olhos começa a incomodar.
Já não há como discorrer pensamentos neste raciocínio travado. A cabeça respira um batimento cardíaco nervoso e a boca contém-se, costurada pela educação de anos.
Dizem que nos podam. Eu diria que costuram as nossas acções.
Pensamento rebelde, arisco, matreiro. Mas na hora, no xis do momento em que o timbre irá ousar e a língua se sujar, a boca retrai-se com o sal da água. Resseca, foge, esconde-se entre os dentes de cáries de doces comidos às escondidas.
E ai surge o sorriso esmaltado. O brilho cínico. “É melhor reflectires”.
Mais uma vez de volta aos pensamentos.
Desperdiçaste a tua chance.
Cobarde.
A voz se exalta e o ardor dos olhos começa a incomodar.
Já não há como discorrer pensamentos neste raciocínio travado. A cabeça respira um batimento cardíaco nervoso e a boca contém-se, costurada pela educação de anos.
Dizem que nos podam. Eu diria que costuram as nossas acções.
Pensamento rebelde, arisco, matreiro. Mas na hora, no xis do momento em que o timbre irá ousar e a língua se sujar, a boca retrai-se com o sal da água. Resseca, foge, esconde-se entre os dentes de cáries de doces comidos às escondidas.
E ai surge o sorriso esmaltado. O brilho cínico. “É melhor reflectires”.
Mais uma vez de volta aos pensamentos.
Desperdiçaste a tua chance.
Cobarde.
Sim
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Ricardo Reis
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Ricardo Reis
28 diciembre 2007
533 mil
Está tão perto.
Vejo-o ali, depois do terceiro buraco à esquerda. Cuidado para não cair.
Está tão perto que me suga como um aspirador de folhas das experiências científicas. Olha-me com um sorriso tentador. Uma prostituta eterna.
Vicias-me em ti e nas tuas promessas de amanhã. De uma vida passada que foi e não volta e que afinal não era assim tão apetitosa como o bolinho de carne e o molho de tomate. Ou talvez fosse até melhor. Um melhor mais açucarado, com mais gosto de uma cozinha de calorias baixas e bolachas integrais com água.
Tentas-me como se de um sonho de tratasse. Como se a cortina laranja e as almofadas coloridas me trouxessem um conforto extraviado que na verdade de perdeu na indelével inconsistência da plenitude.
Pára de me enganar seu chulo comedor de mentes.
Eu bem sei que não estas assim tão perto.
Ainda faltam alcançar muitos longes pra esse perto se aproximar.
A prefeitura diz que fecha 553 mil buracos por ano.
Vem daí a fama dos políticos
Vejo-o ali, depois do terceiro buraco à esquerda. Cuidado para não cair.
Está tão perto que me suga como um aspirador de folhas das experiências científicas. Olha-me com um sorriso tentador. Uma prostituta eterna.
Vicias-me em ti e nas tuas promessas de amanhã. De uma vida passada que foi e não volta e que afinal não era assim tão apetitosa como o bolinho de carne e o molho de tomate. Ou talvez fosse até melhor. Um melhor mais açucarado, com mais gosto de uma cozinha de calorias baixas e bolachas integrais com água.
Tentas-me como se de um sonho de tratasse. Como se a cortina laranja e as almofadas coloridas me trouxessem um conforto extraviado que na verdade de perdeu na indelével inconsistência da plenitude.
Pára de me enganar seu chulo comedor de mentes.
Eu bem sei que não estas assim tão perto.
Ainda faltam alcançar muitos longes pra esse perto se aproximar.
A prefeitura diz que fecha 553 mil buracos por ano.
Vem daí a fama dos políticos
27 diciembre 2007
rolha de Natal
Todos temos aquele primo que está acima do peso e o outro que nunca se deu bem na escola. O anti-social e o que todos suspeitam (ou já suspeitaram) ser gay. Aquela tia que quando éramos pequenos dos dava os melhores presentes e chocolates e que agora “pois, está bem”. O tio afastado que nos faz rir e pensar “quem sabe eu tenha alguns dos seus genes”.
Não dá para evitar aquele pai que conta sempre as mesmas histórias e que queríamos tanto que tivesse rebolado mais connosco na relva. Uma mãe menos espalhafatosa, um irmão que fosse um pouquinho menos genial.
Não há como maquilhar.
Mas há um dia. Um dia só - que às vezes se traduz em alguns segundos fugazes - em que não trocávamos por nada os erros de português da avó estrangeira, nem as risadas barulhentas da prima do tio que veio por acaso. É nesse dia, no meio dos doces desmilinguidos e dos cacos de vidro no chão, que os oito mil quilómetros compensam. Culminam numa euforia de presentes, videogames antigos, de pistas, elogios e quilos de flashes fotográficos.
Este ano, levei com a rolha do champanhe na cabeça. Dizem que dá boa sorte. Eu digo que é mais um galo a cantar de madrugada.
Não dá para evitar aquele pai que conta sempre as mesmas histórias e que queríamos tanto que tivesse rebolado mais connosco na relva. Uma mãe menos espalhafatosa, um irmão que fosse um pouquinho menos genial.
Não há como maquilhar.
Mas há um dia. Um dia só - que às vezes se traduz em alguns segundos fugazes - em que não trocávamos por nada os erros de português da avó estrangeira, nem as risadas barulhentas da prima do tio que veio por acaso. É nesse dia, no meio dos doces desmilinguidos e dos cacos de vidro no chão, que os oito mil quilómetros compensam. Culminam numa euforia de presentes, videogames antigos, de pistas, elogios e quilos de flashes fotográficos.
Este ano, levei com a rolha do champanhe na cabeça. Dizem que dá boa sorte. Eu digo que é mais um galo a cantar de madrugada.
20 diciembre 2007
19 diciembre 2007
não estavas...
Acordei com os ponteiros ao contrário. O horário media umas horas estranhas e as ramelas desprendiam-se so-no-len-ta-men-te do cantinho dos olhos. Caiam águas despertadas na almofada e aquele grito de pássaro denunciava o sol. Quando abri os olhos vi fantasmas a passearem-se no quarto. Falavam comigo na língua das preguiças e afofavam a almofada para descansar melhor. Pescava sonhos acordados de olhos quase epilépticos, quase despretenciosamente reais.
À esquerda a parede. Faz figas, rezas e macumbas. Espreme as rugas da cara.
Mas à direita estava o cobertor de leopardo e o lenço perfumado.
Mais uma vez um sonho.
Quem sabe um dia tudo volte a ser real.
À esquerda a parede. Faz figas, rezas e macumbas. Espreme as rugas da cara.
Mas à direita estava o cobertor de leopardo e o lenço perfumado.
Mais uma vez um sonho.
Quem sabe um dia tudo volte a ser real.
14 diciembre 2007
Ladra de palavras
Há pessoas que chegam e brilham.
Elas aparecem com o seu jeitinho de pai natal disfarçado, gesticulam e aumentam o volume da casa.
Fazem os sorrisos adormecerem nos lábios e todos quererem ficar para tomar mais uma caneca de chá.
Ela é assim. Abraça-me com o seu ar de praia e deixa escapar do seu rosto redondinho “que saudades”.
Como não se render à sua gargalhada tosca e ao seu jeito de dizer “acho que estas muito magra”? Ela “acha” sempre alguma coisa.
Valeu lhe a opinião neste mundo de viagens e mudanças de rota. Na vida da discriminação acentual. Ela e o seu charme genuíno que conquista a senhora das revistas, o moço da farmácia e o secretário do medico. Ela também já foi disso e, na verdade, já foi de tudo. Nunca se achou.
Preferiu fingir-se de perdida numa família cheia de mapas e direcções. Agitar o ritmo desta casa sem música e cheia de “a conjuntura do país está visivelmente favorável”. Ela não gosta dessas coisas nem do telejornal pois “passa na hora da minha novela”. Mas ensina à filha pequena: “é preciso ver novela para depois estares dentro das conversas”.
No seu mundo fala-se de novela das oito e da coitada da Karen Maria que foi traída pelo Mário Roberto. “Um absurdo!”. Por cá também. As fofocas vão desde o Tratado Lisboa à cassação do Kassab. Inaceitável.
Era esse brilho de decibéis intoleráveis de que estava a faltar. Esses que fazem tatuagem na cabeça e olhares melancólicos.
E ontem ainda teve a audácia de me dizer do nada “Sem a ti a casa não tem graça nenhuma”.
Elas aparecem com o seu jeitinho de pai natal disfarçado, gesticulam e aumentam o volume da casa.
Fazem os sorrisos adormecerem nos lábios e todos quererem ficar para tomar mais uma caneca de chá.
Ela é assim. Abraça-me com o seu ar de praia e deixa escapar do seu rosto redondinho “que saudades”.
Como não se render à sua gargalhada tosca e ao seu jeito de dizer “acho que estas muito magra”? Ela “acha” sempre alguma coisa.
Valeu lhe a opinião neste mundo de viagens e mudanças de rota. Na vida da discriminação acentual. Ela e o seu charme genuíno que conquista a senhora das revistas, o moço da farmácia e o secretário do medico. Ela também já foi disso e, na verdade, já foi de tudo. Nunca se achou.
Preferiu fingir-se de perdida numa família cheia de mapas e direcções. Agitar o ritmo desta casa sem música e cheia de “a conjuntura do país está visivelmente favorável”. Ela não gosta dessas coisas nem do telejornal pois “passa na hora da minha novela”. Mas ensina à filha pequena: “é preciso ver novela para depois estares dentro das conversas”.
No seu mundo fala-se de novela das oito e da coitada da Karen Maria que foi traída pelo Mário Roberto. “Um absurdo!”. Por cá também. As fofocas vão desde o Tratado Lisboa à cassação do Kassab. Inaceitável.
Era esse brilho de decibéis intoleráveis de que estava a faltar. Esses que fazem tatuagem na cabeça e olhares melancólicos.
E ontem ainda teve a audácia de me dizer do nada “Sem a ti a casa não tem graça nenhuma”.
09 diciembre 2007
tudo
A cabeça lateja uma dor traiçoeira de mais uma noite pensativa. Sonambolei no corredor sem saber o que fazer, perdida na casa do chão de pedra e nos gritos do bem-te-vi.
Esbarraste em mim.
Tropeçaste naquele mundo só meu de lágrimas de alegria e voz de rapariga durona. Escondeste-te no meu bolso com cuidado para não ficar com os pés de fora.
Sorrias sempre que eu me enganava, me esquecia ou fazia uma rabugisse imperdoável. Perdoavas. De olhos espremidos e certezas asseguradas.
Só não podia haver próxima vez.
Nunca houve.
Porque no dia seguinte viviam-se ressacas de embriaguez sentimental, de sussurros nocturnos em areais semi-iluminados.
Mas fui te alimentando e deixando-te pesado. Gordo de churros com doce de leite, balas de goma e gelado com cobertura de chocolate. Reclamavas de frio nos pés e que o vento deixava o teu cabelo despenteado.
O bolso rasgava-se, como a borboleta preta a sobrevoar a cozinha. Costurei, reforcei, três e quatro pontos duplos. Nada.
Enganei-me.
Queria dizer, tudo.
Esbarraste em mim.
Tropeçaste naquele mundo só meu de lágrimas de alegria e voz de rapariga durona. Escondeste-te no meu bolso com cuidado para não ficar com os pés de fora.
Sorrias sempre que eu me enganava, me esquecia ou fazia uma rabugisse imperdoável. Perdoavas. De olhos espremidos e certezas asseguradas.
Só não podia haver próxima vez.
Nunca houve.
Porque no dia seguinte viviam-se ressacas de embriaguez sentimental, de sussurros nocturnos em areais semi-iluminados.
Mas fui te alimentando e deixando-te pesado. Gordo de churros com doce de leite, balas de goma e gelado com cobertura de chocolate. Reclamavas de frio nos pés e que o vento deixava o teu cabelo despenteado.
O bolso rasgava-se, como a borboleta preta a sobrevoar a cozinha. Costurei, reforcei, três e quatro pontos duplos. Nada.
Enganei-me.
Queria dizer, tudo.
04 diciembre 2007
Cai pulseira, cai
Toca telefone, toca.
Deito-me na cama num descansar hirto, numa postura séria de quem finge descontracção. Imagino como será a conversa.
Pergunto e respondo, com um ar superior, de quem irá ponderar o convite. Negoceio.
Há que saber dar-se valor.
Tenho de tomar cuidado para estar sempre com o aparelho em alerta. Talvez faça dele um acessório de moda, ou implante aqueles chips que se atendem com o dente.
Prioridade: ouvir o toque.
Já decidi que não vou mais a concertos, nem discotecas, nem pubs de música alta.
Atenção: o ouvido é o teu melhor órgão.
Toca telefone, toca.
Os dedos tremem no enviar. Formigas sobem-me pelo umbigo a cada chamada não atendida. “Eram eles, eu sei”.
Mas se fossem o destino estava apenas a brincar comigo. Este grande sábio que agora parece ser gay. Um dia disse que gostava de ter um filho homossexual. As pessoas riram-se.
Divago para não me lembrar que o meu olho direito está a piscar aqueles tremeliques que mais ninguém vê. Fujo para não ouvir mais uma vez a pergunta “já tocou?”
Mas, se um dia ele tocar, acho que vou guardar o toque para mim. E apenas os mais atentos irão notar. Porque o verdadeiro amigo repara quando a pulseira cai.
Deito-me na cama num descansar hirto, numa postura séria de quem finge descontracção. Imagino como será a conversa.
Pergunto e respondo, com um ar superior, de quem irá ponderar o convite. Negoceio.
Há que saber dar-se valor.
Tenho de tomar cuidado para estar sempre com o aparelho em alerta. Talvez faça dele um acessório de moda, ou implante aqueles chips que se atendem com o dente.
Prioridade: ouvir o toque.
Já decidi que não vou mais a concertos, nem discotecas, nem pubs de música alta.
Atenção: o ouvido é o teu melhor órgão.
Toca telefone, toca.
Os dedos tremem no enviar. Formigas sobem-me pelo umbigo a cada chamada não atendida. “Eram eles, eu sei”.
Mas se fossem o destino estava apenas a brincar comigo. Este grande sábio que agora parece ser gay. Um dia disse que gostava de ter um filho homossexual. As pessoas riram-se.
Divago para não me lembrar que o meu olho direito está a piscar aqueles tremeliques que mais ninguém vê. Fujo para não ouvir mais uma vez a pergunta “já tocou?”
Mas, se um dia ele tocar, acho que vou guardar o toque para mim. E apenas os mais atentos irão notar. Porque o verdadeiro amigo repara quando a pulseira cai.
03 diciembre 2007
o samba dos focas
As consoantes mudas estão encarceradas na mais longínqua prisão. O “tu” foi para o paredão de fuzilamento, junto com o “connosco”, o “negoceio”, o “autoclismo” e o “telemóvel”. A minha cabeça deixou de lado as sirenes de alerta que disparavam sempre que eu lia “ação”, “inadimplência” ou “ególatra”. Agora penso num sotaque neutro, cheio de “todo o mundo”, “legal”, “galera” e “ponto de ônibus”.
Esqueci de me apresentar. Mas é fácil. O Chico Ornellas costuma descrever a 18ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado da seguinte forma: “São trinta alunos. Quinze de São Paulo e quinze de fora. E uma estrangeira, a Marina, que veio de Portugal”. Essa sou eu.
“Portuguesa de araque”, me descreveu uma vez um foca. A brincadeira acabou por se tornar a minha mais perfeita definição. Brasileira-portuguesa ou portuguesa-brasileira? Depois desses três meses, prefiro deixar a resposta em branco.
Agora me parece tão distante o primeiro dia em que o Luiz Carlos Ramos nos disse: “Eu vou passar uma pauta para vocês.” E eu franzi a testa e pensei: “O que será que é uma pauta?”
Mas esse dia passou rápido. A família dos focas me acolheu e me pegou para criar. Com paciência e determinação me alfabetizaram a este país e esticaram os meus horizontes. Foram noites sem dormir pensando na matéria que tinha que entregar às 23:59, analisando os possíveis erros e repassando as dicas de texto e regras do manual.
Propaganda enganosa. Isto não é um curso, é uma familia-escola. A forca e o chicote pendurados na sala, bem tentam amedrontar os focas mais ingênuos. Mas bastaram alguns dias para entendermos que na escola dos focas, a aprendizagem tem gosto de churrasco e noites de violão. Ritmo de samba-enredo cantado num bom paconhol.
Foi necessário atravessar o oceano para conhecer o meu vizinho Paco Sanchez, o “pai” do já famoso paconhol, e aprender a importância de um texto ousado, porque afinal, “No pasa nada, e se pasa, que importa? E se importa, que pasa?”.
Agora o samba dos focas está chegando ao fim. Os meus pés continuam se mexendo freneticamente ao ritmo de 12 horas por dia de redação, sem fins-de-semana ou feriados. Ainda não sei sambar muito bem, mas uma coisa eu sei: Samba, que é samba, não tem compasso final. E foca, que é foca, nunca vai desistir de sambar.
Esqueci de me apresentar. Mas é fácil. O Chico Ornellas costuma descrever a 18ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado da seguinte forma: “São trinta alunos. Quinze de São Paulo e quinze de fora. E uma estrangeira, a Marina, que veio de Portugal”. Essa sou eu.
“Portuguesa de araque”, me descreveu uma vez um foca. A brincadeira acabou por se tornar a minha mais perfeita definição. Brasileira-portuguesa ou portuguesa-brasileira? Depois desses três meses, prefiro deixar a resposta em branco.
Agora me parece tão distante o primeiro dia em que o Luiz Carlos Ramos nos disse: “Eu vou passar uma pauta para vocês.” E eu franzi a testa e pensei: “O que será que é uma pauta?”
