Somos duas moscas. Desculpa dizer-te isto assim sem preparação prévia, mas chegou a hora, não posso guardar mais este segredo.
Sim, enfrenta a realidade. Alimentamo-nos da nossa própria matéria em autodestrução, dos fotogramas futuros impressos em tardes de cinema, das promessas de amor engolidas com um copo de coca-cola, daquelas pequenas pinceladas de realidade que não queremos deixar sucumbir.
Somos um insecto pequeno, preto e asqueroso. Apenas uns centímetros de carne esponjosa e peluda que descansa em excrementos. Um animal irracional que já nasce com data de caducidade, que é como quem diz, com um obituário escrito e a tumba montada. Somos alimento de outros bichos, assunto de conversa nas mesas dos cafés.
- Raio da mosca!
E da-lhe uma patada e outra e outra ainda. E nós ali, heroicamente, aguentando um e mais um safanão. Porque somos assim, sempre o fomos. Fatídicos, autodestructivos, masoquistas. E persistentes. Insistimos, achamos que um dia conseguiremos contrariar a lógica. ¡Ingénuos!, nós.
E, como moscas que somos, a nossa morte aproxima-se, já sabes, nascemos para isso. Pensa bem, não há jornada que não termine, nem vida que não pereça. E então aqui estamos nós, mutilados, feridos e humilhados pela fragilidade humana e pela imbecil crença de que seremos melhores, super heróis modernos com poderes mágicos.
Não engonhemos mais. Que venha logo a morte e acabe, com uma facada definitiva, esta desgraçada, intensa e longa vida de uma semana que tivemos.
Fim, escreveu-se com letras de sangue.
18 enero 2010
17 enero 2010
Uma farsa esquizofrénica
Vivo vidas entrelaçadas. Vivo a existência de quem quer ser e ainda não é. Aquela que tem gosto de tarte de limão com cobertura de suspiro. A vida do eterno aspirante a coisa alguma, de um cavaleiro que parte sem rumo para expedições em países impronunciáveis. Um poço que nunca acabará de encher, um labirinto cujo final estará eternamente fora de alcance. Vivo uma vida sem alcance, sem alça, sem capuz e sem asa, só sonho. Vivo uma vida de sonho.
Mas sou agente disfarçada de menina, dançarina vendida, polícia camuflada. No fundo, sou uma farsa esquizofrénica que vai costurando pedaços de diferentes vidas num tecido que, no fim das contas, não é mais que caos.
E nesse caos cabe tudo. Entra a senhora trabalhadora e a rapariga marota. Se espremermos bem, há espaço para o aventureiro de pés descalços, para o funk da favela e o after-party das seis da manhã. É só remexer um pouco que lá esta ela, a menina literatura, os filmes de domingo à tarde e a música alternativa de calças roxas. Há a rapariga livre, independente, hiperactiva, a que tem voz de charme e a que sonha com uma casa de piscina e churrasqueira no terraço.
O problema, porque não há história sem fricção, é quando as vidas se misturam e a esquizofrenia confunde-se. Então recebemos um email para a senhora responsável e logo em seguida outro que recorda os dias de sol e praia em viagens saltimbancos. E então senti-nos traidores, farsantes, embusteiros. Porque estamos a jogar um jogo duplo e este não tem bónus no final. Sabemos que um dia a vida pagará factura e, entretanto, lançamo-nos e entranhamo-nos cada vez mais fundo nesta vida de multifaces à espera de encontrar alguém que, quem sabe, compreenda essa nossa pequena doença incurável.
Mas sou agente disfarçada de menina, dançarina vendida, polícia camuflada. No fundo, sou uma farsa esquizofrénica que vai costurando pedaços de diferentes vidas num tecido que, no fim das contas, não é mais que caos.
E nesse caos cabe tudo. Entra a senhora trabalhadora e a rapariga marota. Se espremermos bem, há espaço para o aventureiro de pés descalços, para o funk da favela e o after-party das seis da manhã. É só remexer um pouco que lá esta ela, a menina literatura, os filmes de domingo à tarde e a música alternativa de calças roxas. Há a rapariga livre, independente, hiperactiva, a que tem voz de charme e a que sonha com uma casa de piscina e churrasqueira no terraço.
O problema, porque não há história sem fricção, é quando as vidas se misturam e a esquizofrenia confunde-se. Então recebemos um email para a senhora responsável e logo em seguida outro que recorda os dias de sol e praia em viagens saltimbancos. E então senti-nos traidores, farsantes, embusteiros. Porque estamos a jogar um jogo duplo e este não tem bónus no final. Sabemos que um dia a vida pagará factura e, entretanto, lançamo-nos e entranhamo-nos cada vez mais fundo nesta vida de multifaces à espera de encontrar alguém que, quem sabe, compreenda essa nossa pequena doença incurável.
13 enero 2010
Pernas para o ar
A vida está de ponta cabeça. Comecemos, então, pelos pés que tanto querem andar, sair, mexer-se. Que sonham em percorrer o mundo de palmas no chão, que querem fugir mas quando dão o primeiro passo apercebem-se que os atacadores deram um nó. Malditas vidas entrelaçadas.
Dos pés ao joelho, esse bastardo. Tinha de nascer com um osso deficiente. O menisco deslocado, dizem os médicos, mas eu não acredito. Acho que me dói só porque sim, por teimosia, para lembrar-me diariamente da minha imperfeição. Não que eu precise, mas ele insiste.
Do joelho salto para a barriga, esse espelho da alma. Quando estamos tristes, o chocolate consola, felizes, a cerveja celebra, apáticos, as gomas alegram, deprimidos, a fome cava mais fundo. E quando o mundo está ao contrário? Comemos e vamos ao ginásio gastar calorias. Para depois poder comer mais.
E quase sem perceber passamos da barriga aos ombros, esses, os que aguentam com o peso da mochila. A mochila que nos levará mais longe. A nossa companheira de onde quisermos. Porque, acreditem em mim, quando mais afastados estamos, menos peso sentem os ombros.
A cabeça, coitada, está meio zonza. "Não faças o pino que o sangue vai-te todo para a cabeça", diziam os professores. Não a mim, claro, que nunca tive jeito para a ginasitca. A cabeça, que no fundo é só uma carapaça, esse tal utencilio tão valorizado pela sociedade moderna. Esse órgão pensa, dizem os espertos. Não, quem manda é o coração, contestam os românticos. No fundo, tudo isto são só enzimas.
E então chegamos ao cabelo, malandro. Queremos fugir, mudar e disfarçar. Treinamos cabelereiros, odiamo-los de morte, pomos gel, espuma e creme modelador. Porque no fundo, a pior parte de ter o mundo virado ao contrario é que não há forma de conseguir pôr o cabelo como deve ser. Acho que no final das contas é ai que reside o meu problema.
Dos pés ao joelho, esse bastardo. Tinha de nascer com um osso deficiente. O menisco deslocado, dizem os médicos, mas eu não acredito. Acho que me dói só porque sim, por teimosia, para lembrar-me diariamente da minha imperfeição. Não que eu precise, mas ele insiste.
Do joelho salto para a barriga, esse espelho da alma. Quando estamos tristes, o chocolate consola, felizes, a cerveja celebra, apáticos, as gomas alegram, deprimidos, a fome cava mais fundo. E quando o mundo está ao contrário? Comemos e vamos ao ginásio gastar calorias. Para depois poder comer mais.
E quase sem perceber passamos da barriga aos ombros, esses, os que aguentam com o peso da mochila. A mochila que nos levará mais longe. A nossa companheira de onde quisermos. Porque, acreditem em mim, quando mais afastados estamos, menos peso sentem os ombros.
A cabeça, coitada, está meio zonza. "Não faças o pino que o sangue vai-te todo para a cabeça", diziam os professores. Não a mim, claro, que nunca tive jeito para a ginasitca. A cabeça, que no fundo é só uma carapaça, esse tal utencilio tão valorizado pela sociedade moderna. Esse órgão pensa, dizem os espertos. Não, quem manda é o coração, contestam os românticos. No fundo, tudo isto são só enzimas.
E então chegamos ao cabelo, malandro. Queremos fugir, mudar e disfarçar. Treinamos cabelereiros, odiamo-los de morte, pomos gel, espuma e creme modelador. Porque no fundo, a pior parte de ter o mundo virado ao contrario é que não há forma de conseguir pôr o cabelo como deve ser. Acho que no final das contas é ai que reside o meu problema.
10 enero 2010
Uma questão de respeito
Ele está ai, escondido atrás das portas, como o pó e o cotão de um quarto recém arrumado. Ele chegará, um dia chegará. Ou pelo menos isso me dizem. De comboio expresso, avião de baixo custo ou ténis desgastados. Seja como for, naquele dia, o dia em que ele aparecer, se ele aparecer, vou correr para os seus braços, qual filme de Hollywood e, contrariando todas as expectativas, num twist absolutamente inesperado, vou dar-lhe um valente bofetão e perguntar-lhe enquanto bato com o pé de birra: “E onde estiveste este tempo todo?”
Onde estiveste nas noites de frio com a janela estragada, nas manhãs de preguiça enroladas no sofá, nos passeios pelo parque, no pequeno-almoço do café da esquina. Já busquei por toda a casa, nas gavetas do trabalho e nos bolsos do casaco. Revisei a lista telefónica e a loja do senhor Josito. Não estás, mas insistem em dizer-me que estás, que chegarás, que vens a caminho.
E eu sou menina teimosa. E, por capricho, espero. Pacientemente, aguardo que esta expectativa prolongada chegue ao fim. Que eu possa unir-me ao mundo neste sorriso pasmacento estampado na cara de todos aqueles que já tiveram o seu prémio.
Mas não te enganes, meu querido, não te enganes, porque quando chegares não te esperarão mil e muitas noites de amor ronhento e vozinha de charme. Quando chegares, se chegares, teremos muitas contas a ajustar. Porque isso de demorar tanto, meu caro, é uma falta de respeito. Os teus pais não te deram educação?
Onde estiveste nas noites de frio com a janela estragada, nas manhãs de preguiça enroladas no sofá, nos passeios pelo parque, no pequeno-almoço do café da esquina. Já busquei por toda a casa, nas gavetas do trabalho e nos bolsos do casaco. Revisei a lista telefónica e a loja do senhor Josito. Não estás, mas insistem em dizer-me que estás, que chegarás, que vens a caminho.
E eu sou menina teimosa. E, por capricho, espero. Pacientemente, aguardo que esta expectativa prolongada chegue ao fim. Que eu possa unir-me ao mundo neste sorriso pasmacento estampado na cara de todos aqueles que já tiveram o seu prémio.
Mas não te enganes, meu querido, não te enganes, porque quando chegares não te esperarão mil e muitas noites de amor ronhento e vozinha de charme. Quando chegares, se chegares, teremos muitas contas a ajustar. Porque isso de demorar tanto, meu caro, é uma falta de respeito. Os teus pais não te deram educação?
05 enero 2010
O menino caladinho
O menino caladinho tinha um olhar tímido e um punhado de conversas silenciosas. Mantinha a inexplicável empolgação de uma criança e um rol de “desculpa”, “obrigado” e “com licença” que tanto orgulharia os seus pais.
Era rapaz de comunicação, mas comunicar não era o seu forte. “É que eu me enrolo, sabe?”, justificava, e lá ia ele enrolando-se no fio das suas próprias historias. Até que o fio enroscava-se de tal maneira que, de repente, dava nó. E eu ria, gargalhava e desfrutava da sua trapalhice. “É que eu gosto mais de contemplar”, explicava. E isso, claro, dava azo a mais risada.
Mas para menino calado, até tinha das suas. Gostava de arte, de literatura, de Bob Dylan e de pôr gel no cabelo antes de dormir: assim já acordava penteado. Sonhava com história e com ruínas romanas. Os museus eram a sua casa.
Dizia que os óculos usavam-se a meio do nariz e então eu chamava-o de velho e ele irritava-se, mas não muito, porque nada superava a sua ira de quando eu soltava um “é que você é um adolescentezinho” no meio de alguma situação empolgante. Dizem que a crítica faz parte do charme, ou isso defendo eu.
Mas os dias passaram e ele foi soltando os nós: e não é que o menino caladinho falava?
E se falava.
Contava do pai, da mãe e do trabalho. Da rotina que era viver. Queixava-se dele mesmo e da sua atitude, que queria ser melhor. Que não conseguia ser melhor. E depois vieram as histórias. As entrevistas aos deputados, os professores despedidos, os amigos e o eterno amor platónico. Amar é sofrer, disse um dia entre uma batata frita e um golo de Coca Cola.
Mas a magia acabou logo e precisamente quando ele, o menino caladinho, estava tão tagarela, o seu avião partiu. Deixou para trás uma garganta rouca de bares e aventuras, e ao despedir-se, deu-me um abraço forte e balbuciou: “Obrigado”.
O menino caladinho tinha voltado a calar-se.
Era rapaz de comunicação, mas comunicar não era o seu forte. “É que eu me enrolo, sabe?”, justificava, e lá ia ele enrolando-se no fio das suas próprias historias. Até que o fio enroscava-se de tal maneira que, de repente, dava nó. E eu ria, gargalhava e desfrutava da sua trapalhice. “É que eu gosto mais de contemplar”, explicava. E isso, claro, dava azo a mais risada.
Mas para menino calado, até tinha das suas. Gostava de arte, de literatura, de Bob Dylan e de pôr gel no cabelo antes de dormir: assim já acordava penteado. Sonhava com história e com ruínas romanas. Os museus eram a sua casa.
Dizia que os óculos usavam-se a meio do nariz e então eu chamava-o de velho e ele irritava-se, mas não muito, porque nada superava a sua ira de quando eu soltava um “é que você é um adolescentezinho” no meio de alguma situação empolgante. Dizem que a crítica faz parte do charme, ou isso defendo eu.
Mas os dias passaram e ele foi soltando os nós: e não é que o menino caladinho falava?
E se falava.
Contava do pai, da mãe e do trabalho. Da rotina que era viver. Queixava-se dele mesmo e da sua atitude, que queria ser melhor. Que não conseguia ser melhor. E depois vieram as histórias. As entrevistas aos deputados, os professores despedidos, os amigos e o eterno amor platónico. Amar é sofrer, disse um dia entre uma batata frita e um golo de Coca Cola.
Mas a magia acabou logo e precisamente quando ele, o menino caladinho, estava tão tagarela, o seu avião partiu. Deixou para trás uma garganta rouca de bares e aventuras, e ao despedir-se, deu-me um abraço forte e balbuciou: “Obrigado”.
O menino caladinho tinha voltado a calar-se.
06 diciembre 2009
Era melhor
Olhávamo-nos com olhar acostumado. Com remelas nos olhos e bocejo na boca. Criticávamos cada gesto, cada acção, cada tropeço em quem éramos realmente.
Não era amor.
Era uma tarde de inverno a ver filmes pirata e a comer pizzas de ananás. Eram dois telemóveis desligados. Uma música e uma guitarra. Eram massagens nos pés e exposições de domingo. Pequenos-almoços madrugadores. Um beijo na ponta do nariz.
Não era amor. Era melhor.
E então transformámo-nos naquela velha televisão que, mesmo desligada, continua a fazer um zumbido constante. Num gira-discos estragado. Naquele Tolstoi que nunca nos atreveremos a acabar. Somos o lixo do que soubemos ser, os restos daquele que deveria ter sido um final feliz.
Porque o fim nunca é bom. Se fosse bom, seria o começo.
Não era amor.
Era uma tarde de inverno a ver filmes pirata e a comer pizzas de ananás. Eram dois telemóveis desligados. Uma música e uma guitarra. Eram massagens nos pés e exposições de domingo. Pequenos-almoços madrugadores. Um beijo na ponta do nariz.
Não era amor. Era melhor.
E então transformámo-nos naquela velha televisão que, mesmo desligada, continua a fazer um zumbido constante. Num gira-discos estragado. Naquele Tolstoi que nunca nos atreveremos a acabar. Somos o lixo do que soubemos ser, os restos daquele que deveria ter sido um final feliz.
Porque o fim nunca é bom. Se fosse bom, seria o começo.
02 diciembre 2009
Mesmo quando não escrevo
Então escreve.
Fecha os olhos, respira fundo e deixa as palavras apoderarem-se de ti. Desenha com elas um piscar de olho cúmplice, um esboçar de um sorriso, uma risadinha matreira. Faz das palavras um ecstasy barato, vicia-os, hipnotiza-os para o segundo parágrafo, o terceiro, o quarto.
Conta-lhes uma história, daquelas fáceis e universais, daquelas que basta substituir o nome para que sejamos nós os protagonistas, das que se tivéssemos o telefone, simplesmente marcaríamos o número, sem pensar mais. Conta-lhes histórias felizes, porque é mentira que o povo gosta de desgraças. O povo gosta de sentir. Mas é mais fácil causar emoções negativas.
Então escreve e narra histórias felizes, apoia causas sociais, constrói a proximidade, ganha o leitor. Diz-lhe o que quer ouvir, mas nem sempre, e quando não, di-lo com jeitinho, com graça, com a humildade de um mero informador. E denuncia, mas não por ti, nem pelo teu nome citado em todas as partes. Vai, escava, desce ao buraco, conquista a fonte e no fim põe na balança. Pergunta-te se o fazes pelo teu ego ou se ajudarás a vida de alguém. Pergunta-te se essa raivinha residual que foste criando contra aquele personagem está a influenciar-te (a resposta será, irremediavelmente, sim). Pergunta, pergunta sempre, porque afinal, isso é o que melhor sabes fazer.
E se já ganhaste o leitor, agarra-te a ele como a cura para a sida. Não o deixes escapar. Cuida o ritmo, atenção às aspas, pontuação correcta e nada de rimas. Não ponhas palavras difíceis, por favor, não. Poupa-nos também daquelas expressões muleta. O leitor agradece.
E agora que estamos a chegar ao final, que já lhe cansámos a vista e aumentamos os índices de leitura, não o abandones assim. Ele espera mais que um “concluí” ou “finaliza”. Ele merece mais. Então escreve e dá-he uma punch line, daquelas redondinhas que fazem rir, gritar, engolir o choro e estremecer. Tudo, para que ao fim de três minutos, ele tenha vontade de virar a página e seguir em frente.
“Por favor, Marina, coño, no dejes de escribir”, dizia o mail de hoje.
E então eu escrevo. Mesmo quando não escrevo.
Fecha os olhos, respira fundo e deixa as palavras apoderarem-se de ti. Desenha com elas um piscar de olho cúmplice, um esboçar de um sorriso, uma risadinha matreira. Faz das palavras um ecstasy barato, vicia-os, hipnotiza-os para o segundo parágrafo, o terceiro, o quarto.
Conta-lhes uma história, daquelas fáceis e universais, daquelas que basta substituir o nome para que sejamos nós os protagonistas, das que se tivéssemos o telefone, simplesmente marcaríamos o número, sem pensar mais. Conta-lhes histórias felizes, porque é mentira que o povo gosta de desgraças. O povo gosta de sentir. Mas é mais fácil causar emoções negativas.
Então escreve e narra histórias felizes, apoia causas sociais, constrói a proximidade, ganha o leitor. Diz-lhe o que quer ouvir, mas nem sempre, e quando não, di-lo com jeitinho, com graça, com a humildade de um mero informador. E denuncia, mas não por ti, nem pelo teu nome citado em todas as partes. Vai, escava, desce ao buraco, conquista a fonte e no fim põe na balança. Pergunta-te se o fazes pelo teu ego ou se ajudarás a vida de alguém. Pergunta-te se essa raivinha residual que foste criando contra aquele personagem está a influenciar-te (a resposta será, irremediavelmente, sim). Pergunta, pergunta sempre, porque afinal, isso é o que melhor sabes fazer.
E se já ganhaste o leitor, agarra-te a ele como a cura para a sida. Não o deixes escapar. Cuida o ritmo, atenção às aspas, pontuação correcta e nada de rimas. Não ponhas palavras difíceis, por favor, não. Poupa-nos também daquelas expressões muleta. O leitor agradece.
E agora que estamos a chegar ao final, que já lhe cansámos a vista e aumentamos os índices de leitura, não o abandones assim. Ele espera mais que um “concluí” ou “finaliza”. Ele merece mais. Então escreve e dá-he uma punch line, daquelas redondinhas que fazem rir, gritar, engolir o choro e estremecer. Tudo, para que ao fim de três minutos, ele tenha vontade de virar a página e seguir em frente.
“Por favor, Marina, coño, no dejes de escribir”, dizia o mail de hoje.
E então eu escrevo. Mesmo quando não escrevo.
25 noviembre 2009
A involução
Tínhamos um ar mudado. Como se a vida, de repente, tivesse deixado de ser um momento. Sentíamos aquele peso nas costas das velhas memorias de alegrias instantâneas, de compromissos com o cair da noite, de gargalhadas em troca de copos de plástico.
O mundo tinha voltado atrás, mas a maquineta estragou-se a meio caminho e ficámos ali, perdidos entre a felicidade e o conformismo. Entre o querer ser e aquilo que a vida nos tornou.
Tentámos fingir e repetir, mecanicamente, o passado. A criação ideal que cada um desenhou da sua vida anterior. Da Vida com vê maiúsculo.
Já não havia razão para chorar porque agora as lágrimas seriam profundas, sofridas, existenciais. E todos sabem que o lacrimejar verdadeiro não é para aqui chamado.
Então engole o choro e sorri. Constata, uma vez mais, o fracasso em que te tornaste. O triste processo de involução que empreendeste nos últimos anos. Olha-te na agua espelhada daquele rio urbano e conclui que este não és tu ou, pelo menos, quem tinhas planeado ser.
E, pela primeira vez, não é mais preciso fazer juras de amor ao fim da noite. Elas estão subentendidas naquela dura realidade contada no frio de uma janela aberta durante a madrugada.
O mundo tinha voltado atrás, mas a maquineta estragou-se a meio caminho e ficámos ali, perdidos entre a felicidade e o conformismo. Entre o querer ser e aquilo que a vida nos tornou.
Tentámos fingir e repetir, mecanicamente, o passado. A criação ideal que cada um desenhou da sua vida anterior. Da Vida com vê maiúsculo.
Já não havia razão para chorar porque agora as lágrimas seriam profundas, sofridas, existenciais. E todos sabem que o lacrimejar verdadeiro não é para aqui chamado.
Então engole o choro e sorri. Constata, uma vez mais, o fracasso em que te tornaste. O triste processo de involução que empreendeste nos últimos anos. Olha-te na agua espelhada daquele rio urbano e conclui que este não és tu ou, pelo menos, quem tinhas planeado ser.
E, pela primeira vez, não é mais preciso fazer juras de amor ao fim da noite. Elas estão subentendidas naquela dura realidade contada no frio de uma janela aberta durante a madrugada.
09 noviembre 2009
Coisas de meninas
Quando não estás sou diferente. Mais pesada, mais seria, mais Pinóquio construído a partir de uma colher de pau. Então sinto-me perdida num deserto onde os grãos de areia são pensamentos desencadeados, fraccionados de momentos que nunca viverei. Olho à volta e não estás. Outra vez. A música, ou melhor dito, a falta dela, grita de saudades. Descabela-se, tortura-se e tenta cortar os pulsos. Porque sem ti, música é memória.
As recordações impregnam os cheiros, os doces e a repentina vontade de comer batatas fritas às quatro da manhã. Os pensamentos saltam do bom ao mau como num jogo do Marco Pólo. Está quente, cada vez escalda mais. Quero-te perto para podermos espreguiçar os dedos dos pés e adormecer sem dar conta. Se estiveres ao meu lado, sei que posso acordar com as orelhas à mostra e o cabelo sem pentear. Porque tu não te importas, só gozas um pouco comigo. Só um pouquinho para eu fazer aquela cara de zangada que me vai dar tantas rugas no futuro. Rugas de expressão, já que contigo não há cá cremes nem maquilhagem. Para ti isso são coisas de meninas.
Então vem, quando puderes, vem. E deitamos no lado errado da cama e depois arrancamos o carro e só paramos para comprar gomas. E perseguimos casamentos e fazemos um picnic na praça principal. E brindamos com rimas e vestimos calças xadrez. Todo o dia. Todos os dias. Até aos últimos dias.
Mas se não puderes vir agora, não há problema. Eu percebo. Só queria que soubesses que quando não estás, sou diferente. E, às vezes, só às vezes, tenho saudades de mim.
As recordações impregnam os cheiros, os doces e a repentina vontade de comer batatas fritas às quatro da manhã. Os pensamentos saltam do bom ao mau como num jogo do Marco Pólo. Está quente, cada vez escalda mais. Quero-te perto para podermos espreguiçar os dedos dos pés e adormecer sem dar conta. Se estiveres ao meu lado, sei que posso acordar com as orelhas à mostra e o cabelo sem pentear. Porque tu não te importas, só gozas um pouco comigo. Só um pouquinho para eu fazer aquela cara de zangada que me vai dar tantas rugas no futuro. Rugas de expressão, já que contigo não há cá cremes nem maquilhagem. Para ti isso são coisas de meninas.
Então vem, quando puderes, vem. E deitamos no lado errado da cama e depois arrancamos o carro e só paramos para comprar gomas. E perseguimos casamentos e fazemos um picnic na praça principal. E brindamos com rimas e vestimos calças xadrez. Todo o dia. Todos os dias. Até aos últimos dias.
Mas se não puderes vir agora, não há problema. Eu percebo. Só queria que soubesses que quando não estás, sou diferente. E, às vezes, só às vezes, tenho saudades de mim.
02 noviembre 2009
Sussurros sigilosos de amantes amnésicos
Sei que sabes que sou só um sussurro sigiloso. Que venho e vou voando entre vidas vadias, variadas. Que mudo a cada momento, mas não por má-fé, por mania maluca de misturar-me com o mundo. Entendo que estejas estafado desta emanação de eloquência evasiva. Que queiras quebrar quem se queixa do que quis questionar. Não julgo jogadores jubilados, nem jovens jornalistas jubilosos. Ambos abusaram da amabilidade da ama-seca e aproveitaram-se da amizade amenésica do amor do destino. Despiram-se de datas, dicionários e definições e descolaram num disfarçado deleite de uma vida sem divisas. Bagunçaram o baile dos bibelôs birrentos. E agora queixam-se.
Por isso não podes pensar que procuro penalizar-te por este pavoroso palpite. Isto é apenas a minha ilustre imaginação a improvisar uma identidade idealista. Uma razão de rascunho que resolva este rebuliço que represento. Porque eu e tu, e tu e eu, agora somos apenas isto. Um conjunto de letras repetidas. Uma formula estragada e cacofónica que, estranhamente, para nós, soa-nos a musica. Sussurros sigilosos pronunciados por amantes amnésicos.
Por isso não podes pensar que procuro penalizar-te por este pavoroso palpite. Isto é apenas a minha ilustre imaginação a improvisar uma identidade idealista. Uma razão de rascunho que resolva este rebuliço que represento. Porque eu e tu, e tu e eu, agora somos apenas isto. Um conjunto de letras repetidas. Uma formula estragada e cacofónica que, estranhamente, para nós, soa-nos a musica. Sussurros sigilosos pronunciados por amantes amnésicos.
18 octubre 2009
Ela
Ela é assim. Aterriza com a sua voz de comando e o seu olhar de controlo de qualidade. Quer saber se a vida vai bem, se o dinheiro chega, se o trabalho satisfaz e se o futuro promete. Pergunta, comenta e, sem que perceba, já se instalou. Já é de casa. A minha casa. Chega de sorriso aberto e abraço apertado, traz uma mala de saudades e uma sacola com os meus jornais preferidos. Porque ela é assim: nunca falha.
Abre a mala e começa a espalhar-se. Enche a casa de vestígios e arranja um buraquinho no armário. Alisa o lençol, reorganiza o quarto e, em cinco minutos, dominou o mundo. O meu mundo. Porque ela é assim. E eu gosto.
Vem sempre com um rolo interminável de histórias narradas a conta gotas. Vem com serões de conversas debaixo do cobertor. Com o corta casaca dos amigos da lista negra. Com as novidades mais escaldantes da apetecível vida alheia.
- E agora vamos dizer mal de quem? – pergunta, para mudar de conversa. E nós mudamos e voltamos a mudar, interminavelmente.
E de repente apercebo-me da minha presença. Que eu estou ali. Que estive ali todo este tempo, ouvindo e admirando este incansável camaleão que faz o mundo hipnotizar-se. Ela anda e nós seguimos, ela diz e nós fazemos, ela ri e nós gargalhamos. Porque ela é assim, tem este incrível dom de fazer-nos girar, rodopiar à sua volta, sem nunca ficarmos tontos. Sem nunca cair.
Abre a mala e começa a espalhar-se. Enche a casa de vestígios e arranja um buraquinho no armário. Alisa o lençol, reorganiza o quarto e, em cinco minutos, dominou o mundo. O meu mundo. Porque ela é assim. E eu gosto.
Vem sempre com um rolo interminável de histórias narradas a conta gotas. Vem com serões de conversas debaixo do cobertor. Com o corta casaca dos amigos da lista negra. Com as novidades mais escaldantes da apetecível vida alheia.
- E agora vamos dizer mal de quem? – pergunta, para mudar de conversa. E nós mudamos e voltamos a mudar, interminavelmente.
E de repente apercebo-me da minha presença. Que eu estou ali. Que estive ali todo este tempo, ouvindo e admirando este incansável camaleão que faz o mundo hipnotizar-se. Ela anda e nós seguimos, ela diz e nós fazemos, ela ri e nós gargalhamos. Porque ela é assim, tem este incrível dom de fazer-nos girar, rodopiar à sua volta, sem nunca ficarmos tontos. Sem nunca cair.
08 octubre 2009
Equações absurdas
A variável xis tem muito que se lhe diga. Discute-se por ai se x=1 ou x=2. Burros. Hipócritas. Vê-se mesmo que não tinham na adolescência uma professora de matemática que lhes causava febre antes dos testes. À matemática há que ter-lhe medo e respeito. Há que tratar-la com carinho, dedicação e uma boa dose de benuorns.
Porque, meus amigos, se bem me lembro, xis pode ser uma variável nula. E é ai que as cosias se complicam: nessa pequena e ínfima possibilidade de xis não ter par, de que não tenha um equivalente numérico perdido no mundo da álgebra. E se x=0, então temos um problema. Porque equação incompleta é como morangos sem leite condensado ou hambúrguer sem batatas fritas. Um absurdo.
E, quando o incompleto já parece absurdo, descobrimos que os números são tramados e que estas lógicas transcendentais de Pitágoras, Euclides e Arquimedes vão mais longe. Vão sempre tão longe. É que não chega que xis tenha de andar sempre sozinho na rua, suportar o ípsilon com a sua cara metade aos beijos na fila do cinema, ler, todos os dias, as revistas de fofocas com as mais recentes equações matemáticas bem sucedidas. Não, não chega.
O pobre do xis, ¡que miserável!, teve de viver uns longos meses a passear na rua com a companhia do seu zero para descobrir que matemática é coisa seria, com ela não se brinca. Podes pegar no teu zero e colocar-lhe um roupa nova, uma peruca à maneira e um perfume cítrico, podes chamar-lhe “relação moderna” e “felicidade instantânea”, podes mentir, ocultar, esconder o zero debaixo do lençol. Não adianta, porque dizem os deuses da matemática que com 0, com 1, ou com 2, “as equações sem sentido, que não são válidas para nenhum valor, denominam-se absurdas”.
E, convenhamos, ninguém gosta de equações absurdas. Dão negativas nos testes de matemática. A todos menos ao Dali.
Porque, meus amigos, se bem me lembro, xis pode ser uma variável nula. E é ai que as cosias se complicam: nessa pequena e ínfima possibilidade de xis não ter par, de que não tenha um equivalente numérico perdido no mundo da álgebra. E se x=0, então temos um problema. Porque equação incompleta é como morangos sem leite condensado ou hambúrguer sem batatas fritas. Um absurdo.
E, quando o incompleto já parece absurdo, descobrimos que os números são tramados e que estas lógicas transcendentais de Pitágoras, Euclides e Arquimedes vão mais longe. Vão sempre tão longe. É que não chega que xis tenha de andar sempre sozinho na rua, suportar o ípsilon com a sua cara metade aos beijos na fila do cinema, ler, todos os dias, as revistas de fofocas com as mais recentes equações matemáticas bem sucedidas. Não, não chega.
O pobre do xis, ¡que miserável!, teve de viver uns longos meses a passear na rua com a companhia do seu zero para descobrir que matemática é coisa seria, com ela não se brinca. Podes pegar no teu zero e colocar-lhe um roupa nova, uma peruca à maneira e um perfume cítrico, podes chamar-lhe “relação moderna” e “felicidade instantânea”, podes mentir, ocultar, esconder o zero debaixo do lençol. Não adianta, porque dizem os deuses da matemática que com 0, com 1, ou com 2, “as equações sem sentido, que não são válidas para nenhum valor, denominam-se absurdas”.
E, convenhamos, ninguém gosta de equações absurdas. Dão negativas nos testes de matemática. A todos menos ao Dali.
29 septiembre 2009
Dizem...
Se calhar ainda somos aquilo que erámos, dizes tu. Uma espuma do passado, um restinho de chocolate no fundo da caneca de Cola-Cao. Se calhar é só porque não sabemos ser diferentes (que desculpa tão apetecível), ou talvez seja porque estamos acomodados, sedentários, rotineiros, medrosos, digo eu.
É mais fácil esconder-se na exteriolidade do nosso problema, na felicidade fácil e superficial, no tempo como salvador do mundo, diz uma voz sábia de por aí. Preferimos evitar os caminhos espinhosos de uma vida nova, fugir da responsabilidade de um ser solitario, buscar no antes uma justificação para o agora, uma esperança para o depois.
Diz o povo que passado vive no museo e que o futuro a Deus pertence. Mas, o presente, o que se vive e não o que se oferece, não devería se tão planeado, pensado, dissecado e digerido, dizemos os dois como forma de auto-convencimento. E, enquanto continuamos a viver neste limbo intemporal, vamos representando as cenas felizes daquele guião de antigamente, dizes tu e eu confirmo.
É mais fácil esconder-se na exteriolidade do nosso problema, na felicidade fácil e superficial, no tempo como salvador do mundo, diz uma voz sábia de por aí. Preferimos evitar os caminhos espinhosos de uma vida nova, fugir da responsabilidade de um ser solitario, buscar no antes uma justificação para o agora, uma esperança para o depois.
Diz o povo que passado vive no museo e que o futuro a Deus pertence. Mas, o presente, o que se vive e não o que se oferece, não devería se tão planeado, pensado, dissecado e digerido, dizemos os dois como forma de auto-convencimento. E, enquanto continuamos a viver neste limbo intemporal, vamos representando as cenas felizes daquele guião de antigamente, dizes tu e eu confirmo.
27 septiembre 2009
O Picasso sabia chorar
Porque para chorar é preciso lágrimas e muitas caixas de lenços.
É preciso ficar verde, azul e amarelo. Babar-se e inchar o nariz.
Para chorar é preciso que dos teus olhos saia um rio de lágrimas. Que a tua cabeça rebente e o tamanho da tua orelha deixe de importar.
O Picasso, esse sim, sabia chorar. Porque se queremos chorar, meus senhores, é preciso um mínimo de dramatismo. E não me venham cá com choraminguices.
23 septiembre 2009
O problema
O problema é que acabámos como um caso mal resolvido. Um caroço entalado na garganta. Aquele gostinho meio amargo, meio azedo, que surge de vez em quando no final de uma conversa ou numa sequência de pensamentos silenciosos.
O problema é que o tal carocito arde fundo e(já) não tem lágrimas, ele doí, bem forte, como aquela distensão muscular que tivemos preguiça de tratar. Mas,pelo menos, conforta-me saber que não é sempre assim, todos os dias o mesmo incómodo. Há largas e extensas temporadas em que a pontadinha adormece. Numa hibernação feliz de hamster pachorrento. Mas nestas andanças da vida não se pode vacilar. Basta uma mínima distracção e, zás, lá surge a dorzinha outra vez.
O problema foi que isto saiu-nos dos planos, transbordou-nos das mãos. Era para ser só mais uma história de noites aborrecidas com novos amigos. Um suspiro dramático num circulo de álcool em copos de plástico. Uma memoria. Um passado distante.
O problema é quando o presente supera a agenda meticulosa que controla os dias. E ali estás tu.Outra vez.
Chegou, felizmente e sem querer, o dia que há anos esperavamos. Quero dar-te um abraço forte e pedir-te desculpa. Quero cuspir-te na cara. Não, escarrar-te e insultar-te e bater-te para que fiquem para sempre no teu corpo as cicatrizes que deixaste em mim.
Quero descobrir se mudaste de perfume. Sussurrar-te uma frase ao ouvido e ver se ainda sabes a resposta. Quero saber da tua mãe, da tua avó, da casa de verão e do gato bebé.
Quero que te lixes e quanto pior melhor. Quero que sofras pelo menos uma lágrima das que eu sofri.
O problema é quando a dor volta e ficamos a pensar em tudo o que podíamos ter feito para evitar a lesão.
O problema é que o tal carocito arde fundo e(já) não tem lágrimas, ele doí, bem forte, como aquela distensão muscular que tivemos preguiça de tratar. Mas,pelo menos, conforta-me saber que não é sempre assim, todos os dias o mesmo incómodo. Há largas e extensas temporadas em que a pontadinha adormece. Numa hibernação feliz de hamster pachorrento. Mas nestas andanças da vida não se pode vacilar. Basta uma mínima distracção e, zás, lá surge a dorzinha outra vez.
O problema foi que isto saiu-nos dos planos, transbordou-nos das mãos. Era para ser só mais uma história de noites aborrecidas com novos amigos. Um suspiro dramático num circulo de álcool em copos de plástico. Uma memoria. Um passado distante.
O problema é quando o presente supera a agenda meticulosa que controla os dias. E ali estás tu.Outra vez.
Chegou, felizmente e sem querer, o dia que há anos esperavamos. Quero dar-te um abraço forte e pedir-te desculpa. Quero cuspir-te na cara. Não, escarrar-te e insultar-te e bater-te para que fiquem para sempre no teu corpo as cicatrizes que deixaste em mim.
Quero descobrir se mudaste de perfume. Sussurrar-te uma frase ao ouvido e ver se ainda sabes a resposta. Quero saber da tua mãe, da tua avó, da casa de verão e do gato bebé.
Quero que te lixes e quanto pior melhor. Quero que sofras pelo menos uma lágrima das que eu sofri.
O problema é quando a dor volta e ficamos a pensar em tudo o que podíamos ter feito para evitar a lesão.
02 septiembre 2009
"The more you leave, the less you loose"
A minha vida é uma eterna despedida. Um vai e vem de adeus e olá-caras-novas. O medo de ir e a vontade de voltar. Aquele passo meio dado, meio forçado, meio com vontade de fazer o mundo dar cambalhotas para trás, daquelas que eu nas aulas de ginástica nunca conseguia acabar em pé. E ainda não consigo. No fim saio sempre com um andar cambaleante e um sorriso forçado, esperando que a atitude do atleta melhore a sua pontuação. Engano os mais distraídos, que admiram a dita “coragem”, e comovo os que achavam que a minha vida era um fútil e desentendido abrir e fechar de portas.
E então ouço aquele famoso adeus. Aquele adeus já chorado tantas vezes nas filas de aeroportos, nas mesas de um jantar barato, nas cartas de juras de amizade eternas lidas à beira mar. É um adeus em coro e sem volta.
Já não peço telefones, nem contactos. Nunca olho para trás. Já não tiro fotografias, nem escrevo dedicatórias. Isso é para os novatos. Limito-me a escutar, com a atenção de uma eterna peregrina, os votos de boa viagem, as “certezas” de que terei uma vida melhor. “Vem visitar-me”, “vou visitar-te”. Tu não vens e eu não virei. Eu sei, mas eles parecem ter esperança.
Agarro-me a esses votos e repito-os obsessivamente na minha cabeça.
“Vai correr tudo bem”, dizem-me. E eu decoro. Até ao dia em que não precise mais de palavras encorajadoras. O dia em que encontre o meu lugar nesse mundo de despedidas.
O dia em que, quem sabe, me canse de fugir.
E então ouço aquele famoso adeus. Aquele adeus já chorado tantas vezes nas filas de aeroportos, nas mesas de um jantar barato, nas cartas de juras de amizade eternas lidas à beira mar. É um adeus em coro e sem volta.
Já não peço telefones, nem contactos. Nunca olho para trás. Já não tiro fotografias, nem escrevo dedicatórias. Isso é para os novatos. Limito-me a escutar, com a atenção de uma eterna peregrina, os votos de boa viagem, as “certezas” de que terei uma vida melhor. “Vem visitar-me”, “vou visitar-te”. Tu não vens e eu não virei. Eu sei, mas eles parecem ter esperança.
Agarro-me a esses votos e repito-os obsessivamente na minha cabeça.
“Vai correr tudo bem”, dizem-me. E eu decoro. Até ao dia em que não precise mais de palavras encorajadoras. O dia em que encontre o meu lugar nesse mundo de despedidas.
O dia em que, quem sabe, me canse de fugir.
25 agosto 2009
Eu podia parar com isto
Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse. E isso provoca ecos que duram o tempo que tiver de ser. Ecos que cantam dentro de mim e nunca me largam. Vejo-me de saltos altos e cara maquilhada a esfregar-te o meu discurso de gente adulta, crescida, essa que tem cartão visa gold e casa própria. Eu podia parar com isto, a sério. Mas nunca to disse.
Éramos todo um piropo, um olhar desfocado, um “mais que tudo”. Até ao dia. O dia do costume. O dia em que tropeçámos um no outro e descobrimos que os nossos ecos eram pura estética ou preguiça. O dia em que nos tornamos numa piada que ambos achavamos graça. E isso era preocupante.
Agora somos os restos do que fomos e fazemos tudo por esconde-lo. Porque cada um se sente num patamar superior. Convence-se que o faz pelo outro, por amor ao passado, porque fazê-lo não mexe em nada com os seus sentimentos. E cada vez que alguém saca um gesto daqueles do antigamente, o outro pensa em silêncio: “Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse”.
E seguimos em frente.
Éramos todo um piropo, um olhar desfocado, um “mais que tudo”. Até ao dia. O dia do costume. O dia em que tropeçámos um no outro e descobrimos que os nossos ecos eram pura estética ou preguiça. O dia em que nos tornamos numa piada que ambos achavamos graça. E isso era preocupante.
Agora somos os restos do que fomos e fazemos tudo por esconde-lo. Porque cada um se sente num patamar superior. Convence-se que o faz pelo outro, por amor ao passado, porque fazê-lo não mexe em nada com os seus sentimentos. E cada vez que alguém saca um gesto daqueles do antigamente, o outro pensa em silêncio: “Eu podia parar com isto. Podia. Mas nunca to disse”.
E seguimos em frente.
15 julio 2009
Vou explicar.
Tu estás ai, eu estou aqui.
Eu, no meu canto, no meu livro super interessante.
Tu, destino incerto.
Eu, cozendo e remendando os meus pensamento, na minha alegria quotidiana de pequenos prazeres. Tu, bem longe deles.
Até que te vejo, deixo tudo, e vou falar contigo.
Assim de simples. Só por falar. Só por dizer.
Iman ou rotina?
Tu estás ai, eu estou aqui.
Eu, no meu canto, no meu livro super interessante.
Tu, destino incerto.
Eu, cozendo e remendando os meus pensamento, na minha alegria quotidiana de pequenos prazeres. Tu, bem longe deles.
Até que te vejo, deixo tudo, e vou falar contigo.
Assim de simples. Só por falar. Só por dizer.
Iman ou rotina?
13 julio 2009
Silêncio
O problema é quando chegam os silêncios. Esses insuportáveis momentos em que as trivialidades deixam de preencher o nosso pensamento. Aí, nos eternos espaços em branco, olhamos para nós e paramos.
Descobrimos que um não sabe o que fazer com o silêncio do outro. Nunca o aprendemos. Não nos servirão os quilos de livros que estudei ou o catálogo dos filmes que já viste. Pois parece que para este ofício não há diplomas nem livros de instruções.
Estamos lixados.
Porque são nessas pausas em que a presença do passado se torna intragável. Cada gesto, cada movimento discreto, cada tic, tudo se junta num coro celeste que tem como missão lembrar-nos que nós já não somos risadas cúmplices debaixo do lençol. Agora somos silêncio. E continuamos (e continuaremos?) lutando para não admiti-lo.
Descobrimos que um não sabe o que fazer com o silêncio do outro. Nunca o aprendemos. Não nos servirão os quilos de livros que estudei ou o catálogo dos filmes que já viste. Pois parece que para este ofício não há diplomas nem livros de instruções.