Mas esse dia passou rápido. A família dos focas me acolheu e me pegou para criar. Com paciência e determinação me alfabetizaram a este país e esticaram os meus horizontes. Foram noites sem dormir pensando na matéria que tinha que entregar às 23:59, analisando os possíveis erros e repassando as dicas de texto e regras do manual.
Propaganda enganosa. Isto não é um curso, é uma familia-escola. A forca e o chicote pendurados na sala, bem tentam amedrontar os focas mais ingênuos. Mas bastaram alguns dias para entendermos que na escola dos focas, a aprendizagem tem gosto de churrasco e noites de violão. Ritmo de samba-enredo cantado num bom paconhol.
Foi necessário atravessar o oceano para conhecer o meu vizinho Paco Sanchez, o “pai” do já famoso paconhol, e aprender a importância de um texto ousado, porque afinal, “No pasa nada, e se pasa, que importa? E se importa, que pasa?”.
Agora o samba dos focas está chegando ao fim. Os meus pés continuam se mexendo freneticamente ao ritmo de 12 horas por dia de redação, sem fins-de-semana ou feriados. Ainda não sei sambar muito bem, mas uma coisa eu sei: Samba, que é samba, não tem compasso final. E foca, que é foca, nunca vai desistir de sambar.
29 noviembre 2007
O futuro presente de um passado longínquo
Nunca fui boa com passados. Persiste em mim certa dificuldade de entender o que já foi e o que ainda é. O presente arrasta-se numa lentidão de sinais proibidos, de linhas brancas riscadas no chão, de compassos de espera em músicas electronicas.
E a cada recomeço é impossível apagar o que fica para trás.
Ele surge e volta e escapa-se do armário onde o tranquei. O bichinho rói a madeira e esquiva-se das ratoeiras. Esconde-se em caras conhecidas e sentimentos familiares.
O ano está a chegar ao fim.
Com ele as listas e as cores simbólicas, as prioridades e os objectivos.
E o que é futuro e o que é presente? O que é futuro passado no presente anterior? As ilusões e os sonhos rodopiam a cabeça. A lama do chão desliza e faz cair.
Papel e caneta. Teclado e tela branca. Vamos lá.
E a cada recomeço é impossível apagar o que fica para trás.
Ele surge e volta e escapa-se do armário onde o tranquei. O bichinho rói a madeira e esquiva-se das ratoeiras. Esconde-se em caras conhecidas e sentimentos familiares.
O ano está a chegar ao fim.
Com ele as listas e as cores simbólicas, as prioridades e os objectivos.
E o que é futuro e o que é presente? O que é futuro passado no presente anterior? As ilusões e os sonhos rodopiam a cabeça. A lama do chão desliza e faz cair.
Papel e caneta. Teclado e tela branca. Vamos lá.
25 noviembre 2007
direitos de autor
Planos equívocos em calendário incertos, dúvidas e ilusões que atormentam o pensamento. Os dias riscam-se e o relógio alerta: o futuro é um monstro sem face e violento.
Os meses rastejam numa agonia inesperada, remoem os órgãos e embaciam os cabelos. Os olhos, coitados, são os que mais sofrem. Eles e a sua visão futura incompleta.
O pensamento torna-se algo impuro. É difícil contornar suas viagens. A luz falha, seca e faz birra. Resiste. E hoje brilha num tom mais forte.
Todas as caras que vejo são dela. A luz que se esconde atrás das escadas, que grita por socorro com olhos de malária, que teima, teima, teima mas não pára.
Em cada dia e cada noite, o duelo se intensifica, os soldados se agridem e os heróis são condecorados.
Os mortos e os feridos recuperam-se. E as chamas permanecem ainda inabaladas.
Os meses rastejam numa agonia inesperada, remoem os órgãos e embaciam os cabelos. Os olhos, coitados, são os que mais sofrem. Eles e a sua visão futura incompleta.
O pensamento torna-se algo impuro. É difícil contornar suas viagens. A luz falha, seca e faz birra. Resiste. E hoje brilha num tom mais forte.
Todas as caras que vejo são dela. A luz que se esconde atrás das escadas, que grita por socorro com olhos de malária, que teima, teima, teima mas não pára.
Em cada dia e cada noite, o duelo se intensifica, os soldados se agridem e os heróis são condecorados.
Os mortos e os feridos recuperam-se. E as chamas permanecem ainda inabaladas.
24 noviembre 2007
Danguetis
Para ela nuguets é danguetis, self-service é servi-servi e nectarina é naftalina.
Todos já estamos habituados ao seu linguarejar atrapalhando, tropeçando nas palavras sem nunca cair. E quando, timidamente, a corrigimos, ela ri uma gargalhada profunda e balbucia em ritmo de tarantela. “É isso mesmo. É que eu não sei dizer direito”.
Ninguém resiste àquele rosto de menina que ainda está a aprender a viver, às birras de criança saída do berço, às manias aprendidas na televisão.
- Tchau. Estou indo.
E lá vem ela atrás de mim, num passo de pinguim apressado que reclama do calor e do frio.
- Pegou um casaco? E a maçã?
Foi assim que ela aprendeu a adaptar-se ao mundo. Fazendo da correria uma gigantesca rotina de obrigações e prazeres que desfilam diante de si.
- Já chegou? Ah é, você chega mais cedo na quinta-feira, né?
Não. Mas de que adianta contar-lhe que hoje o professor faltou, que o trabalho apertou ou que o cansaço bateu?
- Hoje é quinta, tem macarrão. Tá no forno é só aquecer.
Fala com os “pés para o alto” na sua posição de novela mexicana. Diz, despreocupadamente, como se acreditasse mesmo que eu seria capaz de aquecer sozinha o jantar. “Ah, deixa que eu aqueço, vai” acrescenta numa espontaneidade teatral em tom de mãe benevolente. E eu deixo sempre.
É então que me conta do calor e do frio. E do tio que se magoou e da tia que está velha. Detesta velhos. Logo ela que nunca se senta para comer “porque comer sentado engorda”.
- Já são dais, vou dormir.
- Dez, nonna.
E lá vem a gargalhada de novo. Com as bochechas rosadas e um abanar dos cabelos encaracolados.
-Amanhã é sexta. É o dia que você acorda cedo, né?
Buona notte. Sogni d'oro.
Todos já estamos habituados ao seu linguarejar atrapalhando, tropeçando nas palavras sem nunca cair. E quando, timidamente, a corrigimos, ela ri uma gargalhada profunda e balbucia em ritmo de tarantela. “É isso mesmo. É que eu não sei dizer direito”.
Ninguém resiste àquele rosto de menina que ainda está a aprender a viver, às birras de criança saída do berço, às manias aprendidas na televisão.
- Tchau. Estou indo.
E lá vem ela atrás de mim, num passo de pinguim apressado que reclama do calor e do frio.
- Pegou um casaco? E a maçã?
Foi assim que ela aprendeu a adaptar-se ao mundo. Fazendo da correria uma gigantesca rotina de obrigações e prazeres que desfilam diante de si.
- Já chegou? Ah é, você chega mais cedo na quinta-feira, né?
Não. Mas de que adianta contar-lhe que hoje o professor faltou, que o trabalho apertou ou que o cansaço bateu?
- Hoje é quinta, tem macarrão. Tá no forno é só aquecer.
Fala com os “pés para o alto” na sua posição de novela mexicana. Diz, despreocupadamente, como se acreditasse mesmo que eu seria capaz de aquecer sozinha o jantar. “Ah, deixa que eu aqueço, vai” acrescenta numa espontaneidade teatral em tom de mãe benevolente. E eu deixo sempre.
É então que me conta do calor e do frio. E do tio que se magoou e da tia que está velha. Detesta velhos. Logo ela que nunca se senta para comer “porque comer sentado engorda”.
- Já são dais, vou dormir.
- Dez, nonna.
E lá vem a gargalhada de novo. Com as bochechas rosadas e um abanar dos cabelos encaracolados.
-Amanhã é sexta. É o dia que você acorda cedo, né?
Buona notte. Sogni d'oro.
19 noviembre 2007
Bílis de lesma derretida
A incerteza come-me as costuras. Bichinho vagaroso, lesma indolente, apática, preguiçosa. Não se limita a roer o fio e a desfazer o nó. Claro que não. Lesma pateta, imbecil. Ela vai ao casulo e saboreia-o com água a escorrer-lhe pelos beiços.
A minha barriga ronca um enjoo intragável e o corpo verga-se numa angústia sonora de choro seco e dor pontiaguda.
Em rodopio a cabeça segue o exemplo e viaja em ruas esburacadas e em rios de asfalto com esgoto entupido. A culpa é do prefeito. Mais uma vez.
O pecado nunca é nosso. É da mão invisível que não nos tocou, é da oportunidade falha, da roupa mal escolhida, daquela piadinha que não pegou.
Sou pura bílis e lesma desfeita. Sinto-a a romper-me os tecidos, a fazer de mim sanfona popular.
Não caibo no armário porque está grande e está pequeno. Não consigo decidir com gordura efervescente a borbulhar-me a cabeça.
Acho que estou a entrar em erupção.
Perigo.
Saiam das vossas casas. A lava costuma desfazer lares, destruir cidades, corroer corpos humanos, um a um com um sorriso diabólico de satisfação.
Este é o último aviso.
A minha barriga ronca um enjoo intragável e o corpo verga-se numa angústia sonora de choro seco e dor pontiaguda.
Em rodopio a cabeça segue o exemplo e viaja em ruas esburacadas e em rios de asfalto com esgoto entupido. A culpa é do prefeito. Mais uma vez.
O pecado nunca é nosso. É da mão invisível que não nos tocou, é da oportunidade falha, da roupa mal escolhida, daquela piadinha que não pegou.
Sou pura bílis e lesma desfeita. Sinto-a a romper-me os tecidos, a fazer de mim sanfona popular.
Não caibo no armário porque está grande e está pequeno. Não consigo decidir com gordura efervescente a borbulhar-me a cabeça.
Acho que estou a entrar em erupção.
Perigo.
Saiam das vossas casas. A lava costuma desfazer lares, destruir cidades, corroer corpos humanos, um a um com um sorriso diabólico de satisfação.
Este é o último aviso.
17 noviembre 2007
O Colchão.
Ele chegou. Entrou pela porta, meio de lado, meio escondido naquela roupa nova que mais parecia um saco plástico.
Displicente, diriam por cá.
Até gostei do seu jeito meio durão de andar, do seu ar pesado e maduro.
Foi entrando e nem perguntou.
Agora está no seu altar de destaque, no pódio atractivo de olhares.
Tantas esperanças e expectativas. Imagino-me imersa numa banheira de perfume familiar, colorida no abraço macio daquele momento. A voar pelos pessegueiros, com areia a fazer cócegas nos pés. Quero-me num mundo de balas de goma e dores de barriga com lábios rasgados. Os pontos de exclaçao substituem os finais. E as interrogativas? Essas são festas no salão de jantar do Titanic.
Traz-me de volta os sonhos.
Por favor.
Displicente, diriam por cá.
Até gostei do seu jeito meio durão de andar, do seu ar pesado e maduro.
Foi entrando e nem perguntou.
Agora está no seu altar de destaque, no pódio atractivo de olhares.
Tantas esperanças e expectativas. Imagino-me imersa numa banheira de perfume familiar, colorida no abraço macio daquele momento. A voar pelos pessegueiros, com areia a fazer cócegas nos pés. Quero-me num mundo de balas de goma e dores de barriga com lábios rasgados. Os pontos de exclaçao substituem os finais. E as interrogativas? Essas são festas no salão de jantar do Titanic.
Traz-me de volta os sonhos.
Por favor.
15 noviembre 2007
Grândola
Estamos em guerra. Mais uma vez.
Escondam-se em vossas casas, activem os alarmes, tirem do baú aquele colete antigo à prova de balas.
Tiros e turbilhões de mensagens subliminares, vendavais de homens estendidos no chão e rios de sangue diante dos nossos pés. Não aquele sangue vermelho e brilhante, um sangue escuro, quase preto, quase de luto pela morte dos seus soldados.
A cera não é suficiente para proteger os tímpanos daqueles zumbidos ensurdecedores de tentação e luxúria. Quero falar e a voz não sai, o código morse parece-me tão pouco poético. Incerto e dúbio como linguagem construída para confundir os inimigos.
Em guerra é assim. O vencedor é quem resistir mais, quem matar com mais força e convicção os obstáculos que surgirem. E, às vezes, estamos tão próximos de morrer. O inimigo aparece, com falinhas mansas, e quase nos convence a darmos um tiro no próprio pé. Quase nos faz passar para o outro lado, desistir daquilo em que acreditamos.
E ultrapassada mais uma etapa, vem outra bomba, e outro um amigo morto em combate. Vem a falta de comida, a exaustão física. O caminho mais fácil está ali, nos outodoors de propaganda política, no sorriso dos casais recém formados.
Já não tenho família e escrevo todos os dias os meus princípios numa folha de papel para não me esquecer do que me trouxe até aqui.
Estou a chegar ao limite.
Quem sabe esteja na hora de desistir, ou talvez de invadir as rádios e pôr a tocar o “Grândola vila morena”.
“Eles também não tinham coragem.
Mas raptaram muitos entes queridos
E às tantas... já não dava”
Escondam-se em vossas casas, activem os alarmes, tirem do baú aquele colete antigo à prova de balas.
Tiros e turbilhões de mensagens subliminares, vendavais de homens estendidos no chão e rios de sangue diante dos nossos pés. Não aquele sangue vermelho e brilhante, um sangue escuro, quase preto, quase de luto pela morte dos seus soldados.
A cera não é suficiente para proteger os tímpanos daqueles zumbidos ensurdecedores de tentação e luxúria. Quero falar e a voz não sai, o código morse parece-me tão pouco poético. Incerto e dúbio como linguagem construída para confundir os inimigos.
Em guerra é assim. O vencedor é quem resistir mais, quem matar com mais força e convicção os obstáculos que surgirem. E, às vezes, estamos tão próximos de morrer. O inimigo aparece, com falinhas mansas, e quase nos convence a darmos um tiro no próprio pé. Quase nos faz passar para o outro lado, desistir daquilo em que acreditamos.
E ultrapassada mais uma etapa, vem outra bomba, e outro um amigo morto em combate. Vem a falta de comida, a exaustão física. O caminho mais fácil está ali, nos outodoors de propaganda política, no sorriso dos casais recém formados.
Já não tenho família e escrevo todos os dias os meus princípios numa folha de papel para não me esquecer do que me trouxe até aqui.
Estou a chegar ao limite.
Quem sabe esteja na hora de desistir, ou talvez de invadir as rádios e pôr a tocar o “Grândola vila morena”.
“Eles também não tinham coragem.
Mas raptaram muitos entes queridos
E às tantas... já não dava”
13 noviembre 2007
aquele vestido branco
É como aquele vestido branco no fundo do armário. Ele fica-me bem, a sério que fica. Até o meu pai gosta! Mas eu nunca o usei.
Não é que nunca o tenha usado mesmo. Usar do verbo usar. É que nunca lhe dei uso.
Ele tem um problema. (Já disse que me ficava bem?) É que não é lá muito oficial.
É comprido mas não o suficiente. Tem brilho, mas às vezes brilha demais. Ocasionalmente, aquelas costas abertas parecem-me um pouco desnecessárias.
E depois há o problema dos sapatos. Eu até poderia usar com aqueles meus sapatos brancos novos, mas nunca me apetece. Tenho vontade de comprar uns sapatos vermelhos e pôr um batom. Mas depois acho que não cai lá muito bem. Opto pelas sabrinas pretas e malinha a condizer a tira colo. Mas acabo sempre com a ideia de que é meio sem sal.
De facto, é apenas uma questão burocrática.
Mas na prática é tão mais complicado do que isso.
Passo noites a pensar naquele vestido branco. Em como desde o dia em que o experimentei na loja, tive a certeza de que seria meu. Eu sou bastante possessiva quando se trata de vestidos. Obriguei a senhora a prometer-me que não encomendaria mais nenhum vestido, porque queria que o meu fosse exclusivo. Cheguei até a voltar lá umas tantas vezes para me certificar que não havia vestidos brancos à venda. E nada. Senhora honesta, como já não se vê por ai.
Lembro-me também das vezes que o usei. Parecia perfeito. Todos elogiavam o meu vestido e a minha escolha. E eu sentia-me realizada. Queria pô-lo todos os dias e dizer ao mundo que era meu e só meu. Fazer ciúmes e snobar os outros.
Mas houve um dia em que a moda ditou: vestidos brancos? Totalmente fora.
E o vestido ficou ali, no fundo do armário à espera que um dia, quem sabe, possa torná-lo oficial novamente.
E, enquanto isso, torturo-me devagarinho cada vez que dou por mim a olhar para outros vestidos nas lojas de marca.
Não é que nunca o tenha usado mesmo. Usar do verbo usar. É que nunca lhe dei uso.
Ele tem um problema. (Já disse que me ficava bem?) É que não é lá muito oficial.
É comprido mas não o suficiente. Tem brilho, mas às vezes brilha demais. Ocasionalmente, aquelas costas abertas parecem-me um pouco desnecessárias.
E depois há o problema dos sapatos. Eu até poderia usar com aqueles meus sapatos brancos novos, mas nunca me apetece. Tenho vontade de comprar uns sapatos vermelhos e pôr um batom. Mas depois acho que não cai lá muito bem. Opto pelas sabrinas pretas e malinha a condizer a tira colo. Mas acabo sempre com a ideia de que é meio sem sal.
De facto, é apenas uma questão burocrática.
Mas na prática é tão mais complicado do que isso.
Passo noites a pensar naquele vestido branco. Em como desde o dia em que o experimentei na loja, tive a certeza de que seria meu. Eu sou bastante possessiva quando se trata de vestidos. Obriguei a senhora a prometer-me que não encomendaria mais nenhum vestido, porque queria que o meu fosse exclusivo. Cheguei até a voltar lá umas tantas vezes para me certificar que não havia vestidos brancos à venda. E nada. Senhora honesta, como já não se vê por ai.