Estamos lixados.
Porque são nessas pausas em que a presença do passado se torna intragável. Cada gesto, cada movimento discreto, cada tic, tudo se junta num coro celeste que tem como missão lembrar-nos que nós já não somos risadas cúmplices debaixo do lençol. Agora somos silêncio. E continuamos (e continuaremos?) lutando para não admiti-lo.
12 julio 2009
Não és tu, mas a ideia que criei de ti. São as memórias que cozinhei longamente no meu caldeirão de momentos fingidos, que encenei e estreei naquele palco que, de tanto sonhar, tornou-se parte de mim.
Não és tu, são os filmes que vejo e a poesia que imagino ler. É este mundo em que para cada amor há uma esquina, para cada casal, um anel perfeito, para cada dois, um só coração.
Não és tu, é a minha a minha fúria contra o mundo quando descubro que ele não obedeceu às minhas ordens. Incompetente! Que os pincéis que lhe comprei não pintaram o quatro encomendado. Que não existem pincéis.
Não és tu, são os clichés impossíveis de evitar.
Não és tu, sou eu.
Não és tu, são os filmes que vejo e a poesia que imagino ler. É este mundo em que para cada amor há uma esquina, para cada casal, um anel perfeito, para cada dois, um só coração.
Não és tu, é a minha a minha fúria contra o mundo quando descubro que ele não obedeceu às minhas ordens. Incompetente! Que os pincéis que lhe comprei não pintaram o quatro encomendado. Que não existem pincéis.
Não és tu, são os clichés impossíveis de evitar.
Não és tu, sou eu.
08 julio 2009
A professora de matemática
Não sei o que te devo, nem como actuar. Não conheço as ruas que piso, os instintos que me assaltam, essa desgraçada mania do mundo de acabar sempre, e mais uma vez, em ti.
Sinto-me uma mafiosa de cabelo despenteado e de roupa imprópria para a ocasião. Vim de chinelos ao casamento do rei e saí com os dedos do pé a sangrar de pisadelas de salto de agulha.
Esqueci-me do escudo e a bala atingiu-me fundo. Doeu.
Agora, derrubada neste chão pestilento, busco uma explicação e concluo que não sei distinguir entre o que sou e o que me ensinaste a ser, entre o que aprendi nos meus tratamentos de prevenção cardíaca e as drogas que me injectaste directamente na aorta. Desculpa, mas não consigo passar factura. É que, como já sabes, a professora de matemática metia-me medo.
Sinto-me uma mafiosa de cabelo despenteado e de roupa imprópria para a ocasião. Vim de chinelos ao casamento do rei e saí com os dedos do pé a sangrar de pisadelas de salto de agulha.
Esqueci-me do escudo e a bala atingiu-me fundo. Doeu.
Agora, derrubada neste chão pestilento, busco uma explicação e concluo que não sei distinguir entre o que sou e o que me ensinaste a ser, entre o que aprendi nos meus tratamentos de prevenção cardíaca e as drogas que me injectaste directamente na aorta. Desculpa, mas não consigo passar factura. É que, como já sabes, a professora de matemática metia-me medo.
30 junio 2009
Outro dia normal
O meu calendário tem buracos e desenhos. Os seus números ganham nomes e os dias um karma que tarda em perder-se. A minha vida anda em contrarrelógio de metas pequeninas, aos tropeções de semana a semana, de festa em festa, saltando, com pernas compridas, os dias normais que rasgamos na agenda.
Mas o meu calendário, de um momento para outro, perdeu um dia do mês. O que decidi abdicar, tempos atrás, naquele fim-de-semana cansado de dores musculares. Num ápice, esse número despiu-se do seu traje de festa, perdeu os corações que o rodeavam, os postais improvisados e os presentes às escondidas. Juntou-se, choramingando, à normalidade dos dias passageiros que à noite dormem abraçados com mais um risco do calendário.
Hoje quando acordei limpei as lágrimas ao dia trinta e disse-lhe baixinho: “Bem-vindo a mais um dia normal”.
Mas o meu calendário, de um momento para outro, perdeu um dia do mês. O que decidi abdicar, tempos atrás, naquele fim-de-semana cansado de dores musculares. Num ápice, esse número despiu-se do seu traje de festa, perdeu os corações que o rodeavam, os postais improvisados e os presentes às escondidas. Juntou-se, choramingando, à normalidade dos dias passageiros que à noite dormem abraçados com mais um risco do calendário.
Hoje quando acordei limpei as lágrimas ao dia trinta e disse-lhe baixinho: “Bem-vindo a mais um dia normal”.
28 junio 2009
Pés queimados de desejo
Era uma competição de carrinhos de supermercado, uma tarde de madeira junto ao mar. A cidade estava de férias e as sardinhas tinham sofrido uma repentina chacina. O mar mais vazio e o estômago mais cheio, diriam os radicais.
A mesa de jantar do senhorio que nos maltratou, a cadeira roubada do liceu enquanto a menina bonita distraía o segurança. O plano perfeito para aniquilar aquela estante lá de casa que a bisavó deixou-nos no testamento. Tudo teria finalmente um objectivo nobre: aquecer os corpos ébrios de estudantes festeiros, trabalhadores ressacados e desocupados em busca de evasão.
Ajudaram a queimar os pés de desejos e a iluminar os brindes a um futuro melhor. Testemunharam as juras de amor eterno e os arrependimentos de dia seguinte. As zangas sem sentido e aquela paixão encontrada numa noite sem dormir. Com as horas, o fogo transformou-se me fumo, esse perfume que tatua os corpos na famosa noite de San Juan.
A mesa de jantar do senhorio que nos maltratou, a cadeira roubada do liceu enquanto a menina bonita distraía o segurança. O plano perfeito para aniquilar aquela estante lá de casa que a bisavó deixou-nos no testamento. Tudo teria finalmente um objectivo nobre: aquecer os corpos ébrios de estudantes festeiros, trabalhadores ressacados e desocupados em busca de evasão.
Ajudaram a queimar os pés de desejos e a iluminar os brindes a um futuro melhor. Testemunharam as juras de amor eterno e os arrependimentos de dia seguinte. As zangas sem sentido e aquela paixão encontrada numa noite sem dormir. Com as horas, o fogo transformou-se me fumo, esse perfume que tatua os corpos na famosa noite de San Juan.
17 junio 2009
Manjerico
Foi uma noite de danças pelas calçadas escorregadias, de gritos encostados a paredes molhadas, de abraços e apertos que não queriam mais largar.
Foi-se um manjerico e veio outro ao som da música com cheiro a sardinha assada. Aquela que se canta bem alto, com um copo cheio a transbordar para as mãos. Tropeçávamos, sem querer, em pés conhecidos. Um abraço, uma jura de amor eterna, um adeus de data indefinida. E íamos caminhando, como quem vai pela vida sem destino, à procura de mais rostos, de mais histerismo, de mais conversas confessadas num degrau de uma escada qualquer.
Por momentos o mundo parecia uma dança de multidões. Tão barulhento, tão confuso, tão dramático…
E os gritos e as lágrimas, os empurrões e os insultos, as promessas e os segredos, ficaram escritos naquelas esquinas embriagadas, naqueles olhares perdidos pelas ruas sem nome da nossa cidade. E serão esquecidos até ao dia em que, entre dois copos ou três mais, alguém relembre aquele dia em que…
O dia em que, diz a lenda, se celebra a melhor noite do ano.
O dia em que, mais uma vez, a profecia voltou a cumprir-se. Mas desta vez, sem casamentos.
Foi-se um manjerico e veio outro ao som da música com cheiro a sardinha assada. Aquela que se canta bem alto, com um copo cheio a transbordar para as mãos. Tropeçávamos, sem querer, em pés conhecidos. Um abraço, uma jura de amor eterna, um adeus de data indefinida. E íamos caminhando, como quem vai pela vida sem destino, à procura de mais rostos, de mais histerismo, de mais conversas confessadas num degrau de uma escada qualquer.
Por momentos o mundo parecia uma dança de multidões. Tão barulhento, tão confuso, tão dramático…
E os gritos e as lágrimas, os empurrões e os insultos, as promessas e os segredos, ficaram escritos naquelas esquinas embriagadas, naqueles olhares perdidos pelas ruas sem nome da nossa cidade. E serão esquecidos até ao dia em que, entre dois copos ou três mais, alguém relembre aquele dia em que…
O dia em que, diz a lenda, se celebra a melhor noite do ano.
O dia em que, mais uma vez, a profecia voltou a cumprir-se. Mas desta vez, sem casamentos.
15 junio 2009
Cara de póquer
Tu mentes-me e eu finjo acreditar nesta teia de pensamentos inventados que fomos construindo. Passeamos por ela, quais aranhas coxas de uma pata, e fazemo-la nosso reino. Somos assim, mentirosos compulsivos.
E não vale negar que é mentira sempre que dizemos que o sol brilha outra vez. Tripla negativa.
Não vale fingir que é verdade que já estamos em outra, que o resto é passado, que somos mais, melhores e independentes.
Não vale porque eu há muito tempo descodifiquei a tua cara de póquer. E o meu nariz, esse imbecil, acaba sempre por denunciar os meus pinóquios.
E a corda vai ficando cada vez mais grossa, mais resistente, mais estável. Até chegar ao dia em que deixemos de reparar que vivemos neste palácio de teias de aranha.
A tripla negativa torna-se verdade, e nós, uma mentira.
E não vale negar que é mentira sempre que dizemos que o sol brilha outra vez. Tripla negativa.
Não vale fingir que é verdade que já estamos em outra, que o resto é passado, que somos mais, melhores e independentes.
Não vale porque eu há muito tempo descodifiquei a tua cara de póquer. E o meu nariz, esse imbecil, acaba sempre por denunciar os meus pinóquios.
E a corda vai ficando cada vez mais grossa, mais resistente, mais estável. Até chegar ao dia em que deixemos de reparar que vivemos neste palácio de teias de aranha.
A tripla negativa torna-se verdade, e nós, uma mentira.
08 junio 2009
O balão e a criança
Quero fazer-te uma rasteira e rir-me de ti quando caias ao chão. Quero mostrar-te a língua e cuspir-te bolhas de saliva. Que vontade de puxar-te os cabelos e mandar-te migalhas de pão à cabeça.
Não quero mais ser prudente, nem razoável. O meu corpo está inchado de tanto engolir os insultos que ensaiei na minha cabeça. E assim ando pelo mundo, deformada como um balão amargurado que voou da mão de uma criança.
Então hoje decidi que não quero mais ser balão. Por um dia, pelo menos por um dia, serei eu a criança.
Não quero mais ser prudente, nem razoável. O meu corpo está inchado de tanto engolir os insultos que ensaiei na minha cabeça. E assim ando pelo mundo, deformada como um balão amargurado que voou da mão de uma criança.
Então hoje decidi que não quero mais ser balão. Por um dia, pelo menos por um dia, serei eu a criança.
23 mayo 2009
eumaistu
Nós somos aquilo que fomos enquanto soubemos ser. E agora não somos, porque já não somamos nos números da calculadora.
Lembro-me de quando éramos. eumaistu. Agora transformámo-nos em eu e tu, o que quer dizer, em resumo, que já não formamos palavra.
Não existimos nesta Associacição de Seres Plurais que parece dominar o mundo. Nem eu, nem tu. Porque ali só entram nós.
E cada vez que nos vejo, eu e tu, em escritas separadas e conceitos distantes, surpreendo-me.
Porque a minha cabeça ainda não aprendeu a deixar de pensar no plural.
Lembro-me de quando éramos. eumaistu. Agora transformámo-nos em eu e tu, o que quer dizer, em resumo, que já não formamos palavra.
Não existimos nesta Associacição de Seres Plurais que parece dominar o mundo. Nem eu, nem tu. Porque ali só entram nós.
E cada vez que nos vejo, eu e tu, em escritas separadas e conceitos distantes, surpreendo-me.
Porque a minha cabeça ainda não aprendeu a deixar de pensar no plural.
20 mayo 2009
Os astros e o caminho
Quero tecer palavras de algodão que te aconcheguem àquelas horas estranhas em que decides descansar.
Quero embrulhar-te num pacote cheio de fita-cola para que não te rasgues e depois envolver-te num impermeável, com um pouco de laca por cima. Melhor não arriscar.
Vou aparecer ai, de pontinhas dos pés, e ajeitar o teu cabelo de cogumelo e endireitar aquele caracol rebelde que insiste em desalinhar-se e esticar-te o lençol e dar-te todas as respostas àquelas perguntas que nunca tiveste coragem de fazer.
E, nessa noite, vou contar-te o que comi ao almoço, o que o professor respondeu à pergunta e falar-te da manchete de um jornal local. Vou rir-me da tua cara amassada e zangar-me porque estás sempre a ver filmes e nunca a filmar. Vou mostrar-te a verruga nova que me apareceu e queixar-me das enxaquecas.
E depois de tudo isso, já que estou ai, aproveito para me deitar um pouco e deixar-me embalar pela serena harmonia de outrora. Aquele tempo em que os astros se alinharam para mostrar-nos o caminho.
Prometo não acordar-te, nem queixar-me da tua apneia. Prometo usar sapatos de lã e banhar-me com as minhas próprias lágrimas. Prometo ficar ali até ao dia em que, finalmente, voltes a acordar a sorrir. Como naqueles dias. Os dias em que os astros…
Quero embrulhar-te num pacote cheio de fita-cola para que não te rasgues e depois envolver-te num impermeável, com um pouco de laca por cima. Melhor não arriscar.
Vou aparecer ai, de pontinhas dos pés, e ajeitar o teu cabelo de cogumelo e endireitar aquele caracol rebelde que insiste em desalinhar-se e esticar-te o lençol e dar-te todas as respostas àquelas perguntas que nunca tiveste coragem de fazer.
E, nessa noite, vou contar-te o que comi ao almoço, o que o professor respondeu à pergunta e falar-te da manchete de um jornal local. Vou rir-me da tua cara amassada e zangar-me porque estás sempre a ver filmes e nunca a filmar. Vou mostrar-te a verruga nova que me apareceu e queixar-me das enxaquecas.
E depois de tudo isso, já que estou ai, aproveito para me deitar um pouco e deixar-me embalar pela serena harmonia de outrora. Aquele tempo em que os astros se alinharam para mostrar-nos o caminho.
Prometo não acordar-te, nem queixar-me da tua apneia. Prometo usar sapatos de lã e banhar-me com as minhas próprias lágrimas. Prometo ficar ali até ao dia em que, finalmente, voltes a acordar a sorrir. Como naqueles dias. Os dias em que os astros…
14 mayo 2009
Soldado
Sou como aquele soldado húngaro que se gabava dos seus uniformes e dos hinos harmoniosos, dos sapatos engraxados, do batalhão organizado e das armas detalhadamente polidas. Até ao dia em que chegou a guerra e ele descobriu que nunca tinha aprendido a lutar.
07 mayo 2009
A otra cosa mariposa
Sai vício, sai.
Já te pedi de todas as maneiras que sabia, já chorei lágrimas de mendigagem, já implorei, já cedi e já te desprezei.
Por que é que então não abandonas, de uma vez, este corpo de que te fizeste escravo? Porque não migras para um novo paradeiro e conquistas outro coração vulnerável.
Preciso fechar-me numa casa, acorrentar-me à minha cama e sofrer, dor a dor, todas as torturas desta desintoxicação.
Sai vício, sai.
Leva contigo a tua voz aconchegante, as horas de conversas-gargalhadas tidas em sussurro num ouvido qualquer. Vai-te embora e arrasta os flashs de memória, o sorriso de cada pensamento teu, a perfeição daquele dia passado, preguiçosamente, à beira-mar.
Sai, imploro-te, sai.
Inscreve-te numa maratona e foge.
Mas mais rápido. Por favor.
Já te pedi de todas as maneiras que sabia, já chorei lágrimas de mendigagem, já implorei, já cedi e já te desprezei.
Por que é que então não abandonas, de uma vez, este corpo de que te fizeste escravo? Porque não migras para um novo paradeiro e conquistas outro coração vulnerável.
Preciso fechar-me numa casa, acorrentar-me à minha cama e sofrer, dor a dor, todas as torturas desta desintoxicação.
Sai vício, sai.
Leva contigo a tua voz aconchegante, as horas de conversas-gargalhadas tidas em sussurro num ouvido qualquer. Vai-te embora e arrasta os flashs de memória, o sorriso de cada pensamento teu, a perfeição daquele dia passado, preguiçosamente, à beira-mar.
Sai, imploro-te, sai.
Inscreve-te numa maratona e foge.
Mas mais rápido. Por favor.
06 mayo 2009
O eterno escavar
De repente toda a sua vida transformou-se num eterno escavar na areia. Um buraco mais e mais profundo que o asfixiava gradualmente. Uma cova sem fim, que a cada movimento o soterrava um grão mais e o aproximava da fatalidade que vinha omitindo há tanto tempo. Ao dar-se conta, as palavras morderam-lhe os lábios, as lágrimas e os soluços escaparam dissonantes em resposta. Saiu como um louco daquele buraco e instalou-se num cubículo qualquer.
Ali a vida era mais segura. Ali, podia menosprezar os penosos degraus da escadaria da aprendizagem e as regras mais elementares de uma grandiosidade futura. Ali podia passar os dias entre lágrimas e pensamentos. E se falhasse, não teria grande relevância porque, pelo menos, não tinha sequer tentado.
Ali a vida era mais segura. Ali, podia menosprezar os penosos degraus da escadaria da aprendizagem e as regras mais elementares de uma grandiosidade futura. Ali podia passar os dias entre lágrimas e pensamentos. E se falhasse, não teria grande relevância porque, pelo menos, não tinha sequer tentado.
05 mayo 2009
A viagem.
Enquanto a vida passa à velocidade de um cronómetro de segundos apressados, eu vou fazendo notas mentais para não me esquecer daquele olhar, do comentário mal conseguido, da história da amiga do vizinho que tem um gato novo. Os meus apontamentos vão acumulando-se em resmas de folhas coloridas que me pesam na cabeça. Mas não importa, há que anotar tudo para não esquecer nada. Anotar tudo, para poder contar depois.
Depois como daquelas vezes em que ias de viagem ou passavas a noite em casa de um amigo. Depois como um “já te ligo daqui a bocado”.
Depois como se houvesse realmente um depois.
Mas parece que depois do depois não há nada.
É um silêncio total, cuja banda sonora são os clicks desesperados nos ícones sociais que outrora me conectaram a ti. Um pequeno suspiro à espera do dia em que me deixem, finalmente, dizer: “Que tal essa viagem? Conta-me tudo.”
Depois como daquelas vezes em que ias de viagem ou passavas a noite em casa de um amigo. Depois como um “já te ligo daqui a bocado”.
Depois como se houvesse realmente um depois.
Mas parece que depois do depois não há nada.
É um silêncio total, cuja banda sonora são os clicks desesperados nos ícones sociais que outrora me conectaram a ti. Um pequeno suspiro à espera do dia em que me deixem, finalmente, dizer: “Que tal essa viagem? Conta-me tudo.”
30 abril 2009
Caroços de tangerina
Acreditava que seria uma espiral perfeita, eterna, colorida e brilhante, como as tardes de domingo a jogar Sonic na Sega Saturn. Que aquele cheirinho cítrico de fruta descascada iria continuar impregnado na nossa pele, recém queimada de sol. Via-nos numa fotografia congelada de sorrisos extravagantes, num passado que nunca chegaria ao futuro banal de passividade amorfa.
Mas foram comendo as nossas costuras e, aos poucos, deixámos de ser capazes de remendar-nos. Andávamos rotos pelas ruas sinuosas de um país estrangeiro, em que naquela imagem, reflectida nos vidros das lojas de marca, não éramos nós que aparecíamos. O meu nariz já não cheirava os caroços de tangerina engolidos ao acaso, nem aquele perfume que um dia deixaste no lençol.
Nós éramos eu e tu. E isso já não me servia.
Neguei 29 vezes e à trigésima disse: chega.
Agora chegou e chegámos nós aqui. Sem saber muito bem se preferimos o 29 ou o 31.
Mas foram comendo as nossas costuras e, aos poucos, deixámos de ser capazes de remendar-nos. Andávamos rotos pelas ruas sinuosas de um país estrangeiro, em que naquela imagem, reflectida nos vidros das lojas de marca, não éramos nós que aparecíamos. O meu nariz já não cheirava os caroços de tangerina engolidos ao acaso, nem aquele perfume que um dia deixaste no lençol.
Nós éramos eu e tu. E isso já não me servia.
Neguei 29 vezes e à trigésima disse: chega.
Agora chegou e chegámos nós aqui. Sem saber muito bem se preferimos o 29 ou o 31.
23 abril 2009
All-star
Não quis olhar. Congelei-te numa imagem e fechei os olhos. A luz doía muito e mostrava um filme serie B que falava de um homem que se queria compor, que lutava por encontrar o tom certo, a nota perfeita, afinada, ritmada a uma melodia pré estabelecida. Guião medíocre. Apertei mais os olhos e respirei.
Aqueles não éramos nós. E os nossos ouvidos sangravam de ferida aberta com remédio errado. A voz tremia a cada piada mal conseguida, a cada palavra engolida com miolo de pão.
Tu és aquele all-star roto com o dedo de fora. És o sapato que se sabe lixo e mesmo assim, heróico, resiste até ao fim da viagem. Sem descompor-se, sem nunca desmaterializar.
E eu sou só um acompanhante desse all-star de caveira desbotada. Sigo, cega, os seus passos. Porque há que protege-lo. Custe o que custar.
Aqueles não éramos nós. E os nossos ouvidos sangravam de ferida aberta com remédio errado. A voz tremia a cada piada mal conseguida, a cada palavra engolida com miolo de pão.
Tu és aquele all-star roto com o dedo de fora. És o sapato que se sabe lixo e mesmo assim, heróico, resiste até ao fim da viagem. Sem descompor-se, sem nunca desmaterializar.
E eu sou só um acompanhante desse all-star de caveira desbotada. Sigo, cega, os seus passos. Porque há que protege-lo. Custe o que custar.
a coleira
Penso naqueles dias em que a vida era um constante count-down de sacos de goma e museus de ciência. Olho à minha volta e estremeço com os sorrisos derretidos de felicidade, com os lugares comuns de satisfação, com os meus pés, sozinhos, metidos debaixo da areia.
Agora tudo o que eu queria era sair, libertar-me destas amarras de material indestrutível. Construir um novo eu, um que soubesse voar longe e regressar com as suas conquistas. Quero ser pássaro predador, mas há algo que me prende à terra, uma coleira incómoda que amarra as minhas asas e diz-me baixinho que a liberdade é sofrimento.
Agora tudo o que eu queria era sair, libertar-me destas amarras de material indestrutível. Construir um novo eu, um que soubesse voar longe e regressar com as suas conquistas. Quero ser pássaro predador, mas há algo que me prende à terra, uma coleira incómoda que amarra as minhas asas e diz-me baixinho que a liberdade é sofrimento.
20 abril 2009
Liliputiense
Sou uma formiga na fila para conseguir um grão de açúcar. Um pontinho negro em busca de uma cor complementar.
Sou formiga preta e medrosa, sempre expectante de quando chegará a dita pisadela. Quando esmagar-me-ão com uma sola de sapato lamacenta ou um salto agulha de uma tia afectada qualquer?
E do pisão ao espatifamento total, um segundo. Assim, puff.
Tudo porque hoje apresentei-me à minha essência numa entrada de dicionário. Respirei fundo e pensei: “Até é uma palavra engraçada. Parece-se com uma formiga”
Sou formiga preta e medrosa, sempre expectante de quando chegará a dita pisadela. Quando esmagar-me-ão com uma sola de sapato lamacenta ou um salto agulha de uma tia afectada qualquer?
E do pisão ao espatifamento total, um segundo. Assim, puff.
Tudo porque hoje apresentei-me à minha essência numa entrada de dicionário. Respirei fundo e pensei: “Até é uma palavra engraçada. Parece-se com uma formiga”
18 abril 2009
Estás sozinha. Mergulhada em ti mesma num mundo egoísta no qual nunca aprendeste a viver. O teu umbigo cresceu, a tua cara mudou e a tua roupa ganhou todo um novo significado. És tu jogada aos leões. Tu sem carro de apoio, lançada a um cenário agreste que faz bolhas nos pés e lesões no joelho.
Meio a coxear, apercebeste-te da dimensão da tua nova existência. Cambaleias, duvidas, dás um passo de segurança para trás. Porque te crês sempre tão corajosa?
Meio a coxear, apercebeste-te da dimensão da tua nova existência. Cambaleias, duvidas, dás um passo de segurança para trás. Porque te crês sempre tão corajosa?
16 abril 2009
O tombo
Ela caiu e enquanto tombava via a sua queda em câmara lenta. Tropeçando, pouco a pouco, nas pedras do caminho, ferindo os pés e inclinando-se para a frente, para trás. Resistindo. Mas era inevitável. As forças da gravidade sempre venciam.
Primeiro um pé, depois o outro, uma aterrizagem brilhante, daquelas que fazem pouco barulho e quase não levantam poeira.
De repente, tudo mudou.
Depois de meses a ensaiar aquela queda, apercebeu-se que a genialidade da técnica de pouco lhe valia, pois estava ali, no chão, caída.
Ao nível da baba do cão, da formiga venenosa e da lesta gorda.
O mundo parecia tão grande visto desde baixo.
Grande e assustador.
Foi nesse momento que arriscou e pediu: “Gravidade, dás-me mais uma chance?”
Primeiro um pé, depois o outro, uma aterrizagem brilhante, daquelas que fazem pouco barulho e quase não levantam poeira.
De repente, tudo mudou.
Depois de meses a ensaiar aquela queda, apercebeu-se que a genialidade da técnica de pouco lhe valia, pois estava ali, no chão, caída.
Ao nível da baba do cão, da formiga venenosa e da lesta gorda.
O mundo parecia tão grande visto desde baixo.
Grande e assustador.
Foi nesse momento que arriscou e pediu: “Gravidade, dás-me mais uma chance?”
31 marzo 2009
Palavras de silêncio
Escrevi no silêncio o que não tive coragem de falar.
Tu leste-o e agora perguntas-me,
“O que isso quer dizer?”
Eu respondo-te que o que foi emudecido por aí seguirá.
Argumentas então que sem som não há palavras.
E eu grito-te:
“Shhhiiuuu”.
Tu leste-o e agora perguntas-me,
“O que isso quer dizer?”
Eu respondo-te que o que foi emudecido por aí seguirá.
Argumentas então que sem som não há palavras.
E eu grito-te:
“Shhhiiuuu”.
26 marzo 2009
Preciso de uma chave.
A que engolimos naquele dia de verão.
No dia em que caminhávamos com as costas pesadas, o cabelo oleoso e as unhas dos pés sujas. O dia em que não paravas de falar. Em que me contavas histórias de fazer rir e aquelas que me levavam a viajar por sonhos distantes de mãos dadas e pés entrelaçados por baixo da areia de praia. Glup.
O cadeado é um labirinto sem fim. Em que a cada passo há um abismo, a cada obstáculo, um suspiro.
E de pensar que eu já tive essa chave. Era só ter feito click.
A que engolimos naquele dia de verão.
No dia em que caminhávamos com as costas pesadas, o cabelo oleoso e as unhas dos pés sujas. O dia em que não paravas de falar. Em que me contavas histórias de fazer rir e aquelas que me levavam a viajar por sonhos distantes de mãos dadas e pés entrelaçados por baixo da areia de praia. Glup.
O cadeado é um labirinto sem fim. Em que a cada passo há um abismo, a cada obstáculo, um suspiro.
E de pensar que eu já tive essa chave. Era só ter feito click.
25 marzo 2009
O baralho de cartas
Éramos muitos. Falávamos como se fossemos o mesmo, numa complementaridade de defeitos que culminava em caretas de aborrecimento. No fundo, éramos um. E isso incomodava-nos.
No ar sentia-se uma aura de plenitude que se exaltava pelo meio dos dedos entrelaçados, dos olhares cúmplices, da cabeça que, lentamente, se inclinava sobre um ombro mais distraído.
Passeávamos por conversas esquecidas na gaveta, opiniões contraditórias de berros e insultos e carinhos de vermelho corado.
Fingíamo-nos frios, distantes. Intelectuais urbanos com sede de informação. Éramos pequenos, frágeis e estávamos a jogar os quartos de final das partidas de cartas que nos habituámos a começar sempre que uma noite corria mal. Agora tudo estava entrilhado. E, como o previsto, as cartas chegavam quase ao fim.
Mas com o baralho, nunca se sabe.
No ar sentia-se uma aura de plenitude que se exaltava pelo meio dos dedos entrelaçados, dos olhares cúmplices, da cabeça que, lentamente, se inclinava sobre um ombro mais distraído.
Passeávamos por conversas esquecidas na gaveta, opiniões contraditórias de berros e insultos e carinhos de vermelho corado.
Fingíamo-nos frios, distantes. Intelectuais urbanos com sede de informação. Éramos pequenos, frágeis e estávamos a jogar os quartos de final das partidas de cartas que nos habituámos a começar sempre que uma noite corria mal. Agora tudo estava entrilhado. E, como o previsto, as cartas chegavam quase ao fim.
Mas com o baralho, nunca se sabe.
17 marzo 2009
Fechei os olhos e, sem querer, senti-me mais perto de mim.
Sou o fruto cansaço e das conversas de olhares roubados.
Sou aquilo que me mandam ser, empacotada em vinte quilos de bagagem sem liquidos.
Mas agora, pensando bem, apeteceu-me voltar atrás. Cerrar devagarinho as pestanas para todas que encaixem bem e não embaciem a paisagem.
Sou aquela que vejo de olhos espectantes perdida na escuridão.
Sou o fruto cansaço e das conversas de olhares roubados.
Sou aquilo que me mandam ser, empacotada em vinte quilos de bagagem sem liquidos.
Mas agora, pensando bem, apeteceu-me voltar atrás. Cerrar devagarinho as pestanas para todas que encaixem bem e não embaciem a paisagem.
Sou aquela que vejo de olhos espectantes perdida na escuridão.
08 marzo 2009
Cera de ouvido
Quis falar e não encontrei ouvidos. Quis dizer, mas calei. Quis fazer e desfiz.
Porque tive medo de errar. Outra vez.
Estava de língua grande, cabeça cheia e voz solta. Prendi-a.
Ficou a espreitar do muro, assustadiça, à espera da hora certa. Não chegou.
Tentei fazer o pino, virar o mundo ao contrário. Pôr uma cabeleira colorida e um chapéu pontiagudo. Não funcionou.
Vi um drama pouco dramático e li um livro pouco descritivo. Busquei inspiração em letras coloridas. Não chegou.
Decididamente, hoje o dia não está para mim: os ouvidos têm todos demasiada cera.
Porque tive medo de errar. Outra vez.
Estava de língua grande, cabeça cheia e voz solta. Prendi-a.
Ficou a espreitar do muro, assustadiça, à espera da hora certa. Não chegou.
Tentei fazer o pino, virar o mundo ao contrário. Pôr uma cabeleira colorida e um chapéu pontiagudo. Não funcionou.
Vi um drama pouco dramático e li um livro pouco descritivo. Busquei inspiração em letras coloridas. Não chegou.
Decididamente, hoje o dia não está para mim: os ouvidos têm todos demasiada cera.
07 marzo 2009
Desfazer-me de mim
Sinto o peso do mundo nas costas, no pescoço e a fazer pressão na parte de trás da minha cabeça. Sinto-me pesada.
Vejo os meus passos cada vez mais lentos, arrastados, em busca de um banco para se sentarem. Resisto. E cada palavra, uma pequena faca sangrenta, uma gota menos nos litros que sangue que não me deixam doar. Preciso desfazer-me de mim. Comprar um outro eu em segunda mão. Um eu que tenha menos defeitos, menos calos da vida, cores mais brilhantes e certezas. Acima de tudo, certezas.
Vou à feira da ladra e, em desepero, procuro-me. Entre camisas velhas, roupa suja e vídeos usados. Eu estarei por ali, algures. É só procurar. Acabo por comprar um livro. Para não admitir o fracasso. E, de mansinho, desisto.
Queria ser forte e musculada, mas fizeram-me débil, de saúde instável e cabeça pensativa. Daquelas que não se calam. Chega o dia em que não aguento mais engolir. Esforço-me, mas e o meu corpo regurgita.
“Não devias ter dito isso”, respondem-me. E eu engulo-o. Outra vez. Mais uma vez.
Então hoje resolvi voltar à feira da ladra.
Quem sabe tenha mais sorte.
Vejo os meus passos cada vez mais lentos, arrastados, em busca de um banco para se sentarem. Resisto. E cada palavra, uma pequena faca sangrenta, uma gota menos nos litros que sangue que não me deixam doar. Preciso desfazer-me de mim. Comprar um outro eu em segunda mão. Um eu que tenha menos defeitos, menos calos da vida, cores mais brilhantes e certezas. Acima de tudo, certezas.
Vou à feira da ladra e, em desepero, procuro-me. Entre camisas velhas, roupa suja e vídeos usados. Eu estarei por ali, algures. É só procurar. Acabo por comprar um livro. Para não admitir o fracasso. E, de mansinho, desisto.
Queria ser forte e musculada, mas fizeram-me débil, de saúde instável e cabeça pensativa. Daquelas que não se calam. Chega o dia em que não aguento mais engolir. Esforço-me, mas e o meu corpo regurgita.
“Não devias ter dito isso”, respondem-me. E eu engulo-o. Outra vez. Mais uma vez.
Então hoje resolvi voltar à feira da ladra.
Quem sabe tenha mais sorte.
06 marzo 2009
A Mosca
Quero ter visão estroboscópica. Que a minha fonte de luz se interrompa e eu vá formando o movimento a preto e branco. Aos poucos. Ao meu tempo.
Quero poder dizer que ninguém nunca me vai apanhar. Quero saber fugir, contornar, antecipar. Vou voar e arriscar-me. Sem medo.
Serei mais um anfíbio. Eu sei. Mas com uma encantadora vida pela frente.
Serei poderosa, temida. Se pousar na comida, infecto-a, se adoentar-me propago.
Poderei dizer que fui alguém, que mereci viver, que ajudei a sociedade, que curei a gangrena.
Gostarei de carne morta, já o sei, mas não esconderei essa predilecção. Comerei os defuntos. Como os bichinhos. Serei usada na pesca e na medicina. Tornar-me-ei famosa e ganharei prémios.
E quando me tentarem apanhar, não poderão. Serei mais rápida e jogarei com uma vantagem: terei, finalmente, uma visão de 360º. Tu, comum mortal, só terás 50.
Passado um mês estarei cansada e, heroicamente, deixar-me-ei apanhar, apenas como um acto de compaixão. Para dar alegria àqueles que não conhecem a glorias. Escrever-se-ão livros sobre mim. E as crianças pedirão uma visão estroboscópica para o Natal.
Quero poder dizer que ninguém nunca me vai apanhar. Quero saber fugir, contornar, antecipar. Vou voar e arriscar-me. Sem medo.
Serei mais um anfíbio. Eu sei. Mas com uma encantadora vida pela frente.
Serei poderosa, temida. Se pousar na comida, infecto-a, se adoentar-me propago.
Poderei dizer que fui alguém, que mereci viver, que ajudei a sociedade, que curei a gangrena.
Gostarei de carne morta, já o sei, mas não esconderei essa predilecção. Comerei os defuntos. Como os bichinhos. Serei usada na pesca e na medicina. Tornar-me-ei famosa e ganharei prémios.
E quando me tentarem apanhar, não poderão. Serei mais rápida e jogarei com uma vantagem: terei, finalmente, uma visão de 360º. Tu, comum mortal, só terás 50.
Passado um mês estarei cansada e, heroicamente, deixar-me-ei apanhar, apenas como um acto de compaixão. Para dar alegria àqueles que não conhecem a glorias. Escrever-se-ão livros sobre mim. E as crianças pedirão uma visão estroboscópica para o Natal.
03 marzo 2009
Casa de florista
Saímos de carro azul e tanque cheio, o jantar num saco e um mundo de CDs.
As histórias vinham com dores nos pés, redacções stressadas, entrevistas de rua. Tinham cor de semana de sol e um sorriso impossível de costurar.
As horas passaram animadas e acabaram com um passeio nocturno à beira mar. Eu tinha, finalmente, chegado.
Por ali ainda havia aquele perfume de casa de florista, aquela luz rosada com ar de cinema europeu. Por ali eu continuava a ser aquela menina mimada que fui um dia, aquela amiga sem preocupações, aquela risada mais alta que aguenta a noite toda sem cansar. E eu assim fui. Só para não desiludir.
Esperavam-me confissões, amigos e histórias não contadas. Noites de abraços apertados, de olhares de cumplicidade, de comentários que só a língua mãe pode entender.
E, de repente, já tinha acabado. O carro azul conduzia-nos mais uma vez por estradas bilingues. Na cabeça navegavam conversas de palavras não ditas e outras em que se falou demais, corriam memórias fotográficas daquele olhar, aquela palavra. Por momentos hesitei.
Mas agora olho pela janela e vejo o carro azul parado em frente à casa. Percebo, então, que aí é o seu lugar. Á espera de novas viagens.
As histórias vinham com dores nos pés, redacções stressadas, entrevistas de rua. Tinham cor de semana de sol e um sorriso impossível de costurar.
As horas passaram animadas e acabaram com um passeio nocturno à beira mar. Eu tinha, finalmente, chegado.
Por ali ainda havia aquele perfume de casa de florista, aquela luz rosada com ar de cinema europeu. Por ali eu continuava a ser aquela menina mimada que fui um dia, aquela amiga sem preocupações, aquela risada mais alta que aguenta a noite toda sem cansar. E eu assim fui. Só para não desiludir.
Esperavam-me confissões, amigos e histórias não contadas. Noites de abraços apertados, de olhares de cumplicidade, de comentários que só a língua mãe pode entender.
E, de repente, já tinha acabado. O carro azul conduzia-nos mais uma vez por estradas bilingues. Na cabeça navegavam conversas de palavras não ditas e outras em que se falou demais, corriam memórias fotográficas daquele olhar, aquela palavra. Por momentos hesitei.
Mas agora olho pela janela e vejo o carro azul parado em frente à casa. Percebo, então, que aí é o seu lugar. Á espera de novas viagens.
19 febrero 2009
Folhas brancas
Tenho o sapato gasto e o gravador sem pilhas. O caderno acabou e a caneta ficou sem tinta. Tenho o bolso vazio, a cabeça com histórias e as pálpebras a fechar. Dói-me o cansaço, os sonhos e o futuro de folhas brancas por escrever.
Quero ser assim. Como eles.
Levar a vida de horas desconexas, falar do ministro como o gato de estimação, entender os problemas do senhor analfabeto e explica-los ao senhor presidente.
Sair e respirar noticias.
Quero falar, conhecer e descobrir. Quero fechar os olhos e escutar teclas, teclas atrás de teclas, numa música apresada de ritmo desfasado. Quero crescer e não me preocupar mais com a ecologia. Mergulhar-me em papéis. Pilhas de papel não reciclado com notinhas em gatafunho de caneta bic azul.
Quero comprar mensalmente packs de canetas bic.
E depois dizem que a paixão não serve. Nem a força de vontade. Falam da crise, da crise e da crise. Fazem delete em todas as linhas que já tinha começado a escrever nas folhas brancas do meu futuro. Enquanto isso vou comprando sapatos. Para quando chegar o momento em que gastar as solas vire uma rotina.
Quero ser assim. Como eles.
Levar a vida de horas desconexas, falar do ministro como o gato de estimação, entender os problemas do senhor analfabeto e explica-los ao senhor presidente.
Sair e respirar noticias.
Quero falar, conhecer e descobrir. Quero fechar os olhos e escutar teclas, teclas atrás de teclas, numa música apresada de ritmo desfasado. Quero crescer e não me preocupar mais com a ecologia. Mergulhar-me em papéis. Pilhas de papel não reciclado com notinhas em gatafunho de caneta bic azul.
Quero comprar mensalmente packs de canetas bic.
E depois dizem que a paixão não serve. Nem a força de vontade. Falam da crise, da crise e da crise. Fazem delete em todas as linhas que já tinha começado a escrever nas folhas brancas do meu futuro. Enquanto isso vou comprando sapatos. Para quando chegar o momento em que gastar as solas vire uma rotina.
06 febrero 2009
"Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."
Nuno Júdice
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."
Nuno Júdice
25 enero 2009
Caos Orquestrado
Ele tem aquele jeito esquisito de acordar. Meio despenteado, meio de mau humor matinal. Olha-me com aquela cara de vincos de quem quer ficar o dia todo a preguiçar. Confortável.
Ele tem a habilidade de não fazer nada o dia todo e mesmo assim manter-se ocupado. Ele é tão desarrumado e arruma tão bem. Um paradoxo, diria.
Falta-lhe sempre uma peça de roupa no armário, um instrumento musical e dinheiro na conta bancária. Eu faço-lhe listas para ajuda-lo a gerir-se melhor. Mas ele nunca as cumpre.
Para ele as coisas são para sempre. É um eterno romântico, mas nunca o admitirá.
É aventureiro e medroso. Proactivo e propassivo. Estou sempre a dizer-lhe para canalizar melhor as suas qualidades. Ele não me faz caso. Faz parte da sua complexidade, gosto de pensar. Um caos orquestrado, corrigiria ele.
Tem problemas e nunca soluções. Tem ideias e nunca projectos, inícios e nunca finais.
É daquelas pessoas que aparece um dia à porta de tua casa e diz: faz as malas, vamos viajar. Eu fico nervosa, pego num mapa, anoto o caminho, faço três ou quatro telefonemas importantes. Ele pega em tudo e manda pela janela.
Agora estamos separados. E isso custa.
Mas o maldito tem uma impressionante capacidade de, apesar da distância, conseguir manter a minha vida um pouco mais desorganizada. E eu? Tento ordenar-lhe os dias telefonicamente. Nunca com muito sucesso, admito.
Ele tem a habilidade de não fazer nada o dia todo e mesmo assim manter-se ocupado. Ele é tão desarrumado e arruma tão bem. Um paradoxo, diria.
Falta-lhe sempre uma peça de roupa no armário, um instrumento musical e dinheiro na conta bancária. Eu faço-lhe listas para ajuda-lo a gerir-se melhor. Mas ele nunca as cumpre.
Para ele as coisas são para sempre. É um eterno romântico, mas nunca o admitirá.
É aventureiro e medroso. Proactivo e propassivo. Estou sempre a dizer-lhe para canalizar melhor as suas qualidades. Ele não me faz caso. Faz parte da sua complexidade, gosto de pensar. Um caos orquestrado, corrigiria ele.
Tem problemas e nunca soluções. Tem ideias e nunca projectos, inícios e nunca finais.
É daquelas pessoas que aparece um dia à porta de tua casa e diz: faz as malas, vamos viajar. Eu fico nervosa, pego num mapa, anoto o caminho, faço três ou quatro telefonemas importantes. Ele pega em tudo e manda pela janela.
Agora estamos separados. E isso custa.
Mas o maldito tem uma impressionante capacidade de, apesar da distância, conseguir manter a minha vida um pouco mais desorganizada. E eu? Tento ordenar-lhe os dias telefonicamente. Nunca com muito sucesso, admito.
22 enero 2009
E depois lembro-me daquele dia em que fomos saltimbancos ciganos. Da areia da praia que se metia entre os dedos dos pés. Do acordar cedo e ficar a preguiçar. Juntos.
Lembro-me dos programas de domingo que nunca se repetiam, do pequeno-almoço das sete da manhã. Da palavra não dita numa noite de presentes.
Houve os jantares de cartão de crédito e aqueles que nunca chegámos a jantar. Os de comida descongelada e pão do supermercado.
Aquela gargalhada que te fez orgulhoso e o primeiro dia em que ajeitaste o meu cabelo. De quando saímos e não lembramos de ter voltado. Das vezes em que achámos melhor não sair.
E é então que me lembro de ontem. O dia em que deste tanto e eu tão pouco. Em que olhaste-me e eu fiz questão de desviar-te.
O dia em que me percebeste. E não deixaste de sorrir.
Apesar de tudo.
Lembro-me dos programas de domingo que nunca se repetiam, do pequeno-almoço das sete da manhã. Da palavra não dita numa noite de presentes.
Houve os jantares de cartão de crédito e aqueles que nunca chegámos a jantar. Os de comida descongelada e pão do supermercado.