Lembro-me também das vezes que o usei. Parecia perfeito. Todos elogiavam o meu vestido e a minha escolha. E eu sentia-me realizada. Queria pô-lo todos os dias e dizer ao mundo que era meu e só meu. Fazer ciúmes e snobar os outros.
Mas houve um dia em que a moda ditou: vestidos brancos? Totalmente fora.
E o vestido ficou ali, no fundo do armário à espera que um dia, quem sabe, possa torná-lo oficial novamente.
E, enquanto isso, torturo-me devagarinho cada vez que dou por mim a olhar para outros vestidos nas lojas de marca.
11 noviembre 2007
A caixa
Lembro-me de quando brincava às escondidas e o meu adversário entrava no quarto. Eu fechava os olhos, como se isso me tornasse invisível, e parava de respirar.
Ficava ali, de testa franzida e músculos paralisados, rezando para ser camaleão.
Quando vi aquela caixa, espremi os olhos, bem juntinhos, apertados e enrugados. E tenho a certeza que desapareci naquele momento.
Foi como se uma nuvem de ontem se misturasse dentro de hoje.
E o resultado era uma plenitude histérica.
O sorriso tinha barulho de borboletas e a barriga tremia junto com as pernas de dentes a brilhar. Não sei bem. Tinha todos os sentidos desorientados numa agonia de convulsões e espasmos escapatórios.
Era como se ali, dentro daquela caixa rasgada, pudesse encontrar a resposta.
Não podia mais esperar, era só dar um passo.
Mas tudo parecia tão surreal, como se uma corrente invisível me prendesse ao chão. Isto não me podia estar a acontecer. Eu nunca tive sorte nestas coisas. Belisquei-me.
O meu adversário saia do quarto. E eu sentia um calafrio de vitória a percorrer-me o corpo. Nunca fui boa a jogos. Não estava habituada a vencer.
Agora só faltava correr e gritar as palavras mágicas da felicidade infantil. Já tinha passado mentalmente o plano esquemático na minha cabeça. Estava decorado ao pormenor.
O primeiro passo era abrir os olhos.
Sai camaleão, mostra-te, faz-te forte, enfrenta o mundo.
Ficava ali, de testa franzida e músculos paralisados, rezando para ser camaleão.
Quando vi aquela caixa, espremi os olhos, bem juntinhos, apertados e enrugados. E tenho a certeza que desapareci naquele momento.
Foi como se uma nuvem de ontem se misturasse dentro de hoje.
E o resultado era uma plenitude histérica.
O sorriso tinha barulho de borboletas e a barriga tremia junto com as pernas de dentes a brilhar. Não sei bem. Tinha todos os sentidos desorientados numa agonia de convulsões e espasmos escapatórios.
Era como se ali, dentro daquela caixa rasgada, pudesse encontrar a resposta.
Não podia mais esperar, era só dar um passo.
Mas tudo parecia tão surreal, como se uma corrente invisível me prendesse ao chão. Isto não me podia estar a acontecer. Eu nunca tive sorte nestas coisas. Belisquei-me.
O meu adversário saia do quarto. E eu sentia um calafrio de vitória a percorrer-me o corpo. Nunca fui boa a jogos. Não estava habituada a vencer.
Agora só faltava correr e gritar as palavras mágicas da felicidade infantil. Já tinha passado mentalmente o plano esquemático na minha cabeça. Estava decorado ao pormenor.
O primeiro passo era abrir os olhos.
Sai camaleão, mostra-te, faz-te forte, enfrenta o mundo.
Lusa
Eram sentimentos desnorteados, que caminhavam sem rumo pela cabeça latejante.
Uma vontade de fugir.
Chega ao quarto, pega na tua mala, enfia uma roupa qualquer (porque naquele mundo não é preciso secador nem duas calças de ganga) e não te esqueças do chapéu. Puxa as rodas e não ligues ao trolitar que fazem no passeio rasgado. Já estão habituados.
Não precisas disto, nem do sorriso forçado. Não precisas sentar e observar que não é ali o teu mundo. Basta correres até o ar ofegante te faltar. O movimento é simples. E se vires o mar, nada. Para que serviram 15 anos de aulas de natação?
Mas ali havia surpresas de passeios matinais, músicas novas decoradas ao descaso, bolo e balões que surgiam com bebidas flamejantes.
Havia o dormir despreocupado, as greves da faculdade, o intercâmbio aos doze anos, o movimento sem terra. O sol que batia devagarinho na pele branca e contava aventuras de adolescentes inconsequentes, confissões de estudantes excluídos.
Havia as mentiras e as discórdias, os dramas e o deixa andar.
E enquanto a certeza continuar a escapar-me pelos dedos, vou saltar em concertos electrónicos, comer quitutes australianos e conhecer a lojinha do senhor Fernandes.
- E ai Lusa? Não vai comprar nada?
Uma vontade de fugir.
Chega ao quarto, pega na tua mala, enfia uma roupa qualquer (porque naquele mundo não é preciso secador nem duas calças de ganga) e não te esqueças do chapéu. Puxa as rodas e não ligues ao trolitar que fazem no passeio rasgado. Já estão habituados.
Não precisas disto, nem do sorriso forçado. Não precisas sentar e observar que não é ali o teu mundo. Basta correres até o ar ofegante te faltar. O movimento é simples. E se vires o mar, nada. Para que serviram 15 anos de aulas de natação?
Mas ali havia surpresas de passeios matinais, músicas novas decoradas ao descaso, bolo e balões que surgiam com bebidas flamejantes.
Havia o dormir despreocupado, as greves da faculdade, o intercâmbio aos doze anos, o movimento sem terra. O sol que batia devagarinho na pele branca e contava aventuras de adolescentes inconsequentes, confissões de estudantes excluídos.
Havia as mentiras e as discórdias, os dramas e o deixa andar.
E enquanto a certeza continuar a escapar-me pelos dedos, vou saltar em concertos electrónicos, comer quitutes australianos e conhecer a lojinha do senhor Fernandes.
- E ai Lusa? Não vai comprar nada?
28 octubre 2007
Vais?
Não era ele.
Nem a maneira como se baixava para me cumprimentar com um beijo na testa.
Não era ele.
Nem as caretas que fazia quando não gostava da comida.
Não era ele nem a sua mania irritante de querer pagar sempre a conta, levar sempre a mochila, conduzir sempre o carro e aconchegar-me no seu abraço.
Acho que era eu.
Com os pés no vidro do carro e o cabelo despenteado. A cantar canções convencionais em ritmos exóticos.
- Vais?
- Então vamos.
Era a maneira como íamos.
A flutuar por cima da vulgaridade.
E agora resta-nos navegar pelos oceanos satelitais. Procurar desesperadamente uma costa. Chorar com o Wilson desbotado.
Não era ele. E agora acho que também não era eu. Talvez tenha sido um erro de cálculo. Um clone que apareceu naquela Fosters à beira mar.
- Vais?
- Queria tanto poder ir também.
Nem a maneira como se baixava para me cumprimentar com um beijo na testa.
Não era ele.
Nem as caretas que fazia quando não gostava da comida.
Não era ele nem a sua mania irritante de querer pagar sempre a conta, levar sempre a mochila, conduzir sempre o carro e aconchegar-me no seu abraço.
Acho que era eu.
Com os pés no vidro do carro e o cabelo despenteado. A cantar canções convencionais em ritmos exóticos.
- Vais?
- Então vamos.
Era a maneira como íamos.
A flutuar por cima da vulgaridade.
E agora resta-nos navegar pelos oceanos satelitais. Procurar desesperadamente uma costa. Chorar com o Wilson desbotado.
Não era ele. E agora acho que também não era eu. Talvez tenha sido um erro de cálculo. Um clone que apareceu naquela Fosters à beira mar.
- Vais?
- Queria tanto poder ir também.
26 octubre 2007
minhocas
Tenho um problema.
Um dia acordo assim, e outro acordo coisa e tal.
Um momento estou okay e no próximo nhénhénhé.
Chamo-lhe minhocas.
Esses bichos de léxico divertido, que gosmam as nossas cabeças.
Lentos esses animais. Custam a sair.
Está ali a porta, vai, adeus, não te quero mais ver.
Mas são vaidosas. Gostam de mostrar o seu físico, toda a sua envoltura, a sua pele transpirada, o ar crocante e o seu cheiro de terra apodrecida.
Orgulham-se disso, coitadas.
Sensíveis elas. Não lhes ouses tocar enquanto desfilam a sua marcha territorial. Não as atices.
Quando ficam nervosas expelem água salgada e cuspe acumulado. Dão enxaquecas e pedem lenços de papel.
O melhor é tratar delas com carinho.
As minhocas esticam e fazem crescer. E se tivéssemos centopeias?
Um dia acordo assim, e outro acordo coisa e tal.
Um momento estou okay e no próximo nhénhénhé.
Chamo-lhe minhocas.
Esses bichos de léxico divertido, que gosmam as nossas cabeças.
Lentos esses animais. Custam a sair.
Está ali a porta, vai, adeus, não te quero mais ver.
Mas são vaidosas. Gostam de mostrar o seu físico, toda a sua envoltura, a sua pele transpirada, o ar crocante e o seu cheiro de terra apodrecida.
Orgulham-se disso, coitadas.
Sensíveis elas. Não lhes ouses tocar enquanto desfilam a sua marcha territorial. Não as atices.
Quando ficam nervosas expelem água salgada e cuspe acumulado. Dão enxaquecas e pedem lenços de papel.
O melhor é tratar delas com carinho.
As minhocas esticam e fazem crescer. E se tivéssemos centopeias?
24 octubre 2007
naquele dia
Ele é assim. Imprevisível.
Um dia estava em casa e tinha acabado de tirar o pijama.
Ele apareceu.
Disse que estava decidido. Que lá íamos nós em busca de aventuras ciganas.
Eram muitas horas naquele carro emprestado. Que bom, pensei. Mais tempo para conversar. E ali falou-se de tudo.
- Mas eu não gosto dessa música.
E a próxima era pior, e pior, e pior. E lá fomos nós entre fofocas e inutilidades. Entre vidas alheias e memórias reveladoras. É sempre bom conversar enquanto o sol aquece o dia e a água rochosa.
E o assunto nunca faltava. Já não havia carro e a areia entrava pelas dobradiças do corpo e fazia crek crek.
Não havia professores, nem nota final. Não havia inquisição e nem censura e ali , no fim do mundo, podíamos dizer aquilo que quiséssemos.
E depois de um comentário qualquer sobre uma qualquer coisa inútil e insignificante, caímos na risada.
Gargalhadas de lágrimas e dores de barriga. Sorrisos que fazem sangue nos lábios de cieiro e que incomodam os vizinhos de toalha. Rebolamos em pensamentos hilariantes e viajámos pelos comediantes mais conceituados.
E, no fim, entre gargalhadas que rebentavam com as ondas e tentativas desesperadas de respirar, disse:
“Mas o que é que eu faço a um miúdo como tu?”
E ele respondeu, de olhos brilhantes.
“Amas”.
Um dia estava em casa e tinha acabado de tirar o pijama.
Ele apareceu.
Disse que estava decidido. Que lá íamos nós em busca de aventuras ciganas.
Eram muitas horas naquele carro emprestado. Que bom, pensei. Mais tempo para conversar. E ali falou-se de tudo.
- Mas eu não gosto dessa música.
E a próxima era pior, e pior, e pior. E lá fomos nós entre fofocas e inutilidades. Entre vidas alheias e memórias reveladoras. É sempre bom conversar enquanto o sol aquece o dia e a água rochosa.
E o assunto nunca faltava. Já não havia carro e a areia entrava pelas dobradiças do corpo e fazia crek crek.
Não havia professores, nem nota final. Não havia inquisição e nem censura e ali , no fim do mundo, podíamos dizer aquilo que quiséssemos.
E depois de um comentário qualquer sobre uma qualquer coisa inútil e insignificante, caímos na risada.
Gargalhadas de lágrimas e dores de barriga. Sorrisos que fazem sangue nos lábios de cieiro e que incomodam os vizinhos de toalha. Rebolamos em pensamentos hilariantes e viajámos pelos comediantes mais conceituados.
E, no fim, entre gargalhadas que rebentavam com as ondas e tentativas desesperadas de respirar, disse:
“Mas o que é que eu faço a um miúdo como tu?”
E ele respondeu, de olhos brilhantes.
“Amas”.
21 octubre 2007
Memórias de Emília, 1936, Monteiro Lobato
"...a vida, Senhor Visconde, é um pisca - pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.Um rosário de piscadas.
Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"
18 octubre 2007
Rumo a leste
Há coisas penduradas no meu armário.
São como precipícios materiais, abismos consumistas, pontos de interrogação por concluir.
Elas estão ali, suspensas, como se eternamente à espera de um apoio.
De cabeça para baixo, com os pés colados no tecto o cabelo fica despenteado. Ninguém gosta de parecer desleixada. A roupa vai caindo e o corpo se mostrando arrepiado, trémulo, inerte e liso neste mapa assustado de sonhos.
Os cabides servem para isso.
Suspendem os objectos e confrontam-no com o pior da vida.
Todos nós temos vertigens. Todos temos mais do que cinco quilos de sangue a girar pelo corpo.
É inconsolável abrir o armário. A tosse vem com o pó dos objectos esquecidos e as lágrimas pastosas caem por cima das promessas e alvos.
Tudo ali, pendurado. Á espera de um juízo final.
Desfazer-se em cinzas. Encontrar um dono que o pegue ao colo e o leve a passear. Talvez em direcção a leste.
São como precipícios materiais, abismos consumistas, pontos de interrogação por concluir.
Elas estão ali, suspensas, como se eternamente à espera de um apoio.
De cabeça para baixo, com os pés colados no tecto o cabelo fica despenteado. Ninguém gosta de parecer desleixada. A roupa vai caindo e o corpo se mostrando arrepiado, trémulo, inerte e liso neste mapa assustado de sonhos.
Os cabides servem para isso.
Suspendem os objectos e confrontam-no com o pior da vida.
Todos nós temos vertigens. Todos temos mais do que cinco quilos de sangue a girar pelo corpo.
É inconsolável abrir o armário. A tosse vem com o pó dos objectos esquecidos e as lágrimas pastosas caem por cima das promessas e alvos.
Tudo ali, pendurado. Á espera de um juízo final.
Desfazer-se em cinzas. Encontrar um dono que o pegue ao colo e o leve a passear. Talvez em direcção a leste.
17 octubre 2007
chocolate
Somos todos estrangeiros, forasteiros, fugitivos de vidas monótonas.
Somos errantes, cobardes desta agonia simplificante.
Talvez todos não. Apenas aqueles que vêm na odisseia uma possibilidade de vida. Aqueles que nunca acham que chegou a hora.
Caracóis itinerantes e curiosos, cujas barreiras são o horizonte inatingível.
Começar de novo está tatuado no nosso corpo, é expelido, pingante, dos nossos poros.
O primeiro dia, o primeiro passo, a primeira letra da página em branco.
E aquela mulher, de olhos de vidro, que investe em nós partículas do seu corpo. Que acredita (e não que diz acreditar) que um dia também nós doaremos os olhos a uma causa.
Ao apagar, limpar, seleccionar. Ao enviar, ver e controlar para que nada escape pela visão fixa de um órgão perdido. E no fim, todos vão criticar. Editar, melhorar, corrigir.
Mas ela só tem um olho. E para os seus óculos a vida nunca foi doce.
Somos errantes, cobardes desta agonia simplificante.
Talvez todos não. Apenas aqueles que vêm na odisseia uma possibilidade de vida. Aqueles que nunca acham que chegou a hora.
Caracóis itinerantes e curiosos, cujas barreiras são o horizonte inatingível.
Começar de novo está tatuado no nosso corpo, é expelido, pingante, dos nossos poros.
O primeiro dia, o primeiro passo, a primeira letra da página em branco.
E aquela mulher, de olhos de vidro, que investe em nós partículas do seu corpo. Que acredita (e não que diz acreditar) que um dia também nós doaremos os olhos a uma causa.
Ao apagar, limpar, seleccionar. Ao enviar, ver e controlar para que nada escape pela visão fixa de um órgão perdido. E no fim, todos vão criticar. Editar, melhorar, corrigir.
Mas ela só tem um olho. E para os seus óculos a vida nunca foi doce.
14 octubre 2007
cantinho de mundo
As pessoas crescidas já não vão à escola, nem têm trabalhos de casa.
Elas sabem que não se pode ir trabalhar de mini-saia nem com as unhas pintadas de laranja, que os decotes não são aconselháveis e que as gargalhadas desconcentram os colegas.
Os grandes falam baixo e dizem bom dia, sorriem e disfarçam, dizem umas mentirinhas para fugir ao trabalho.
Os crescidos gostam das crianças, fazem caretas e vozes engraçadas, beijam, agarram, amassam aquelas gorduras cheirosas.
E são tão superiores a elas.
Qualquer reacção mais torta, mais espontânea, é reprovada. Porque parecer uma criança, não é lá muito bom.
Outro dia descobri uma porta secreta. Fui espreitar porque cheirava a algodão doce e tangerinas. E encontrei. Ali dava para subir às árvores, cair, chorar e ter sempre alguém que dissesse que iria ficar tudo bem. Dava para me sujar, despentear, fazer caretas e cantar diparatadamente. Ali não havia o “tens de” nem o “não me desiludas”. Seus bichos malvados.
E ali, naquele cantinho de mundo, podia fazer birra e beicinho, podia gritar e chorar.
Porque os homens às vezes são ratos.
Escondem-se por trás do tailleur e do fato completo.
E perguntam às inocentes crianças “mas tens quantos anos afinal?”
Elas sabem que não se pode ir trabalhar de mini-saia nem com as unhas pintadas de laranja, que os decotes não são aconselháveis e que as gargalhadas desconcentram os colegas.
Os grandes falam baixo e dizem bom dia, sorriem e disfarçam, dizem umas mentirinhas para fugir ao trabalho.
Os crescidos gostam das crianças, fazem caretas e vozes engraçadas, beijam, agarram, amassam aquelas gorduras cheirosas.
E são tão superiores a elas.
Qualquer reacção mais torta, mais espontânea, é reprovada. Porque parecer uma criança, não é lá muito bom.
Outro dia descobri uma porta secreta. Fui espreitar porque cheirava a algodão doce e tangerinas. E encontrei. Ali dava para subir às árvores, cair, chorar e ter sempre alguém que dissesse que iria ficar tudo bem. Dava para me sujar, despentear, fazer caretas e cantar diparatadamente. Ali não havia o “tens de” nem o “não me desiludas”. Seus bichos malvados.
E ali, naquele cantinho de mundo, podia fazer birra e beicinho, podia gritar e chorar.
Porque os homens às vezes são ratos.
Escondem-se por trás do tailleur e do fato completo.
E perguntam às inocentes crianças “mas tens quantos anos afinal?”
11 octubre 2007
apagada
As pessoas têm luzes que iluminam as suas cabeças. Têm fechos que ofuscam e rebatem nos espelhos à sua volta.
Por vezes essa luz funde, acaba, se extingue no terreno da convivência diária.
Não tens tempo de respirar.
Faz, escreve, articula, acontece, opina pergunta.
Tens de ser genial.
Sai tudo tão fácil e espontâneo.
E sentes-te a minguar. Cada vez menor e menos apta. Cada vez mais desistente e perto da exaustão.
Dizem que já não tens a luz que costumavas ter. Que não consegues mantê-la acordada.
Não faças caretas. Nota-se tão bem.
Nunca fui boa de fingir.
Por vezes essa luz funde, acaba, se extingue no terreno da convivência diária.
Não tens tempo de respirar.
Faz, escreve, articula, acontece, opina pergunta.
Tens de ser genial.
Sai tudo tão fácil e espontâneo.
E sentes-te a minguar. Cada vez menor e menos apta. Cada vez mais desistente e perto da exaustão.
Dizem que já não tens a luz que costumavas ter. Que não consegues mantê-la acordada.
Não faças caretas. Nota-se tão bem.
Nunca fui boa de fingir.
08 octubre 2007
"provavelmente"?
Que raio de ideia essa tua.
Estanhos os rumos que a vida tomam.
Éramos tão fresquinhas e inocentes. Tão idealistas e sonhadoras.
Ela pequena e frágil. Eu excêntrica e hiperactiva.
Mas lá estava ela todos os dias no comboio. No carro. Nos auditórios. Nas horas do almoço. Na hemeroteca. Na esplanada amarela.
Nos cafés. Na praia. Nos restaurantes. Nos concertos. Na baixa. No meu caderno. No telemóvel. Nas notícias do jornal. Nos cartões postais da viagem. Na minha Neverland.
No meu quarto.
Lá estava ela na minha vida.
Foi entrando devagarinho e partilhando das minhas indignações. Ensinou-me a ser mais tolerante e comedida. Menos veneno e mais perfume. Ela nunca diz mal de ninguém.
Mostrou-me como se vê as coisas com bons olhos, como se acredita nos sonhos e num futuro melhor. Como se luta e se conquista.
E quando voltei ao mundo foi a ela que telefonei.
E foi ela que me arrancou uma lágrima cruel ao desligar o telefone frustrado.
Foi ela que estava lá a rir-se da minha racionalidade estúpida. A incentivar um mundo de leite-creme derretido, um futuro possível, um sonho quase real.
E é a opinião dela que conta quando as coisas apertam. E é dela que tem de sair o “está óptimo, vais conseguir”. E nessa altura quase acredito que seja verdade.
E, não, eu não sou lésbica.
Era ela que sabia o que eu tinha almoçado e o que eu trazia vestido. Que sabia na ponta da língua que sou chata e rabugenta e que fervo em pouca água. E que discuto e esperneio e grito. Mas não se importava, porque não vale a pena. Ela também sabe que não vou mudar isso.
E não posso ter saudades nem dizer coisas queridas. Porque os amigos completam-se e essa parte fica para ela.
Ela um dia (triste esse dia) escreveu-me uma carta. E nessa altura descobri que não há mais ninguém no seu lugar. E eu vou só fazer uma correcção. Porque não podia fazer um post sem resmungar. Pega naquela tua carta e tira a palavra “provavelmente”. A tua prima não se vai importar. São tipos de amigas diferentes.
A minha mãe diz que eu só tenho amigos rapazes. Mas ela queria ser uma princesa quando era pequena.
Tornou-se biscoita e salsicha fresca. Parideira e meloa.
E para quem não sabe, aqui vai um segredo.
Ela odeia que a belisquem. E é tão giro vê-la chateada.
Estanhos os rumos que a vida tomam.
Éramos tão fresquinhas e inocentes. Tão idealistas e sonhadoras.
Ela pequena e frágil. Eu excêntrica e hiperactiva.
Mas lá estava ela todos os dias no comboio. No carro. Nos auditórios. Nas horas do almoço. Na hemeroteca. Na esplanada amarela.
Nos cafés. Na praia. Nos restaurantes. Nos concertos. Na baixa. No meu caderno. No telemóvel. Nas notícias do jornal. Nos cartões postais da viagem. Na minha Neverland.
No meu quarto.
Lá estava ela na minha vida.
Foi entrando devagarinho e partilhando das minhas indignações. Ensinou-me a ser mais tolerante e comedida. Menos veneno e mais perfume. Ela nunca diz mal de ninguém.
Mostrou-me como se vê as coisas com bons olhos, como se acredita nos sonhos e num futuro melhor. Como se luta e se conquista.
E quando voltei ao mundo foi a ela que telefonei.
E foi ela que me arrancou uma lágrima cruel ao desligar o telefone frustrado.
Foi ela que estava lá a rir-se da minha racionalidade estúpida. A incentivar um mundo de leite-creme derretido, um futuro possível, um sonho quase real.
E é a opinião dela que conta quando as coisas apertam. E é dela que tem de sair o “está óptimo, vais conseguir”. E nessa altura quase acredito que seja verdade.
E, não, eu não sou lésbica.
Era ela que sabia o que eu tinha almoçado e o que eu trazia vestido. Que sabia na ponta da língua que sou chata e rabugenta e que fervo em pouca água. E que discuto e esperneio e grito. Mas não se importava, porque não vale a pena. Ela também sabe que não vou mudar isso.
E não posso ter saudades nem dizer coisas queridas. Porque os amigos completam-se e essa parte fica para ela.
Ela um dia (triste esse dia) escreveu-me uma carta. E nessa altura descobri que não há mais ninguém no seu lugar. E eu vou só fazer uma correcção. Porque não podia fazer um post sem resmungar. Pega naquela tua carta e tira a palavra “provavelmente”. A tua prima não se vai importar. São tipos de amigas diferentes.
A minha mãe diz que eu só tenho amigos rapazes. Mas ela queria ser uma princesa quando era pequena.
Tornou-se biscoita e salsicha fresca. Parideira e meloa.
E para quem não sabe, aqui vai um segredo.
Ela odeia que a belisquem. E é tão giro vê-la chateada.
05 octubre 2007
Sim! Sim? Sim.
Quando te sentires vazio, bebe água, isso deve manter-te cheio por uns tempos.
Às vezes acho que tenho buracos.
Embriagada no mundo das letras e das frases simples, das histórias e dos personagens. Na missão e no dever.
Entregue, como criança mimada, a este lugar onde as pessoas insultam a gramática, aterrorizam a cultura, matam à facada a ambição.
Onde tudo é baixo e tudo é pouco. Onde querem mais e mais dos medianos de saltos altos.
Abandonada neste emaranhado de emoções e sensações físicas, de rolos de pensamento sem fim, de tremeliques e piripaques ao sabor dos orçamentos.
E um sim é tudo o que eu espero a cada vez que me queixo das costas, que resmungo com o tocar do despertador, que grito com o empregado público, que degluto os alimentos tristes e deprimidos.
Os índios civilizados confundem o “sim” com o não e o talvez. A comunicação torna-se mais difícil.
Só espero que isto tudo não seja uma grande partida.
Às vezes acho que tenho buracos.
Embriagada no mundo das letras e das frases simples, das histórias e dos personagens. Na missão e no dever.
Entregue, como criança mimada, a este lugar onde as pessoas insultam a gramática, aterrorizam a cultura, matam à facada a ambição.
Onde tudo é baixo e tudo é pouco. Onde querem mais e mais dos medianos de saltos altos.
Abandonada neste emaranhado de emoções e sensações físicas, de rolos de pensamento sem fim, de tremeliques e piripaques ao sabor dos orçamentos.
E um sim é tudo o que eu espero a cada vez que me queixo das costas, que resmungo com o tocar do despertador, que grito com o empregado público, que degluto os alimentos tristes e deprimidos.
Os índios civilizados confundem o “sim” com o não e o talvez. A comunicação torna-se mais difícil.
Só espero que isto tudo não seja uma grande partida.
01 octubre 2007
o Trigésimo
Hoje vou contar uma história.
Um dia conheci um rapaz, ops, não foi um, foram 30.
O primeiro era divertido, o segundo eu achava um pouco infantil. O terceiro e o quarto usavam roupas largas e andavam de skate. O quinto era gordo e o sexto roçava a obesidade. O sétimo era bastante inteligente e o oitavo era tão arrogante. O nono passava horas a conversar à porta da minha casa e o décimo nunca se esquecia do meu aniversário. O 11º sabia que em jornalismo a partir do 11 se escreve por números. O 12º desenhava tão bem e desperdiçava tanto as suas capacidades. O 13º cresceu. O 14º mostrou-se interessado nos meus interesses e o 15º ria-se das minhas histórias. O 16º e o 17º eram tão esquisitos e cheios de tiques. O 18º nunca desistia. O 19º dizia que com calções não se pode atar os sapatos e o 20º deitava-se sempre na areia.
O 21º era tão carinhoso. O 22º e o 23º andavam sempre juntos, um adorava música e cantava baixinho, o outro bebia muito e fazia serenatas para a vizinha inglesa. Dizem que o 24º era um pouco banana mas ele defende-se dizendo que estava apenas apaixonado. O 25º gostava de gelatina amarela. O 27º ralhava e o 28º estimulava-me a ser melhor. O 29º, coitado, ficava antes do 30º e então sempre teve medo do seu futuro.
Esse tal de Trigésimo (os nomes próprios são por extenso) foi o meu preferido. Se calhar sou uma criança iludida que acha que o último presente é sempre o melhor. Mas o Trigésimo foi um presente inesperado. Ele veio muito bem embrulhado, cheio de fitas de laçarotes. Entregaram-no na minha casa com um casaco de couro castanho e um carro sem o espelho direito. Era como aquele presente que vamos abrindo e abrindo até encontrar a prenda a sério. Tinha um embrulho bonito e eu fiquei interessada. Fui me aventurando e encontrei uns papeis rasgados e umas fitas-cola difíceis de arrancar.
Insisti.
Não foi fácil abrir aquele presente. Ameacei deixá-lo e desistir. Quem foi a pessoa que teve a ideia de o embrulhar tão bem?
Mas ainda bem. Senão já teriam o descoberto, posto em leilão e licitado um preço muito mais alto do que o que posso pagar.
Era baratinho aquele presente. Era daqueles simples e úteis. Inteligente esse tal presente. Foi conhecendo-me e tornando-se indispensável. Aparecia em casa quando estava cansada e ajudava-me a adormecer, deixava-me escolher os caminhos e impunha-me sempre a sua música. Ele começou a meter-se no meu bolso e na minha mala, nos meus ténis sujos e no meu top colorido. Enfiou-se no autocarro cheio a segurar as sacolas das senhoras e nas aulas de filosofia enquanto discutia politica. Ele era o computador e era o livro que estava a ler, era a cor do verniz e a fruta da sobremesa. Meteu-se na minha vida e infiltrou-se no meu perfume e nos brincos que usava, nos amigos que escolhia e nos objectivos que traçava. Mas o pequeno presente, que é tão quietinho e que fala pouco, virou-se para mim e disse: um dia vou materializar-me. Então eu acho que vou ficar à espera, porque depois de tanto trabalho estou um pouco cansada para voltar a desembrulhar outro primeiro.
Um dia conheci um rapaz, ops, não foi um, foram 30.
O primeiro era divertido, o segundo eu achava um pouco infantil. O terceiro e o quarto usavam roupas largas e andavam de skate. O quinto era gordo e o sexto roçava a obesidade. O sétimo era bastante inteligente e o oitavo era tão arrogante. O nono passava horas a conversar à porta da minha casa e o décimo nunca se esquecia do meu aniversário. O 11º sabia que em jornalismo a partir do 11 se escreve por números. O 12º desenhava tão bem e desperdiçava tanto as suas capacidades. O 13º cresceu. O 14º mostrou-se interessado nos meus interesses e o 15º ria-se das minhas histórias. O 16º e o 17º eram tão esquisitos e cheios de tiques. O 18º nunca desistia. O 19º dizia que com calções não se pode atar os sapatos e o 20º deitava-se sempre na areia.
O 21º era tão carinhoso. O 22º e o 23º andavam sempre juntos, um adorava música e cantava baixinho, o outro bebia muito e fazia serenatas para a vizinha inglesa. Dizem que o 24º era um pouco banana mas ele defende-se dizendo que estava apenas apaixonado. O 25º gostava de gelatina amarela. O 27º ralhava e o 28º estimulava-me a ser melhor. O 29º, coitado, ficava antes do 30º e então sempre teve medo do seu futuro.
Esse tal de Trigésimo (os nomes próprios são por extenso) foi o meu preferido. Se calhar sou uma criança iludida que acha que o último presente é sempre o melhor. Mas o Trigésimo foi um presente inesperado. Ele veio muito bem embrulhado, cheio de fitas de laçarotes. Entregaram-no na minha casa com um casaco de couro castanho e um carro sem o espelho direito. Era como aquele presente que vamos abrindo e abrindo até encontrar a prenda a sério. Tinha um embrulho bonito e eu fiquei interessada. Fui me aventurando e encontrei uns papeis rasgados e umas fitas-cola difíceis de arrancar.
Insisti.
Não foi fácil abrir aquele presente. Ameacei deixá-lo e desistir. Quem foi a pessoa que teve a ideia de o embrulhar tão bem?
Mas ainda bem. Senão já teriam o descoberto, posto em leilão e licitado um preço muito mais alto do que o que posso pagar.
Era baratinho aquele presente. Era daqueles simples e úteis. Inteligente esse tal presente. Foi conhecendo-me e tornando-se indispensável. Aparecia em casa quando estava cansada e ajudava-me a adormecer, deixava-me escolher os caminhos e impunha-me sempre a sua música. Ele começou a meter-se no meu bolso e na minha mala, nos meus ténis sujos e no meu top colorido. Enfiou-se no autocarro cheio a segurar as sacolas das senhoras e nas aulas de filosofia enquanto discutia politica. Ele era o computador e era o livro que estava a ler, era a cor do verniz e a fruta da sobremesa. Meteu-se na minha vida e infiltrou-se no meu perfume e nos brincos que usava, nos amigos que escolhia e nos objectivos que traçava. Mas o pequeno presente, que é tão quietinho e que fala pouco, virou-se para mim e disse: um dia vou materializar-me. Então eu acho que vou ficar à espera, porque depois de tanto trabalho estou um pouco cansada para voltar a desembrulhar outro primeiro.
29 septiembre 2007
cola peganhenta
Hoje acordei com o vento a sussurrar baixinho. Parecia haver fios invisíveis a puxarem estridentemente os meus músculos. Eles contrariam-se em forma de boca aberta e lábios erguidos. Músicas cantaloravam na minha cabeça, como vozes de divas vindas de lugares perdidos.
Porque há coisas que nos fazem pensar. E há objectivos que não são para daqui a uma hora, ou um mês. Há coisas na vida que são para longe. Que são para o lugar onde a cidade borbulha e o horário esmaga a correria atribulada. Há momentos da vida com cores e cheiros, com raças e idades e instantes.
E atingi-los não é um sonho.
Fitas vermelhas no fundo do túnel que nos fazem querer correr mais depressa, e virar na esquina à esquerda, em busca de um caminho mais rápido. (Nunca vires à direita. Pode haver um precipício). Viagens ao mundo em busca de um eu que se perdeu nas birras e das palavras pingadas no papel. A busca de uma solidão acompanhada.
E às vezes atrelamo-nos às pessoas.
Têm um cheiro confortável, um sorriso familiar, uma parte deles que é sé nossa e fica escondida no fundo oculto do saquinho de recordações.
E nesta matéria não há chaves. No mundo das solidões não há serras eléctricas e nem cadeados. Foram abolidos, proibidos, censurados.
Este fascismo de descampados colectivos é uma tortura pequenina que pica, mexe, coça naquele lugar onde é impossível tocar. E vai se tornando maior.
Até que um dia recorremos à cola.
Porque há coisas que nos fazem pensar. E há objectivos que não são para daqui a uma hora, ou um mês. Há coisas na vida que são para longe. Que são para o lugar onde a cidade borbulha e o horário esmaga a correria atribulada. Há momentos da vida com cores e cheiros, com raças e idades e instantes.
E atingi-los não é um sonho.
Fitas vermelhas no fundo do túnel que nos fazem querer correr mais depressa, e virar na esquina à esquerda, em busca de um caminho mais rápido. (Nunca vires à direita. Pode haver um precipício). Viagens ao mundo em busca de um eu que se perdeu nas birras e das palavras pingadas no papel. A busca de uma solidão acompanhada.