Aquela gargalhada que te fez orgulhoso e o primeiro dia em que ajeitaste o meu cabelo. De quando saímos e não lembramos de ter voltado. Das vezes em que achámos melhor não sair.
E é então que me lembro de ontem. O dia em que deste tanto e eu tão pouco. Em que olhaste-me e eu fiz questão de desviar-te.
O dia em que me percebeste. E não deixaste de sorrir.
Apesar de tudo.
21 enero 2009
A primeira página
Tocaram o sino como na época da escola. Como aquela octogenária doente no terceiro andar da sua mansão. Acudia-lhe uma empregada fardada, de sapatilhas antiderrapantes e uma bandeja de prata.
Mas este sino era diferente. Dele não vinham alunos suados, nem amas do lar alinhadas ou sequer um padre para começar a missa. Vinham pessoas normais, daqueles ídolos estranhos que fomos aprendendo a criar. Iam enchendo e esvaziando aquela sala de veludo verde. Do seu discurso, só um comentário: compro.
E assim se negociavam palavras, linhas e até vírgulas.
Compro.
E daquelas compras saíam vendedores satisfeitos, compradores que se sentiam burlados. Saíam homens a correr, outros em passo lento, indiferente. No ar pairava uma angústia corriqueira, daquela que dorme por baixo da almofada. Os minutos corriam em contra-relógio e quando contavam os 54, fim.
Desta vez sem sinos, nem despedidas. A sala esvaziou. Ficou apenas o silêncio e o veludo verde que adornava aquela primeira página.
A que um dia fará história.
Mas este sino era diferente. Dele não vinham alunos suados, nem amas do lar alinhadas ou sequer um padre para começar a missa. Vinham pessoas normais, daqueles ídolos estranhos que fomos aprendendo a criar. Iam enchendo e esvaziando aquela sala de veludo verde. Do seu discurso, só um comentário: compro.
E assim se negociavam palavras, linhas e até vírgulas.
Compro.
E daquelas compras saíam vendedores satisfeitos, compradores que se sentiam burlados. Saíam homens a correr, outros em passo lento, indiferente. No ar pairava uma angústia corriqueira, daquela que dorme por baixo da almofada. Os minutos corriam em contra-relógio e quando contavam os 54, fim.
Desta vez sem sinos, nem despedidas. A sala esvaziou. Ficou apenas o silêncio e o veludo verde que adornava aquela primeira página.
A que um dia fará história.
19 enero 2009
Algodão doce embrulhado
Tinha-o imaginado um sem número de vezes na minha cabeça. Era aquele discurso do sempre, da força, do desculpa e do eu também. Vinha embrulhado em papel de presente brilhante. Daqueles vermelhos com bolinhas brancas. Tinha um laço discreto e abria-se com facilidade. Lá de dentro saíam palavras com sabor a algodão doce. Mas não dos cor-de-rosa. Dos azuis, os mais raros. Palavras que se podiam comer ou só ficar ali, a contempla-las, enquanto se enrolavam à volta do palitinho.
E no fim deixavam aquele saber gostoso na boca. O sabor do quero mais, do pagava o que fosse para ter essa maquina em minha casa, do venda-ma por favor, imploro.
E então atende o telefone:
- Olá, desculpa, é que ‘tou ocupado.
- Ah, não faz mal, não era nada de importante, já falamos.
Era só uma história de palavras embrulhadas em papel brilhante. Coisas de crianças que ainda sonham com algodão doce. E ainda por cima dos azuis.
E no fim deixavam aquele saber gostoso na boca. O sabor do quero mais, do pagava o que fosse para ter essa maquina em minha casa, do venda-ma por favor, imploro.
E então atende o telefone:
- Olá, desculpa, é que ‘tou ocupado.
- Ah, não faz mal, não era nada de importante, já falamos.
Era só uma história de palavras embrulhadas em papel brilhante. Coisas de crianças que ainda sonham com algodão doce. E ainda por cima dos azuis.
18 enero 2009
Desconectar
Hoje quero sair, desconectar, deixar para trás esta vida de dependências. Quero correr pelo mundo de mochila às costas, alimentar-me de gomas e batatas fritas. Chega de encenar este filme de bonzinhos e vilões, em que ganham os solidários de sorriso forçado e trabalho árduo.
De repente, toda a existência torna-se um ponto de interrogação contínuo e derrete pelo corpo, alimentando a terra.
Sinto-me tonta, crédula, daquelas espécies que o mundo moderno já anulou. Sinto-me usada, violada, uma rainha nua que durante muito tempo desfilou pela cidade. Até que chegou o dia em que descobriu a sua nudez. Nunca mais pôde sair de casa, nem olhar o seu povo de cabeça erguida. Desconectou.
De repente, toda a existência torna-se um ponto de interrogação contínuo e derrete pelo corpo, alimentando a terra.
Sinto-me tonta, crédula, daquelas espécies que o mundo moderno já anulou. Sinto-me usada, violada, uma rainha nua que durante muito tempo desfilou pela cidade. Até que chegou o dia em que descobriu a sua nudez. Nunca mais pôde sair de casa, nem olhar o seu povo de cabeça erguida. Desconectou.
17 enero 2009
Sem hipoteca
Ele queria matar os andaluzes e atirar os ingleses ao mar. Mas era pacífico, assegurava. Falava-nos com frases erráticas e desinteressadas, daquelas que o professor recomendou nas entrevistas. Pena não terem sentido.
Eu notava como lhe caíam bem as luzes azuis daquele bar de música americana. Ele, na sua solidão, sentado de copo cheio, à espera de uma presa. E nós, sem querer, comemos o isco.
Formou-se artista de trajes estranhos. Palhaço, imaginei. Mas acabou ganhando a vida servindo bebidas num bar. Pelo menos não a perdeu numa hipoteca, comentou. Era calvo, daqueles que mais preferiam ser carecas. Balançava a cabeça, freneticamente, enquanto dissertava sobre os urinóis. E sobre o amor. A noite ia avançando e aquela veia da loucura que tinha saliente na testa aumentava com olhos cada vez mais esbugalhados. Em certas circunstancias, tive medo que explodisse.
E vieram mais frases nunca acabadas, ideias que não era capaz de concluir. Outra vez os urinóis, outra vez a vida de sexo ocasional e sexo indefinido.
Pagou-nos duas cervejas para nos compensar o tempo desperdiçado.
Era mais um filho da cocaína.
Mas este, pelo menos, não tem a casa hipotecada, pensei.
Eu notava como lhe caíam bem as luzes azuis daquele bar de música americana. Ele, na sua solidão, sentado de copo cheio, à espera de uma presa. E nós, sem querer, comemos o isco.
Formou-se artista de trajes estranhos. Palhaço, imaginei. Mas acabou ganhando a vida servindo bebidas num bar. Pelo menos não a perdeu numa hipoteca, comentou. Era calvo, daqueles que mais preferiam ser carecas. Balançava a cabeça, freneticamente, enquanto dissertava sobre os urinóis. E sobre o amor. A noite ia avançando e aquela veia da loucura que tinha saliente na testa aumentava com olhos cada vez mais esbugalhados. Em certas circunstancias, tive medo que explodisse.
E vieram mais frases nunca acabadas, ideias que não era capaz de concluir. Outra vez os urinóis, outra vez a vida de sexo ocasional e sexo indefinido.
Pagou-nos duas cervejas para nos compensar o tempo desperdiçado.
Era mais um filho da cocaína.
Mas este, pelo menos, não tem a casa hipotecada, pensei.
14 enero 2009
Entre o salgado e o inexistente
Um momento congelado. Ele olha-me de olhos inexistentes, daqueles que só ele sabe fazer. Os meus estão salgados, mas isso nem é preciso mencionar.
Eu não queria ter dito aquilo e nem sei porque tudo começou.
Não, isso não é verdade. Eu lembro-me bem do princípio desta história.
Aconteceu no dia em que ele tinha olhos grandes e os meus estavam, surpreendentemente, salgados. Os dele olhavam envergonhados para baixo, e os meus para cima, num piscar superior de quem quer fotografar o momento.
O chão estava frio e a noite cheirava-me a cerveja derramada, camisa azul clara e suor nervoso.
Algo foi dito e, de repente, os seus olhos mudaram. Foi-se-lhe a expressão e aquele brilho lubrificado que nutria os escassos centímetros que lhe separam a as pálpebras dos cílios. Por momentos, juro que nevou. E então os meus olhos, mal-educados, deixaram de saber para onde olhar e escorregaram para baixo.
Foi nesta dança de olhos vagabundos que se fez um olhar. Aquele a que nos fomos habituando a ter.
E agora estamos aqui, entre o salgado e o inexistente, tentando olhar-nos outra vez.
E sei que a culpa toda foi daquele dia.
O dia em que olhar pareceu tão fácil.
Eu não queria ter dito aquilo e nem sei porque tudo começou.
Não, isso não é verdade. Eu lembro-me bem do princípio desta história.
Aconteceu no dia em que ele tinha olhos grandes e os meus estavam, surpreendentemente, salgados. Os dele olhavam envergonhados para baixo, e os meus para cima, num piscar superior de quem quer fotografar o momento.
O chão estava frio e a noite cheirava-me a cerveja derramada, camisa azul clara e suor nervoso.
Algo foi dito e, de repente, os seus olhos mudaram. Foi-se-lhe a expressão e aquele brilho lubrificado que nutria os escassos centímetros que lhe separam a as pálpebras dos cílios. Por momentos, juro que nevou. E então os meus olhos, mal-educados, deixaram de saber para onde olhar e escorregaram para baixo.
Foi nesta dança de olhos vagabundos que se fez um olhar. Aquele a que nos fomos habituando a ter.
E agora estamos aqui, entre o salgado e o inexistente, tentando olhar-nos outra vez.
E sei que a culpa toda foi daquele dia.
O dia em que olhar pareceu tão fácil.
01 enero 2009
Aquele ano
Foi um ano. Um ano em que todas as coisas planeadas antecipadamente saíram à sua própria maneira. Um ano em que de Janeiro a Agosto foi Verão. Um Verão molhado de lágrimas à distancia, de inutilidade perdida, de trabalho não recompensado.
Foi um ano de tristeza atenta e de êxtase europeu. De seleccionar para melhorar. Um ano de escolhas e de metas. Desta vez todas cumpridas.
Foi um ano que começou num sotaque e acabou em língua estrangeira. Em que se seguiu à risca as regras da vida de uma cidadã expatriada que foge em busca de soluções.
Um ano sem raízes, como me ensinaram a ser.
Foi o ano em que fizemos um ano.
Um ano de desgaste e escapadelas. De saídas, jantares e viagens. Foi um ano em que se duvidou mais do que nunca e, nos momentos certos, a certeza chegou.
Foi um ano em que o cinzento e o roxo estiveram na moda. Em que ir ao cinema ficou fora dos limites do orçamento, mas se descobriu a magia dos downloads ilegais.
Foi mais um ano em que durante as doze baladas ardia-me o escaldão, a sandália alta doía-me no pé e o ouvido latejava com as explosões de cor no céu. E na última badalada um grito histérico de felicidade, enquanto uma lágrima caía de um flash back de mais um ano.
“É emoção”. Daquele ano que já passou.
Foi um ano de tristeza atenta e de êxtase europeu. De seleccionar para melhorar. Um ano de escolhas e de metas. Desta vez todas cumpridas.
Foi um ano que começou num sotaque e acabou em língua estrangeira. Em que se seguiu à risca as regras da vida de uma cidadã expatriada que foge em busca de soluções.
Um ano sem raízes, como me ensinaram a ser.
Foi o ano em que fizemos um ano.
Um ano de desgaste e escapadelas. De saídas, jantares e viagens. Foi um ano em que se duvidou mais do que nunca e, nos momentos certos, a certeza chegou.
Foi um ano em que o cinzento e o roxo estiveram na moda. Em que ir ao cinema ficou fora dos limites do orçamento, mas se descobriu a magia dos downloads ilegais.
Foi mais um ano em que durante as doze baladas ardia-me o escaldão, a sandália alta doía-me no pé e o ouvido latejava com as explosões de cor no céu. E na última badalada um grito histérico de felicidade, enquanto uma lágrima caía de um flash back de mais um ano.
“É emoção”. Daquele ano que já passou.
30 diciembre 2008
Estás e não estás e eu já não sei onde estou.
Estamos, queremos tanto estar, mas não passa de um querer.
Já não sei o que quero e por onde estou.
Porque quando estás não estou e quando estou nunca estás.
E assim andamos desencontrados nesta rápida estadia.
Vamos estando. E o tempo vai passando.
Onde estamos, afinal?
Estamos, queremos tanto estar, mas não passa de um querer.
Já não sei o que quero e por onde estou.
Porque quando estás não estou e quando estou nunca estás.
E assim andamos desencontrados nesta rápida estadia.
Vamos estando. E o tempo vai passando.
Onde estamos, afinal?
26 diciembre 2008
Pipocas
O mal é ver demasiados filmes. Com pipocas e Coca-Cola.
É chorar por trás dos óculos dedilhados. Tirar o sapato e esticar os pés por cima da poltrona da frente. Menina má. Isso é falta de educação.
O mal é ver demasiados filmes e lembrar daquele nosso primeiro encontro. Tu, qual galã desajeitado, a conquistar os corações das adolescentes. Eu, sedutora pretensiosa, ganhando a ira dos espectadores. “Dissimulada!”, gritaria a minha mãe no meio das pipocas.
Imagino então os nossos passeios em contra-picado com filtro azul. Cheio de flashes do passado com momentos embaraçosos de crianças que querem crescer. Seria uma pós-produção complicada. Custosa. Põe mais um olhar naquele encontro desinteressado. Um sorriso no dia que não ficou marcado na agenda. Esquecimento.
Faz das discussões reencontros apaixonados. Dos dias aborrecidos uma banda sonora com folhas de Outono. Diálogos rápidos e inteligentes. Gestos impulsivos, acertados e heróicos. Como aqueles que se compram com as gomas ao quilo.
O mal é ver demasiados filmes. Por que é que a vida não se pode comer com pipocas?
É chorar por trás dos óculos dedilhados. Tirar o sapato e esticar os pés por cima da poltrona da frente. Menina má. Isso é falta de educação.
O mal é ver demasiados filmes e lembrar daquele nosso primeiro encontro. Tu, qual galã desajeitado, a conquistar os corações das adolescentes. Eu, sedutora pretensiosa, ganhando a ira dos espectadores. “Dissimulada!”, gritaria a minha mãe no meio das pipocas.
Imagino então os nossos passeios em contra-picado com filtro azul. Cheio de flashes do passado com momentos embaraçosos de crianças que querem crescer. Seria uma pós-produção complicada. Custosa. Põe mais um olhar naquele encontro desinteressado. Um sorriso no dia que não ficou marcado na agenda. Esquecimento.
Faz das discussões reencontros apaixonados. Dos dias aborrecidos uma banda sonora com folhas de Outono. Diálogos rápidos e inteligentes. Gestos impulsivos, acertados e heróicos. Como aqueles que se compram com as gomas ao quilo.
O mal é ver demasiados filmes. Por que é que a vida não se pode comer com pipocas?
23 diciembre 2008
A cidade do fingimento
Era o mesmo colchão. O dos pesadelos.
Tinha ainda aquele toque de lençol barato. De borbotos com sabão em pó.
Era real. Eu tinha voltado àquele lugar.
Todos os sentimentos que critiquei, as atitudes que nunca entendi. O egoísmo do café que nunca chegaria a marcar, do telefone que fingi não ouvir. O eu desprezível que tanto detestava e de quem tentei fugir, de quem forcei o esquecimento.
Estava de volta.
De repente à memória chegam sensações de dias de angústia por acabar, de sorrisos falsos, palavras forçadas, do ser incompleto que à noite, antes de dormir, reza para que o próximo dia não chegue. Mais um dia de rotina preguiçosa que finge estar ocupada. Um dia mais de fingimento.
Aquele suor frio que te acompanha pelos dias de pobreza cinzenta. Que te pressiona para seres melhor. E que te faz mal, tão pior do que aquilo que aprendeste ser. A concorrência de desconhecidos que paira pelo ar desta cidade onde não basta ser normal. Onde não te deixam ser feliz.
Eu estava de volta. E dormia naquele mesmo colchão.
Tinha ainda aquele toque de lençol barato. De borbotos com sabão em pó.
Era real. Eu tinha voltado àquele lugar.
Todos os sentimentos que critiquei, as atitudes que nunca entendi. O egoísmo do café que nunca chegaria a marcar, do telefone que fingi não ouvir. O eu desprezível que tanto detestava e de quem tentei fugir, de quem forcei o esquecimento.
Estava de volta.
De repente à memória chegam sensações de dias de angústia por acabar, de sorrisos falsos, palavras forçadas, do ser incompleto que à noite, antes de dormir, reza para que o próximo dia não chegue. Mais um dia de rotina preguiçosa que finge estar ocupada. Um dia mais de fingimento.
Aquele suor frio que te acompanha pelos dias de pobreza cinzenta. Que te pressiona para seres melhor. E que te faz mal, tão pior do que aquilo que aprendeste ser. A concorrência de desconhecidos que paira pelo ar desta cidade onde não basta ser normal. Onde não te deixam ser feliz.
Eu estava de volta. E dormia naquele mesmo colchão.
13 diciembre 2008
Um jantar
Foi só um jantar.
E tanta coisa mudou.
Havia aquela mais séria, que rebolou de língua enrolada e copo na mão. A sorridente que confessou a alegria de amores recém descobertos em terras esquecidas. O menino das camisas que se descompôs em passos deslizantes de dança, entre histórias de conquistas e de corredores estudantis.
Não havia mulheres interessantes e bonitas ao mesmo tempo. E essas já estavam ocupadas. Mas isso é outra história. Uma sobre pessoas fúteis.
Houve sorrisos enviados pelo correio, confissões de amor e uma ou outra traição. Sem julgamentos. Pelo menos não muitos.
O álcool da concorrência tornava-se comunitário e as músicas resultavam em grandes abraçados sem jeito, seguidos de passos de dança tropeçados e uma gargalhada abafada pelo novo hit espanol. Desconhecido. Mais uma vez.
E aquele que antes era a autoridade em cima do estrado, baixou até nós em piadas desrespeitosas, discussões mais ou menos agressivas e lágrimas de risadas estridentes.
E tinha sido só um jantar.
Mas tanta coisa tinha mudado.
E tanta coisa mudou.
Havia aquela mais séria, que rebolou de língua enrolada e copo na mão. A sorridente que confessou a alegria de amores recém descobertos em terras esquecidas. O menino das camisas que se descompôs em passos deslizantes de dança, entre histórias de conquistas e de corredores estudantis.
Não havia mulheres interessantes e bonitas ao mesmo tempo. E essas já estavam ocupadas. Mas isso é outra história. Uma sobre pessoas fúteis.
Houve sorrisos enviados pelo correio, confissões de amor e uma ou outra traição. Sem julgamentos. Pelo menos não muitos.
O álcool da concorrência tornava-se comunitário e as músicas resultavam em grandes abraçados sem jeito, seguidos de passos de dança tropeçados e uma gargalhada abafada pelo novo hit espanol. Desconhecido. Mais uma vez.
E aquele que antes era a autoridade em cima do estrado, baixou até nós em piadas desrespeitosas, discussões mais ou menos agressivas e lágrimas de risadas estridentes.
E tinha sido só um jantar.
Mas tanta coisa tinha mudado.
Borde
Apareceu do nada, chocando com as frases de linguagem universal. Explicaram-mo com meias palavras, sentidos ambíguos, com o medo de dizer o assertivo.
Seria uma esquina de um objecto pontiagudo. Daqueles em que não queres tropeçar. Sangue, choro, hospital.
É a personificação de uma seta afiada que chega, vem e destrói. Sem piedade. Diriam, sem compaixão.
Erro no sistema. Bloqueou-se o computador central. A definição não encaixa ao protocolo.
Estado actual de saúde: extinção forçada.
Há que polir as arestas. Socializemos as nossas esquinas. Queremos sorrisos constantes, palavras meio-ditas, protocolo, dicionário, protocolo.
Mas a sociedade é benevolente, avisam-me. Não há que me preocupar. Os génios da ciência já encontraram a cura.
Desiste de ti e faz-te outra pessoa. Uma mais gostável. Uma menos bruta.
Uma menos “borde”.
Seria uma esquina de um objecto pontiagudo. Daqueles em que não queres tropeçar. Sangue, choro, hospital.
É a personificação de uma seta afiada que chega, vem e destrói. Sem piedade. Diriam, sem compaixão.
Erro no sistema. Bloqueou-se o computador central. A definição não encaixa ao protocolo.
Estado actual de saúde: extinção forçada.
Há que polir as arestas. Socializemos as nossas esquinas. Queremos sorrisos constantes, palavras meio-ditas, protocolo, dicionário, protocolo.
Mas a sociedade é benevolente, avisam-me. Não há que me preocupar. Os génios da ciência já encontraram a cura.
Desiste de ti e faz-te outra pessoa. Uma mais gostável. Uma menos bruta.
Uma menos “borde”.
12 diciembre 2008
Enjoo
Não tenho paciência para namorar. Nunca tive.
Isso do vou aqui, vou ali, importas-te que vá sem ti?
Enjoa-me. Tal como baba de camelo.
Isso do és tão bonitinho meu amorzinho, és a luz do meu mundinho.
Dá-me vómitos. Igual a sopa de legumes.
Irrita-me o tens que ligar, tens que fazer, tens que jurar amor eterno.
Ou não é amor.
Pois que não seja. Porque o amor enjoa-me. Como leite com chocolate.
E, no fim das contas, concluem que não tenho sentimentos.
Morrerei velha e amarga.
Mas a verdade é que isso não me preocupa muito. Porque um dia conheci por ai a um tipo, que até me pareceu interessante, e que gostava de baba de camelo, batas fritas com gordura e sopa de legumes.
Formámos uma parceria estratégica. Eu dava-lhe a minha amargura, ele os seus sorrisos. E isso, estranhamente, não me enjoou.
Dizem que, a partir daí, passei a ser uma nova pessoa.
Dizem.
Isso do vou aqui, vou ali, importas-te que vá sem ti?
Enjoa-me. Tal como baba de camelo.
Isso do és tão bonitinho meu amorzinho, és a luz do meu mundinho.
Dá-me vómitos. Igual a sopa de legumes.
Irrita-me o tens que ligar, tens que fazer, tens que jurar amor eterno.
Ou não é amor.
Pois que não seja. Porque o amor enjoa-me. Como leite com chocolate.