E às vezes atrelamo-nos às pessoas.
Têm um cheiro confortável, um sorriso familiar, uma parte deles que é sé nossa e fica escondida no fundo oculto do saquinho de recordações.
E nesta matéria não há chaves. No mundo das solidões não há serras eléctricas e nem cadeados. Foram abolidos, proibidos, censurados.
Este fascismo de descampados colectivos é uma tortura pequenina que pica, mexe, coça naquele lugar onde é impossível tocar. E vai se tornando maior.
Até que um dia recorremos à cola.
contrariedades
As diferenças gritam e exclamam e goleiam na baliza oposta. Dizem que não conheço o suficiente. Pode ser.
Sou demasiado eu mesma na minha concha, no meu pé e meio de distância, com sorrisos e carinhos corteses. Sou fugidia nas brechas e nos silêncios. Sou sombra estrangeira que observa e pensa.
O olhar altivo e brioso de quem é mais, de quem pode ver de outra maneira. E a mistura é difícil e é emproada, porque entoam os olhares de quem partilha do mesmo mundo. E sem erro, nem dúvida, batem naquela parede invisível, tão morosamente erguida. Esmagam-se e ensanguentam-se. Porque ali só passa quem souber. E saber é reconhecer o parco, limitado espaço.
Há valores e há listas. E há futuro, futuro.
Às vezes acho que o presente é efémero. E outras vezes quero guarda-lo para sempre no meu congelador.
Sou demasiado eu mesma na minha concha, no meu pé e meio de distância, com sorrisos e carinhos corteses. Sou fugidia nas brechas e nos silêncios. Sou sombra estrangeira que observa e pensa.
O olhar altivo e brioso de quem é mais, de quem pode ver de outra maneira. E a mistura é difícil e é emproada, porque entoam os olhares de quem partilha do mesmo mundo. E sem erro, nem dúvida, batem naquela parede invisível, tão morosamente erguida. Esmagam-se e ensanguentam-se. Porque ali só passa quem souber. E saber é reconhecer o parco, limitado espaço.
Há valores e há listas. E há futuro, futuro.
Às vezes acho que o presente é efémero. E outras vezes quero guarda-lo para sempre no meu congelador.
28 septiembre 2007
desculpas desculpas e desculpas
É uma batalha constante de sins e nãos de perto e longe. Espadas que lutam com a volúpia de carícias escondidas, correntezas de murros e arranhões em mares onde o peixe é tubarão. Vem, mata, morre. Tortura-me com olhares e palavras, arrasta-me por esse rio de dúvidas e hesitações e consome-me, qual labareda resplandecente.
Somos todos poemas e sorrisos secretos, histórias e gestos cúmplices, palavras e gostos memoráveis.
Porque a distância é um cliché.
Ali tudo é possível e o sentimento é temperado num tubo de ensaio com água ocular e cabelos lambidos. É tudo tão perfeito quando o tempo é pouco e as coisas boas têm mais valor notícia. Elas explodem e circulam, cirandando pelo ar e mudando de cor à medida que o vento sopra baixinho.
E à distância é possível suspirar e deixar cair lágrimas de desespero feliz. E à distância podemos ser foleiros e lamechas e pegajosos e piegas e, finalmente, dizer aquelas coisas que soam alerta na nossa cabeça. Não interessa o sinal vermelho, nem o stop, nem os quilómetros. Porque à distância podemos tudo. Até cliché.
Somos todos poemas e sorrisos secretos, histórias e gestos cúmplices, palavras e gostos memoráveis.
Porque a distância é um cliché.
Ali tudo é possível e o sentimento é temperado num tubo de ensaio com água ocular e cabelos lambidos. É tudo tão perfeito quando o tempo é pouco e as coisas boas têm mais valor notícia. Elas explodem e circulam, cirandando pelo ar e mudando de cor à medida que o vento sopra baixinho.
E à distância é possível suspirar e deixar cair lágrimas de desespero feliz. E à distância podemos ser foleiros e lamechas e pegajosos e piegas e, finalmente, dizer aquelas coisas que soam alerta na nossa cabeça. Não interessa o sinal vermelho, nem o stop, nem os quilómetros. Porque à distância podemos tudo. Até cliché.
23 septiembre 2007
um especialista
Queria uma bola de cristal. Agora que o vinte e um está por perto, achei que deveria montar uma lista de presentes. Os números adicionais apanham-me sempre desprevenida. Desta vez não quero festas, nem amigos (quais?), nem telefonemas.
No topo da minha lista vem escrito, Arranjem-me uma bruxa, uma pedra preciosa, um baralho de cartas, um espelho mágico.
Vou ser criança mimada que esperneia e gesticula, que grita e irrita. Aquele bebé intragável que faz birras insistentes até conseguir o que quer. Transformei-me, regredi.
Não é um pedido assim tão difícil. Nem um objectivo demasiado ambicioso.
Fecha os olhos dois minutos e imagina-te daqui a alguns anos. Dez anos.
Vivo num lugar nublado. E mesmo que viaje a onda de névoa acompanha o meu percurso. Quero ouvir-me, fala mais alto, grita e diz-me que língua falas. Pelo menos dá-me uma pista. Escreve num papel o teu estado de alma e põe em P.S a tua profissão. Não entres nessa nuvem de poeira, não te feches nas linhas das minhas mãos, dá-te a conhecer, peço-te, não me tortures mais.
Preciso de um especialista, de um doutor, de anos de estudo e experiência.
Pode ter cabelos vermelhos e uma verruga na ponta do nariz, pode ser gordo e transparente, pode ver além do meu corpo. Podes ser tu, quem sabe.
No topo da minha lista vem escrito, Arranjem-me uma bruxa, uma pedra preciosa, um baralho de cartas, um espelho mágico.
Vou ser criança mimada que esperneia e gesticula, que grita e irrita. Aquele bebé intragável que faz birras insistentes até conseguir o que quer. Transformei-me, regredi.
Não é um pedido assim tão difícil. Nem um objectivo demasiado ambicioso.
Fecha os olhos dois minutos e imagina-te daqui a alguns anos. Dez anos.
Vivo num lugar nublado. E mesmo que viaje a onda de névoa acompanha o meu percurso. Quero ouvir-me, fala mais alto, grita e diz-me que língua falas. Pelo menos dá-me uma pista. Escreve num papel o teu estado de alma e põe em P.S a tua profissão. Não entres nessa nuvem de poeira, não te feches nas linhas das minhas mãos, dá-te a conhecer, peço-te, não me tortures mais.
Preciso de um especialista, de um doutor, de anos de estudo e experiência.
Pode ter cabelos vermelhos e uma verruga na ponta do nariz, pode ser gordo e transparente, pode ver além do meu corpo. Podes ser tu, quem sabe.
chiu
Ele tocou-me. Olhou para mim com cores de mel, com águas de sal, com uma lista infindável de palavras caladas.
É uma pequena contracção de um músculo, um majestoso contorcer na cadeira, um elegante, profundo e distante silêncio.
O calar não é um bicho feio, nem um elefante pesado. Ele é um vento fugidio que voa entre brisas aconchegantes e sonoras.
O silêncio coloca-se ali, ao meu lado. Tento tocá-lo e ele escorrega-se-me pelos dedos de verniz vermelho. Vem Silêncio, quero-te aqui. Cala esta multidão enlouquecida de palavras vazias e conversas inúteis. Aproxima-te de mim e toca-me com os teus olhos. Desce à plebe, olha-me de perto e coloca-te no teu lugar. Pesas-me a consciência e afastas-me os sentidos. Fazes-me acelerar o paço, correr as escadas, desfiar o frio do congelador industrial.
Mas dizem que não podes ser distante. Sábias palavras.
Sai dessa tua poltrona preta, enfrenta o preconceito e a racionalidade. Aproxima-te, por favor.
Faz-te meu.
É uma pequena contracção de um músculo, um majestoso contorcer na cadeira, um elegante, profundo e distante silêncio.
O calar não é um bicho feio, nem um elefante pesado. Ele é um vento fugidio que voa entre brisas aconchegantes e sonoras.
O silêncio coloca-se ali, ao meu lado. Tento tocá-lo e ele escorrega-se-me pelos dedos de verniz vermelho. Vem Silêncio, quero-te aqui. Cala esta multidão enlouquecida de palavras vazias e conversas inúteis. Aproxima-te de mim e toca-me com os teus olhos. Desce à plebe, olha-me de perto e coloca-te no teu lugar. Pesas-me a consciência e afastas-me os sentidos. Fazes-me acelerar o paço, correr as escadas, desfiar o frio do congelador industrial.
Mas dizem que não podes ser distante. Sábias palavras.
Sai dessa tua poltrona preta, enfrenta o preconceito e a racionalidade. Aproxima-te, por favor.
Faz-te meu.
17 septiembre 2007
o pinguim
Já tinha errado uma vez e iria errar de novo. A prática faz a perfeição.
Mas os erros são dúbios.
Olhas, analisas, preocupas, controlas. Achas que consegues controlar.
Resistes, amassas, recusas.
Mais um passo e menos uma defesa.
Sou fronteira mascarada de limite. Quero ir até ao topo, quero fugir das minhas possibilidades, quero correr e escorregar na água gelada das nascentes.
Mas eu sou marco e sou divisa. Um dia ensinaram-me a esbate-la.
E nesse momento senti alguma coisa.
Um calafrio na ponta dos dedos, um tremor nos órgãos escondidos. Uma sensação. Era como se quisesse pensar e tudo estivesse branco. Não há montanhas, nem rios, nem frio e nem nascente. Há uma cor e o infinito.
E agora podes ser quem quiseres e dizer que a tangerina tem sabor a beijo. E podes beijar a fruta. Desalmadamente.
Mas eu já tinha errado uma vez. Eu e essa minha mania de ser perfeita.
Prevejo os erros a distâncias alucinantes. Sofro-os em quantidades industriais. Vivo-os e remexo-os. Contorço-me e sufoco-me
Mas um dia ensinaram-me a rabiscar.
E ofereceram-me uma caneta.
Quem me dera ser um pinguim.
Mas os erros são dúbios.
Olhas, analisas, preocupas, controlas. Achas que consegues controlar.
Resistes, amassas, recusas.
Mais um passo e menos uma defesa.
Sou fronteira mascarada de limite. Quero ir até ao topo, quero fugir das minhas possibilidades, quero correr e escorregar na água gelada das nascentes.
Mas eu sou marco e sou divisa. Um dia ensinaram-me a esbate-la.
E nesse momento senti alguma coisa.
Um calafrio na ponta dos dedos, um tremor nos órgãos escondidos. Uma sensação. Era como se quisesse pensar e tudo estivesse branco. Não há montanhas, nem rios, nem frio e nem nascente. Há uma cor e o infinito.
E agora podes ser quem quiseres e dizer que a tangerina tem sabor a beijo. E podes beijar a fruta. Desalmadamente.
Mas eu já tinha errado uma vez. Eu e essa minha mania de ser perfeita.
Prevejo os erros a distâncias alucinantes. Sofro-os em quantidades industriais. Vivo-os e remexo-os. Contorço-me e sufoco-me
Mas um dia ensinaram-me a rabiscar.
E ofereceram-me uma caneta.
Quem me dera ser um pinguim.
16 septiembre 2007
hoje é fim de semana
Eu tentei apressar-me. A sério.
Mas há sempre tantas coisas a importunar o caminho. Os radares a detectar a velocidade, a gasolina que teima em faltar, o autocarro que demora sempre a vir. Às vezes parece que o casaco não combina com os sapatos ou que os brincos não vão bem com o colar.
Há dias em que acordo e tenho um olho maior que o outro, uma perna mais comprida, uma unha que se partiu.
E esses dias são inúteis. São dias de espera.
Parece que tudo anda mais devagar e é tão difícil tomar decisões. Turbilhões de ideias que salpicam todas as partes do corpo. São coloridas e retalhadas, saltam e escorregam pelas curvas e declínios de uma pele queimada.
Nesses dias os pensamentos brincam com a minha cabeça, fazem puzzels impossíveis, correm e escondem-se das chaves dos enigmas.
E não consigo andar.
Desculpa se me atrasei.
Mas parece que foi preciso uma eternidade para chegar aqui.
Mas há sempre tantas coisas a importunar o caminho. Os radares a detectar a velocidade, a gasolina que teima em faltar, o autocarro que demora sempre a vir. Às vezes parece que o casaco não combina com os sapatos ou que os brincos não vão bem com o colar.
Há dias em que acordo e tenho um olho maior que o outro, uma perna mais comprida, uma unha que se partiu.
E esses dias são inúteis. São dias de espera.
Parece que tudo anda mais devagar e é tão difícil tomar decisões. Turbilhões de ideias que salpicam todas as partes do corpo. São coloridas e retalhadas, saltam e escorregam pelas curvas e declínios de uma pele queimada.
Nesses dias os pensamentos brincam com a minha cabeça, fazem puzzels impossíveis, correm e escondem-se das chaves dos enigmas.
E não consigo andar.
Desculpa se me atrasei.
Mas parece que foi preciso uma eternidade para chegar aqui.
15 septiembre 2007
povoada
As pessoas têm barrigas e mãos e unhas sujas. Têm pelos pretos a saírem de lugares estranhos, têm dentes fungosos, olhares cabisbaixos, olheiras fundas, gorduras acumuladas.
As pessoas têm hálito e gases, e suor nas mãos e nas costas. As pessoas falam e gritam e gemem e arrotam.
Por um momento não tenho sentidos. Sou uma bolha abstraída do mundo, desprezada pelas sensações, esmagada pelas peles flácidas a precisar de um pouco de cera quente.
Tenho nojo.
Repugna-me a maquilhagem berrante, as roupas justas demais, as discussões de aperta-empurra.
Mas é aquele o momento, não posso deixar escapar a sorte da solidão. Voem pensamentos, venham e saiam e rodopiem pelo ar. Cambalhotem por cima de mim.
Sou eu e é o futuro. E de repente acabou a pressão, o nervoso e as mãos a tremer. Acabou o “para amanhã” o “não vou conseguir” o “não posso falhar”.
Foi só um segundo.
Um bom segundo. Havia gelados e sorrisos e amigos e praia e Marques Mendes e José Sócrates e passeios e mar e perfume e dietas e havia também uma pitada de passado, com um ventinho de leve a refrescar o dia.
Agora sou grande e não posso olhar para trás.
Até porque tenho um sovaco peludo encostado à minha bochecha. Seria um golpe arriscado.
Ultima estação. Veste, arranja, normaliza.
E se não sentires que pertences àquele mundo. Sorri.
É sempre uma boa opção.
As pessoas têm hálito e gases, e suor nas mãos e nas costas. As pessoas falam e gritam e gemem e arrotam.
Por um momento não tenho sentidos. Sou uma bolha abstraída do mundo, desprezada pelas sensações, esmagada pelas peles flácidas a precisar de um pouco de cera quente.
Tenho nojo.
Repugna-me a maquilhagem berrante, as roupas justas demais, as discussões de aperta-empurra.
Mas é aquele o momento, não posso deixar escapar a sorte da solidão. Voem pensamentos, venham e saiam e rodopiem pelo ar. Cambalhotem por cima de mim.
Sou eu e é o futuro. E de repente acabou a pressão, o nervoso e as mãos a tremer. Acabou o “para amanhã” o “não vou conseguir” o “não posso falhar”.
Foi só um segundo.
Um bom segundo. Havia gelados e sorrisos e amigos e praia e Marques Mendes e José Sócrates e passeios e mar e perfume e dietas e havia também uma pitada de passado, com um ventinho de leve a refrescar o dia.
Agora sou grande e não posso olhar para trás.
Até porque tenho um sovaco peludo encostado à minha bochecha. Seria um golpe arriscado.
Ultima estação. Veste, arranja, normaliza.
E se não sentires que pertences àquele mundo. Sorri.
É sempre uma boa opção.
09 septiembre 2007
coisas de bagagem
Enfia a tua casa numa maleta e foge com ela. Mas não te esqueças. Não podes avisar ninguém.
As coisas têm tendência a fugir, escorregar pelos cantos da mala, escapulir-se. Atenção: verificar sempre com muito tento se a bagagem não tem furos.
É difícil controlar o rumo das coisas. Que mania.
As coisas têm vida própria. Têm a sua própria bagagem, os seus próprios pés. Vão-se embora.
As coisas têm lágrimas nos olhos e têm maquilhagem borrada. Têm bilhetes de ida e às vezes datas de volta. Mas nem sempre.
Atenção: cozer os furos da mala com a máquina; fazer um ponto duplo e reforçado.
E nós somos também bagagens. Talvez apareça no google se pesquisarmos bem.
Pesquisar é uma arte.
Todos já fugimos alguma vez. Todos já abandonámos um ferido em combate. Todos já encontrámos um furinho, uma porta secreta, um túnel subterrâneo.
E todos já tiveram medo que a sua mala esvaziasse.
Mas para isso tenho uma dica: Colocar sempre um forro duplo. Ali ficam guardados para sempre aqueles que não queremos deixar fugir. Nunca.
Comigo funcionou.
As coisas têm tendência a fugir, escorregar pelos cantos da mala, escapulir-se. Atenção: verificar sempre com muito tento se a bagagem não tem furos.
É difícil controlar o rumo das coisas. Que mania.
As coisas têm vida própria. Têm a sua própria bagagem, os seus próprios pés. Vão-se embora.
As coisas têm lágrimas nos olhos e têm maquilhagem borrada. Têm bilhetes de ida e às vezes datas de volta. Mas nem sempre.
Atenção: cozer os furos da mala com a máquina; fazer um ponto duplo e reforçado.
E nós somos também bagagens. Talvez apareça no google se pesquisarmos bem.
Pesquisar é uma arte.
Todos já fugimos alguma vez. Todos já abandonámos um ferido em combate. Todos já encontrámos um furinho, uma porta secreta, um túnel subterrâneo.
E todos já tiveram medo que a sua mala esvaziasse.
Mas para isso tenho uma dica: Colocar sempre um forro duplo. Ali ficam guardados para sempre aqueles que não queremos deixar fugir. Nunca.
Comigo funcionou.
04 septiembre 2007
comprimidos para dormir
Não há estações do ano e os dias mudam ao sabor das marés (e da capacidade de ver belo no interessante).
Interessantes as pessoas que saem, fogem, encorajam e arriscam. Aquelas que deixam para trás a vida e a rotatividade do mundo para procurarem um sonho. Um sonho comum.
Diria que são sábias as pessoas que concorrem, competem que adormecem e acordam em função de uma meta: ser o melhor.
A supremacia é um extremo impalpável que nem o sentido mais apurado pode descobrir. O oculado que do alto dos seus escassos centímetros ousa desafiar em língua estrangeira os políticos nacionais. O bem parecido que só conversa com olhos azuis e que achou a apuração fácil demais, o pai de família que não sabe interromper frases e sente-se estrangeiro na cidade grande, o sumo de frutas com problemas de fígado, a estrangeira que faz perguntas vocabulares durante as aulas.
A cadeira não é confortável, o computador não é visível, a importância não é relevante. Um nome escrito em caneta azul no fim da página, uma pergunta cliché para quebrar o gelo.
Sem amigos, sem referências.
E aqui sim existe vida.
Energia em cada palavra dita, ideais em cada tinta debotada no bloco, revoltas internas com cada regra imperceptível.
Competição de sorrisos. O valor da obra é a capacidade de triunfar não obstante os obstáculos de contentamento, nem deixar-se vencer pelo “boa noite” quando na verdade deveria ser “bom dia”.
Mais um risco vermelho, e mais um risco vencido. Poderia acordar a sorrir, eu sei. Poderia acordar com preguiça, eu sei. Poderia acordar na praia, no sol, no céu azul e na casa silenciosa. Eu sei.
As escolhas são copos de leite quente que nos vão ajudando a acalmar e a finalmente adormecer.
E a sonolência passou, venham os sonhos.
Interessantes as pessoas que saem, fogem, encorajam e arriscam. Aquelas que deixam para trás a vida e a rotatividade do mundo para procurarem um sonho. Um sonho comum.
Diria que são sábias as pessoas que concorrem, competem que adormecem e acordam em função de uma meta: ser o melhor.
A supremacia é um extremo impalpável que nem o sentido mais apurado pode descobrir. O oculado que do alto dos seus escassos centímetros ousa desafiar em língua estrangeira os políticos nacionais. O bem parecido que só conversa com olhos azuis e que achou a apuração fácil demais, o pai de família que não sabe interromper frases e sente-se estrangeiro na cidade grande, o sumo de frutas com problemas de fígado, a estrangeira que faz perguntas vocabulares durante as aulas.
A cadeira não é confortável, o computador não é visível, a importância não é relevante. Um nome escrito em caneta azul no fim da página, uma pergunta cliché para quebrar o gelo.
Sem amigos, sem referências.
E aqui sim existe vida.
Energia em cada palavra dita, ideais em cada tinta debotada no bloco, revoltas internas com cada regra imperceptível.
Competição de sorrisos. O valor da obra é a capacidade de triunfar não obstante os obstáculos de contentamento, nem deixar-se vencer pelo “boa noite” quando na verdade deveria ser “bom dia”.
Mais um risco vermelho, e mais um risco vencido. Poderia acordar a sorrir, eu sei. Poderia acordar com preguiça, eu sei. Poderia acordar na praia, no sol, no céu azul e na casa silenciosa. Eu sei.
As escolhas são copos de leite quente que nos vão ajudando a acalmar e a finalmente adormecer.
E a sonolência passou, venham os sonhos.
01 septiembre 2007
o melhor ângulo
Fecha os olhos, espreme-os, cola-os apertados e conta.
Contar foi o método mais eficiente que ela descobriu para afugentar a raiva. A resignação. E eles obedecem-na, emudecem mal o desfile de números parte do seu cérebro em direcção ao além. Os espasmos irrequietos, a vermelhidão das bochechas se esbatem e as orelhas diminuem.
Conta. Recita números, qual poema de Alexandre O’Neill. Também ele viveu em Constância. A terra dos poetas.
Afasta os pensamentos com resoluções aritméticas. Prova, justifica, aplica, desenvolve. Já não existem questões simples. O o quê morreu em combate entre o quarto e o quinto ano. Entre a mudança de caligrafia e a introdução à era paleolítica.
Ela vê-se ao espelho e a sua imagem está desfocada, qual narciso no rio. Fosse pela distância ou pelo brilho da ponta branca dos sapatos que reluziam ao sol. Sapatos mimados que vão morrendo, congelando e esbranquiçando as pontas. Aquele liquido salgado que verte dos olhos, parece ter um efeito decisivo no plástico falsificado dos sapatos. Ela pensou que um dia deveria patentear o seu líquido de pupilas verdes.
A falta de visão era uma vergonha que, no entanto, não a impedia de contemplar o seu monte de farrapos desfiados e fora de foco. É uma questão de procurar o melhor ângulo.
Bonita, ela.
Um, dois, três, quatro, cinco…
Bonita, ela.
Contar foi o método mais eficiente que ela descobriu para afugentar a raiva. A resignação. E eles obedecem-na, emudecem mal o desfile de números parte do seu cérebro em direcção ao além. Os espasmos irrequietos, a vermelhidão das bochechas se esbatem e as orelhas diminuem.
Conta. Recita números, qual poema de Alexandre O’Neill. Também ele viveu em Constância. A terra dos poetas.
Afasta os pensamentos com resoluções aritméticas. Prova, justifica, aplica, desenvolve. Já não existem questões simples. O o quê morreu em combate entre o quarto e o quinto ano. Entre a mudança de caligrafia e a introdução à era paleolítica.
Ela vê-se ao espelho e a sua imagem está desfocada, qual narciso no rio. Fosse pela distância ou pelo brilho da ponta branca dos sapatos que reluziam ao sol. Sapatos mimados que vão morrendo, congelando e esbranquiçando as pontas. Aquele liquido salgado que verte dos olhos, parece ter um efeito decisivo no plástico falsificado dos sapatos. Ela pensou que um dia deveria patentear o seu líquido de pupilas verdes.
A falta de visão era uma vergonha que, no entanto, não a impedia de contemplar o seu monte de farrapos desfiados e fora de foco. É uma questão de procurar o melhor ângulo.
Bonita, ela.
Um, dois, três, quatro, cinco…
Bonita, ela.
30 agosto 2007
Um dia
Era uma vez um pacote de açúcar.
Ele tem uma forma estranha e um valor impagável, é procurado no mercado negro, nos aeroportos e esquadras da polícia. Mas eu escondi-o bem. Muito bem.
Foi uma viagem difícil, sempre a suspeitarem de mim, a cheirarem-me um odor adocicado. Perguntas, muitas perguntas. Interrogatórios infindáveis, lágrimas de angústia apertada.
Era impossível fintar o pensamento. O pacote aparecia escondido nos sonhos de cinco minutos, acordava com as costas a arder em dor e pensava que tudo acabaria bem. Mas a viagem parecia contra mim. Os filmes tinham mensagens subliminares escondidas em cada diálogo, o jornal escrevia o meu crime em todas as páginas, o meu corpo e a almofada cheiravam a noites mal dormidas de tráfico açucarado.
Ás vezes tinha medo que descobrissem o meu segredo. Sou uma rapariga correcta que não se pode dar ao luxo de fazer coisas irracionais. Contrabandear pacotes de açúcar é crime, dá prisão. Fui muito influenciável, eu sei. Ele chegou-me com os seus olhinhos pequeninos (tens de abri-los quando te ris), com o seu sorriso fechado, discurso manso e pegajoso. Foi impossível resistir. Pareceu tão espontâneo, tão puro e simples, mas lá no fundo foi uma proposta cruel, eu sei. Foi propositada. Querias fazer-me enveredar pela vida do dinheiro fácil, dos sentimentos exacerbados, dos impulsos incontroláveis.
E agora aqui estou, com o produto do contrabando.
Ainda está escondido.
Tenho de libertá-lo e não consigo.
Sou uma criminosa. Mas estou a pensar ficar com a mercadoria para mim. Pelo menos por mais algum tempo.
Ele tem uma forma estranha e um valor impagável, é procurado no mercado negro, nos aeroportos e esquadras da polícia. Mas eu escondi-o bem. Muito bem.
Foi uma viagem difícil, sempre a suspeitarem de mim, a cheirarem-me um odor adocicado. Perguntas, muitas perguntas. Interrogatórios infindáveis, lágrimas de angústia apertada.
Era impossível fintar o pensamento. O pacote aparecia escondido nos sonhos de cinco minutos, acordava com as costas a arder em dor e pensava que tudo acabaria bem. Mas a viagem parecia contra mim. Os filmes tinham mensagens subliminares escondidas em cada diálogo, o jornal escrevia o meu crime em todas as páginas, o meu corpo e a almofada cheiravam a noites mal dormidas de tráfico açucarado.
Ás vezes tinha medo que descobrissem o meu segredo. Sou uma rapariga correcta que não se pode dar ao luxo de fazer coisas irracionais. Contrabandear pacotes de açúcar é crime, dá prisão. Fui muito influenciável, eu sei. Ele chegou-me com os seus olhinhos pequeninos (tens de abri-los quando te ris), com o seu sorriso fechado, discurso manso e pegajoso. Foi impossível resistir. Pareceu tão espontâneo, tão puro e simples, mas lá no fundo foi uma proposta cruel, eu sei. Foi propositada. Querias fazer-me enveredar pela vida do dinheiro fácil, dos sentimentos exacerbados, dos impulsos incontroláveis.
E agora aqui estou, com o produto do contrabando.
Ainda está escondido.
Tenho de libertá-lo e não consigo.
Sou uma criminosa. Mas estou a pensar ficar com a mercadoria para mim. Pelo menos por mais algum tempo.
29 agosto 2007
Aqui...
Não há céu azul mas o cinzento faz trinta graus. As ruas são grandes, esburacadas, e cheias de camiões. É mais seguro atravessar no meio dos carros do que na passadeira.
Nunca se pode andar “distraída” e isso é tão óbvio que se nos distrairmos a culpa é nossa.
Não há ar condicionado mas não se pode andar de vidros abertos. A bolsa fica em casa e o dinheiro (indispensável) vai no bolso (que curiosamente não existe nas calças femininas).
Não se pode chamar a atenção (“vai ser difícil, não devias estar tão bronzeada”)
Toda a gente diz que deveria arranjar um namorado brasileiro para satisfazer a vontade da minha mãe e eu sei que se o fizer ela vai ter saudades dos portugueses.
Eu não quero arranjar namorados.
Sinto a falta daí e aí sentia tanta falta de fugir.
É pior do que aí mas mesmo assim vim para aqui com a ilusão de que aqui fosse melhor do que aí.
Os filmes são dobrados e eu adormeço a vê-los.
A vida começa as 7 da manhã.
Ando com um pacote de açúcar na mala.
Há família e há também problemas familiares.
Diz-se rotatória e não há prioridade. Os camiões podem andar em contra mão.
O motorista do autocarro conversa e olha para trás enquanto fala.
A culpa é sempre do outro (e normalmente do governo).
Há muitas notícias sobre os Estados Unidos e isso dá-me saudade.
Tenho um irmão mais novo e já não me lembrava o que era andar à porrada e jogar playstation.
Aqui sinto falta do teletransporte e prometo que na próxima semana o discurso será mais entusiasmante.
Nunca se pode andar “distraída” e isso é tão óbvio que se nos distrairmos a culpa é nossa.
Não há ar condicionado mas não se pode andar de vidros abertos. A bolsa fica em casa e o dinheiro (indispensável) vai no bolso (que curiosamente não existe nas calças femininas).
Não se pode chamar a atenção (“vai ser difícil, não devias estar tão bronzeada”)
Toda a gente diz que deveria arranjar um namorado brasileiro para satisfazer a vontade da minha mãe e eu sei que se o fizer ela vai ter saudades dos portugueses.
Eu não quero arranjar namorados.
Sinto a falta daí e aí sentia tanta falta de fugir.
É pior do que aí mas mesmo assim vim para aqui com a ilusão de que aqui fosse melhor do que aí.
Os filmes são dobrados e eu adormeço a vê-los.
A vida começa as 7 da manhã.
Ando com um pacote de açúcar na mala.
Há família e há também problemas familiares.
Diz-se rotatória e não há prioridade. Os camiões podem andar em contra mão.
O motorista do autocarro conversa e olha para trás enquanto fala.
A culpa é sempre do outro (e normalmente do governo).
Há muitas notícias sobre os Estados Unidos e isso dá-me saudade.
Tenho um irmão mais novo e já não me lembrava o que era andar à porrada e jogar playstation.
Aqui sinto falta do teletransporte e prometo que na próxima semana o discurso será mais entusiasmante.
28 agosto 2007
Fico
Se não te fizer muita diferença, fica. Só mais um bocadinho.
É o tempo da vida mudar, do rumo se estabelecer, do mundo aprender a engatinhar.
Um bocadinho é muito menos do que as horas penosas em que os minutos se contavam em batidas decrescentes e em que a música soava a cada hora, ou assim.
Não é tão bonito como o jantar na mesa de madeira, o filme com sussurros de arrepios ou os pés a entrelaçarem em cócegas e risadas.
Não é tão imenso como um abraço cúmplice, um olhar apertado, um presente desentendido.
É menos embaraçoso do que dançar na rua, cantar na varanda, ouvir uma última vez as tuas mãos a conversar baixinho com as minhas.
Mas se não te fizer diferença, não te vás embora depois do café da manhã. Fica para o almoço. Prometo que te faço uma comida cheia de hidratos de carbono. E se não gostares do meu tempero levo-te ao restaurante. Pago eu, não te preocupes.
Mas fica só mais umas horas.
Pega-me ao colo para eu espernear, diz piadas para que eu faça quarenta e seis não-sorrisos forçados, dança e obriga-me a dançar.
E durante o almoço podemos conversar sobre coisas quotidianas. Sobre o filme de ontem, a noite de hoje, os dias e dias e meses e meses de resistir derretido.
E se não te fizer mesmo nenhuma mossa, fica para o café.
Vai deixando-te ficar e embalar pelos momentos de gargalhadas improvisadas e continua a ensinar-me a viver o presente, sem agenda, sem relógio, sem esquemas e tabelas.
Desculpa se não tenho nada para te dar em troca. Mas posso oferecer o jantar.
Isto é, se não te importares muito de ficar mais um pouco.
É o tempo da vida mudar, do rumo se estabelecer, do mundo aprender a engatinhar.
Um bocadinho é muito menos do que as horas penosas em que os minutos se contavam em batidas decrescentes e em que a música soava a cada hora, ou assim.
Não é tão bonito como o jantar na mesa de madeira, o filme com sussurros de arrepios ou os pés a entrelaçarem em cócegas e risadas.
Não é tão imenso como um abraço cúmplice, um olhar apertado, um presente desentendido.
É menos embaraçoso do que dançar na rua, cantar na varanda, ouvir uma última vez as tuas mãos a conversar baixinho com as minhas.
Mas se não te fizer diferença, não te vás embora depois do café da manhã. Fica para o almoço. Prometo que te faço uma comida cheia de hidratos de carbono. E se não gostares do meu tempero levo-te ao restaurante. Pago eu, não te preocupes.
Mas fica só mais umas horas.
Pega-me ao colo para eu espernear, diz piadas para que eu faça quarenta e seis não-sorrisos forçados, dança e obriga-me a dançar.
E durante o almoço podemos conversar sobre coisas quotidianas. Sobre o filme de ontem, a noite de hoje, os dias e dias e meses e meses de resistir derretido.
E se não te fizer mesmo nenhuma mossa, fica para o café.
Vai deixando-te ficar e embalar pelos momentos de gargalhadas improvisadas e continua a ensinar-me a viver o presente, sem agenda, sem relógio, sem esquemas e tabelas.
Desculpa se não tenho nada para te dar em troca. Mas posso oferecer o jantar.
Isto é, se não te importares muito de ficar mais um pouco.
21 agosto 2007
Lady in Blue
O mar estava em reboliço. Vagas e crianças histéricas faziam uma sinfonia enjoada que derretia o sol escaldante. Eram ondas e ondas de libertação suprema.
Nadámos até ilhas desertas, almoçámos manjares dos Deuses, rimos e saltamos na velocidade inumana de plásticos flutuantes.
Partilhámos planos de futuro, fugimos dos olhares inquisidores, fizemos juras de amizade eterna.
A cabeça girou ao som da música indigente, o pé ficou descalço e sujou-se de areia nocturna. Caímos e levantá-mo-nos, corremos e desacelerámos, brincámos às celebridades e na cama, as lágrimas voltaram a cair.
Mas quando o dia nasce de novo, vem com ele o sorriso da união. Somos um só. Sempre fomos, desde o início.
Somos família de sangue fictício. Somos olhares e diversão garantida.
Somos gritos de encorajamento, somos viagens a quilómetros alucinantes, somos partidas e somos preguiça.
Para fugir do vendaval da praia, escondemo-nos em tostas de queijos e enchidos, em eleições americanas e estrelas cadentes. Porque as férias são assim. Há um pouco de tudo.
Nadámos até ilhas desertas, almoçámos manjares dos Deuses, rimos e saltamos na velocidade inumana de plásticos flutuantes.
Partilhámos planos de futuro, fugimos dos olhares inquisidores, fizemos juras de amizade eterna.