E, no fim das contas, concluem que não tenho sentimentos.
Morrerei velha e amarga.
Mas a verdade é que isso não me preocupa muito. Porque um dia conheci por ai a um tipo, que até me pareceu interessante, e que gostava de baba de camelo, batas fritas com gordura e sopa de legumes.
Formámos uma parceria estratégica. Eu dava-lhe a minha amargura, ele os seus sorrisos. E isso, estranhamente, não me enjoou.
Dizem que, a partir daí, passei a ser uma nova pessoa.
Dizem.
08 diciembre 2008
Memórias. E histórias.
Eram dois forasteiros em aventuras europeias.
Fizeram do continente o seu mundo, e decidiram andar por aí. À deriva.
Perdidos em quartos partilhados e corredores de supermercado. Contando moedas. E gastando-as em guloseimas.
A vida era uma rotina de paisagens, mapas, fotografias e solas de sapatos gastas. Era uma rotina do não rotineiro. E isso parecia tão normal.
Trocavam dinheiro e mudavam de casa, lidavam com os imprevistos com alguns berros e gargalhadas. O fast-food era o seu maior luxo.
Ás vezes mendigavam, isso é certo. Mas faziam-no com o estilo de quem tem zeros no cartão de crédito, de quem pode mais e não quer.
E assim perseguiram noivas, bares, amigos e o bom tempo. Assim meteram-se em direcções erradas, espalhando os seus pertences pelo mundo. Que generosos.
E agora de volta à escravidão do tempo, do espaço e da geografia, restam-lhes as memórias. E as histórias. Porque eles eram dois. E esta foi a sua aventura forasteira.
Fizeram do continente o seu mundo, e decidiram andar por aí. À deriva.
Perdidos em quartos partilhados e corredores de supermercado. Contando moedas. E gastando-as em guloseimas.
A vida era uma rotina de paisagens, mapas, fotografias e solas de sapatos gastas. Era uma rotina do não rotineiro. E isso parecia tão normal.
Trocavam dinheiro e mudavam de casa, lidavam com os imprevistos com alguns berros e gargalhadas. O fast-food era o seu maior luxo.
Ás vezes mendigavam, isso é certo. Mas faziam-no com o estilo de quem tem zeros no cartão de crédito, de quem pode mais e não quer.
E assim perseguiram noivas, bares, amigos e o bom tempo. Assim meteram-se em direcções erradas, espalhando os seus pertences pelo mundo. Que generosos.
E agora de volta à escravidão do tempo, do espaço e da geografia, restam-lhes as memórias. E as histórias. Porque eles eram dois. E esta foi a sua aventura forasteira.
05 diciembre 2008
Babel
Não nos entendemos. E isso parece importar tanto.
Aquilo da gramática universal não existe. Tonterias. Já apelamos ao inglês, ao espanhol e ao italiano. Já tentamos o esperanto e a linguagem gestual. Nada funciona.
Fomos então pedir um remédio a um médico especializado nesses males. Queríamos curar-nos da doença de Babel. Doença rara, disse.
Como solução surgiu a indiferença.
Seguimos levando a vida como se enfermidade nenhuma houvesse. E do desprezo veio a cura. Sentíamo-nos comunicados.
Mas a língua estrangeira é um eterno terreno escorregadio. Há que usar meias antiderrapantes.
E naquele dia esqueci-me. Que tamanho tropeção!
E caímos juntos, torre abaixo, numa cambalhota gigante de água salgada e soluços debaixo do lençol.
Foram-se as regras gramaticais nunca escritas, as muletas linguísticas que nos caíam tão bem. Sujou-se de lama o livrinho de vocabulário que levava na mala, aquele sorriso feito sem pensar, a frase sem sentido tão comummente compreendia.
Havia que começar de novo. Que reescrever as regras.
Mas e se não nos entendermos?
Dizem que está aí o mistério.
Aquilo da gramática universal não existe. Tonterias. Já apelamos ao inglês, ao espanhol e ao italiano. Já tentamos o esperanto e a linguagem gestual. Nada funciona.
Fomos então pedir um remédio a um médico especializado nesses males. Queríamos curar-nos da doença de Babel. Doença rara, disse.
Como solução surgiu a indiferença.
Seguimos levando a vida como se enfermidade nenhuma houvesse. E do desprezo veio a cura. Sentíamo-nos comunicados.
Mas a língua estrangeira é um eterno terreno escorregadio. Há que usar meias antiderrapantes.
E naquele dia esqueci-me. Que tamanho tropeção!
E caímos juntos, torre abaixo, numa cambalhota gigante de água salgada e soluços debaixo do lençol.
Foram-se as regras gramaticais nunca escritas, as muletas linguísticas que nos caíam tão bem. Sujou-se de lama o livrinho de vocabulário que levava na mala, aquele sorriso feito sem pensar, a frase sem sentido tão comummente compreendia.
Havia que começar de novo. Que reescrever as regras.
Mas e se não nos entendermos?
Dizem que está aí o mistério.
26 noviembre 2008
Dizes que não queres falar. E eu respeito.
Mas e se eu perguntar só assim ao de leve?
- Já te disse que não quero falar.
Desculpa. Eu respeito. Estava a ser invasiva. E isso não quero ser. Não. Isso não.
Mas eu não sei falar de outra coisa. Porque é só nisso que eu penso. Naquilo de que tu não queres falar.
E então não falo sobre nada, porque qualquer assunto seria um desvio ao tema principal. E tu nada respondes. Não queres, já sei. Eu respeito.
Mas a verdade é que não respeito coisa nenhuma. Porque quero mesmo saber. Porque me preocupa.
Mas não pergunto, nem comento. Porque tens direito a não querer falar. Tens esse direito, mas eu não o respeito.
E então pergunto.
Dizes que estás bem. Eu não acredito. Mas não insisto. Nem contesto.
E caímos na monotonia de pergunta e respostas ocas. Em que tudo o que dizem é: fala comigo, por favor, daquilo que não queres falar.
E mesmo assim não falas. E eu respeito.
Mas e se eu perguntar só assim ao de leve?
- Já te disse que não quero falar.
Desculpa. Eu respeito. Estava a ser invasiva. E isso não quero ser. Não. Isso não.
Mas eu não sei falar de outra coisa. Porque é só nisso que eu penso. Naquilo de que tu não queres falar.
E então não falo sobre nada, porque qualquer assunto seria um desvio ao tema principal. E tu nada respondes. Não queres, já sei. Eu respeito.
Mas a verdade é que não respeito coisa nenhuma. Porque quero mesmo saber. Porque me preocupa.
Mas não pergunto, nem comento. Porque tens direito a não querer falar. Tens esse direito, mas eu não o respeito.
E então pergunto.
Dizes que estás bem. Eu não acredito. Mas não insisto. Nem contesto.
E caímos na monotonia de pergunta e respostas ocas. Em que tudo o que dizem é: fala comigo, por favor, daquilo que não queres falar.
E mesmo assim não falas. E eu respeito.
18 noviembre 2008
Naquele banco de jardim
Hoje tive saudades de me sentar num banco de jardim. De me sentar, bem juntinho, naquele banco de jardim. E lembrei-me.
Lembrei-me de ficar em silêncio, apreciando o momento. Dos beijos que nunca contei, do roçar das mãos que só eu senti. Lembrei-me daquela primeira jura de amor. Eterno.
De como a chuva era a pior inimiga das relações. Das longas caminhadas ao frio de mãos entrelaçadas. Muito antes de existirem os carros.
De um jantar em um fast-food de centro comercial. Do quanto sonhava com esse momento de hambúrguer. E como era romântico. Aprender a dar as mãos no cinema. Devagarinho. E, quem sabe, às vezes, dizer um segredo ao ouvido. Arrepios.
Dos beijos eternos. De abrir os olhos e a paisagem já ter mudado. Radicalmente.
E hoje tive saudades dos amores escondidos. Daqueles que nunca contei. De me deitar na cama, num grande suspiro, e sonhar.
Sonhar com um banco de jardim. E um alguém, quem sabe.
Mas agora cresci e as casas têm aquecimento central. Já não é preciso passar frio.
Lembrei-me de ficar em silêncio, apreciando o momento. Dos beijos que nunca contei, do roçar das mãos que só eu senti. Lembrei-me daquela primeira jura de amor. Eterno.
De como a chuva era a pior inimiga das relações. Das longas caminhadas ao frio de mãos entrelaçadas. Muito antes de existirem os carros.
De um jantar em um fast-food de centro comercial. Do quanto sonhava com esse momento de hambúrguer. E como era romântico. Aprender a dar as mãos no cinema. Devagarinho. E, quem sabe, às vezes, dizer um segredo ao ouvido. Arrepios.
Dos beijos eternos. De abrir os olhos e a paisagem já ter mudado. Radicalmente.
E hoje tive saudades dos amores escondidos. Daqueles que nunca contei. De me deitar na cama, num grande suspiro, e sonhar.
Sonhar com um banco de jardim. E um alguém, quem sabe.
Mas agora cresci e as casas têm aquecimento central. Já não é preciso passar frio.
13 noviembre 2008
Esmagadinhos
“Tivesse marcado para mais pessoas”, disse o senhor sem nome. “Soubesse eu como essas coisas se faziam”, pensei.
Mas o feito é facto e a solução era única: “Apertarmo-nos”.
E foi chegando mais um e outro e o metro quadrado encolhendo. A um já não se via os gestos, a outro a cor dos olhos. As fotos, uma amalgama de pedaços sem sentido. E foi chegando mais outro e mais um e já não podíamos cortar a carne. “Dou-te espaço para cortares a tua primeiro se quiseres”. É a generosidade própria dos apertados. Ou dos esmagadinhos, preferiria dizer.
Esmagadinhos pelo mesmo sentimento. Aquele comum aos que se encolhem para não se separar, aos que não importa comer primeiro ou deliciar-se com a carne fria e gelada.
E à medida que o tempo passa, vamos apertando, encolhendo, empurrando. Mais e mais. Porque uma vez encaixado, não há volta atrás.
E perguntava-me um no outro dia:
- Como descreverias um verdadeiro amigo?
E eu, sem saber, sabiamente respondi:
- É aquele a quem ligaria num domingo a tarde para vir preguiçar comigo no sofá.
Os dois esmagadinhos, acrescentaria hoje.
Mas o feito é facto e a solução era única: “Apertarmo-nos”.
E foi chegando mais um e outro e o metro quadrado encolhendo. A um já não se via os gestos, a outro a cor dos olhos. As fotos, uma amalgama de pedaços sem sentido. E foi chegando mais outro e mais um e já não podíamos cortar a carne. “Dou-te espaço para cortares a tua primeiro se quiseres”. É a generosidade própria dos apertados. Ou dos esmagadinhos, preferiria dizer.
Esmagadinhos pelo mesmo sentimento. Aquele comum aos que se encolhem para não se separar, aos que não importa comer primeiro ou deliciar-se com a carne fria e gelada.
E à medida que o tempo passa, vamos apertando, encolhendo, empurrando. Mais e mais. Porque uma vez encaixado, não há volta atrás.
E perguntava-me um no outro dia:
- Como descreverias um verdadeiro amigo?
E eu, sem saber, sabiamente respondi:
- É aquele a quem ligaria num domingo a tarde para vir preguiçar comigo no sofá.
Os dois esmagadinhos, acrescentaria hoje.
02 noviembre 2008
O equilibrio do universo
Hoje já é ontem, foi a conclusão que cheguei.
Hoje já é ontem, comentei de maquilhagem borrada, cabelo duro, bolhas nos pés.
Hoje já é de manhã, porque hoje já é amanha, dizia-me a data do jornal do dia seguinte.
Hoje já é amanhã! Era o queria gritar. Mas não havia voz.
Hoje, ontem e amanhã gastei a voz num espanhol de tempos compostos, num inglês de me tarzan tu jane.
Tentei convence-los de uma origem falsa, expus a garganta a um ar de tabaco barato, a gritos de músicas aprendidas de antemão.
E pensando nesses termos, já me doía a cabeça há três dias. Desde ontem e até amanhã.
É curioso o tempo, faz-nos com cada partida.
Mas então voltei para casa, porque o jornal (e todos sabem que o jornal nunca mente) me dizia que tínhamos riscado o meu dia do calendário. Voltei para casa, e o cansaço adormeceu-me.
Mas não é que quando acordei ainda era hoje? Quero dizer, o hoje que ontem era amanhã.
No fim das contas, na vida perde-se um dia e ganha-se outro logo a seguir. É o universo a equilibrar-se, diriam os cientistas.
Hoje já é ontem, comentei de maquilhagem borrada, cabelo duro, bolhas nos pés.
Hoje já é de manhã, porque hoje já é amanha, dizia-me a data do jornal do dia seguinte.
Hoje já é amanhã! Era o queria gritar. Mas não havia voz.
Hoje, ontem e amanhã gastei a voz num espanhol de tempos compostos, num inglês de me tarzan tu jane.
Tentei convence-los de uma origem falsa, expus a garganta a um ar de tabaco barato, a gritos de músicas aprendidas de antemão.
E pensando nesses termos, já me doía a cabeça há três dias. Desde ontem e até amanhã.
É curioso o tempo, faz-nos com cada partida.
Mas então voltei para casa, porque o jornal (e todos sabem que o jornal nunca mente) me dizia que tínhamos riscado o meu dia do calendário. Voltei para casa, e o cansaço adormeceu-me.
Mas não é que quando acordei ainda era hoje? Quero dizer, o hoje que ontem era amanhã.
No fim das contas, na vida perde-se um dia e ganha-se outro logo a seguir. É o universo a equilibrar-se, diriam os cientistas.
30 octubre 2008
Nas Astúrias
Eram estranhos. Estranhos unidos pelo desconhecido.
Em cada feição se notavam horas de preparativos frente ao espelho, noite dormida aos sobressaltos com formigas no estômago, vezes e vezes da mesma frase pronunciada: “A ver”.
“A ver” como será a viagem, que tal os companheiros, os prémios, a música e a saída à noite. Um “a ver” de poucas expectativas, de espera desinteressada. Mas em todas as letras pronunciadas se encontrava uma certeza por detrás dos olhos ainda tímidos: queriam “passa-lo bem”.
E de bem em bem, lá o foram passando. Pelo jantar de cidra e pelo pub de música espanhola, pelos segredos confessados a desconhecidos, as traições, os desamores, a vida contada em altos decibéis.
Dividiram o carro, o copo, o quarto, as criticas de olhares e bocas caladas.
Horas depois, escassas horas depois, já não se sentiam estranhos. Não viram o príncipe, a Letizia ou a Ingrid Betancourt, mas afinal isso não importava nada.
Porque já não eram estranhos e tinham-no passado bem.
Muito bem.
Em cada feição se notavam horas de preparativos frente ao espelho, noite dormida aos sobressaltos com formigas no estômago, vezes e vezes da mesma frase pronunciada: “A ver”.
“A ver” como será a viagem, que tal os companheiros, os prémios, a música e a saída à noite. Um “a ver” de poucas expectativas, de espera desinteressada. Mas em todas as letras pronunciadas se encontrava uma certeza por detrás dos olhos ainda tímidos: queriam “passa-lo bem”.
E de bem em bem, lá o foram passando. Pelo jantar de cidra e pelo pub de música espanhola, pelos segredos confessados a desconhecidos, as traições, os desamores, a vida contada em altos decibéis.
Dividiram o carro, o copo, o quarto, as criticas de olhares e bocas caladas.
Horas depois, escassas horas depois, já não se sentiam estranhos. Não viram o príncipe, a Letizia ou a Ingrid Betancourt, mas afinal isso não importava nada.
Porque já não eram estranhos e tinham-no passado bem.
Muito bem.
27 octubre 2008
Play
Faltam poucas horas para que o relógio volte, outra vez, a funcionar. E há ainda muito que fazer.
Isto porque houve um segredo que não te contei. Desculpa.
Sim, foste usado.
Captei o teu melhor ângulo, roubei-te um pedaço de cabelo, anotei o teu prato preferido e aquela expressão que estás sempre a dizer.
Xis.
Pintei-te vários cenários, vi-te a moveres-te em cada um deles. A interagir com todos os personagens naquela tua maneira de falar à desenho animado.
“estava en el chano”, disseste. Eu decorei.
Brinquei contigo como fantoche de peça infantil. Faz assim, olha para ali, como reages a este estímulo?
Estudei-te.
E agora tenho poucas horas para juntar todos os teus pedaços, aqueles que tenho vindo a roubar, e monta-los numa sequência perfeita que possa ver vezes infinitas sem nunca ficar enjoada.
Vou realizar-te num filme, talvez uma pequena curta-metragem. Contrapor os teus melhores lados com aquela cara-careta que fazes quando te zangas. Vais andar pelo mundo, cantar e gargalhar com os teus dentes meio encavalitados.
Vou fixar-me naquela minha pinta preferida, no jeito do cabelo que não se desfaz, no olhar que encontrei em ti quando me vias dormir.
A banda sonora, essa já conheces de cor.
Desculpa se fiz algum erro técnico, se te iluminei mal em alguma cena, se não escrevi um diálogo claro.
É que eu às vezes sou meio desajeitada, tu sabes.
Play.
Isto porque houve um segredo que não te contei. Desculpa.
Sim, foste usado.
Captei o teu melhor ângulo, roubei-te um pedaço de cabelo, anotei o teu prato preferido e aquela expressão que estás sempre a dizer.
Xis.
Pintei-te vários cenários, vi-te a moveres-te em cada um deles. A interagir com todos os personagens naquela tua maneira de falar à desenho animado.
“estava en el chano”, disseste. Eu decorei.
Brinquei contigo como fantoche de peça infantil. Faz assim, olha para ali, como reages a este estímulo?
Estudei-te.
E agora tenho poucas horas para juntar todos os teus pedaços, aqueles que tenho vindo a roubar, e monta-los numa sequência perfeita que possa ver vezes infinitas sem nunca ficar enjoada.
Vou realizar-te num filme, talvez uma pequena curta-metragem. Contrapor os teus melhores lados com aquela cara-careta que fazes quando te zangas. Vais andar pelo mundo, cantar e gargalhar com os teus dentes meio encavalitados.
Vou fixar-me naquela minha pinta preferida, no jeito do cabelo que não se desfaz, no olhar que encontrei em ti quando me vias dormir.
A banda sonora, essa já conheces de cor.
Desculpa se fiz algum erro técnico, se te iluminei mal em alguma cena, se não escrevi um diálogo claro.
É que eu às vezes sou meio desajeitada, tu sabes.
Play.
20 octubre 2008
Normalzinha
Ela estava diferente. Diferentezinha. Já não se sentia aquela menina de tempos atrás.
Foi-se-lhe o sorriso gracioso, os olhos que escorriam paixão. Perdeu a determinação de mudar o mundo. O cabelo cada vez mais desalinhado, as roupas desbotadas.
Sentia-se normal. Normalzinha. Sem nada que lhe valesse o olhar, o suspiro, o comentário. Era como se tivesse perdido o encanto de outrora, a popularidade dos rejeitados, a garra dos que querem mais.
Deixava-se levar pela vida. Levianamente. Ia vivendo no embalo do dia-a-dia, sem grandes motivos, grandes histórias. Procurava o seu lugar.
Causa perdida.
E fazia-lhe então a mais desinteressante das perguntas: porque ainda gostas de mim, afinal?
Desinteressantezinha.
Foi-se-lhe o sorriso gracioso, os olhos que escorriam paixão. Perdeu a determinação de mudar o mundo. O cabelo cada vez mais desalinhado, as roupas desbotadas.
Sentia-se normal. Normalzinha. Sem nada que lhe valesse o olhar, o suspiro, o comentário. Era como se tivesse perdido o encanto de outrora, a popularidade dos rejeitados, a garra dos que querem mais.
Deixava-se levar pela vida. Levianamente. Ia vivendo no embalo do dia-a-dia, sem grandes motivos, grandes histórias. Procurava o seu lugar.
Causa perdida.
E fazia-lhe então a mais desinteressante das perguntas: porque ainda gostas de mim, afinal?
Desinteressantezinha.
12 octubre 2008
Pedinchice
Já te pedi tudo. Já te pedi demais.
Pedi-te para vir, para ficar e para ir. Para fazer, para desfazer e refazer.
E tu foste fazendo. Indo e ficando.
Foi então que te disse que fazias demais. Que não fosses tão obediente.
Rebelaste-te e isso aborreceu-me.
E tu desfizeste-o.
Disse que não te queria, que te queria demais. Que já não aguentava e que contigo, de mãos entrelaçadas, poderíamos ser um nós para sempre.
Mas depois neguei-o.
E tu aceitas-me as mentiras, engoliste-as, vomitaste-as, quando necessário.
Falei-te de amor, e os teus olhos brilharam. Em seguida desconversei e fingiste não conhecer o tema.
E nessa altura reclamei. Que não te armasses em homem perfeito que eu não engoliria essa história.
Desarmaste-te.
Seguiste na tua, a meu lado.
E eu na minha, procurando um lado para estar.
Logo encontrei um lado. Era o esquerdo.
Mas nessa altura já estavas tu muito longe.
E foi então que me chamei de pedinchona.
Tu riste-te.
Mas tinha de pedir, só uma última coisa.
Fica, disse.
E tu ficaste.
Agora acho que já te pedi demais. Que te dei de menos.
E peço-te, apesar de não ter mais crédito, que, de uma vez por todas,
Sejas tu agora a pedir.
Pedi-te para vir, para ficar e para ir. Para fazer, para desfazer e refazer.
E tu foste fazendo. Indo e ficando.
Foi então que te disse que fazias demais. Que não fosses tão obediente.
Rebelaste-te e isso aborreceu-me.
E tu desfizeste-o.
Disse que não te queria, que te queria demais. Que já não aguentava e que contigo, de mãos entrelaçadas, poderíamos ser um nós para sempre.
Mas depois neguei-o.
E tu aceitas-me as mentiras, engoliste-as, vomitaste-as, quando necessário.
Falei-te de amor, e os teus olhos brilharam. Em seguida desconversei e fingiste não conhecer o tema.
E nessa altura reclamei. Que não te armasses em homem perfeito que eu não engoliria essa história.
Desarmaste-te.
Seguiste na tua, a meu lado.
E eu na minha, procurando um lado para estar.
Logo encontrei um lado. Era o esquerdo.
Mas nessa altura já estavas tu muito longe.
E foi então que me chamei de pedinchona.