A cabeça girou ao som da música indigente, o pé ficou descalço e sujou-se de areia nocturna. Caímos e levantá-mo-nos, corremos e desacelerámos, brincámos às celebridades e na cama, as lágrimas voltaram a cair.
Mas quando o dia nasce de novo, vem com ele o sorriso da união. Somos um só. Sempre fomos, desde o início.
Somos família de sangue fictício. Somos olhares e diversão garantida.
Somos gritos de encorajamento, somos viagens a quilómetros alucinantes, somos partidas e somos preguiça.
Para fugir do vendaval da praia, escondemo-nos em tostas de queijos e enchidos, em eleições americanas e estrelas cadentes. Porque as férias são assim. Há um pouco de tudo.
20 agosto 2007
Sem relógio
Chega de lamechice e textos de amor.
Chega de discursos apaixonados e corações a voarem pelo ar.
Mas hoje. Hoje é um dia especial.
Passou-se tudo num instante.
Chegaste de carro novo, como quem não quer a coisa. Gravaste músicas invulgares, contaste histórias desconhecidas. E foste tu, mais uma vez tu.
De cara para o mar, com o ranger da madeira.Com vozes e sussurros que ultrapassavam paredes, com a preguiça solarenga e o banho que queimava os poros. Contigo e sem relógio.
Dizes que não gostas de doces mas adoras chocolates. Dizes que não vives sem música e cantas sempre tão baixinho. Nunca queres beber mas não recusas desafios. Dizes que está sempre tudo bem e revelas-te tão encimado. Dizes que vai ser fácil mas os teus olhos não sabem mentir. Dizes que dizes pouco e, afinal, dizes sempre tanto.
As peles colam e partilham perfumes.
Os olhares contêm palavras.
Os toques são livros inteiros de ternura.
Os dias sucedem-se sem contador. São momentos e momentos e momentos.
Ás vezes converso com o destino.
Em tantos anos acabámos por nos tornar muito próximos.
Simpático, afável, ternurento, resolveu pôr-me à prova.
E eu também não recuso desafios.
Vamos até ao limite, até ao último segundo da vida terrestre, até ao limiar da dor humana.
Fugimos e fugiremos outra vez. Porque a nossa vida é assim: sem relógio.
Chega de discursos apaixonados e corações a voarem pelo ar.
Mas hoje. Hoje é um dia especial.
Passou-se tudo num instante.
Chegaste de carro novo, como quem não quer a coisa. Gravaste músicas invulgares, contaste histórias desconhecidas. E foste tu, mais uma vez tu.
De cara para o mar, com o ranger da madeira.Com vozes e sussurros que ultrapassavam paredes, com a preguiça solarenga e o banho que queimava os poros. Contigo e sem relógio.
Dizes que não gostas de doces mas adoras chocolates. Dizes que não vives sem música e cantas sempre tão baixinho. Nunca queres beber mas não recusas desafios. Dizes que está sempre tudo bem e revelas-te tão encimado. Dizes que vai ser fácil mas os teus olhos não sabem mentir. Dizes que dizes pouco e, afinal, dizes sempre tanto.
As peles colam e partilham perfumes.
Os olhares contêm palavras.
Os toques são livros inteiros de ternura.
Os dias sucedem-se sem contador. São momentos e momentos e momentos.
Ás vezes converso com o destino.
Em tantos anos acabámos por nos tornar muito próximos.
Simpático, afável, ternurento, resolveu pôr-me à prova.
E eu também não recuso desafios.
Vamos até ao limite, até ao último segundo da vida terrestre, até ao limiar da dor humana.
Fugimos e fugiremos outra vez. Porque a nossa vida é assim: sem relógio.
06 agosto 2007
só uma magiazinha?
Não gosto de pessoas gordas. Nunca gostei. Elas ocupam espaço. Muito espaço. Demasiado espaço.
Espalhaste-te na minha vida e correste com a rotina. Refizeste as fronteiras e gritaste-me baixinho.
És assim. Vens, imprevisivelmente, com pantufas de algodão e sorrisos tímidos. Tocas o meu telefone e comentas as minhas manias.
Irritas-me.
Eu grito e esperneio, reclamo, faço rugas na cara, cultivo cabelos brancos de velhice antecipada. E respondes-me com ventinho e abraços, com a tua mão a amaciar a minha pele. E isso deixa-me ainda mais nervosa.
Mas agora fazes-me falta.
Há bocados do meu mundo por preencher. O teu espaço é vácuo e nem os feiticeiros desviam-me o pensamento.
Dói-me a cicatriz na testa e o raio borbulha-me a ardência. Eles lutam, gritam bruxarias estrangeiras e eu que só queria uma magiazinha barata que congelasse, por alguns dias, todos os relógios do mundo.
Espalhaste-te na minha vida e correste com a rotina. Refizeste as fronteiras e gritaste-me baixinho.
És assim. Vens, imprevisivelmente, com pantufas de algodão e sorrisos tímidos. Tocas o meu telefone e comentas as minhas manias.
Irritas-me.
Eu grito e esperneio, reclamo, faço rugas na cara, cultivo cabelos brancos de velhice antecipada. E respondes-me com ventinho e abraços, com a tua mão a amaciar a minha pele. E isso deixa-me ainda mais nervosa.
Mas agora fazes-me falta.
Há bocados do meu mundo por preencher. O teu espaço é vácuo e nem os feiticeiros desviam-me o pensamento.
Dói-me a cicatriz na testa e o raio borbulha-me a ardência. Eles lutam, gritam bruxarias estrangeiras e eu que só queria uma magiazinha barata que congelasse, por alguns dias, todos os relógios do mundo.
03 agosto 2007
é a revolução
Dizem que “queixar” é um mau verbo. Dizem por ai que isso de reclamar, protestar, contestar e resistir, é uma coisa reprovável.
Pois eu não concordo.
Sobem-me os tremores pelos caminhos dérmicos, arrepiam-se os meus pelos e enlagrimam-se os olhos. O calor apodera-se do meu bom senso e começo a achar que os poucos decibéis permitidos pela lei são inaudíveis.
Mexem-se-me as mãos e os pés e os olhos e os cabelos. Gesticulo e articulo um discurso corrido e apressado de protestos e reivindicações.
Quero o mundo como eu quero.
Não sou rebelde nem contestatária. Sou eu.
E quero justiça.
Quero justiça pela comida que levou horas a ser preparada e vem mal servida no prato. Quero justiça pelos sorrisos que deveriam sair das bocas dos empregados.
Quero justiça pelas moedas que ficam a mais nos caixas.
Quero justiça pelas palavras amáveis que queriam sair e que são substituídas por discursos sexistas.
Quero justiça pelo direito ao silêncio que é quebrado pelo grito hormonal e sedento de trabalhadores empoeirados.
Quero justiça pela disponibilidade da função-publica-das-nove-as-cinco-e-às-quinze-para-as-cinco-já-está-tudo-fechado.
Quero justiça pela quantidade de árvores que poderia ser poupada nas burocracias inúteis.
E agora dizem-me para parar de me queixar. E eu não quero.
E queixo-me por causa disso.
Pois eu não concordo.
Sobem-me os tremores pelos caminhos dérmicos, arrepiam-se os meus pelos e enlagrimam-se os olhos. O calor apodera-se do meu bom senso e começo a achar que os poucos decibéis permitidos pela lei são inaudíveis.
Mexem-se-me as mãos e os pés e os olhos e os cabelos. Gesticulo e articulo um discurso corrido e apressado de protestos e reivindicações.
Quero o mundo como eu quero.
Não sou rebelde nem contestatária. Sou eu.
E quero justiça.
Quero justiça pela comida que levou horas a ser preparada e vem mal servida no prato. Quero justiça pelos sorrisos que deveriam sair das bocas dos empregados.
Quero justiça pelas moedas que ficam a mais nos caixas.
Quero justiça pelas palavras amáveis que queriam sair e que são substituídas por discursos sexistas.
Quero justiça pelo direito ao silêncio que é quebrado pelo grito hormonal e sedento de trabalhadores empoeirados.
Quero justiça pela disponibilidade da função-publica-das-nove-as-cinco-e-às-quinze-para-as-cinco-já-está-tudo-fechado.
Quero justiça pela quantidade de árvores que poderia ser poupada nas burocracias inúteis.
E agora dizem-me para parar de me queixar. E eu não quero.
E queixo-me por causa disso.
02 agosto 2007
melga
Tenho zumbidos no quarto. Há barulhos nos meus ouvidos que não me deixam dormir, que não me deixam estar acordada. Escondo-me por baixo do cobertor e enrolo-me com os cabelos na almofada perfumada. E o zumbido continua.
Quero abrir os olhos e triturar o som com as pupilas, mas as pestanas estão gosmentas e têm um liquido solidificado que não as deixa abrir.
Preciso de um pesticida forte, ou de um spray que me desatormente o sono. Quero voar nos lençóis cor-de-rosas e dormir com sorrisos e suspiros
Mas o rumor continua. Esbato-me e contorço-me num turbilhão de pensamentos maus. Batifes, Malandros, Brejeiros. Voltem os sonhos bons. Vão-se embora insectos detestáveis.
Quero abrir os olhos e triturar o som com as pupilas, mas as pestanas estão gosmentas e têm um liquido solidificado que não as deixa abrir.
Preciso de um pesticida forte, ou de um spray que me desatormente o sono. Quero voar nos lençóis cor-de-rosas e dormir com sorrisos e suspiros
Mas o rumor continua. Esbato-me e contorço-me num turbilhão de pensamentos maus. Batifes, Malandros, Brejeiros. Voltem os sonhos bons. Vão-se embora insectos detestáveis.
31 julio 2007
post-it
Sempre adorei papéis. Papéis, canetas, blocos, cadernos.
Quando era pequena fazia colecção de papéis de carta. E que bela colecção que eu tinha. Havia alguns que eram muito valiosos e ficavam a meio do dossier (para não se estragarem) e eu colocava-os numa mica especial (que ia substituindo de tempos a tempos. Papéis de carta valiosos não podem ficar expostos em micas riscadas).
Eram impagáveis os meus papéis de carta. E tanta inveja que as outras crianças tinham deles.
Eu gostava de os ver e cheirar (porque muitos deles tinham perfume) e, acima de tudo, de os exibir.
Mas mania dos papais de carta foi passando e fui começando a coleccionar outros tipos de papéis. Papéis secretos, não-exibíveis.
Eram cartas e recordações, eram bilhetes e histórias.
Antigamente tinha uma caixa. Era de madeira e tinha o meu nome gravado por cima. Comecei a guardar ali as minhas recordações papelísticas. Mas a caixa encheu rápido demais e pus-me a pensar: Talvez isso de guardar papéis numa caixa não seja boa ideia. A caixa era como uma recordação gigante e proibida. Uma recordação triste-alegre que trazia lágrimas e sorrisos, arrepios e suspiros. Continha palavras proibidas e segredos selados. Desenhos rabiscados e declarações apaixonadas. Um buraquinho intenso demais para um comum mortal. Resolvi abandonar o dito objecto numa gaveta e pus-lhe um aviso em cima com a frase “material potencialmente perigoso”.
Espalhei os meus segredos pela casa, pelas roupas, carteiras e malas. Para, quem sabe, serem encontrados um dia.
Guardei cada segredo num canto refundido, cada recordação num pedacinho de espaço invisível. Talvez um dia os volte a encontrar, ou talvez as recordações fiquem para sempre escondidas no labirinto dos segredos e das memórias. Não sei.
Tudo isto porque ontem ofereceram-me um post-it. E agora não sei onde o colocar. (ou esconder).
Quando era pequena fazia colecção de papéis de carta. E que bela colecção que eu tinha. Havia alguns que eram muito valiosos e ficavam a meio do dossier (para não se estragarem) e eu colocava-os numa mica especial (que ia substituindo de tempos a tempos. Papéis de carta valiosos não podem ficar expostos em micas riscadas).
Eram impagáveis os meus papéis de carta. E tanta inveja que as outras crianças tinham deles.
Eu gostava de os ver e cheirar (porque muitos deles tinham perfume) e, acima de tudo, de os exibir.
Mas mania dos papais de carta foi passando e fui começando a coleccionar outros tipos de papéis. Papéis secretos, não-exibíveis.
Eram cartas e recordações, eram bilhetes e histórias.
Antigamente tinha uma caixa. Era de madeira e tinha o meu nome gravado por cima. Comecei a guardar ali as minhas recordações papelísticas. Mas a caixa encheu rápido demais e pus-me a pensar: Talvez isso de guardar papéis numa caixa não seja boa ideia. A caixa era como uma recordação gigante e proibida. Uma recordação triste-alegre que trazia lágrimas e sorrisos, arrepios e suspiros. Continha palavras proibidas e segredos selados. Desenhos rabiscados e declarações apaixonadas. Um buraquinho intenso demais para um comum mortal. Resolvi abandonar o dito objecto numa gaveta e pus-lhe um aviso em cima com a frase “material potencialmente perigoso”.
Espalhei os meus segredos pela casa, pelas roupas, carteiras e malas. Para, quem sabe, serem encontrados um dia.
Guardei cada segredo num canto refundido, cada recordação num pedacinho de espaço invisível. Talvez um dia os volte a encontrar, ou talvez as recordações fiquem para sempre escondidas no labirinto dos segredos e das memórias. Não sei.
Tudo isto porque ontem ofereceram-me um post-it. E agora não sei onde o colocar. (ou esconder).
30 julio 2007
marginalmente romântica
Sou marginal. Marginal e vadia na rua das mentiras e dos enganos.
Tenho uma pele que arrepia e estremece a cada grão de areia que se cola. A praia tem pouca areia, é um facto. As famílias comem-na lambuzam-na, escorregam-na para o mar revolto. A onda vem e vai num ritmo congelante de circulação parada. E o sol frita.
Existem certos rituais que são imagem fotográfica. Croquetes de areia e mãos que abrem e fecham num deslumbre preocupante pela fisionomia humana.
Sou um cigano itinerante, um velho bigode alongado de saltos e nuvens de perfume. Perfumes nostálgicos e molhados. De línguas e lágrimas que escorregam em segredo pela pele queimada. Mas está frio. Muito frio. O ambiente começar a tornar-se inóspito. Quando o perfume se vai, qual nómada atrevido, vou-me com ele em viagens de violinos e acordeões. Há um fantasma que me segue. Um fantasma secreto que me faz cócegas pelo corpo quando passa por mim como uma brisa daquele mar remexido de sábado à tarde.
Às vezes o fantasma passa por mim, faz-me rir com caretas e histórias incontáveis. E eu penso: O romantismo já não está na moda.
Tenho uma pele que arrepia e estremece a cada grão de areia que se cola. A praia tem pouca areia, é um facto. As famílias comem-na lambuzam-na, escorregam-na para o mar revolto. A onda vem e vai num ritmo congelante de circulação parada. E o sol frita.
Existem certos rituais que são imagem fotográfica. Croquetes de areia e mãos que abrem e fecham num deslumbre preocupante pela fisionomia humana.
Sou um cigano itinerante, um velho bigode alongado de saltos e nuvens de perfume. Perfumes nostálgicos e molhados. De línguas e lágrimas que escorregam em segredo pela pele queimada. Mas está frio. Muito frio. O ambiente começar a tornar-se inóspito. Quando o perfume se vai, qual nómada atrevido, vou-me com ele em viagens de violinos e acordeões. Há um fantasma que me segue. Um fantasma secreto que me faz cócegas pelo corpo quando passa por mim como uma brisa daquele mar remexido de sábado à tarde.
Às vezes o fantasma passa por mim, faz-me rir com caretas e histórias incontáveis. E eu penso: O romantismo já não está na moda.
25 julio 2007
Pudim
Estou a enterrar-me na areia movediça da ampulheta. Os grãos caem como pedras que ecoam na minha cabeça e cantam uma música de adeus.
Mas tenho a pele colada a este lugar. A estes cheiros a esta rotina de papel e suspiros.
Rezar para que o tempo passe depressa e rogar para que o tempo nunca passe. Deus fica confuso e resolve deixar-me abandonada na selva de leopardos vaidosos.
Não quero ir, não quero ficar.
Fui ao supermercado e comprei um saco cheio de pudins. Pus um pouco de ketchup por cima e comi. Comi até não poder mais.
Achei que talvez um bocado de conservante pudesse ajudar. Quem sabe.
Mas tenho a pele colada a este lugar. A estes cheiros a esta rotina de papel e suspiros.
Rezar para que o tempo passe depressa e rogar para que o tempo nunca passe. Deus fica confuso e resolve deixar-me abandonada na selva de leopardos vaidosos.
Não quero ir, não quero ficar.
Fui ao supermercado e comprei um saco cheio de pudins. Pus um pouco de ketchup por cima e comi. Comi até não poder mais.
Achei que talvez um bocado de conservante pudesse ajudar. Quem sabe.
23 julio 2007
músculos vadios
Os olhos insistem em fechar. O cérebro concentra-se neste movimento paralisado de cessar. Não posso piscar os olhos porque eles gritam de sono, também não posso pensar porque se pensar os olhos adormecem e sonham em cenários paradisíacos de sol e lua minguante.
O dia vai passando com horas contadas ao minuto e o fazer nada vai esmagando os momentos de alegria.
E o tempo não passa. Os músculos ardem e rasgam a pele. Músculos estranhos, estes. Não os conhecia mas não me parecem muito afáveis. Apresentam-se de rojão, sem sorrisos e sem formalidades. Gritam a sua presença e trazem cartazes de dias coloridos. O pescoço também dói da areia dura de cestas ao sol. São músculos nómadas e vadios que vêm e vão como as ondas de calor.
Mas agora a dor já não define o sentimento. São pontadas fortes de férias encantadas, são pensamentos magoados que desviam o humor.
Acho que preciso de uma massagem.
O dia vai passando com horas contadas ao minuto e o fazer nada vai esmagando os momentos de alegria.