Tu riste-te.
Mas tinha de pedir, só uma última coisa.
Fica, disse.
E tu ficaste.
Agora acho que já te pedi demais. Que te dei de menos.
E peço-te, apesar de não ter mais crédito, que, de uma vez por todas,
Sejas tu agora a pedir.
10 octubre 2008
Aprendiz
Sou aprendiz de tudo e mestre de nada. E ando pela vida procurando.
Vou e venho neste movimento de forças que me faz sempre ir um passo à frente. Queria compreender esta energia que nos faz procurar sempre algo maior, uma meta mais arriscada, um desafio mais melindroso.
E no final, sinto-me uma eterna buscadora e falhadamente encontrada.
Pergunto-me se chegará o momento em que os pés se colarão a uma terra, em que os olhos chorarão de alegria pela mesma paisagem revisitada. Ou talvez esse dia nunca chegue. Talvez eu seja mesmo uma eterna aprendiz em busca de um complemento. E a minha plenitude varie de ofício em ofício. Ou, quem sabe, tudo isto seja apenas uma desculpa poética de alguém que nunca se sentirá suficientemente boa, capaz, apropriada. De alguém que nunca se deixou viver de verdade. Viver o suficiente.
Enquanto as respostas não chegam – será que um dia chegarão? – sigo dedicando-me à minha mestria: ser aprendiz.
Vou e venho neste movimento de forças que me faz sempre ir um passo à frente. Queria compreender esta energia que nos faz procurar sempre algo maior, uma meta mais arriscada, um desafio mais melindroso.
E no final, sinto-me uma eterna buscadora e falhadamente encontrada.
Pergunto-me se chegará o momento em que os pés se colarão a uma terra, em que os olhos chorarão de alegria pela mesma paisagem revisitada. Ou talvez esse dia nunca chegue. Talvez eu seja mesmo uma eterna aprendiz em busca de um complemento. E a minha plenitude varie de ofício em ofício. Ou, quem sabe, tudo isto seja apenas uma desculpa poética de alguém que nunca se sentirá suficientemente boa, capaz, apropriada. De alguém que nunca se deixou viver de verdade. Viver o suficiente.
Enquanto as respostas não chegam – será que um dia chegarão? – sigo dedicando-me à minha mestria: ser aprendiz.
07 octubre 2008
A cor do verniz
Estávamos em momentos de revelações sentados no chão do reggae dos populares. Uma palavra ao ouvido e um toque que faz o mundo dar cambalhotas.
E, de repente, sem aviso prévio ou olhar denunciador, comenta:
- Usas verniz vermelho – ou será que ele disse encarnado?
Na verdade, estava preparada para qualquer comentário, tinha ensaiado, qual exame oral, todas as respostas possíveis. E tinha também pintado as unhas horas antes da festa, claro. Um vermelho sedutor. Nestas alturas há que tentar tudo.
Respondi-lhe um “sim” cor de verniz, e fiz um gesto de pouca importância, sem querer delatar qualquer prévia preocupação sobre o assunto.
Ele não tinha gostado da escolha, conclui.
- Não, não é isso, claro que gosto.
Apesar de tudo, no próximo encontro passei-lhe acetona.
Com o passar do tempo, esses detalhes deixaram de importar. Esquecia-me dos brincos da cabeceira e dizia-lhe que o verniz lascado era para me dar um ar “mais original e desportivo”.
Mas hoje, quando acordei, pensei: vou pinta-las de vermelho.
Como naquele dia.
E, de repente, sem aviso prévio ou olhar denunciador, comenta:
- Usas verniz vermelho – ou será que ele disse encarnado?
Na verdade, estava preparada para qualquer comentário, tinha ensaiado, qual exame oral, todas as respostas possíveis. E tinha também pintado as unhas horas antes da festa, claro. Um vermelho sedutor. Nestas alturas há que tentar tudo.
Respondi-lhe um “sim” cor de verniz, e fiz um gesto de pouca importância, sem querer delatar qualquer prévia preocupação sobre o assunto.
Ele não tinha gostado da escolha, conclui.
- Não, não é isso, claro que gosto.
Apesar de tudo, no próximo encontro passei-lhe acetona.
Com o passar do tempo, esses detalhes deixaram de importar. Esquecia-me dos brincos da cabeceira e dizia-lhe que o verniz lascado era para me dar um ar “mais original e desportivo”.
Mas hoje, quando acordei, pensei: vou pinta-las de vermelho.
Como naquele dia.
05 octubre 2008
! Nos mola mogollón !
Nas ondas borbulhantes os pensamentos voam e vêm ao sabor de assobios salgados. Os cabelos enchem-se de nós em passeios de bicicleta de assento duro.
E foi numa viagem solarenga à beira mar que tomamos esta decisão.
Foi uma conversa que durou horas, quem sabe dias. Discutíamos os pesos da balança, fazíamos listas imaginárias de prós e contras.
Estávamos na cidade de cristal. Não, risca, não lhe atribuamos fragilidades. Sentíamo-nos vidro robusto e reluzente. Encontrávamo-nos longe de casa e, estranhamente, o sol continuava a reflectir as mesmas ondas.
No fundo é tudo uma questão estética. O amarelo é o novo azul, diz-me. É preciso que te modernizes. Explico-lhe que os sentimentos são coisas do passado.
Convence-me. O mundo agora é amarelo, porque desapareceu de mim a sombra cinzenta que me perseguia. Cortemos-lhe o cabelo, demos-lhe um look actual. Quero dizer, um “mood” actual, se é que me entendem.
Isto para concluir que, como está à vista de todos, mudámos de visual. E quando digo nós digo eu e ele. Rendemo-nos ao amarelo.
Para quem está confuso, porque isto do mundo das metáforas é complexo demais, resumo tudo em uma frase:
! Coruña nos mola mogollón ! e agora temos a cara disso. Que não nos olhem mais com cara de reticências.
E foi numa viagem solarenga à beira mar que tomamos esta decisão.
Foi uma conversa que durou horas, quem sabe dias. Discutíamos os pesos da balança, fazíamos listas imaginárias de prós e contras.
Estávamos na cidade de cristal. Não, risca, não lhe atribuamos fragilidades. Sentíamo-nos vidro robusto e reluzente. Encontrávamo-nos longe de casa e, estranhamente, o sol continuava a reflectir as mesmas ondas.
No fundo é tudo uma questão estética. O amarelo é o novo azul, diz-me. É preciso que te modernizes. Explico-lhe que os sentimentos são coisas do passado.
Convence-me. O mundo agora é amarelo, porque desapareceu de mim a sombra cinzenta que me perseguia. Cortemos-lhe o cabelo, demos-lhe um look actual. Quero dizer, um “mood” actual, se é que me entendem.
Isto para concluir que, como está à vista de todos, mudámos de visual. E quando digo nós digo eu e ele. Rendemo-nos ao amarelo.
Para quem está confuso, porque isto do mundo das metáforas é complexo demais, resumo tudo em uma frase:
! Coruña nos mola mogollón ! e agora temos a cara disso. Que não nos olhem mais com cara de reticências.
03 octubre 2008
A expressão maldita dos amantes
O tempo veio e transformou o amanhã num ontem muito distante. Partiu ao meio as fantasias sonhadas com os cabelos salgados. Mas há sempre um momento, aquele momento, que nem o andar do relógio nos faz esquecer.
Ensinámos os lábios, censurámo-lo, explicámos-lhe que não queríamos voltar a errar. Mas o pensamento é um aluno ranhoso, daqueles traquinas de óculos com fita-cola. Lá está ele, na fila da frente, numa insistência torturante:
- Diz, sente, faz, não omitas, diz, explode, corre, berra.
Para sempre é a expressão maldita dos amantes. Foi carimbada de vermelho há muito tempo atrás.
Mas há aquele momento, aquele um momento, em que o menino birrento vence a nossa autoridade rígida.
Aquele momento em que fechamos o cadeado, em que o pensamento pressiona, insiste, implora.
- Para sempre.
O menino limpa o ranho, ajeita os olhos e pergunta:
- Doeu?
Mas desta vez queremos mesmo que seja verdadeiro. Que não voltemos atrás, que não nos cresçam os calos. Fechamos os cadeados na expectativa de que o futuro seja um jardim de flores perfumadas, ou, quem sabe, uma longa conversa sobre o debate presidencial dos Estados Unidos. Está fechado. E engolimos a chave.
Ensinámos os lábios, censurámo-lo, explicámos-lhe que não queríamos voltar a errar. Mas o pensamento é um aluno ranhoso, daqueles traquinas de óculos com fita-cola. Lá está ele, na fila da frente, numa insistência torturante:
- Diz, sente, faz, não omitas, diz, explode, corre, berra.
Para sempre é a expressão maldita dos amantes. Foi carimbada de vermelho há muito tempo atrás.
Mas há aquele momento, aquele um momento, em que o menino birrento vence a nossa autoridade rígida.
Aquele momento em que fechamos o cadeado, em que o pensamento pressiona, insiste, implora.
- Para sempre.
O menino limpa o ranho, ajeita os olhos e pergunta:
- Doeu?
Mas desta vez queremos mesmo que seja verdadeiro. Que não voltemos atrás, que não nos cresçam os calos. Fechamos os cadeados na expectativa de que o futuro seja um jardim de flores perfumadas, ou, quem sabe, uma longa conversa sobre o debate presidencial dos Estados Unidos. Está fechado. E engolimos a chave.
29 septiembre 2008
Pé
Há muitas pessoas que não gostam de pés. Dizem que mete nojo.
Nunca percebi muito bem esse conceito. Eu gosto de pés. Rio-me com as unhas encravadas e os pelos tipo hobbit no dedo grande. Opino sobre a cor do verniz e o anel ao lado do mindinho. É uma existência feliz, essa dos pés.
Há aqueles pés que são mais andantes e os que são mais parados. Um dia disseram-me que os meus dedos dos pés pareciam porquinhos. Isso faz deles andantes?
Pé andante não é um pé que anda, como é obvio. Pé andante é pé que não sabe ficar quieto, que quer sempre ir um passo a frente. Não é pé rápido, é pé com formigas nas plantas que dão cócegas e nos fazem correr. Não há exigências para pés andantes, pode pisar errado e ter andar um quarto para as três, não faz mal. O único requisito é ser inquieto. Pé andante é pé inquieto.
Dos porquinhos passei a ter “ritmo” no pé. Não que isso signifique dançar (neste momento tenho todos os meus amigos/colegas/conhecidos a rirem-se – obvio que não poderia significar que ritmo de dança, quem me conhece saberia). Explicou-me, então.
Pé com ritmo é pé que quer sempre ir mais longe, que quando está parado pensa para onde irá a seguir. Pé com ritmo é pé pensante. Quando o meu pai acaba de comer pergunta: o que vai ser o jantar? Isso é estômago com ritmo, se me faço entender.
E, para quem não percebeu, porque gramática de pé não é das mais simples, isto é um grito de socorro de um pé porquinho andante e com ritmo que procura pé interessante e companheiro que partilhe passeio na praia de pé enterrado na areia. Quem sabe o passeio acabe num entrelaçar de pés. Mas isso, só o futuro dirá. E, sim, pé também tem futuro.
Nunca percebi muito bem esse conceito. Eu gosto de pés. Rio-me com as unhas encravadas e os pelos tipo hobbit no dedo grande. Opino sobre a cor do verniz e o anel ao lado do mindinho. É uma existência feliz, essa dos pés.
Há aqueles pés que são mais andantes e os que são mais parados. Um dia disseram-me que os meus dedos dos pés pareciam porquinhos. Isso faz deles andantes?
Pé andante não é um pé que anda, como é obvio. Pé andante é pé que não sabe ficar quieto, que quer sempre ir um passo a frente. Não é pé rápido, é pé com formigas nas plantas que dão cócegas e nos fazem correr. Não há exigências para pés andantes, pode pisar errado e ter andar um quarto para as três, não faz mal. O único requisito é ser inquieto. Pé andante é pé inquieto.
Dos porquinhos passei a ter “ritmo” no pé. Não que isso signifique dançar (neste momento tenho todos os meus amigos/colegas/conhecidos a rirem-se – obvio que não poderia significar que ritmo de dança, quem me conhece saberia). Explicou-me, então.
Pé com ritmo é pé que quer sempre ir mais longe, que quando está parado pensa para onde irá a seguir. Pé com ritmo é pé pensante. Quando o meu pai acaba de comer pergunta: o que vai ser o jantar? Isso é estômago com ritmo, se me faço entender.
E, para quem não percebeu, porque gramática de pé não é das mais simples, isto é um grito de socorro de um pé porquinho andante e com ritmo que procura pé interessante e companheiro que partilhe passeio na praia de pé enterrado na areia. Quem sabe o passeio acabe num entrelaçar de pés. Mas isso, só o futuro dirá. E, sim, pé também tem futuro.
26 septiembre 2008
Ontem à noite
Estávamos juntos. Eu corria numa vida apressada, de passo acelerado. Tu mergulhavas nos sonhos da ficção em tela grande. A conversa era um entusiasmo histérico de novidades e mundos novos.
Estávamos juntos.
A vida corria separada em tempo record, as experiências faziam-nos diferentes, mais perto daquilo que sempre quisermos ser. A distância era um desafio aliciante, de fuga ao rotineiro e ao velho andar da carruagem.
O guião era bom, os actores nem tanto. Éramos nós a brincar aos filmes de amor no sonho de ontem a noite desta cidade de cristal.
Estávamos juntos.
A vida corria separada em tempo record, as experiências faziam-nos diferentes, mais perto daquilo que sempre quisermos ser. A distância era um desafio aliciante, de fuga ao rotineiro e ao velho andar da carruagem.
O guião era bom, os actores nem tanto. Éramos nós a brincar aos filmes de amor no sonho de ontem a noite desta cidade de cristal.
25 septiembre 2008
Fora dos trilhos
Havia aquela sensação do adquirido, a rotina do mesmo rosto, as conversas do-que-se-fez-hoje. Um beijinho ao acaso e um olhar de admiração. Era a confusão de dias passados na tensão da convivência e do mundo que, estranhamente, agora corria alinhado nos trilhos.
Mas foi um futuro decidido ao acaso que mudou o rumo da história, descarrilou a maquineta, pôs os ponteiros ao contrário. Não que isso resolvesse alguma coisa, não. A sabedoria alheia conta como tudo agora poderia piorar, partir, ter um acidente fatal. No entanto, de volta aos ecrãs digitais e aos pensamentos não partilhados por SMS monossilábicos, sinto-me maior.
E com a autoridade do meu novo estatuto, olho para trás e penso em tudo o que teria feito diferente. Quem não teria?
Mas foi um futuro decidido ao acaso que mudou o rumo da história, descarrilou a maquineta, pôs os ponteiros ao contrário. Não que isso resolvesse alguma coisa, não. A sabedoria alheia conta como tudo agora poderia piorar, partir, ter um acidente fatal. No entanto, de volta aos ecrãs digitais e aos pensamentos não partilhados por SMS monossilábicos, sinto-me maior.
E com a autoridade do meu novo estatuto, olho para trás e penso em tudo o que teria feito diferente. Quem não teria?
23 septiembre 2008
lentamente só
Aqui os dias passam com um andar devagar e preguiçoso. Vou observando as pessoas, imaginando as suas vidas, metendo-me, inconscientemente, nas suas conversas. Acho que esse namorado não te merece, que devias comprar a camisola azul, que os teus pais têm razão nessa parte da história. São desconhecidos de língua estranha, com quem partilho bancos de jardim, mesas de café, cadeiras de cinema. E em cada coscuvilhice uma palavra nova, uma expressão, uma correcta entoação da voz. E assim se vão passando os dias, l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. Como quem não tem pressa em aprender, quem se deixa absorver por uma nova cidade.
Ás vezes sinto falta de um amigo, uma conversa no café, uma companhia para o cinema das oito da noite. Outras vezes não. Vou passeando comigo mesma em horas infinitas de caminhadas ao mar. Vou conversando comigo todas aquelas conversas que ainda não tinha encontrado tempo para ter. Vou lendo o que pensam os outros e moldando o meu pensamento.
E aos poucos vou me conhecendo. O que às vezes é bom. Outras vezes não.
Ás vezes sinto falta de um amigo, uma conversa no café, uma companhia para o cinema das oito da noite. Outras vezes não. Vou passeando comigo mesma em horas infinitas de caminhadas ao mar. Vou conversando comigo todas aquelas conversas que ainda não tinha encontrado tempo para ter. Vou lendo o que pensam os outros e moldando o meu pensamento.
E aos poucos vou me conhecendo. O que às vezes é bom. Outras vezes não.
22 septiembre 2008
Despedida e Peras
Desta vez não houve dramas, nem lágrimas, nem letras de músicas ditas ao acaso. Houve a serenidade de quem sabe aguardar o futuro. Agora aqui estou eu nesta cidade tão estranha e que quero tanto que venha a ser minha. Sinto-me um homenzinho verde a passear por estas ruas de sotaque espanhol, uma menina indefesa que quer a sua mãe, ou quem sabe, só alguém a quem ligar a dizer “hei, dói-me o joelho”.
E não houve lágrimas, nem despedidas. Como se nunca me fosse embora, como se não fosse por muito tempo. Nada de radical iria acontecer. Um beijinho, um olhar para trás.
Não houve jantar formal, noite passada às claras, maquilhagem e presentes. “Se choras dou-te uma pêra”. Por agora apetecia-me ter dramatizado, levado peras e peras de recordações que ficariam marcadas na pele. Por agora queria ter tido consciência do ridículo das discussões e aproveitado esse tempo para declarações debaixo do lençol.
Comer peras debaixo do lençol. É isso que me apetece agora.
E não houve lágrimas, nem despedidas. Como se nunca me fosse embora, como se não fosse por muito tempo. Nada de radical iria acontecer. Um beijinho, um olhar para trás.
Não houve jantar formal, noite passada às claras, maquilhagem e presentes. “Se choras dou-te uma pêra”. Por agora apetecia-me ter dramatizado, levado peras e peras de recordações que ficariam marcadas na pele. Por agora queria ter tido consciência do ridículo das discussões e aproveitado esse tempo para declarações debaixo do lençol.
Comer peras debaixo do lençol. É isso que me apetece agora.
03 septiembre 2008
O homem grisalho
Há um homem cinzento a espreitar os meus dias. Vejo-lhe sempre primeiro os pés.
Acho que devia mandar polir aquelas botas da tropa. São pretas, cano alto, atacador daqueles que é preciso colocar o despertador para cinco minutos mais cedo só para poder calçar os sapatos em condições. Mas ele não faz isso. Tem sempre as botas mal abotoadas. Que desleixe!
Tento voltar ao trabalho e lá está ele, do lado esquerdo do meu campo de visão.
Incomoda-me que salte as casas do atacador. Qualquer dia aquilo sai-lhe dos pés. Quero sempre avisar-lhe. Espremo os olhos e tento, mentalmente, ajeitar-lhe os sapatos. Nada feito.
- Quanto caracteres tenho para a noticia da fusão das agências?
Ele tem uns jeans escuros esbatidos que lhe estão largos na cintura. Engraçado. Ainda não tinha reparado nisso. Acho que têm ficado mais largos a cada dia que passa. Curioso.
Mas se há uma coisa que está sempre impecável é a sua camisa, preta, claro.
- Achas que não me consegues mais espaço? Consegui um exclusivo com o CEO.
Impecável se não contarmos com a caspa que decora os ombros e o terceiro botão a contar de baixo que está meio partido (mas abotoa mesmo assim).
É bonita a sua camisa. Outro dia ocorreu-me que aquele brilho que ela ostenta possa ser sebo e não cetim. Tentei afastar a ideia.
- Talvez se mudares a notícia para a página 16 já dê, não achas?
É claro que os seus cabelos compridos e mal lavados não ajudam à sua caspa constante. Talvez devesse mudar de shampoo, sei lá. Notei que estão a aparecer-lhe uns brancos. Mas eu até gostei, dá-lhe um certo ar de sabedoria grisalha.
Tem estado cansado, ultimamente. Acho que não anda a comer como deve ser.
- Quando é que te vais embora?
- Dia 16.
- O tempo está a acabar.
Parece que já me afeiçoei a ele. Agora nem tenho tido muita vontade de o mandar embora. Talvez eu seja a única a achar isto, mas aquele grisalho fica-lhe mesmo bem. Se pelo menos ele andasse a comer como deve ser...
Acho que devia mandar polir aquelas botas da tropa. São pretas, cano alto, atacador daqueles que é preciso colocar o despertador para cinco minutos mais cedo só para poder calçar os sapatos em condições. Mas ele não faz isso. Tem sempre as botas mal abotoadas. Que desleixe!
Tento voltar ao trabalho e lá está ele, do lado esquerdo do meu campo de visão.
Incomoda-me que salte as casas do atacador. Qualquer dia aquilo sai-lhe dos pés. Quero sempre avisar-lhe. Espremo os olhos e tento, mentalmente, ajeitar-lhe os sapatos. Nada feito.
- Quanto caracteres tenho para a noticia da fusão das agências?
Ele tem uns jeans escuros esbatidos que lhe estão largos na cintura. Engraçado. Ainda não tinha reparado nisso. Acho que têm ficado mais largos a cada dia que passa. Curioso.
Mas se há uma coisa que está sempre impecável é a sua camisa, preta, claro.
- Achas que não me consegues mais espaço? Consegui um exclusivo com o CEO.
Impecável se não contarmos com a caspa que decora os ombros e o terceiro botão a contar de baixo que está meio partido (mas abotoa mesmo assim).
É bonita a sua camisa. Outro dia ocorreu-me que aquele brilho que ela ostenta possa ser sebo e não cetim. Tentei afastar a ideia.
- Talvez se mudares a notícia para a página 16 já dê, não achas?
É claro que os seus cabelos compridos e mal lavados não ajudam à sua caspa constante. Talvez devesse mudar de shampoo, sei lá. Notei que estão a aparecer-lhe uns brancos. Mas eu até gostei, dá-lhe um certo ar de sabedoria grisalha.
Tem estado cansado, ultimamente. Acho que não anda a comer como deve ser.
- Quando é que te vais embora?
- Dia 16.
- O tempo está a acabar.
Parece que já me afeiçoei a ele. Agora nem tenho tido muita vontade de o mandar embora. Talvez eu seja a única a achar isto, mas aquele grisalho fica-lhe mesmo bem. Se pelo menos ele andasse a comer como deve ser...