E o tempo não passa. Os músculos ardem e rasgam a pele. Músculos estranhos, estes. Não os conhecia mas não me parecem muito afáveis. Apresentam-se de rojão, sem sorrisos e sem formalidades. Gritam a sua presença e trazem cartazes de dias coloridos. O pescoço também dói da areia dura de cestas ao sol. São músculos nómadas e vadios que vêm e vão como as ondas de calor.
Mas agora a dor já não define o sentimento. São pontadas fortes de férias encantadas, são pensamentos magoados que desviam o humor.
Acho que preciso de uma massagem.
22 julio 2007
e
Às vezes as palavras não chegam.
Preciso de um dicionário, de um génio linguístico que se instale na minha cabeça e me que articule os maxilares em forma de palavra.
São momentos.
O abraço esmaga os ossos e repara-os num beijo apertado de respiração prolongada.
E o ar percorre o corpo num arrepio triplo de sussurros e toques. E os dedos entrelaçam-se numa dança clássica de valsa para crianças, que rodopia o ouvido, como cotonete molhado. E as memórias de adolescentes surgem com confissões e segredos embutidos em compartimentos reservados. E as reservas de energia revelam-se, com saltinhos sorridentes e espreguiçares matinais. E os sorrisos são abertos e têm som de felicidade extrema. E o limite da plenitude é ultrapassado e arrasa com as barreiras da racionalidade. E a razão desaparece, e com ela o mundo. E tudo à nossa volta se extingue.
Isto é como um jogo de ligações. As palavras trazem recordações a cada piscar de olhos e as imagens invadem a mente, num turbilhão frenético de gritos e suor. O suor escorre e molha o corpo como água derramada de perfume feminino. A água seca na toalha proibida de uma praia fictícia qualquer. As mentiras arrastam-se e criam cenários idílicos para onde nos transportamos com a facilidade de quem foge da dieta. As calorias comem as calças e transformam-se em monstros açucarados de ruminantes loucos.
Mas a pálpebra descola e a luz fere o olho. Preciso de um soporífero. Deixem-me voltar a sonhar.
Preciso de um dicionário, de um génio linguístico que se instale na minha cabeça e me que articule os maxilares em forma de palavra.
São momentos.
O abraço esmaga os ossos e repara-os num beijo apertado de respiração prolongada.
E o ar percorre o corpo num arrepio triplo de sussurros e toques. E os dedos entrelaçam-se numa dança clássica de valsa para crianças, que rodopia o ouvido, como cotonete molhado. E as memórias de adolescentes surgem com confissões e segredos embutidos em compartimentos reservados. E as reservas de energia revelam-se, com saltinhos sorridentes e espreguiçares matinais. E os sorrisos são abertos e têm som de felicidade extrema. E o limite da plenitude é ultrapassado e arrasa com as barreiras da racionalidade. E a razão desaparece, e com ela o mundo. E tudo à nossa volta se extingue.
Isto é como um jogo de ligações. As palavras trazem recordações a cada piscar de olhos e as imagens invadem a mente, num turbilhão frenético de gritos e suor. O suor escorre e molha o corpo como água derramada de perfume feminino. A água seca na toalha proibida de uma praia fictícia qualquer. As mentiras arrastam-se e criam cenários idílicos para onde nos transportamos com a facilidade de quem foge da dieta. As calorias comem as calças e transformam-se em monstros açucarados de ruminantes loucos.
Mas a pálpebra descola e a luz fere o olho. Preciso de um soporífero. Deixem-me voltar a sonhar.
20 julio 2007
coro de multidão
Zumbidos de sons luminosos.
O suor escorria ao som de guitarras vibrantes e as pessoas deliravam com mãos que abanavam em ondas de calor e êxtase. A voz falhava em gritos de entusiasmo dilacerado e o chão tremia e saltava em minutos onde o lugar dos pés era a vários centímetros do chão.
Corpos que roçavam na homogeneidade dos gostos e no uníssono de vozes em coro que se perdiam na multidão.
Perdem-se as personalidades e os sapatos em massas populacionais ao rubro em busca de uma existência com sentido.
Quer-se saber e mostrar que a música é o espelho, a alma, o cobertor e a pista de dança dos nossos dias. E numa narrativa-surpresa de notas ensaiadas atinge-se um deslumbramento colectivo e o que sobra são restos de pessoas.
Mares de suor que jorram dos poros dilatados das músicas de colunas gigantes, e no fim um momento de êxtase febril. Uma respiração. Um silêncio. Uma recordação.
O suor escorria ao som de guitarras vibrantes e as pessoas deliravam com mãos que abanavam em ondas de calor e êxtase. A voz falhava em gritos de entusiasmo dilacerado e o chão tremia e saltava em minutos onde o lugar dos pés era a vários centímetros do chão.
Corpos que roçavam na homogeneidade dos gostos e no uníssono de vozes em coro que se perdiam na multidão.
Perdem-se as personalidades e os sapatos em massas populacionais ao rubro em busca de uma existência com sentido.
Quer-se saber e mostrar que a música é o espelho, a alma, o cobertor e a pista de dança dos nossos dias. E numa narrativa-surpresa de notas ensaiadas atinge-se um deslumbramento colectivo e o que sobra são restos de pessoas.
Mares de suor que jorram dos poros dilatados das músicas de colunas gigantes, e no fim um momento de êxtase febril. Uma respiração. Um silêncio. Uma recordação.
15 julio 2007
É Verão
O sol arde e queima as gotas de suor dos poros bronzeados. É verão.
E no verão apetece dançar no meio da rua, saltar muros e vedações, espreguiçar um sono que não acaba.
Vou fugir daqui na estrada de terra que suja o carro e salpica os pés de alcatrão.
É tão ténue a linha entre a plenitude e a tortura.
A felicidade dói fraquinho, como pingos de água que caem espaçadamente. Já chega de sofrer.
A alegria aperta a mão com força num olhar confidente, gargalha de comentário inofensivos e arrepia a pele em músicas que encaixam na história.
A areia entra nos cabelos com cambalhotas de ondas inesperadas. O sol arde e solidifica o momento numa fotografia de céu azul.
Não há óculos de sol, e os jogos de cartas têm uma nova forma.
O Verão chegou, e com ele a plenitude perfeita da cumplicidade trabalhada. Aquela que sempre existiu.
Amanheceu Inverno e, de repente, a nuvem preta trouxe consigo recordações de bolachas de chocolate. Mas comi uma fruta. Porque é verão e quando o sol bate não há espaço para calorias. (nem recordações)
E no verão apetece dançar no meio da rua, saltar muros e vedações, espreguiçar um sono que não acaba.
Vou fugir daqui na estrada de terra que suja o carro e salpica os pés de alcatrão.
É tão ténue a linha entre a plenitude e a tortura.
A felicidade dói fraquinho, como pingos de água que caem espaçadamente. Já chega de sofrer.
A alegria aperta a mão com força num olhar confidente, gargalha de comentário inofensivos e arrepia a pele em músicas que encaixam na história.
A areia entra nos cabelos com cambalhotas de ondas inesperadas. O sol arde e solidifica o momento numa fotografia de céu azul.
Não há óculos de sol, e os jogos de cartas têm uma nova forma.
O Verão chegou, e com ele a plenitude perfeita da cumplicidade trabalhada. Aquela que sempre existiu.
Amanheceu Inverno e, de repente, a nuvem preta trouxe consigo recordações de bolachas de chocolate. Mas comi uma fruta. Porque é verão e quando o sol bate não há espaço para calorias. (nem recordações)
14 julio 2007
vicio do combate
É perigoso, tem arestas afiadas. Enfia na pela e faz sangue. Vai dormir que isso passa amanhã.
As pontadas latejam e contagiam o corpo estendido no chão.
Ali, deitada na alcatifa escaldada, ensanguentada de pensamentos de olhares.
E estamos a lutar.
A luta vai acabar um dia. Está condenada e todos sabemos disso. Mas vale a pena.
Vale a pena batermo-nos por alguns dias de sorrisos derretidos. Por algumas palavras inesperadas em dias de surpresa.
Mas à nossa volta, espalharam calendários de dias riscados. Atirem-me vidros para os olhos. Firam-me as pupilas com luz branca. Não quero ver nada.
E cega, de braços e pernas partidas, quero continuar a lutar. Quero mais e mais.
Chega de rodeios. Acabou.
Sempre que olharmos para trás vamos sorrir e gargalhar de bons momentos. Estamos mais fortes e dependentes desse vício do combate. E quem luta não se separa, tem laços de sangue partilhado entre feridas abertas e ardentes. Voltamos à nossa vida corriqueira.
Mas continuo a ser um alvo fácil e ensanguentado à espera do meu próximo adversário.
Quem sabe serás tu, outra vez.
As pontadas latejam e contagiam o corpo estendido no chão.
Ali, deitada na alcatifa escaldada, ensanguentada de pensamentos de olhares.
E estamos a lutar.
A luta vai acabar um dia. Está condenada e todos sabemos disso. Mas vale a pena.
Vale a pena batermo-nos por alguns dias de sorrisos derretidos. Por algumas palavras inesperadas em dias de surpresa.
Mas à nossa volta, espalharam calendários de dias riscados. Atirem-me vidros para os olhos. Firam-me as pupilas com luz branca. Não quero ver nada.
E cega, de braços e pernas partidas, quero continuar a lutar. Quero mais e mais.
Chega de rodeios. Acabou.
Sempre que olharmos para trás vamos sorrir e gargalhar de bons momentos. Estamos mais fortes e dependentes desse vício do combate. E quem luta não se separa, tem laços de sangue partilhado entre feridas abertas e ardentes. Voltamos à nossa vida corriqueira.
Mas continuo a ser um alvo fácil e ensanguentado à espera do meu próximo adversário.
Quem sabe serás tu, outra vez.
09 julio 2007
carne-balão
E se estivermos todos a viver uma farsa?
Às vezes acho que a vida não passa de uma simulação decadente de seres errantes e iludidos. Voamos e chapinhamos nas lagoas esquecidas das florestas densas. Saltamos e cantarolamos pelas ruelas e avenidas, inchados por uma felicidade aparente.
Mas as agulhas são seres maléficos. Pequenas e afiadas, costuram e furam a uma velocidade alucinante.
A dor aguçada pica lentamente e vai penetrando na nossa carne-balão. Destrói dias e dias de oxigénio desperdiçado, aborrece as plantas que asfixiam a pureza da fotossíntese.
E o balão explode. Moléculas saltitantes nadam pelo ar poluído de chuvas ácidas. A agulha cai e vai perfurar a próxima vítima.
O balão é de hélio. A voz vai gritar.
Às vezes acho que a vida não passa de uma simulação decadente de seres errantes e iludidos. Voamos e chapinhamos nas lagoas esquecidas das florestas densas. Saltamos e cantarolamos pelas ruelas e avenidas, inchados por uma felicidade aparente.
Mas as agulhas são seres maléficos. Pequenas e afiadas, costuram e furam a uma velocidade alucinante.
A dor aguçada pica lentamente e vai penetrando na nossa carne-balão. Destrói dias e dias de oxigénio desperdiçado, aborrece as plantas que asfixiam a pureza da fotossíntese.
E o balão explode. Moléculas saltitantes nadam pelo ar poluído de chuvas ácidas. A agulha cai e vai perfurar a próxima vítima.
O balão é de hélio. A voz vai gritar.
08 julio 2007
o mundo gira
O tempo é uma máquina feroz que luta contra as leis da natureza. Mas tirei o relógio porque o tic-tac me dizia que o mundo podia acabar. Um dia.
De pulso nu, lanço-me para aventuras novas. Retempero as cores da paisagem, numa fotografia perfeita de meninas-modelo.
A porta abriu. Um passo tremido de insegurança inquieta.
Expectativas, expectativas.
Corpos que dançam músicas quaisquer, dedos que se entrelaçam e escorregam. Cordas desafinadas por hinos de sabedoria. Um sentimento que explode, qual lava crepitante, e sai pelos poros da pele em forma de fumo ardente.
Faz calor e a luz ilumina as frestas da janela. Revela vultos de segredos e declarações, de gelados e comida fria espalhada pelo prato.
E num abraço que esmaga, contorce e arrepia, tudo muda.
Vaipes de surrealismo e conversas de olhares cegos e confidentes.
Os dedos arrepiam as costas e manejam os lápis em desenhos de infância.
Agora posso conquistar o mundo.
Conheço os seus trejeitos e as suas manias. Sei que um dia ele vai girar.
O chão vai virar tecto e banda sonora vai começar com a frase “o tempo é uma máquina feroz”.
De pulso nu, lanço-me para aventuras novas. Retempero as cores da paisagem, numa fotografia perfeita de meninas-modelo.
A porta abriu. Um passo tremido de insegurança inquieta.
Expectativas, expectativas.
Corpos que dançam músicas quaisquer, dedos que se entrelaçam e escorregam. Cordas desafinadas por hinos de sabedoria. Um sentimento que explode, qual lava crepitante, e sai pelos poros da pele em forma de fumo ardente.
Faz calor e a luz ilumina as frestas da janela. Revela vultos de segredos e declarações, de gelados e comida fria espalhada pelo prato.
E num abraço que esmaga, contorce e arrepia, tudo muda.
Vaipes de surrealismo e conversas de olhares cegos e confidentes.
Os dedos arrepiam as costas e manejam os lápis em desenhos de infância.
Agora posso conquistar o mundo.
Conheço os seus trejeitos e as suas manias. Sei que um dia ele vai girar.
O chão vai virar tecto e banda sonora vai começar com a frase “o tempo é uma máquina feroz”.
06 julio 2007
6ºf
A felicidade absorve o nervoso de barulhinhos na barriga. Mas uma palavra-chave faz com que o mundo congele e, de repente, o ar torna-se denso e deixo de sentir as mãos molhadas e escorregadias. Chamem a ambulância. Preciso ser internada.
Trânsito, caos, violência.
Tenho medo. Outra vez.
Cai o escudo e sinto-me nua à frente do mundo. Com os pelos arrepiados e os cabelos embaraçados em nós eternos. Sou um molho de rosa a dois euros na feira, um golo da água quente de ontem. Sou frágil e vou partir. Sinto-o.
A perfeição salta à vista nesta terra de gente vulgar com flashes brilhantes e fosforescentes. Tudo é colorido à minha volta. Normal: os olhos vêem cores.
Mas hoje as coisas parecem diferentes. Não estou louca, estão mesmo a tocar canções de júbilo na minha cabeça.
E tudo começa outra vez.
Os sonhos atribulados durante as noites de calor transpiraste, as previsões mentais de dias perfeitos de melancolia abafada. A lágrima engolida a seco no momento em que os deuses, os carros e os mendigos parecem estar contra mim.
A sensação vai passar, eu sei.
E vai ser rápido, porque afinal, hoje é sexta-feira.
Trânsito, caos, violência.
Tenho medo. Outra vez.
Cai o escudo e sinto-me nua à frente do mundo. Com os pelos arrepiados e os cabelos embaraçados em nós eternos. Sou um molho de rosa a dois euros na feira, um golo da água quente de ontem. Sou frágil e vou partir. Sinto-o.
A perfeição salta à vista nesta terra de gente vulgar com flashes brilhantes e fosforescentes. Tudo é colorido à minha volta. Normal: os olhos vêem cores.
Mas hoje as coisas parecem diferentes. Não estou louca, estão mesmo a tocar canções de júbilo na minha cabeça.
E tudo começa outra vez.
Os sonhos atribulados durante as noites de calor transpiraste, as previsões mentais de dias perfeitos de melancolia abafada. A lágrima engolida a seco no momento em que os deuses, os carros e os mendigos parecem estar contra mim.
A sensação vai passar, eu sei.
E vai ser rápido, porque afinal, hoje é sexta-feira.
03 julio 2007
Atenção, isto é um erro cientifico
A lua já está cheia há tanto tempo.
Dias e dias de luar baixinho iluminando as mentiras brancas de noites fugidias.
Quero negar e dizer que sou feita de cimento. Que nada me pode afectar, que sou rocha calcada no mar gelado, absorvente, congelante.
Mas não consigo. Os meus olhos dizem que sim, e o meu corpo pendura-se no teu pescoço num instinto reflexivo de sentimentos cozinhados.
Isto não estava nos planos. É um erro científico.
Voltemos às planilhas, aos gráficos, aos exames e aos cálculos matemáticos.
Não gosto de sentimentos. Essa deformação de enzimas a que chamam afecto.
Vou dançar no semáforo vermelho, enquanto o mundo entoa uma melodia qualquer. Não interessa a música, nem o tom, nem a tablatura.
Vou roçar o meu corpo em alcatifas queimadas e morder, morder, morder. Fazer dor até sair sangue e poder usá-lo para fazer análises.
Diagnostiquem-me. (Vou ser famosa e aparecer nos jornais)
Vivo um erro científico.
Dias e dias de luar baixinho iluminando as mentiras brancas de noites fugidias.
Quero negar e dizer que sou feita de cimento. Que nada me pode afectar, que sou rocha calcada no mar gelado, absorvente, congelante.
Mas não consigo. Os meus olhos dizem que sim, e o meu corpo pendura-se no teu pescoço num instinto reflexivo de sentimentos cozinhados.
Isto não estava nos planos. É um erro científico.
Voltemos às planilhas, aos gráficos, aos exames e aos cálculos matemáticos.
Não gosto de sentimentos. Essa deformação de enzimas a que chamam afecto.
Vou dançar no semáforo vermelho, enquanto o mundo entoa uma melodia qualquer. Não interessa a música, nem o tom, nem a tablatura.
Vou roçar o meu corpo em alcatifas queimadas e morder, morder, morder. Fazer dor até sair sangue e poder usá-lo para fazer análises.
Diagnostiquem-me. (Vou ser famosa e aparecer nos jornais)
Vivo um erro científico.
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