02 septiembre 2008
Cem euros
Escrevi as palavras no google, meio a medo, porque só o acto de soletra-las torna tudo mais oficial. Carreguei um enter tremido.
Lá no fundo rezei para que não aparecesse nada, que fosse mais uma pesquisa mal feita. Assim desistiria logo dessa ideia maluca. Nós? Claro que não! Que ideia mais sem sentido!
Mas a internet é um mundo de segundos e apareceu logo ali, no primeiro link, a resposta para a minha pergunta internauta.
Cem. Cem euros são dois dias de interrail, quatro noites num bom hostel, um mês de comida no supermercado. É quanto custa uma semana de curso intensivo de espanhol, é metade do aluguer da casa. Cem euros compram um bom par de calças, umas botas de couro e uns tenis all-star, ultimo grito da moda. Fiquei sem saber se era muito ou pouco.
Mas o acto de pesquisa estava feito. Um primeiro passo tinha sido dado e o futuro espreitava-nos com olhos de criança em véspera de Natal.
Calma, o Pai Natal (ou seriam os Reis Magos?) já está quase a chegar.
Lá no fundo rezei para que não aparecesse nada, que fosse mais uma pesquisa mal feita. Assim desistiria logo dessa ideia maluca. Nós? Claro que não! Que ideia mais sem sentido!
Mas a internet é um mundo de segundos e apareceu logo ali, no primeiro link, a resposta para a minha pergunta internauta.
Cem. Cem euros são dois dias de interrail, quatro noites num bom hostel, um mês de comida no supermercado. É quanto custa uma semana de curso intensivo de espanhol, é metade do aluguer da casa. Cem euros compram um bom par de calças, umas botas de couro e uns tenis all-star, ultimo grito da moda. Fiquei sem saber se era muito ou pouco.
Mas o acto de pesquisa estava feito. Um primeiro passo tinha sido dado e o futuro espreitava-nos com olhos de criança em véspera de Natal.
Calma, o Pai Natal (ou seriam os Reis Magos?) já está quase a chegar.
31 agosto 2008
Suores frios
Há um suor frio nos meus pés que me faz fechar os olhos. E nas celulóides de momentos futuros vejo-me longe. Queria entender por que a felicidade está sempre tão distante, vemo-la naquele país para onde queremos ir, no trabalho que sonhamos ter (e nunca conseguimos). Nunca aqui, na algibeira dos jeans desgastados. Queria perceber porquê.
Dizem que é bom. Isso de nunca estar satisfeito. Bem, é o que dizem.
Mas aquele calafrio no pé dá-me dores de barriga. Há remédios para essa dor. Não pode ser uma coisa boa.
É a constante incerteza do destino, um ímpeto irresistível de se atirar daquela varanda do sétimo andar. Uma atracção pelo desconhecido e uma promessa de felicidade.
Passo todos os dias por lá. Penso da minha queda. Faço os prós e os contras e volto para casa.
A varanda continua ali, com o seu charme atraente e intelectual, a sua postura certa e independente. Falta só dar o passo.
Mas os suores dão-me dores de barriga. Por enquanto, vou tomando remédios.
Dizem que é bom. Isso de nunca estar satisfeito. Bem, é o que dizem.
Mas aquele calafrio no pé dá-me dores de barriga. Há remédios para essa dor. Não pode ser uma coisa boa.
É a constante incerteza do destino, um ímpeto irresistível de se atirar daquela varanda do sétimo andar. Uma atracção pelo desconhecido e uma promessa de felicidade.
Passo todos os dias por lá. Penso da minha queda. Faço os prós e os contras e volto para casa.
A varanda continua ali, com o seu charme atraente e intelectual, a sua postura certa e independente. Falta só dar o passo.
Mas os suores dão-me dores de barriga. Por enquanto, vou tomando remédios.
30 agosto 2008
Lar doce Lar
Dizem que não se volta a um lugar onde já se foi feliz. Eu também dizia isso.
Mas se houve uma coisa que aprendi nestes últimos tempos é que o português é uma língua difícil, já que para cada regra há uma excepção.
Deliciei-me durante um mês a aprende-las.
E em cada lugar passado, em qualquer monumento de fotografia antiga, em toda a história recordada pela fachada de uma loja vulgar, descobri uma diferente história e uma recordação que os novos acontecimentos não irão esbater.
É a sétima língua mais difícil do mundo, o português.
Não se pode tentar encontrar plenitude nos moldes antigos, na segurança de modelos de sucesso. Mas a excepção que dita a regra diz: volte e reinvente a fórmula.
Eu sabia que voltaria a este lugar.
É bom regressar a casa.
Mas se houve uma coisa que aprendi nestes últimos tempos é que o português é uma língua difícil, já que para cada regra há uma excepção.
Deliciei-me durante um mês a aprende-las.
E em cada lugar passado, em qualquer monumento de fotografia antiga, em toda a história recordada pela fachada de uma loja vulgar, descobri uma diferente história e uma recordação que os novos acontecimentos não irão esbater.
É a sétima língua mais difícil do mundo, o português.
Não se pode tentar encontrar plenitude nos moldes antigos, na segurança de modelos de sucesso. Mas a excepção que dita a regra diz: volte e reinvente a fórmula.
Eu sabia que voltaria a este lugar.
É bom regressar a casa.
16 abril 2008
Margem de Erro
Rodeada de papeis, computadores e citações, o mundo mudou. Já não há histórias e experiências transcendentes. Há o dia-a-dia. Umas vezes mais cinzento, outras mais inspirador. Mas não o suficiente.
Prometo desta vez tentar poupar-vos de metáforas surrealistas.
Pois é, mudei de blog.
Quem sabe temporariamene. Até os entreactos voltarem.
Por enquanto, podem ler-me em www.margemdeerro.blogspot.com
Desta vez, um blog sem mateáforas =)
Prometo desta vez tentar poupar-vos de metáforas surrealistas.
Pois é, mudei de blog.
Quem sabe temporariamene. Até os entreactos voltarem.
Por enquanto, podem ler-me em www.margemdeerro.blogspot.com
Desta vez, um blog sem mateáforas =)
24 marzo 2008
Sr. Carlos
De volta ao pacato mundo cinzento. De volta ao negro véu que envolve as horas silenciosas.
Os dias passam-se como fotografia emoldurada. A sombra escurece o retrato. Sempre o mesmo retrato. Sempre.
E enquanto os minutos espreguiçam e as migalhas de bolacha água e sal se espalham, as recordações voam em imagens de ressacas passadas.
Uma bomba de gasolina e uma noite fria. Um beijo gelado em rua íngreme. Gritos de insinuações prometidas que soam desafinados a bigodes desconhecidos.
Há sempre um senhor Carlos na nossa vida. Aquele bigode e o dizer amigável. Que venha mais uma rodada. E outra. E outra. E ele vai ajeitando a comida no prato. Mais pão. Sinto-me tonta.
A mesa pinga alegria derramada, range a dor de barriga de gargalhadas cúmplices.
Já não precisamos de jogos, porque agora as danças iniciam-se de costas e terminam com um turbilhão de risadas. Com um grito de reprovação, um olhar de desprezo censurado.
E sem saber como, ou onde começou, quem teve a ideia ou quem deveria ficar com os louros, sentimos que afinal é bom voltar para casa.
Mas para isso, é preciso antes partir.
Os dias passam-se como fotografia emoldurada. A sombra escurece o retrato. Sempre o mesmo retrato. Sempre.
E enquanto os minutos espreguiçam e as migalhas de bolacha água e sal se espalham, as recordações voam em imagens de ressacas passadas.
Uma bomba de gasolina e uma noite fria. Um beijo gelado em rua íngreme. Gritos de insinuações prometidas que soam desafinados a bigodes desconhecidos.
Há sempre um senhor Carlos na nossa vida. Aquele bigode e o dizer amigável. Que venha mais uma rodada. E outra. E outra. E ele vai ajeitando a comida no prato. Mais pão. Sinto-me tonta.
A mesa pinga alegria derramada, range a dor de barriga de gargalhadas cúmplices.
Já não precisamos de jogos, porque agora as danças iniciam-se de costas e terminam com um turbilhão de risadas. Com um grito de reprovação, um olhar de desprezo censurado.
E sem saber como, ou onde começou, quem teve a ideia ou quem deveria ficar com os louros, sentimos que afinal é bom voltar para casa.
Mas para isso, é preciso antes partir.
19 marzo 2008
O nosso prêmio Nobel
Dizem que ele vai receber o prêmio Nobel, que é um geniozinho, um intelectual reprimido, o futuro ministro da saúde.
Isso é para os outros. Para mim ele é o companheiro de viagens intermináveis de ônibus, de almoços no PF da esquina, de queijo coalho assado na brasa.
É desligado, atrapalhado, desengonçado. É aquela pessoa com quem podemos ficar durante três horas conversando sobre nada e no final concluir que tivemos uma conversa instrutiva.
Ele é o cara te que liga e diz “vamos no cinema?”, “quando?” pergunto eu, já com a agenda na mão “Agora, vou ai te pegar”.
E depois disso, se segue uma noite de conversa fiada, cinema e um barzinho qualquer. E no dia seguinte o celular toca: “Pô Má, são 9 da manhã e você ainda não acordou?”
Acho que é isso que faz dele o irmão promissor e de mim a “filha adotada”.
Isso é para os outros. Para mim ele é o companheiro de viagens intermináveis de ônibus, de almoços no PF da esquina, de queijo coalho assado na brasa.
É desligado, atrapalhado, desengonçado. É aquela pessoa com quem podemos ficar durante três horas conversando sobre nada e no final concluir que tivemos uma conversa instrutiva.
Ele é o cara te que liga e diz “vamos no cinema?”, “quando?” pergunto eu, já com a agenda na mão “Agora, vou ai te pegar”.
E depois disso, se segue uma noite de conversa fiada, cinema e um barzinho qualquer. E no dia seguinte o celular toca: “Pô Má, são 9 da manhã e você ainda não acordou?”
Acho que é isso que faz dele o irmão promissor e de mim a “filha adotada”.
18 marzo 2008
Este mundo tão pequenino
Vivo num labirinto claustrofóbico de tectos altos e janelas compridas.
Sou anã em busca de um pé de feijão, de uma janela de onde possa laçar as minhas tranças.
Dizem-me para usar saltos, plataformas, riscas verticais. Nada funciona. Existem também aqueles tratamentos que se fazem às crianças. Mas já passei dessa idade. É pena.
Outro dia lembrei-me que talvez, se eu comesse uma dose cavalar de fermento e me enfiasse no forno, podia ser que aumentasse.
O Joãzinho e a Mariazinha só cresceram para os lados. Mas cresceram. É isso que importa. Alguém conhece uma casa de doces com uma bruxa avarenta?
Sinto-me formiga à volta do açúcar, melga a sugar o sangue doce. Preciso crescer.
Extravasar o mundo, bater com a cabeça no tecto, andar corcunda de tanto olhar para baixo.
Logo eu que sempre fui a mais alta da turma.
Sou anã em busca de um pé de feijão, de uma janela de onde possa laçar as minhas tranças.
Dizem-me para usar saltos, plataformas, riscas verticais. Nada funciona. Existem também aqueles tratamentos que se fazem às crianças. Mas já passei dessa idade. É pena.
Outro dia lembrei-me que talvez, se eu comesse uma dose cavalar de fermento e me enfiasse no forno, podia ser que aumentasse.
O Joãzinho e a Mariazinha só cresceram para os lados. Mas cresceram. É isso que importa. Alguém conhece uma casa de doces com uma bruxa avarenta?
Sinto-me formiga à volta do açúcar, melga a sugar o sangue doce. Preciso crescer.
Extravasar o mundo, bater com a cabeça no tecto, andar corcunda de tanto olhar para baixo.
Logo eu que sempre fui a mais alta da turma.
14 marzo 2008
ressequida
Há caminhos de terra que me percorrem o rosto. As estradas tornam-se mais fundas, os olhos mais chatos, a cabeça se inclina em um desistir pendurado.
Sou folha seca em árvore perene. Resisto.
Quero ir mais longe e superar o que está escrito. Insisto.
A minha vida é um soluçar de bons momentos. É um dicionário de dúvidas, de uma felicidade roubada nas crises de adolescência. Porque nada é bom demais. Bom o suficiente.
Os soluços sufocam-me o ar. Rodopio de tontura em busca de uma linha exacta que há tanto tempo perdi. Sou da estabilidade, do compasso de círculos perfeitos.
Agora vivo aos gemidos. Sou CD com partículas de poeira. Limpa-a que voltará a sinfonia harmónica. As melhores músicas são as que se aproximam da ópera.
O rosto seca com a terra dos anos. Sou diva ressequida dos meses passados em dias de horas lentas e preocupadas. De sono fugido, de ânsias engolidas.
Repudiam-me as felicidades gratuitas, as vidas fáceis de botas lambidas. Quero vomitar os que não resistem, os que não se impõem, os que se deixam beijar as mãos.
Precoce. Prematura. Sim, vou morrer aos quarenta.
Mas antes disso, preciso de um lifting.
Sou folha seca em árvore perene. Resisto.
Quero ir mais longe e superar o que está escrito. Insisto.
A minha vida é um soluçar de bons momentos. É um dicionário de dúvidas, de uma felicidade roubada nas crises de adolescência. Porque nada é bom demais. Bom o suficiente.
Os soluços sufocam-me o ar. Rodopio de tontura em busca de uma linha exacta que há tanto tempo perdi. Sou da estabilidade, do compasso de círculos perfeitos.
Agora vivo aos gemidos. Sou CD com partículas de poeira. Limpa-a que voltará a sinfonia harmónica. As melhores músicas são as que se aproximam da ópera.
O rosto seca com a terra dos anos. Sou diva ressequida dos meses passados em dias de horas lentas e preocupadas. De sono fugido, de ânsias engolidas.
Repudiam-me as felicidades gratuitas, as vidas fáceis de botas lambidas. Quero vomitar os que não resistem, os que não se impõem, os que se deixam beijar as mãos.
Precoce. Prematura. Sim, vou morrer aos quarenta.
Mas antes disso, preciso de um lifting.
10 marzo 2008
Aih, o mundo fantástico
Um carro, uma caneta e uma guitarra. Daquelas portáteis, com desenhos camuflados e fios soltos. Éramos mais rápidos que o mundo. Fazíamo-lo correr, apressar-se nas estradas perdidas, no almoço a horas tardias e no supermercado de uvas sem grainha. Mas o mundo é preguiçoso, não gosta de esforço. Castigou-nos com tomates assassinos.
Daqueles que fazem as tomadas parecerem portas de impressão visual e o tambor um fiel amigo do bambi.
Vieram os diários de letras macarrónicas e conteúdo ilegível, a sirene dos bombeiros e as panelas sujas. O tomate acabou esmagado num molho de natas com mostarda e limão. Pouco apetitoso.
Mas o mundo é forte e poderoso e não se fica pelas leguminosas. Conhece a sociedade em Rede, já diria o mestre de CC. Manda então mensagens que nos fazem rir de pânico, passar manhãs acordadas num respirar profundo de pesadelos adormecidos. O telefone toca. One missed call. Vem o rebuçado vermelho e a música fúnebre.
Vamos morrer. Ninguém aguenta tantas horas de frio e tortura. De inchaços e ligaduras. De promessas impossíveis e pensamentos irrealizáveis.
E foi então que o mundo percebeu. Estávamos presos ao nosso corpo. Este era o pior castigo.
Começou a matar japoneses de três em três minutos.
Mas essa parte eu já não vi. As legendas eram em inglês. O relógio marcava 3 a.m. Não é apenas o mundo que é preguiçoso.
Daqueles que fazem as tomadas parecerem portas de impressão visual e o tambor um fiel amigo do bambi.
Vieram os diários de letras macarrónicas e conteúdo ilegível, a sirene dos bombeiros e as panelas sujas. O tomate acabou esmagado num molho de natas com mostarda e limão. Pouco apetitoso.
Mas o mundo é forte e poderoso e não se fica pelas leguminosas. Conhece a sociedade em Rede, já diria o mestre de CC. Manda então mensagens que nos fazem rir de pânico, passar manhãs acordadas num respirar profundo de pesadelos adormecidos. O telefone toca. One missed call. Vem o rebuçado vermelho e a música fúnebre.
Vamos morrer. Ninguém aguenta tantas horas de frio e tortura. De inchaços e ligaduras. De promessas impossíveis e pensamentos irrealizáveis.
E foi então que o mundo percebeu. Estávamos presos ao nosso corpo. Este era o pior castigo.
Começou a matar japoneses de três em três minutos.
Mas essa parte eu já não vi. As legendas eram em inglês. O relógio marcava 3 a.m. Não é apenas o mundo que é preguiçoso.
05 marzo 2008
Demais
Não te vás embora.
Que mania de abandonar as pessoas. Fugir como se de nada se tratasse.
Sabes qual é o teu problema? Irritas-me. Criança.
Chegas como se nada fosse. Bates à minha porta, olhas-me com sorriso de gelados e castelos. Invades a rotina com o “prim-pim” do telemóvel e o café a meio da tarde. E se vou à farmácia, lá estás tu. E se vou almoçar, tu mais uma vez. Larga-me. Deixa-me viver à minha maneira.
Não faças isto assim, vai por aquele caminho, porque é que ainda fizeste aquilo? Não te esqueças do remédio. Obvio que ainda não lavaste o carro. Desaparece.
Cala-te uma vez na vida! Agora quem fala sou eu.
Não gosto que te vás embora. Não és a rainha do universo.
Que mania de lapidar o destino.
Egoísta.
E nem pensaste em mim. Eu sei que não pensaste.
E eu? Vou ficar aqui. Onde não há mails porque nada se passa, onde não há diversão porque já nem gosto deles tanto assim.
Culpa tua.
Levaste-me para dentro do teu mundinho perfeito. De diversão sem álcool, de risadas sem sexo, de cafés, lanches e idas à praia sem surf.
E agora que já me estava a habituar. Já sabia os nomes, os sítios e as historias. Agora que eles até me achavam piada.
Agora vais embora. E o pior. Finges que não vais. Fazes planos para Abril, Maio, Junho. Fazes planos para Dezembro e para 2010.
Cínica. Falsa.
E tudo isto, para dizer que tenho um problema.
É que gosto de ti. Demais.
Que mania de abandonar as pessoas. Fugir como se de nada se tratasse.
Sabes qual é o teu problema? Irritas-me. Criança.
Chegas como se nada fosse. Bates à minha porta, olhas-me com sorriso de gelados e castelos. Invades a rotina com o “prim-pim” do telemóvel e o café a meio da tarde. E se vou à farmácia, lá estás tu. E se vou almoçar, tu mais uma vez. Larga-me. Deixa-me viver à minha maneira.
Não faças isto assim, vai por aquele caminho, porque é que ainda fizeste aquilo? Não te esqueças do remédio. Obvio que ainda não lavaste o carro. Desaparece.
Cala-te uma vez na vida! Agora quem fala sou eu.
Não gosto que te vás embora. Não és a rainha do universo.
Que mania de lapidar o destino.
Egoísta.
E nem pensaste em mim. Eu sei que não pensaste.
E eu? Vou ficar aqui. Onde não há mails porque nada se passa, onde não há diversão porque já nem gosto deles tanto assim.
Culpa tua.
Levaste-me para dentro do teu mundinho perfeito. De diversão sem álcool, de risadas sem sexo, de cafés, lanches e idas à praia sem surf.
E agora que já me estava a habituar. Já sabia os nomes, os sítios e as historias. Agora que eles até me achavam piada.
Agora vais embora. E o pior. Finges que não vais. Fazes planos para Abril, Maio, Junho. Fazes planos para Dezembro e para 2010.
Cínica. Falsa.
E tudo isto, para dizer que tenho um problema.
É que gosto de ti. Demais.
"fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga."
José Luis Peixoto
José Luis Peixoto
03 marzo 2008
Mormon no elevador
As palavras fogem-me. Efémeras.
Falo, qual rádio de informação inútil. Conto e rio das minhas aventuras de nada. Falo e não paro até a garganta secar, porque existe ainda tanto por dizer. Quero contar que acordei despenteada e tenho uma borbulha nova no rosto, que vesti os ténis vermelhos porque os castanhos me faziam bolhas nos pés. Quero contar tudo, para que não se perca nada.
Quero contar o olhar apertado de covinhas, aquele sussurro inesperado ao ouvido. Quero conseguir descrever na perfeição o abraço que encaixa e o silêncio de sorrisos rasgados. Mas eu sou escudo. Escudo de traumas pisados e Internet com dor de barriga. A plenitude nega-se a cada momento. Sou mormon dentro do elevador.
E o pensamento arrasta-se para futuros longínquos onde o nós é um espatifado de eus e tus. Seguem-se as frases sem sentido, as dúvidas existenciais de quem esperou demais.
Esperou mais do que era humanamente possível. Ansiou uma afinação heróica, uma orquestra que se regia sem maestro. E agora a espera culmina num amontoado de sentimentos imperfeitos, com o nariz grande e o couro cabeludo que descama. Há o amigo que telefonou e o jantar de hoje à noite.
E existimos nós, e os hematomas dos beliscões.
Já não são precisos. Isto é mais do que real.
Falo, qual rádio de informação inútil. Conto e rio das minhas aventuras de nada. Falo e não paro até a garganta secar, porque existe ainda tanto por dizer. Quero contar que acordei despenteada e tenho uma borbulha nova no rosto, que vesti os ténis vermelhos porque os castanhos me faziam bolhas nos pés. Quero contar tudo, para que não se perca nada.
Quero contar o olhar apertado de covinhas, aquele sussurro inesperado ao ouvido. Quero conseguir descrever na perfeição o abraço que encaixa e o silêncio de sorrisos rasgados. Mas eu sou escudo. Escudo de traumas pisados e Internet com dor de barriga. A plenitude nega-se a cada momento. Sou mormon dentro do elevador.
E o pensamento arrasta-se para futuros longínquos onde o nós é um espatifado de eus e tus. Seguem-se as frases sem sentido, as dúvidas existenciais de quem esperou demais.
Esperou mais do que era humanamente possível. Ansiou uma afinação heróica, uma orquestra que se regia sem maestro. E agora a espera culmina num amontoado de sentimentos imperfeitos, com o nariz grande e o couro cabeludo que descama. Há o amigo que telefonou e o jantar de hoje à noite.
E existimos nós, e os hematomas dos beliscões.
Já não são precisos. Isto é mais do que real.
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